14/02/15

Eu era um soldado da Guarda Real - Parte I

Eu era do Exército Britânico, sabe? Dois turnos no Iraque, um no Afeganistão. Minha mãe realmente odiava a vida que escolhi e eu não posso culpa-la. Mas quer saber? O foda é que a coisa mais horrível que presenciei não foi num desses países orientais de merda, não. Foi bem no centro da “civilização” europeia: Londres.

Depois de concluir meu terceiro turno, eu fui premiado pelo Exército. Aparentemente, combater o Talibã nas montanhas é um motivo bom o bastante para ser homenageado. Eles me ofereceram uma vaga na Guarda Real. Não sei o quanto você sabe sobre isso, mas na Inglaterra é uma coisa muito importante. E eu odiei. Eu estava permanentemente estagnado em casa, e como recompensa por minha “bravura” agora eu estava estagnado em frente a construções imóveis, enquanto irritantes turistas chineses tentavam me fazer rir. Eu quis sair, mas a honra da posição, combinada com a felicidade de minha mãe pelo fato de o maior perigo que eu poderia enfrentar ser a cara de um turista asiático, eu não tive chance a não ser permanecer. Se ao menos eu soubesse que estaria mais seguro em alguma caverna em Cabul...

Eu estava escalado para trabalhar na Torre de Londres alguns turnos na semana. Os turnos tinham em média de 2 a 3 horas de duração, dependendo de quantas pessoas trabalhavam no dia. Tenho que dizer que este trabalho perde a graça rapidamente. Pessoas bêbadas que tentam mexer com você enquanto turistas chatos que pensam serem os primeiros a tentar te fazer rir. Você só quer estar fora do seu próprio corpo. Porém era um trabalho, e remunerado, então eu calei a boca e fiz o que tinha que ser feito.

Bem, esse dia, esse dia em 2012, começou chato como qualquer outro dia. Tinha uns garotos franceses tentando mexer comigo (Deus, eles são os piores, e você não pode fazer nada a menos que eles ameacem você), e também tinha um grupo de garotas russas bêbadas, o que não era tão ruim. O calor estava começando a derreter a merda do chapéu no meu crânio quando um grupo enorme de turistas apareceu. Algum tipo de passeio turístico, presumi. Todos eles faziam aquela lengalenga padrão: fotos, caras “engraçadas”, piadinhas etc. Todos tinham câmera fotográfica e todos vestiam a mesma camiseta, alguma porcaria do tour pelo Big Ben. Todos menos um. Notei-a parada atrás, apenas me encarando. Ela era uma mulher bonita, por volta dos quarenta anos, um longo cabelo muito escuro e era um pouco pálida, o que me fez pensar que ela era inglesa. Ela parecia fazer parte do passeio por estar com todos os outros.

Depois que eles tiraram várias fotos e perceberam que eu não iria sorrir, começaram a ir embora. Exceto a mulher pálida que ficou e continuou me olhando. Olha, já preenchi minha cota de pessoas fazendo coisas estúpidas para conseguir alguma reação minha, mas essa era nova. Não só isso, essa mulher estava comprometida. Duas horas e centenas de turistas depois, ela ainda estava no mesmo lugar, apenas me encarando. O dia estava muito quente e não era possível que ela estivesse confortável, mas não, ela estava mais calma do que eu. Ela não estava sorrindo, o que era estranho, pois eu achei que ela estava tentando me fazer reagir. Aproximadamente trinta minutos depois, quando a multidão a minha volta morreu lentamente, ela deu um passo lento em minha direção. E mais um. “Aqui vamos nós, piada chegando” eu pensei enquanto ela se aproximava suavemente.

Ela parou a mais ou menos dois pés distantes de mim. Ela estava olhando bem nos meus olhos. Encarou a cabeça para a esquerda e então para a direita, o que eu presumi ser sua tentativa de me fazer rir. Então eu percebi que essa mulher não estava aqui para fazer graça. Ainda parada a dois pés de distancia, ela começou a inclinar na minha direção. Tinha alguma coisa tão bizarra no seu jeito me deixava extremamente desconfortável. Ela nunca perdeu o contato com meus olhos. Continuou inclinando-se para mim sem mover os pés. Ela parou com o rosto quase tocando o meu e nessa posição ela parecia anormal. Sua cabeça começou a tremer devagar, como quando você sai da piscina ou do chuveiro e está muito frio, sabe?

