01/10/14

Trilha virtual.

Eu sei o quão ridículo isso soará.

Na quinta passada recebi um e-mail de um amigo de infância do meu país natal (Montenegro). Antes disso, tinha recebido só dois e-mails dele. Desde que eu me mudei para o Estado Unidos há dez anos atrás, nossa amizade mudou de se ver todos os dias para um "E aí" ocasional. Mas o e-mail que anexo abaixo é bem diferente dos que recebi antes. Tipo, muito.

Então, sem mais papo furado, aqui está o que recebi. Fiz o meu melhor para traduzir para o inglês (agora em português traduzido pela equipe CPBr). Mas pra ser sincero, mesmo que não o conheça bem agora, sei que não é do tipo que zoaria comigo assim do nada.
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De: *******@gmail.com
Para: ***********@yahoo.com
Assunto: Preciso que você leia isso com urgência


E aí cara! Faz tempo que não nos falamos, eu sei. Não vou nem tentar dizer que tenho estado ocupado; nós dois sabemos que a distância nos separou com o passar dos anos. E sobre isso tudo bem, sua vida é aí e a minha é aqui. Mas preciso de sua ajuda. Sei que você deve está revirando os olhos pensando que pedirei dinheiro ou para você me enviar o Iphone 6 que saiu agora a pouco... Mas quem dera eu fosse por isso que eu estivesse escrevendo.

Olha, sei que você não acredita no sobrenatural, e sabe que eu também não. Inferno, fui o primeiro a dizer que era idiotice aquela história que você escreveu sobre a Dama de Laranja. Esse tipo de coisa não acontece na vida real, e ainda acho que você inventou tudo aquilo, tanto faz. Mas algo... algo está acontecendo comigo, e ninguém me leva a sério, cara. Tipo, sério, algo está acontecendo e não sei o que fazer comigo mesmo.  

A risco de te entediar até a morte, vou contar desde o começo. Lembra como a gente sempre falava em ficar em forma, desde que éramos adolescentes? Como queríamos ter tanquinho para que as garotas gostassem mais da gente? Bem, finalmente decidi fazer algo pra isso acontecer. Pra valer, dessa vez. Dia primeiro de setembro eu parei de comer carboidrato, doces, qualquer coisa não fosse saudável e entrei em uma academia que acabou de ser aberta aqui perto de casa. Sei que vocês aí nos EUA tem as academias mais chique mas, cara, essa era tão grande e com equipamentos tão irados que não me importava em pagar mais caro. Ainda mais porque as garotas de lá eram super gostosas.

Então, comecei fazendo alguns levantamentos de peso e exercícios cardios básico. Eu via meu peso diminuindo a cada semana e isso só me motivava a continuar, sabe? Cara... Eu até me inscrevi em uma corrida de dez quilômetros. Foi aí que comecei a usar a esteira bem mais.

Agora, essas esteiras daqui são outra coisa. Tenho certeza que você está acostumado a novas tecnologias, mas para mim, esteiras com TV pessoal eram coisa de outro mundo. 
Logo, descobri que você podia pegar um caminho virtual para correr nelas. Sabe, escolhia 
nas configurações algo tipo praia, floresta, trilha, qualquer uma dessas coisas para correr, e então apareceria na tela você correndo como se estivesse fora da academia. Por algum motivo, eu sempre escolhia a praia.

Rapidamente comecei a ficar entediado com esse trajeto virtual, então comecei a escolher o trajeto floresta para mudar um pouco a rotina. O caminho era de 10Km, perfeito para meu treino. Era demais, sério. O vídeo me guiava por uma pequena estrada de chão rodeada de árvores. Era tão tranquilo que logo se tornou meu curso favorito.

Então, depois de duas semanas usando esse curso, notei uma coisa diferente. Lá pelo sexto quilômetros, vi uma senhora de vestido preto de pé no canto da trilha. Achei estranho, porque depois de 15 dias usando essa trilha, pensei que já tinha memorizado todos os detalhes do vídeo.  E a mulher parecia... fora do lugar, sabe? As únicas pessoas que apareciam no vídeo eram outros corredores ou ciclistas, talvez um pedestre ocasional, mas nunca tinha visto algo assim. Quanto mais me aproximava dela, mais ficava evidente de que ela não pertencia àquele lugar. Tipo, estava olhando diretamente para a câmera (ou para mim, sei lá). Estava de pé, parada, não movia nada a não ser a cabeça para acompanhar meu movimento. Enquanto passei "correndo" por ela, pude ver que estava envolvida numa espécie de vestido preto, e até usava uma bandana ou algo do tipo na cabeça. Parecia bem velha, tipo uns 70, o que também era estranho.

Mas o ponto de vista de primeira pessoa no vídeo, só tive um total de 5 segundos para vê-la antes de desaparecer da tela. Eu queria voltar o vídeo para dar uma olhada melhor, mas não tinha jeito de fazer isso, e certamente eu não correria mais 6Km só para ver uma velhinha por 5 segundos. Então terminei meus exercícios, fui para casa e esqueci daquilo. 

