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A melancolia de Herbert Solomon (PARTE 2)

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Os moradores achavam que a justiça tinha sido feita, e mesmo que o luto dos pais que tinham perdido seus filhos não podia ser deletada, pelo menos existia a satisfação de saber que o homem que era responsável estava morto.

Entretanto, nos dias seguintes um desconforto se instalou na cidade. Começaram rumores de encontros estranhos na cidade à noite; uma figura magra e sombria vagando pelas ruas de paralelepípedo, se escondendo na escuridão. Dentro de uma semana, vários residentes falaram que acordaram no meio da noite e viram um visitante indesejado.

Um desses residentes foi uma senhora de idade que acordou ao ouvir algo farfalhando de baixo de sua cama e quando foi dar uma espiada quase morreu de susto, vendo um homem magro e alto se arrastar de debaixo da cama. Ela desmaiou, mas não antes de ver o rosto; uma pele murcha, como se tivesse sido devastada por uma doença,  seus olhos negros como a noite e mãos que mal parecia ter pele de tão ossudas.

Outra história era de um comerciante que enquanto investigava um barulho vindo de sua adega, foi confrontado por uma figura horrenda, o rosto branco pálido brilhando com a luz da vela e tão alto e magro que tinha que se curvar para não bater no teto baixo. O homem conseguiu escapar, mas se recusou a voltar para casa.

Ficou claro para os moradores que o fantasma vingativo de Herbert Solomon ainda estava na procura de outras vítimas mesmo após a morte. Seu ódio perambulando pela cidade que o tinha assassinado.

Com o passar dos dias os encontros cresceram em numero e intensidade. Uma névoa se instalou pela cidade, e o povo se entristecia enquanto Herbert Solomon aterrorizava cada um dos moradores, noite após noite. Fora visto vagando pelos campos de centeio, nos porões e sótãos das casas, suas pegadas longas e distintas todos os dias aparecendo na neve das ruas de Ettrick.

Eles haviam sido amaldiçoados. Em vida, Herbert Solomon tinha roubado e matado suas crianças, e agora em morte, ele parecia utilizar sua nova forma para aterrorizar a todos.

Então, o impensável aconteceu; outra criança desapareceu. Uma garotinha órfã - que frequentemente vagava nas ruas a noite quando não encontrava um lar para dormir - foi ouvida gritando por sua vida. Os moradores correram até suas janelas para ver o que estava acontecendo, mas sem se atrever a sai da segurança de seus lares; paralisados pelo medo.

Os gritos se cessaram rapidamente e, minutos depois, a figura ameaçadora de Herbert Solomon foi vista vagando sem rumo pela neblina. Ele andou apressado até o fim da ria, seus braços sem vida batendo contra as paredes das casas enquanto passava, raspando seus dedos duros contra as janelas e portas, emitindo um grito anormal de raiva e ódio por onde passava.

A menina tinha sumido e a cidade mais uma vez estava de luto.

Nos dias seguintes a neblina ficou mais densa, e com isso a triste noticia que mais duas crianças tinham desaparecido. Uma era uma menina que, depois de ter uma discussão com sua família, saiu de casa e nunca mais foi vista. O outro foi um menino chamado Matthew, o filho de um bêbado conhecido, que tinha sido roubado de sua própria cama por Solomon enquanto seu pai estava inconsciente por causa da bebida.

Durante um culto na igreja local, o impensável aconteceu; Solomon apareceu brevemente nos corredores da igreja, aparentemente sem ser afetado pelo solo consagrado.  Os fiéis gemeram em horror e desdém enquanto ele andava de uma forma surreal até um pilar e, em seguida, desaparecer.

A esperança estava quase perdida. Nem mesmo um lugar santo estava a salvo, e agora  a noite ele era capaz de entrar em qualquer casa e podia pegar o que ou quem quisesse. Os cidadãos tinham que agir ou abandonar o lugar juntos, mas não havia garantia que a maldição de Herbert Solomon não os seguiria.

Os moradores de Ettrick então pediram para o padre local, um homem chamado McKenzie, que usasse qualquer poder sagrado que tinha sido dado a ele. Em uma tentativa de destruir ou banir o espírito de Solomon, um plano foi feito. O padre e mais alguns homens armados com tochas, espadas abençoadas e frascos de água beta, ficariam de guarda pela cidade a noite, esperando aquele maldito e amaldiçoado assassino de crianças dar as caras novamente.

Então Solomon seria confrontado.

Posicionados em diversas janelas e telhados das casas, assim como pontos estratégicos da cidade, os escolhidos de McKenzie esperaram. Mas não muito. Naquela noite a figura solitária apareceu entre a névoa nas ruas de Ettrick. Berros e gritos foram dados como um sinal para que as outras pessoas soubesse que Solomon tinha voltado.

Os pais se agarravam aos seus filhos enquanto um pensamento conjunto tomava toda a cidade: "Por favor, leve outra criança, não a minha!".

McKenzie foi o primeiro a confrontá-lo. Mas sua vontade foi abalada quando viu o rosto horroroso, pálido, apodrecido e arrasado de Solomon. A figura desengonçada e magricela ficou olhando para o padre fixamente, com seus olhos negros e nublados.

Outro homem chegou para perto, então outro e outro, até que Herbert Solomon estivesse cercado. McKenzie deu instruções para que lentamente o circulo fosse cercado, que segurassem a espada com uma mão e a tocha com a outra.

O medo tomou conta dos homens, sabendo que aquela podia ser a única chance. McKenzie jogou um vidro de água benta nos pés desajeitados de Solomon, e enquanto gritava um salvo cristão, um outro homem o atingiu com uma tocha. A pancada foi no braço de Hebert, que estava coberto por um manto que agora pegava fogo. Gritos de felicidades foram dados pelos cidadãos que assistiam tudo de suas casas, mas o homem tinha saído de posição e feito uma falha no círculo, o qual Solomon avistou facilmente.

Ele fugiu.

O povo começou a  perseguição, seguindo a patética figura que tropeçava em cada rua, canto e jardim enquanto tentava se salvar da fúria dos aldeões. A gritaria alertou a cidade: Herbert Solomon estava tentando fugir!

De todos os cantos da cidades, pessoas começavam a sair de suas casas carregando qualquer coisa que pudesse usar como arma. Eles inundaram as ruas e corriam enquanto protestavam, gritavam e urravam em direção a Herbert Solomon.


A cada curva que fazia pela estrada de paralelepípedo, Solomon estava ficando sem lugares para se esconder. Finalmente, enquanto tropeçava até o fim da rua principal, ele parou. Os cidadãos tinham bloqueado todas as rotas de saída; ele estava encurralado. 

[CONTINUA...]