E então agora ela estava me assustando pra cacete. Já tive pessoas gritando na minha cara, já tive até um idiota tentando lutar comigo, mas o que ela fez foi de longe pior. Ela abriu a boca como se estivesse prestes a dar o maior berro comigo, mas nenhum som saiu. Nada. Ela só parou, inclinada naquele ângulo anormal, a centímetros do meu rosto, deixando aquele grito silencioso ou o que quer que fosse sair daquela boca escancarada. E a velocidade do tremor aumentou. Daí, eu não vou mentir, embora estivesse realmente quente naquele dia, eu comecei a sentir frio e arrepios corriam por baixo de meu uniforme. Finalmente consegui me recompor e comecei a marchar para longe dela (nós temos permissão para dar uma marcha de dez passos ocasionalmente).

Quando cheguei ao fim do caminho, parei e fechei meus olhos. Eu só queria que ela tivesse ido embora quando eu virasse. Assim que dei uma volta de 180 graus congelei instantaneamente. Ela estava bem na minha frente; inclinada na direção do meu rosto, boca escancarada, a cabeça agora tremendo descontroladamente. Eu estava tão surpreso que fui incapaz de reagir. Barulho, gritaria e outras coisas eu consigo lidar, mas essa merda de silencio assustador estava sinceramente me intimidando.

“Abra caminha para a Guarda Real” eu gritei. Temos permissão para dizer isso quando alguém está em nosso caminho. Ela não reagiu, mas se inclinou mais, para cerca de um centímetro do meu rosto.

“ABRA CAMINHO PARA A GUARDA REAL” gritei ainda mais alto, esperando que minha voz não falhasse.

Ela não teve o menor respeito por minhas ordens. Sem a menor disposição para lidar com aquela 
porcaria por mais tempo, dei um passo para trás e apontei minha baioneta para ela. Este era nosso último recurso para turistas irritantes. 

Ela fechou a boca imediatamente e se inclinou de volta numa posição humana normal. Eu não iria esperar por seja lá o que ela estava para fazer, então comecei marchar em torno dela. Quando voltei a meu posto, me virei e parei. Não conseguia vê-la pelo canto do meu olho, o que me deu um grande alivio. “Jesus, esse trabalho do inferno” pensei comigo mesmo “Vou ter que procurar por...”

“10, 9, 8” alguém sussurrou no meu ouvido direto. Só podia ser ela. Ela estava atrás de mim,

“10, 9, 8” sussurrado do meu lado esquerdo. Meus pelos estavam todos em pé agora. Hilário, não? Veterano de combate, matou mais pessoas que gostaria de admitir e agora está com medo de uma turista maluca.

“10, 9, 8, 10, 9, 8, 10, 9, 8” ela acelerou o sussurro. Então andou em minha direção “10, 9, 8, 10, 9, 8” agora ela estava sussurrando inacreditavelmente rápido. Na verdade, sussurro não descreve isso perfeitamente. Era como um grito, mas em tom de sussurro, se isso faz algum sentido. Era surreal. Ela se inclinou na direção do meu rosto de novo, sussurrando aquelas merdas de números freneticamente.

Eu estava quase desobedecendo minhas ordens. Não conseguia mais aguentar aquilo. Tinha alguma coisa muito absurda sobre essa mulher, eu não poderia lidar com isso.

“Senhora” eu falei com a maior voz de bundão, “Senhora, por gentileza, dê um passo...”

Então um grupo enorme de turistas correu em nossa direção. A mulher maluca se inclinou de volta e continuou me olhando. Ela sussurrou “10, 9, 8” mais uma vez sem nunca perder o contato com meus olhos. Aí ela se foi, tão devagar quanto quando se aproximou. Foi muito estranho vê-la desaparecer lentamente na multidão. Tudo foi deixado com um sentimento de algo sobrenatural. Isso e um grupo de turistas asiáticos salva-vidas. Nunca pensei que ficaria tão feliz em ver chinês.