Um tédio até aqui, certo? Certo.

No dia seguinte comecei a correr em uma esteira diferente. Me lembrava da senhora que aparecera no vídeo no dia anterior, então quando estava no quinto quilômetro, comecei a me preparar para vê-la de novo. Mas na marca de 6 quilômetros ela não estava lá. Nem no sétimo, nem no oitavo, nem no nono, nem no décimo. Era uma esteira diferente, talvez outra gravação? Mas é que tudo no vídeo era igual ao outro. Achei que estava só viajando, então deixei pra lá.

Alguns dias depois corri na esteira original. A essa altura, tinha me esquecido completamente da mulher. Então, cara, tô tremendo só de escrever isso, na marca do sexto quilômetro, notei a mesma velhinha de vestido preto, parada de pé na encosta da trilha. Quase perdi o passo, mas consegui continuar correndo. Deixei meu rosto a um centímetro da tela, para tentar dar uma olhada melhor e, honestamente, para provar para mim mesmo que não foi imaginação minha da primeira vez.

E lá ela estava. Parada, sua cabeça me acompanhando. Quando cheguei mais perto, notei a expressão facial dela. Ela parecia... Merda, como eu posso explicar? Brava? Parecia que ela estava brava comigo, cara. Eu sei, parece um monte de merda, mas nunca senti algo ou presenciei algo como isso. Literalmente me arrepiei quando passei por ela.

E quando estava passando por ela, algo inexplicável aconteceu. Ninguém acredita em mim, mas foda-se, tenho que te contar. Enquanto passava, a câmera virou. Tipo, o cameraman virou para olhar para a mulher de novo. E agora ela estava de pé no meio da estrada, olhando pra mim. E não só isso, também apontava para mim. Seu braço direito estava estivado em minha direção e seu dedo indicador acompanhava meu movimento. Então, quando a câmera virou de novo para a frente, mostrou uma caminhonete enorme pronta para bater em mim. Quase tropecei, mas a tela ficou preta antes dos faróis me acertarem. 
Apertei o botão de emergência e sai de lá o mais rápido que pude, mas acreditando no que tinha acabado de acontecer.

Não conseguia me acalmar. Estava sem fôlego, mas no mais chocado. De uma coisa esta certo: não tinha imaginado tudo aquilo. Me recusando acreditar em nada além do lógico, fui até o gerente da academia (O Dani, Lembra dele? Jogávamos bola com ele atrás da escola), e em tom de brincadeira perguntei porque eles estavam trocando os vídeos de trilha da floresta. Ele riu e saiu andando, provavelmente achou que eu estava zoando com ele.

Eu não sabia o que fazer e, na verdade, não tinha muito o que fazer. Podia ou esquecer aquilo ou continuar correndo aquele curso para ver o que acontecia. Bem, não sou tão curioso quanto pareço ser, então comecei a correr em outra esteira. E tudo ficou normal novamente. Talvez o fato de nunca mais usar as trilhas virtuais enquanto corria ajudasse. Prestei atenção nas pessoas que corriam naquela esteira em especifico, mas ninguém reagia estranhamente, então assumi que ninguém via a mulher.

Mas dois dias atrás, trouxe um amigo (você não o conhece) para uma aula grátis. Fizemos os levantamentos e depois decidimos correr um pouco nas esteiras. Como sou um cara azarado pra caralho, as únicas duas disponíveis eram a do extremo canto, sendo uma aquela esteira macabra. Meu amigo pulou na normal, e eu não queria parecer um esquisitão de pedir para trocar comigo, então subi na do vídeo estranho. E assim que comecei a correr, o vídeo do curso da floresta iniciou sozinho. Eu apertava o botão de "cancelar" furiosamente, mas a merda não parava.

"O que houve, cara?" Meu amigo perguntou, eu só sorri e balancei a cabeça, decidindo encarar e continuar a correndo o curso. Provavelmente nada aconteceria, certo?

"Ah, que máximo! Eles tem essas trilhas virtuais?" Ele perguntou enquanto eu passava o primeiro quilometro.

"Sim, é bem... legal", murmurei.

"Cara, eu conheço essa floresta, ela fica no caminho de Skadarsko Jezero", ele disse.

"Que?"

"É, já vi esse lugar antes, é tipo a umas três horas daqui, bem louco que eles tenha vídeos da região, achei que eram todo tipo lá do Estados Unidos ou algo assim".

Eu ia perguntar mais alguma coisa para ele, mas eu acabara de atingir o quinto quilometro, e arrepios subiram pela minha espinha. "Por favor, não hoje", pensei enquanto corria.

6km. Nada.

7km. Nada.

Fiquei aliviado.

