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Princesinha do Banho



O que há sobre ficar pelado que faz as pessoas se sentirem tão vulneráveis? Tipo, sério, você fica repentinamente mais forte quando usando roupas? Talvez se você é do tipo que sai por aí vestindo botas de aço  e Kevlar. Mas se é, assumo que provavelmente saiba mais sobre autodefesa do que a maioria das pessoas e, de qualquer forma, teria uma boa chance em uma briga.

Atribuo esse meu medo particular por causa do filme clássico Psicose. Tudo culpa da má criação que recebi de meus pais no assunto Halloween. Em vez de ficar vestida de Branca de Neve e ir de casa em casa pegando montanhas de doces, ficava em casa em um quarto escuro, sozinha, com acesso a TV a cabo.

A cena do chuveiro (a foto do inicio do texto) sempre ficou marcada em mim, posso dizer que até me traumatizou, e todos os dias minha família brigava comigo por ficar firmemente trancada no único banheiro da casa até que estivesse totalmente vestida e pronto para encarar quem fosse que estivesse do outro lado da porta. É um hábito, um medo, que salvou minha vida a mais ou menos um ano atrás.

Eu moro em uma cidade grande, e com isso vem os crimes de cidade grande. Reportagens de novos assaltos, tiroteios e coisas do tipo não são novidades. Mesmo assim, gosto de pensar em mim como bem protegida. Moro no segundo andar de um prédio, que coincidentemente significa um sistema de alarme pré-instalado veio com o pacote. A recepção funcionava 24h por dia e meu apartamento ficava na parte traseira do edifício, de frente para outro edifício logo atrás do meu. Posso ver o segurança 24h deles da janela de meu quarto por cima de um muro de divisória. Pode-se dizer que as notícias noturnas não me incomodavam muito.

Todo essa sensação de segurança foram pelo ralo em uma única noite.

Normalmente tomo banho pelas manhãs, mas nessa noite estava com vontade de ficar de baixo da água quente mais para relaxar do que higienizar. Passei pela minha checagem pré-banho. Porta da frente trancada, janelas trancadas, porta de correr trancada, alarme ligado. Caminhei até o banheiro e firmemente fechei e tranquei a porta atrás de mim.

Fiquei de pé sob o jato quente, olhos fechados e mãos estendidas em direção à água absorvendo a calmaria, quando ouvi um barulho. Rapidamente abri meus olhos e coloquei a cortina do chuveiro pro lado. A porta estava fechada, a maçaneta parada. Não era a primeira vez que imaginava a cena.

Respirei fundo e voltei para de baixo d'água, tentando deixar aquilo pra lá e relaxar meus músculos que agora estavam tensos. Alguns minutos passaram. Deve ter sido coisa da minha cabeça, então ouvi uma batida na porta e mais uma vez o barulho. Com uma das mãos desliguei o chuveiro e com a outra abri as cortinas de novo.

A porta ainda estava fechada, mas estava certa que não era mais minha imaginação. O zumbido do aquecedor do banheiro parecia ensurdecedor. A maçaneta estava parada, e qualquer outro som era abafado pelo aquecedor. Meus olhos tensos fixados na maçaneta, meus cabelos e corpo congelados mesmo com o aquecedor.

De repente a maçaneta começou a se mexer convulsionamente e ouvi um baque forte contra a porta. Gritei enquanto saia da banheira e empurrei meu corpo contra a porta. O ser do outro lado bateu na porta novamente, e senti o impacto correr pelo meu corpo. Gritei de novo,  e recebi uma risada profunda de resposta.

Meu corpo tremia por causa das gotas que caiam dos meus cabelos molhados até meus dedos dos pés. Minhas costas continuavam contra a porta com firmeza, esperando um novo ataque. Nada aconteceu.

Um, dois minutos passaram. Pareceu demorar uma eternidade até eu ouvir aquela risada de novo, mas parecia vir mais de baixo. Olhei para meus pés e vi a faca refletindo meu corpo contra a superfície prateada. Suas bordas estavam manchadas com o que instantaneamente identifiquei como sangue.

Bati com a mão do interruptor e desliguei a luz, recusando que a ameaça que estive lá fora tivesse qualquer visão de quão horrorizada estava lá dentro. O barulho do aquecedor parou, e o único som que me restava eram os breves suspiros da minha respiração. Ouvi a faca sendo deslizada de volta para fora da fenda debaixo da porta, um puxão vagaroso, me deixando ciente de quão perto sua presença estava de mim.

"Venha, minha princesinha do banho..."

Minha respiração ficou presa na garganta e podia sentir meu coração quase explodindo no meu peito. A voz era baixa e profunda, como sua risada, e firme. Não respondi, não conseguia nem pensar. Estava presa, e minha única saída era aonde ele estava.

Comecei gritar com toda a força de meus pulmões, o horror e desespero era muito mais real do que qualquer filme de terror que já tinha visto. Rezei que meus vizinhos estivessem em casa. Rezei porque às vezes ouvia suas festas de final de semana, e talvez agora eles ouvissem meus gritos por ajuda.

Gritei até que lágrimas começassem escorrer de minhas bochechas, misturando-se com a água do chuveiro que pingava no chão. "Socorro..." foi quase um sussurro, mas ele ouviu.

"Querida, ninguém vai te ajudar a não ser eu."

Ele não tentou derrubar a porta de novo, e a maçaneta permanecia parada durante as horas que fiquei de pé, chorando. O ouvi se movendo pelo meu apartamento, ouvi um arranhar do outro lado da porta, mas não tentou entrar de novo.

Fiquei de pé no escuro; com frio, pelada, até que os raios de sol começaram a brilhar por de baixo da porta do banheiro. Não sabia se ele ainda estava lá, esperando, então fiquei onde estava, esperando.

Eram onze da manhã quando eu ouvi gritos vindo da porta da frente. Eu não conseguia entender o que diziam, mas gritei de volta. Ouvi a porta cair e as batidas rápidas de várias botas andando pelo meu apartamento.

"Senhorita? Senhorita, onde você está?"

Mandei que o oficial mostrasse sua identidade por baixo da porta antes de abri-la. Não importava que estava nua; caí em seus braços, desmoronando e chorando de novo enquanto alguém me cobria com um cobertor.

Voltei para meu apartamento só para pegar alguns de meus pertences, o qual alguns tinham sumido. Sabia que nunca mais me sentiria segura lá.

Eu estava certa sobre o sangue. O bandido não só matou o recepcionista, como também o segurança e um casal que morava no apartamento do lado. O sistema de alarme da minha casa tinha sido desativado com um simples ímã, e a trava da minha porta de correr tinha sido facilmente arrombada. Ambos fatos têm me deixado com uma desconfiança enorme sobre os selos de "segurança" em apartamentos só para fechar um acordo.

Esses fatos me fizeram perceber que ele poderia tem entrado no banheiro com facilidade, se quisesse. Possivelmente,  preferiu só brincar comigo. Ou talvez a mensagem que deixou esculpida na porta do meu banheiro ainda vá acontecer.

"Te vejo em breve, minha princesa do banho."