03/06/2012

Sr. Bocalarga


Durante minha infância minha família era como uma gota d'água em um vasto rio, nunca permanecia no mesmo local por muito tempo. Nós nos estabelecemos em Rhode Island quando eu tinha oito anos, e lá ficamos até eu ir para uma faculdade em Colorado Springs. Maioria das minhas memórias estão enraizadas em Rhode Island, mas há fragmentos no fundo do meu cérebro que pertence a varias casas que vivemos quando eu era muito mais novo.

Maioria destas memórias são sem sentido e não são claras - perseguindo um outro garoto em um quintal em uma casa na Carolina do Norte, tentando construir uma jangada para flutuar no lago atrás do apartamento que alugamos na Pensilvânia, e por aí vai.  Mas tem esse set de memórias que eu lembro claro como a água, como se tivesse acontecido ontem. Eu constantemente ficou divagando se essas memórias não foram apenas sonhos lúcidos produzidos por uma um longa gripe que eu tive naquela primavera, mas no fundo do meu peito, eu sei que elas são reias.

Nós estávamos vivendo em um casa nos arredores da metrópole de New Vineyard, Maine, população 643. Era uma estrutura larga, especialmente para uma família de três pessoas. Havia alguns quartos que eu nem sequer tinha entrado ainda nos cinco meses que morávamos lá. De certa forma era desperdício de espaço, mas era a única casa disponível no mercado naquela época, pelo menos era a uma hora de distancia do trabalho de meu pai.

No dia depois do meu quinto aniversário (com a presença só de meus pais), eu fiquei com febre. O médico disse que eu tinha mononucleose, o que significava na de brincadeiras pesadas e mais febre por pelo menos três semanas. Foi uma época horrível para ficar de cama - estávamos em processo de empacotamento de nossas coisas para nos mudar para Pensilvânia, e a maioria das minhas coisas já estavam empacotadas em caixas, deixando meu quarto vazio e desconfortável. Minha mãe me trazia Ginger Ale (N.T: Refrigerante local) e livros várias vezes por dia, e essas coisas tiveram a função de ser minha forma de entretenimento pelas próximas semanas. O tédio vinha toda vez me atormentar, esperando os momentos certos para me atingir e só piorar minha miséria.


Eu não me lembro exatamente como eu conheci Sr. Bocalarga. Eu acho que foi tipo uma semana depois de eu ter sido diagnosticado com mono. Minha primeira memória da pequena criatura foi perguntar para ele se ele tinha um nome. Ele me disse para chamá-lo de Mr. Bocalarga, porque sua boca era larga. De fato, tudo nele era largo em comparação ao corpo dele - a cabeça dele, olhos, orelhas pontudas - mas sua boca era de longe a mais larga.
"Você parece um Furby," Eu disse enquanto ele folhava um dos meus livros.

Sr. Bocalarga me deu um olhar curioso. "Furby? O que é um Furby?" ele perguntou.

Eu encolhi os ombros. "Você sabe... o brinquedo. O pequeno robô com grandes orelhas. Você pode criá-lo e dar comida como um bichinho de estimação de verdade."

"Ah." Sr. Bocalarga resmungou. "Você não precisa de uma desses. Eles não são a mesma coisa que ter amigos de verdade."

Eu lembro de Sr. Bocalarga desparecendo todas as vezes que minha mãe vinha das uma olhada em um. "Eu me escondi debaixo de sua cama," ele explicou posteriormente. "Eu não quero que seus pais me vejam porque estou com medo que eles não deixem brincar juntos de novo."

Não fizemos muitas coisas nestes primeiros dias. Sr Bocalarga apenas olhava meus livros, fascinado pelas histórias e figuras que eles continham. Na terceira ou quarta manhã depois de conhecê-lo, ele me saudou com um largo sorriso no rosto. "Eu tenho um novo jogo que podemos jogar," ele disse. "Temos que esperar até depois que sua mãe vier te ver, porque ela não pode nos ver jogar. É um jogo secreto."

Depois que minha mãe me entregou mais livros e refrigerante, Sr. Bocalarga pulou de debaixo da cama e puxou minha mão. "Nós temos que ir no quarto no final do corredor," ele disse. Eu protestei de inicio, pois meus pais tinham me proibido de sair da cama sem a permissão deles, mas Sr. Bocalarga persistiu até eu ceder.

O quarto em questão não tinha móveis ou papel de parede. Seu único traço característico era a janela em frente a porta. Sr. Bocalarga disparou pelo quarto e abriu a janela com um puxão firme. Então ele me chamou para olhar o chão lá para baixo.

Nós estávamos no segundo andar da casa, mas era sobre uma colina, e por esse ângulo a queda foi mais longa do que o esperado devido a inclinação. "Eu de brincar de fingir aqui em cima," Mr. Bocalarga explicou. "Eu finjo que tem um grande e fofo trampolim embaixo da janela. Se você fingir bem forte você quica de volta para cima bem alto. Eu quero que você tente."

Eu era um menino de cinco anos de idade e febril, então apenas um pouquinho de ceticismo passou pela minha mente enquanto eu olhava para baixo e considerava a possibilidade. "É uma queda longa". Eu disse.

