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Feliz dia dos namorados

Ela pressionava com muita força os dentes, sua gengivas doíam e roxeavam, mas ela parecia não sentir.
Vestida com o casaco Clube da leitura 97 da sua mãe ela parecia uma criança, deitada no sofá e com os cabelos fora de ordem, olhando fixamente o show do Slipknot na sua tv, a maquiagem borrada e as lágrimas geladas descendo perpendicularmente pelas suas bonitas bochechas.
Seu rosto, convulsionado em fúria, a dor de cabeça latejando em suas têmporas, e tudo que ela conseguia pensar era na droga do dia dos namorados, em nada específico, só nesse nome.

Ela não tinha nem um problema de saúde, não era burra, e era linda. Mas por algum motivo desconhecido até o momento ela nunca buscara alguém, chegou a pensar diversas vezes que não gostava de meninos, mas era mentira, ela sabia, diversas vezes teve atração por amigos seus, eles sempre se aproximavam dela, mas, ela não sabia, malditamente não sabia porque ela se afastava, recusava e chegava a ter medo.
15 dias dos namorados tinham passado e ela nunca se lembrava, e quando se lembrava tirava sarro e ria. Nunca ficava triste por isso, nem o fato de ser no mesmo dia de seu aniversário a deixava irritada.
Nesse 16° estava fazendo algum efeito.
Todos conhecemos aquela sensação de sangramento interno no coração, mas nunca vamos entender o que aconteceu com o dela, se ele realmente estava ou não sangrando.
Sozinha em casa, desesperada e agonizando, entre gemidos e gritos de raiva, pensava em todas as tentativas de suas amigas de fazer ela ficar com alguém, todas ela recusava de maneira cômica, e nunca, nunca ficara mal por isso. Aparentemente todos esses anos de negligência abriram um buraco grande demais pra ser ignorado em seus sentimentos, tudo veio a tona hoje, apocalipse.
Nada nada nada nada absolutamente nada houvera ocorrido para ela cair dentro de tamanho fosso  emocional, simplesmente estava ali, agora, se olhando no espelho e passando uma toalha no rosto, limpando a maquiagem suja e chorando descontroladamente, tudo o que ela nunca chorara nesses 16 anos.
Sozinha ali, sozinha em casa, sozinha na vida.

Alguém? Socorro?

Passou pelos corredores em andar desabalado e com os sentimentos guiando-a, inédito.
Jogou tudo o que achou nas paredes, quebrou vidros e se cortou, Corey Taylor gritava algum refrão conhecido quando ela abriu a gaveta de facas e gritou junto com ele indo na direção da varanda.

Ela ignorou por todo esse tempo a falta de algo, ela sabia, ia doendo bem devagar, mas ia doendo, ela ia jogando pra debaixo do tapete, ela era foda, não precisava de nem um merda pra agarrar ela, profanar sua majestade.
Que majestade? Que brilho? Que foda?
Ela só conseguia ver fracasso agora, esqueceu de todos os seus prodígios e por culpa de ninguém, por culpa de nada, só conseguia ver seus erros e suas falhas, sua negligência sentimental e sua total falta de amor. O ódio tinha um gosto tão bom, ela nunca se dera ao trabalho de sentir amor, se a arrogância e o orgulho tinham um gosto tão bom, o amor devia ser tão sem açúcar, tão brocha perto deles...

Atingiu a varanda, quebrou a porta de vidro com a sola do pé, que sangrou como uma mocinha menstruada. De onde ela tinha tirado essa força, onde ela tinha escondido
o que
Passa rasgando o casaco nos cacos e olha a tela que separa sua varanda dos céus e olha lá pra baixo...
merda
Rasga a tela com a ferocidade de um leão e joga a faca de lado, arranca a tela solta e joga pra dentro de casa
(e as lágrimas não param)
grita até machucar a garganta e pula do 12° andar para a liberdade

Fonte: Fornit Some Fornus