21/02/15

Eu era um soldado da Guarda Real - Parte II

Eu estava hesitante em chamar a polícia depois que o que quer que seja aquilo deixou meu apartamento, mas minha namorada não. A polícia chegou depois de 20 minutos. Pegaram nossos depoimentos, a descrição da mulher e pediram que ligássemos imediatamente caso alguma coisa acontecesse. 

Mas minha mente estava em outra coisa. Meu comandante. Ele disse para não falar com ela. E eu falei. E agora eu estava acordando com ela na minha cama e, diabos, como ela entrou no meu apartamento? Caramba, tantos pensamentos.

No dia seguinte eu fui até o escritório do comandante

“Senhor” Eu disse cuidadosamente – você precisa entender que perder o emprego, não importa o quão ferrado fosse, definitivamente não estava na minha lista – “Senhor, precisamos conversar.”

Ele me olhou de sua mesa e eu juro pra você, juro que ele já sabia. O seu rosto perdeu toda emoção. Ele sequer perguntou o que estava acontecendo. “Sente” ele disse assim que inclinou a cadeira para trás.

“Senhor, eu...” Eu estava um momento difícil confessando ter quebrado as regras da Guarda.

“Você falou com ela. Você respondeu” Disse ele se inclinando na minha direção. “Não falou?”

“Bem, eu apenas pedi pra ela sair do caminho, isso é tudo.”

“Não, não o comando da Guarda Real. Você disse mais alguma coisa para ela?” “Eu disse” (Se você lembrar, além de dizer “ABRA CAMINHO PARA A GUARDA REAL”, eu disse “Senhora, por gentileza...”)

“Puta que pariu, filho. Puta que pariu.”

Foi a primeira vez que ouvi o comandante falar palavrão.

“Senhor, quem é esta mulher?”

“Estou indo ao arquivo para sua imediata remoção da Guarda” Ele me ignorou enquanto abria a escrivaninha para procurar alguma coisa.

“Senhor?” Perguntei sem acreditar que estava para perder meu emprego.

“Não se preocupe, eu vou encontrar outra coisa para você fazer. Mas seus dias na Guarda terminaram. Espere a transferência dentro de uma semana.”

“Senhor, mas eu só...” “Isso é tudo, filho, você pode sair agora.” Disse ele, sem nem me olhar.

Eu estava chateado. Mas se eu ia continuar recebendo sem ter que ficar parado na rua e lidar com turistas/criaturas bizarras, eu estava bem. 

A nova programação saiu e eu iria trabalhar só um turno naquela semana. Isso veio a calhar, porque eu deveria cuidar da minha sobrinha de 7 anos que viria me visitar de Birmingham, e eu já tinha planejado todo o fim de semana com ela.

A terça-feira chegou sem mais nenhum incidente com a vaca da boca escancarada. Minha namorada tinha finamente se acalmado. Ela voltou para Amsterdã naquela manhã e de bom humor. A vida estava voltando aos trilhos.

Meu turno naquele dia era das 18 às 22 horas em frente ao Palácio de St. James. Normalmente são dois guardas trabalhando ali, mas por qualquer razão, eu iria trabalhar sozinho das 21 às 22 horas. Aqui é como o local onde eu trabalhava se parece.

A pequena casinha de madeira é onde estaríamos de pé no caso de uma tempestade. “Ok, amigo, aguenta aí, está quase terminando” meu colega de guarda disse às 21h02 enquanto caminhava de volta para dentro.

“Mais uma hora. Mais uma hora dessa merda de trabalho e eu estou livre. Deus, como isso é bom...” Pensei enquanto continuava parado no meu posto. A noite estava excepcionalmente quieta, mas como estava começando a chover, pensei que era como o esperado. 21h30. Continuava garoando, continuava entediante. Quase lá, 21h45. A chuva continuava, então eu decidi passar os últimos minutos em meu posto.

Eu me virei.

E não deveria ter virado.

Ali estava ela.

Se eu fosse um escritor, eu usaria todas as ferramentas descritivas para pintar um retrato do quão horripilante aquela mulher estava naquela noite. Deixe-me dizer, foi a coisa mais aterrorizante que eu já vi, e eu já vi uma criança ser morta por uma mina terrestre.

A mulher estava parada na porta do meu posto. Ela estava vestindo um vestido branco que estava quase brilhando no escuro. Mas seu rosto, cara, seu rosto. Ela não estava olhando pra mim, o que, de certa forma, tornava isso ainda pior. Ela estava olhando para o céu ou qualquer coisa que estivesse lá em cima. Seus olhos foram tão longe que eu só podia ver uma parte de suas pupilas. Sua boca estava tão aberta, agora eu tinha quase certeza de que não era possível para um ser humano fazer isso.

Tem algo surreal sobre parar em frente a alguém que não age racionalmente. Tipo, se você está sendo assaltado, você sabe que eles querem seu dinheiro. Cara, se você leva um tiro, você sabe que eles estão tentando te matar. Mas o verdadeiro horror mental é não saber que merda ela queria de mim.

21h49. Ok, 11 minutos disso e eu finalmente...

Ela deu um passo em minha direção. E mais um. A mais ou menos dois passos de mim ela parou.

Ela começou se inclinar. Aquele cacete de inclinado. Seu rosto parou bem perto do meu. Primeiro sua cabeça começou tremer devagar, depois começou se mover incrivelmente rápido. Era um pequeno tipo de tremor, como eu disse antes, meio que como quando você sai do chuveiro para o quarto com ar condicionado e começa tremer. As pupilas estavam tão para cima, eu mal podia vê-las. Sua cabeça agora estava tão trêmula que eu imaginava como isso era possível. E a boca, cara, aquela boca estava tão anormalmente, tão inumanamente aberta. Juro que vi os cantos da boca começando a sangrar porque sua pele não era capaz de suportar aquela abertura.