Depois do meu turno, fui até nossa base e contei a história para os rapazes. Todos tinham alguma experiência com pessoas assustadoras, mas nada nesse nível. Quando nosso comandante chegou, os caras contaram brincando como eu tinha sido “abusado” no trabalho. Ele queria rir, então pediu que contasse a história toda. Porém, quando comecei contar o que aconteceu, ele imediatamente fechou a cara.

“Para, para” ele disse. “Você falou com ela?”

“Senhor?” perguntei intrigado.

“Filho, você falou com essa mulher?”

Eu não queria perder meu pagamento semanal por quebrar a regra de não falar com as pessoas, então eu menti. “Claro que não, senhor.” Ele pareceu se acalmar. “Bom. E se ela um dia voltar, nunca fale com ela, entendido? E isso é pra todos vocês”.

A atmosfera cômica morreu rapidamente na sala de descanso. Eu estava intrigado, mas estava ainda mais cansado, então decidi ir para casa e dormir, em vez de me preocupar sobre turistas bizzarros.

Os próximos turnos foram tão entediantes quanto o esperado. A mulher estava longe de ser vista e desde que minha namorada estava para vir da Holanda para me visitar, esqueci sobre o incidente.

Terça-feira à noite, por volta de 3 horas, eu fui acordado por uma forte batida na porta. Por alguma estranha razão, o primeiro pensamento que cruzou minha mente é que era aquela mulher de semanas atrás.

“Amor, você se importaria de espiar pela fechadura para ver quem é?” Murmurei com preguiça enquanto empurrava minha namorada. Ela estava dormindo profundamente, acho que nada a acordaria. Semiconsciente, eu tropecei pelo corredor até a porta. “Quem é?” Resmunguei da entrada para a porta. “Quem é?” Murmurei enquanto espreitava pela fechadura, mas estava muito escuro lá fora. Isso me despertou. “Quem é?” perguntei de novo, mas a única resposta que obtive foi um barulho mais alto.

“Merda!” Eu pensei, respirei profundamente e abri a porta.

Existem milhões de coisas que eu preferia ver parado na minha frente naquele momento. E tem só uma pessoa que eu não esperava estar à minha porta.

Minha namorada.

Era pra eu tê-la buscado essa noite.

Eu quase perdi o controle das minhas pernas. Milhares de coisas passaram rapidamente pela minha cabeça e eu estava tendo dificuldades para compreender o que estava acontecendo.

“Obrigada por me buscar no aeroporto, seu babaca” falou minha namorada assim que bateu com a bolsa no meu peito. Eu continuava sem palavras.

“Eu viajei de Amsterdã só para te ver e você esquece. Sério?”

Eu nem estava ouvindo. Eu sabia que estava meio dormindo quando acordei, mas TINHA alguém na minha cama, eu não estava sonhando, pelo amor de deus.

“Fica aqui” Eu balbuciei e entreguei a bolsa de volta.

“O que aconteceu?”

“Só fique aqui.”

Sem saber onde encontrei coragem para andar até o quarto, andei lentamente até lá.

Eu sei o que você está pensando – em filmes e livros, o cara anda até o quarto e BUM, está vazio, certo? Eu realmente queria isso.

Fui até meu quarto e estava completamente escuro. Mas eu conseguia ouvir a respiração. Uma respiração pesada. Meu coração estava tão disparado que tinha certeza que morreria, mas liguei o interruptor.

“7, 6, 5, 7, 6, 5” os sussurros vinham do canto do quarto que ela estava. A mesma mulher. Ela estava quase colada no canto do quarto, de costas para a parede. Estava olhando diretamente para mim. Eu pensei que tinha perdido a capacidade de falar, consegui soltar um “Que porra é essa?”.

“7, 6, 5” ela disse assim que deu o primeiro passo lento em minha direção. Sua boca estava sempre escancarada, como se estivesse soltando aquele grito sem som. A cada passo, ela fechava a boca o bastante apenas para dizer “7, 6, 5”.