Feliz que nada tinha acontecido, quis me mostrar um pouco e aumentei a velocidade da máquina. O vídeo acelerou também. Conseguia ver o fim do curso à distancia. Eu estava correndo muito rápido. E quando, caralho, quando estava quase terminando, faltando 30 metros do final, a mulher de preto começou a atravessar a trilha. Eu estava me aproximando rapidamente, e não podia apertar o botão de emergência sem meu amigo achar que eu era louco. A mulher parou no meio da trilha e se virou em minha direção.  Eu decidi continuar, seja lá o que acontecesse.

Ela só ficou parada lá. Então notei que ela segurava alguma coisa. Coloquei o rosto mais perto da tela porque queria saber o que ela segurava e estava prestes a passar por ela. Foi quando ela esticou o braço na minha direção que eu reconheci. Eu reconheceria aquilo em qualquer lugar, qualquer hora.

Lembra quando fomos ao show do Red Hot Chilli Peppers na Sérvia em 2007? Quando ficamos molhados de tanto suar depois de uma hora de show? Lembra daquelas camisetas caras que compramos? Sim, ainda tenho a minha. E essa mulher na trilha estava a segurando. Poderia ser uma coincidência? Queria eu acreditar nisso, cara. Mas quando passei por ela, vi que faltava a manga esquerda da camisa, igual a minha (longa história). 
Quero dizer... É coincidência demais, né? É impossível, né? Terminei o curso com a adrenalina pulsando nas minhas veias.

Agi normalmente o resto do dia com meu amigo, mas mal podia esperar para chegar em casa. Assim que cheguei, corri para meu quarto e vasculhei todo o guarda-roupa e gavetas, e adivinha? Minha camiseta não estava lá. E sei que eu a tinha, porque eu usei ela uns 5 dias antes. Contei isso tudo para meus pais que me acusaram de usar drogas e riram da minha cara. Contei para alguns amigos também, mas eles acharam que eu estava só zoando. E então, ontem a noite, tudo ficou uma loucura. Tipo, minha vida mudou, cara.

Eu estava na varanda, tentando fumar um cigarro antes do jantar. Ainda moro no mesmo prédio no 8º andar, lembra? Você vinha aqui direto. De qualquer forma, estava lá de pé, olhando para a rua, e você sabe o quão mal iluminadas são as ruas daqui, né? Mas avistei uma coisa lá em baixo. Parecia ser uma silhueta de pé, olhando para cima. Não conseguia identificar o que ou quem era, mas nesse ponto eu estava tão paranóico que tudo parecia suspeito. E algo não estava certo, eu sentia. A pessoa... ela ou ele estava olhando pra cima.

Decidi descer. Eu estava todo cagado de medo, admito, mas precisava ver quem ou o que era aquilo.

Claro que o elevador nunca está funcionando, então tive que descer as escadas. Quando cheguei na rua, não havia ninguém lá. Mas... cara, em um galho de uma árvore ali perto, vi minha camiseta. Minha camiseta do Red Hot Chilli Peppers. Peguei-a, olhei em volta, mas não tinha nenhuma alma viva por lá. Ela havia sumido. Quero dizer, acho que era a velha. 

Qual a possibilidade disso? Sei que parece inacreditável, mas estou te contando porque ninguém acredita em mim.

Não sei, cara, não sei o que fazer. Acho que tenho que ir naquela trilha. É a única coisa que acho que posso fazer.

O que você acha? Desculpa escrever quase uma Bíblia no seu e-mail, mas é minha vida cara. Não sei com quem mais posso falar.

Zeki.




21 comentários:

  1. Cara entediante pprt aposto que ninguem vai ler tudo

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  2. Gostei uma creepy grande do jeito q gosto n da muito medo mais e interessante ⌒.⌒ 7/10

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  3. Respostas
    1. Não sei, mas vou ficar de olho no autor. Se sair, traduzirei.

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  4. eu fiquei esperando uma reviravolta final, mas tá bão né, em meio a tantas ruins, finalmente (ah e fiquem de olho no autor ;) )

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  5. Eu gostei, ficou meio tedioso no meio, mas gostei.

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  6. Ué, é impressao minha ou tiraram a creepy da Ana maria? Poxa coitada :'(

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  7. Aposto q na trilha ele vai morrer atropelado pelo caminhão .

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  8. Essa creepy ficou boa, apesar de não ser lá um final muito satisfatório. Aparentemente vai ter uma continuação, e eu vou querer ler ela. =P

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  9. Affff eu achando que a saber o final da história já hahaha
    Se não tiver continuação vou até o autor pra bater nele.

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  10. O final dá uma grande deixa pra uma continuação.Eu espero que tenha,mas,mesmo que não,essa creepy tá ótima!Foi bem simples,real,aceitável.Eu adorei!

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  11. Essas velhas góticas que ficam roubando as camisetas dos outros, tsc tsc

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    1. Nigga, que milagre você por aqui. Veio me trazer um humilde presente?
      -q

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    2. O moleque já chega chamando os outros de nigga e ainda quer presente..

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  12. Crl, a única creepypasta que me assustou nos últimos 2 anos

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  13. Ai,que meda! é a maldição da esteira eletronica de academia!Que perola,hein?!

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