Nenhum som.

A rua estava silenciosa, provavelmente o maior silêncio que já presenciei. E o pior é que era noite. Sei que faço muito isso, mas imagine mais uma vez – você está parado sem se mexer no meio da rua e ali está essa mulher com a boca escancarada e sangrando a dois centímetros do seu rosto, fazendo seja lá a merda que ela está fazendo, sem uma alma viva à vista. Sem nenhum som.

21h54.

Acaba logo.

Então, como se ela ouvisse meus pensamentos, suas pupilas desceram de volta e olharam direto pra mim. Eu quase dei um pulo. Ela fechou a boca, eu não acredito que estou dizendo isso, mas eu preferia que ela continuasse aberta. Sua mandíbula começou a abrir e fechar rapidamente, como se ela estivesse mordendo algo invisível. Seus dentes estavam batendo com tanta força que eu tinha certeza que iriam quebrar.

Era demais pra mim, não podia aguentar mais.

Dei um passo para trás e gritei “PARE ESSA MERDA JÁ!”

E ela parou. Parou de bater os dentes, boca fechada, ela voltou à posição normal sem se inclinar. Ela deu um passo na minha direção e, pela primeira vez, sorriu.

“4, 3, 2, 1, 4, 3, 2, 1, 4, 3, 2, 1” começou a sussurrar, sem perder o sorriso.

“O que é isso? Que merda é essa?” Eu supliquei. Estava pronto para agarrá-la, sacudi-la, qualquer coisa só por uma resposta. Que raio ela queria de mim, certo?

21h58.

“Que merda!” Veio de trás de mim.

Meu comandante.

Ele correu até mim, desconsiderando essa cadela louca na minha frente.

“Você falou com ela?”

“Eu...”

“VOCÊ FALOU COM ELA?” Ele berrou alto enquanto me agarrava pelo uniforme. Ele nem prestou atenção na mulher.

“Sim.”

“Jesus Cristo... Que número?” Disse enquanto finalmente me soltava.

“Senhor?” Disse confuso como você pode imaginar.

“Qual foi o último número que ela disse? Qual foi? Foi um zero?”

“Não, acho que ela parou no 1... Mas por que...?”

Todo esse tempo a mulher apenas continuou parada olhando para nós com um sorriso. Então deu um passo em nossa direção. Ela caminhou lentamente entre meu comandante e eu.

“Não diga nada a ela. Nem a porra de uma palavra” O comandante disse com um medo evidente em seu rosto.

A mulher virou de costas para mim e de frente para ele. Ela encarou seu rosto e até mesmo por trás eu podia ver sua boca sendo aberta.

“Vá, apenas vá” Disse ele olhando para mim. Ele estava evitando encará-la. Ouvi-a cerrando os dentes.

“Não posso deixar você” Disse.

“Vá e não volte. Eu cuido disso.”

Sabe, eu gosto de pensar que sou corajoso, mas naquele momento tudo o que eu queria era ir embora. Espero que você não me culpe por isso. Então comecei correr para longe.

“E nunca fale com ela novamente!” gritou o comandante enquanto eu fugia.

Agora eu sei que muito disso soa como besteira e você está certo, realmente é. Claro, olhando para trás agora, eu poderia ter a detido, inferno, e poderia até mesmo ter matado a cadela e assim estaria com o comandante. Mas quer saber? Quando você se encontra numa situação tão impossível quanto irreal como esta, você não age racionalmente, você não pensa logicamente como se estivesse numa situação normal. Eu fui para casa, tomei um banho gelado (depois de ter certeza que as portas estavam trancadas) e desmaiei na cama.

De manhã eu mandei uma mensagem para meu colega de turno pedindo para ver se o comandante estava bem e ele respondeu “Está, por que não estaria?”. Era tudo o que eu precisava saber, eu estava fora daquela vida.

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CONTINUA...

PARTE I AQUI.



11 comentários:

  1. esse conto é MUITO bom, é surreal o quanto eu fico curioso pela proxima parte, muito bom

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  2. continua ta muito legal
    Acaba uma parte e você fica com aquela gosto de mais

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  3. continua ta muito legal
    Acaba uma parte e você fica com aquela gosto de mais

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  4. Dá pra fazer um filme com isso... Eu diria que com certeza isso seria um filme de sucesso!

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  5. Só vim aqui pra dizer que este template ficou muito zuado.Eu que leio o blog pelo celular já não estou conseguindo acompanhar pois está uma bagunça só.

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  6. O foda é aguentar de curiosidade até a próxima parte sair. :l


    E sobre a mudança do blog, é meio chato não ter aquela coisinha que mostra as postagens recentes e o histórico (Isso tem nome? .-.). É bem melhor para ver os posts e coisas do tipo.

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  7. Melhor CreepyPasta dos ultimos tempos, sem duvida

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  8. Caraca, essa creepy tá dando um show em muitas que li nos últimos meses! :)
    Não vejo a hora de sair a terceira parte.

    E sim, o template está incrível no computador, mas pra celular está bem ruim. Fica difícil de ler os posts novos e também é meio irritante. Se puderem mudar só a parte mobile, seria ótimo! :)

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  9. Cara, muito boa essa, aposto que o comandante tah morto e quem tah no posto dele eh a mulher 'u' lendo a parte 3 em 321321321321321321

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  10. Cara, muito boa essa, aposto que o comandante tah morto e quem tah no posto dele eh a mulher 'u' lendo a parte 3 em 321321321321321321

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