Não conseguia me mover. Nada no mundo existia além dessa mulher caminhando lentamente em minha direção. Que sentimento assustador e inquietante. Tipo, eu não estava fisicamente com medo dela, sabe? Eu poderia derrubá-la e estava preparado pra isso. Mas esse tipo de medo era algo estranho para mim. Parecia que eu estava com medo por minha, caramba, eu não sei, alma? Eu sabia que ela não poderia me machucar fisicamente, mas eu estava suando de medo. Sem falar que eu estava dormindo na mesma cama que seja lá o que for essa merda.

Ela chegou incrivelmente perto de mim. A familiar inclinação. Um centímetro do meu rosto. Minha respiração estava tão alta e irregular que era o único barulho ouvido no quarto.

“7,6,5”

‘De repente, algo sobre isso me deu um sentimento familiar.

“QUE MERDA É ESSA?” o grito veio de trás de mim.

Minha namorada.

Voltei à realidade, virei e agarrei minha namorada. “Corra” gritei, enquanto escapávamos do quarto. Corremos até a cozinha onde peguei uma faca de aço “como visto na TV”. Minha namorada estava ao meu lado chorando em silêncio, incapaz até de fazer perguntas.

Eu conseguia ouvir os passos. Primeiro vi sua sombra, então a vi caminhando calmamente pelo corredor. Sua boca agora estava aberta de um jeito muito anormal e ela não estava mais olhando para mim. Ela estava olhando para o teto enquanto andava até a porta. Sua cabeça tremia muito rápido. Isso era bizarramente surreal. Quer dizer, apenas imagine a mulher que te deixou assustado semanas atrás, agora andando pela sua casa às 3 horas da manhã, encarando o teto com a boca aberta de um jeito humanamente impossível. Sem contar que você dormiu com ela sabe lá quanto tempo.

Quando ela finalmente saiu, corri até a porta e a fechei com força. Minha namorada não conseguia falar. Eu tive medo que ela pensasse que eu a estava traindo com essa mulher, mas não. Ela viu aquele horror saindo pelo corredor e sabia que havia algo errado.

Eu estava aterrorizado, mas não queria demonstrar. O mais assustador é que eu tinha um trabalho em que eu tinha que ficar parado sem reagir aos sons a minha volta. Contei a minha namorada sobre minha experiência com essa mulher esquisita, mas sem mencionar o “10, 9, 8, 7, 6, 5”. Não queria assustá-la ainda mais.

Afinal de contas, o que seriam esses sussurros se não uma contagem regressiva?


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18 comentários:

  1. Me lembrou a creepy da expressão -_-

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  2. Vcs apagaram as 2 ultimas creepy dos guardioes? Q tinha ate o guardiao da cor

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  3. Creepy foda!!!
    Que medo dessa "mulher" bizarra. Preciso da parte dois urgentemente!

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  4. Com a boca aberta e a cabeça tremendo ela só queria fazer um boquete no cara. Oras.

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  5. Nossa, quando terminei voltei lá em cima e suspirei de alívio com o "parte I". Ia ficar muito puta se não tivesse final, pq é muito boa.

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  6. "Não conseguia me mover. Nada no mundo existia além dessa mulher caminhando lentamente em minha direção."
    Que romântico :v
    Alias, é um tema bem criativo. Meu sonho ir para Londres só para mexer com esses soldados. Mostrar uma imagem do MC brinquedo para um deles, duvido se não vai rir.

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  7. Pensei que só eu tinha pensado que ela ia fazer um b q t no kra, mas ai aparece a luana silva :I

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Olá pessoas,posso ser a nova pessoa que aparece em todos os posts?

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  10. Claro, já que você e uma pessoa muito lrgal

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  11. Mas ainda prefiro a Senhora dos Absurdos :3

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  12. A versão mobile do site tá ruim pra ler, se tivesse como melhorar eu agradeceria.

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  13. http://www.reddit.com/r/nosleep/comments/27vz69/i_was_a_part_of_queens_guard_in_england_one_of/ parte 2 em ingles.

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  14. E aew pessoas de meu Brasil Bostil, eu serei agr um dos membros daqui do fórum. Espero receber boas vindas de todos os usuários.

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  15. Olá, gostaria de trazer a história pro meu canal. Para isso, precisaria da autorização de vocês. Eu poderia? Claro, com os devidos créditos.

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