"Mas isso é tudo parte da diversão. Não seria divertido se fosse uma queda curtinha. Se fosse assim você podia muito bem apenas pular de um trampolim normal."

Eu brincava com a ideia na minha cabeça, imaginando-me cair através do vento frio para então quicar em algo invisível aos olhos nus de volta no ar e voltar para a janela. Mas o realismo prevaleceu em mim. "Talvez outra hora," eu disse. " Eu não sei se tenho imaginação suficiente. Eu poderia me machucar."

O rosto de Sr. Bocalarga se contorceu em um rugido, mas apenas por uns segundos. A raiva sumiu para logo o desapontamento. "Se você diz..." ele disse. Ele passou o resto do dia debaixo da minha cama, quieto feito um ratinho.

Na manhã seguinte Sr. Bocalarga chegou segurando uma pequena caixa. "Eu quero te ensinar malabarismo," ele disse. "Aqui tem algumas coisas que você pode usar para praticar, antes de eu começar a te dar lições."

Eu olhei a caixa. Estava cheia de facas. "Meus pais vão me matar" Eu gritei, horrorizado que Sr. Bocalarga tinha trazido facas para meu quarto - objetos que meus pais nunca me permitiram tocar. "Eles vão me bater e me deixar de castigo por um ano!"

Sr. Bocalarga franziu a testa. "É divertido fazer malabarismo com isso.  Eu quero tentar."

Eu empurrei a caixa para longe. "Não posso. Vou me meter em encrenca. Facas não são seguras para serem jogadas no ar."
O franzir de testa de Sr. Bocalarga se transformou em uma carranca. Ele pegou a caixa de facas e foi para debaixo da cama, e permaneceu lá o resto do dia. Eu comecei a pensar o quão frequente ele ficava abaixo de mim.

Eu comecei a ter problemas para dormir depois disso. Sr. Bocalarga me acordava com frequência a noite, dizendo que tinha colocado um trampolim de verdade debaixo da janela, um bem grande, que eu não conseguiria ver porque estava escuro. Eu sempre negava e tentava voltar a dormir, mas Sr. Bocalarga era persistente. Algumas vezes ele ficava ao meu lado até cedinho da manhã, encorajando-me a pular.

Ele não era mais tão lega para brincar.

Minha mãe entrou no quarto uma manhã e disse que eu tinha permissão para dar uma volta lá fora. Ela pensou que um pouco de ar fresco seria bom para mim, especialmente depois de ficar confinado no meu quarto por tanto tempo. Entusiasmado, ponho meus tênis e disparo para a porta dos fundos, gritando de alegria por sentir de novo o sol no meu rosto.

Sr. Bocalarga estava esperando por mim. "Eu tenho algo que quero que veja," ele disse. Eu devo ter olhado estranho para ele, pois em seguida ele disse, "É seguro, prometo."

Eu segui ele até o começo de uma trilha estreita que adentra a floresta atrás da casa. "Esse é um caminho importante," ele explicou. "Eu tenho muitos amigos da sua idade. Quando eles estão prontos, eu os levo adentro dessa trilha, para um lugar especial. Você não está pronto ainda, mas um dia, eu espero que esteja."

Eu voltei para casa, me perguntando que tipo de lugar poderia estar adentro da trilha.
Duas semanas depois de conhecer Sr. Bocalarga, a última demanda das nossas coisas estavam sendo colocadas em um caminhão de mudança. Eu estaria dentro da cabine daquele caminhão, sentado perto de meu pai pela longa viagem para a Pensilvânia. Eu considerei falar para o Sr. Bocalarga que eu estava indo embora, mas mesmo aos cinco anos de idade, eu estava começando a suspeitar que talvez a criatura tinha intenções não muito boas, considerando as coisas que ele tinha dito anteriormente. Por essa razão, eu decidi manter a partida em segredo.

Meu pai e eu estávamos no caminhão as 4 da manhã. Ele esperava chegar na Pensilvânia pela hora do almoço de amanhã, com a ajuda de um carga infinita de café e seis pacotes de bebidas energéticas. Ele parecia mais com um homem que ia correr uma maratona do que iria passar o dia todo sentado em um carro.

"Cedo suficiente para você?” ele perguntou.

Eu acenei e encostei minha cabeça contra o vidro, esperando dormir por algumas horas antes do sol nascer. Eu senti a mão de meu pai no meu ombro. "Essa é a última mudança, filho. Eu prometo. Eu que tem sido difícil para você, por ter estado tão doente. Assim que papai for promovido nó podemos sossegar e você pode fazer amigos."

Eu abri meus olhos assim que o carro começou a se mover. Eu vi a silhueta de Sr. Bocalarga na janela do meu quarto. Ele permaneceu de pé sem emoção nenhuma no rosto até que o caminhão pegasse a estrada principal. Ele acenou com a mãozinha pequena, com uma faca na mão. Não acenei de volta.

Anos depois, eu retornei para New Vineyard. O pedaço de terra que antes tinha minha casa estava vazio, exceto pelas fundações, pois a casa tinha queimado uns anos depois que minha família se mudou. Por curiosidade, eu segui a trilha estreita que Sr. Bocalarga tinha me mostrado. Parte de mim esperava que ele pulasse de trás de uma árvore me dando um puta susto, mas eu sentia que Sr. Bocalarga tinha ido embora, de alguma forma amarrado junto com a casa que não exisitia mais.

A trilha terminava no cemitério memorial de New Vineyard.

Eu notei que a maioria dos túmulos pertenciam a crianças.



37 comentários:

  1. Esse...Creepypasta,é genial,muito bom,muito mesmo,dá até para fazer um filme.

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  2. Otima creepy, mas Sr. Bocalarga me lembrou aquele meme do LoL

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  3. melhor creepy pra mim

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  4. O Sr.Bocalarga me lembrou um anão assasino O_o To pasma até agora.

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    1. Sei lá, quando li a descrição dele imaginei um anão, ai no final da faca me lembrou um anão assasino lol

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    2. kkkkkkkkkkkk somos dois , tambem imaginei isso, um anao assassino

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    3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. eu ja tinha lido essa creepy mas com o nome de Sr.bocão '-' , e ele me lembro o mascote daquela gelatina que agora me esqueci, muito boa a creepy

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    1. É que em inglês é "Mr. Widemouth", daí resolvi usar o termo mais literal na minha tradução, mas cada tradutor traduz de um jeito diferente.

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    2. Sem problema, cada um traduz do jeito que achar melhor , mas mesmo assim a creepy é muito boa ^^

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  6. Muito boa a creepy,adorei de verdade,realmente daria para fazer um filme.

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  7. Eu imagino o senhor bocalarga como uma versão alta de olhos vermelhos de um Aye-Aye, com pelos desarrumados, com dentes podres e afiados.
    Tipo um monstro muito bizarro.

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    1. Te confesso que imagino mais ou menos o mesmo, só que com roupa de Duende. Hhahaha

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    2. Ficaria ainda mais bizarro....
      E as crianças nem desconfiam!

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    3. olha um monstro horrivel saio de baixo da minha cama ,que brinca monstro e pra que essa caixa de facas

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  8. PUT, mano...
    FURBY?
    Já tive um!(na verdade eu ainda tenho, só que não funciona mais).

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  9. Muito boa essa , gostei

    Imaginei ele como um duende, acho os duendes seres bizarros, apesar da aparência bonitinha

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  10. Imaginei ele como uma bolinha cabeluda. parecendo o Animal do The Muppets Show, e um pouco com o Jeff The Killer (: . ótima creepy ! rs

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  11. Imaginei como um personagem do Rayman

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  12. imaginei como uma criatura menor que a tal criança de 5 anos, bem como pokemons/digimons, olhos esbugalhados e largos, de cor escura, mãos e pés estranhamente pequenos em relação ao seu corpo, contendo unhas pequenas e afiadas. pelo desarrumado, de cor azul escura, e o sorriso misterioso de orelha a orelha, que eram pontudas como as de um elfo, exibindo dentes grandes e pequenos, de forma que deixasse o seu sorriso ainda mais duvidoso e inquietante.

    muito boa essa creepy. uma das melhores que ja li. sempre que leio uma creepy imagino um filme passando diante de meus olhos e, realmente, essa daria um dos bons. parabens.

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  13. Acho que é a melhor creepy que já li. Da medo na medida certa e um suspense perfeito.

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  14. eu imaginei ele como o mr. potato head

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  15. Imaginei uma criatura tão fofa, como o ET de ET - O Extraterrestre, e com um ar tão inocente, que eu provavelmente ficaria pronta para conhecer o cemitério que ele queria mostrar. Eu ficaria com dó de deixar algo tão fofuxo tão desapontado, a ponto de ficar tristonho debaixo da minha cama. Mas acho que é isso o que ele queria, né?

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  16. Acho que renderia um filme ou jogo...soh acho xD'

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  17. Eu n sei pq o Sr.BocaLarga me lembrou o Mr.Potato Head O.o

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  18. Nossa, que nostalgia gostosa que deve ter dado nele em...

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  19. Eu imaginei ele igualzinho aqueles furbys que foram dados no mc donalds. eu tenho uns 5 furbys

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  20. bem o senhor bocalarga é um gato tipo o gato risonho de ALICE NO PAIS DAS MARAVLHAS só q macabro o_O

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  21. Não faço idéia do porque mas... Eu imaginei ele como um gato com um olhar profundo. Seus olhos são grandes...Seu pelo é marrom. Dentes afiados como uma ponta de uma faca. Enfim... Um gato assassino ahueahueahueahue

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  22. Não faço idéia do porque mas... Eu imaginei ele como um gato com um olhar profundo. Seus olhos são grandes...Seu pelo é marrom. Dentes afiados como uma ponta de uma faca. Enfim... Um gato assassino ahueahueahueahue

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  23. Imaginei ele como um duende parecido com Crazy Frog, cinza e pequenino. Assustador. Haha

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  24. cara, essa historia está me perturbando muito

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