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Eu era um soldado da Guarda Real - Parte III (FINAL)


Minha sobrinha veio para a cidade na sexta-feira e eu teria o fim de semana todo com ela. Correr atrás de uma criança de sete anos faz você perder a cabeça sem sobrar tempo para pensar numa mulher louca te assediando. Além disso, eu estava fora daquele trabalho – peguei a documentação de transferência naquela manhã.

Eu passei todo o dia levando a menina a diferentes lugares que ela gosta. Foi muito cansativo. Sábado eu preparei o café e passamos boa parte da manhã assistindo desenho animado. Depois nós colocamos o filme da Mulher Gato e minha sobrinha se vestiu como ela – por algum motivo ela a amava (o filme é um lixo completo). Acho que não estava acostumado a ter que cuidar de crianças, porque eu dormi no sofá, já exausto.

Minha sobrinha me acordou.

“Uki” disse ela (é como ela me chama) “Uki, vamos brincar.” Ela estava segurando meu velho par de walkie-talkies. Eu costumava amar aquilo quando criança, então não poderia dizer não a ela.

“Claro, vamos ver se essas coisas velhas funcionam. Vamos lá fora, eu quero checar o alcance dessas belezinhas.”

Seu rosto se iluminou enquanto ela corria para fora.

Eu liguei o walkie-talkie e comecei a mexer nele. O barulho de estática estava lá, o que significava que as baterias estavam funcionando, era só uma questão de encontrar a frequência certa.

“Ashley? Ashley, está me ouvindo? Câmbio.” Eu tentei algumas vezes.

Finalmente ouvi alguma coisa.

“Ashley, está me ouvindo? Repito, está me ouvindo? Câmbio.”

“Nero” foi tudo o que ouvi em baixo volume.

“Ashley, pirralha, você precisa dizer “câmbio” quando terminar.”

“N...e...ro” ouvi de novo.

“Que merda!” pensei. Com preguiça de ir para fora, tirei as baterias, soprei nelas, como se tivesse algum efeito, e as coloquei de volta.

“Ok, mulher gato, é o Nero, está ouvindo agora? Câmbio.”

“ZERO”

Derrubei o walkie-talkie.

Não era a voz da Ashley. Não era “Nero” o que eu tinha ouvido.

Ashley.

Corri para fora e imediatamente comecei a me odiar por deixar a menina sair sozinha. Ashley estava no quintal, segurando o rádio, apertando com força. À sua frente estava a mesma mulher, inclinando-se toda para baixo, em direção ao rosto de minha sobrinha.

“Zero, zero, zero, zero, zero” era o que a mulher repetia freneticamente para o rosto traumatizado de Ashley.

Sim, quando alguma aberração me incomoda eu consigo me controlar. Mas uma criança, minha sobrinha?

Perdi a cabeça. Corri em direção à mulher e a ataquei com tanta força que tive certeza que a machucaria. Assim que caí no chão me levantei e peguei Ashley. “Você está bem?” Eu gritei. “Ela tocou em você?” Eu nem sequer percebi o quanto a estava sacudindo, provavelmente a assustando ainda mais.

Ashley agora estava chorando tanto que não conseguia responder.

“Vamos entrar” Disse quando me virei para a mulher. Ela continuava caída no chão, o rosto virado para baixo. Assim que entramos em casa, fomos até a janela. A mulher começou a se levantar. Ela virou para nós.

“Estou chamando a polícia” Falei aterrorizado para Ashley enquanto pegava o celular. “Não se preocupe, meu amor, tudo vai ficar bem.”

A mulher deu um passo até a janela. E mais um. Seu nariz estava sangrando e ela estava visivelmente machucada porque estava mancando, mas isso não parecia a incomodar. 

Eu vou admitir, estava quase congelando com a descarga de adrenalina. Nós só ficamos na janela, observando a aberração se aproximar de nós.

“A polícia está a caminho” falei para minha sobrinha que continuava chorando.

A mulher andou até a janela.

Ela... Ela não estava mais olhando para mim. Ela se inclinou até o rosto de Ashley. A pobrezinha agarrou minha mão e estava apertando forte demais para uma menina de 7 anos. Aquela porra, vaca, mulher, o que quer que fosse, se inclinou toda para a janela. Somente o vidro separando ela e Ashley. Quando eu estava quase levando minha sobrinha para outro cômodo, longe dessa coisa, a mulher abriu a boca, mas imediatamente a fechou num sorriso. Isso de novo. Isso era tão impossivelmente estranho. Quando ela abria a boca, as pupilas iam para a parte de trás de sua cabeça, só para imediatamente voltar seguido com um sorriso. Agora ela estava inumanamente alternando entre um sorriso e uma boca escancarada combinada com olhos sem pupilas.

“Vamos sair daqui.” Falei para Ashley assim que a peguei e levei para meu quarto.

A polícia chegou 15 minutos depois. Eles começaram a varredura do bairro e realmente pegaram uma mulher que correspondia com a minha descrição. Eu tive que ir até a delegacia para reconhecê-la, mas primeiro eu tinha que deixar Ashley na estação de trem. Sua mãe queria que ela voltasse imediatamente depois do que aconteceu e eu não poderia culpá-la. Eu a levei até a estação, onde eu combinei com a equipe para ficar de olho nela até chegar a seu destino.

Um condutor muito agradável me prometeu que iria acompanhá-la por toda viagem. Ele pegou Ashley pela mão e lhe prometeu mostrar todas as partes legais do trem. Finalmente a garota sorriu.

Assim que o trem estava se preparando para partir, o condutor colocou minha sobrinha nas escadas. “Diga adeus para seu tio,” ele disse “estamos prestes a sair.”

“Tchau, Ashley, diga para a mamãe me ligar quando Você chegar, ok?”

Ela não respondeu, o que era compreensível. A criança provavelmente continuava terrivelmente assustada, porra, eu ainda estava assustado.

Quando no alto-falante informou que o embarque estava terminado, o condutor abriu a porta para que eles entrassem no trem. Entretanto, Ashley não se moveu. Ela olhou para o condutor.

“Vamos agora.” Disse ele.

Ashley abriu a boca, olhando para o homem.

“Nós temos que entrar agora, estamos quase começando o trajeto, querida.” Ele disse novamente. “Vamos.”

Assim que entrou no trem e Ashley o seguiu, ouvi-a dizer “10, 9, 8”.


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Estou planejando escrever sobre o que aconteceu com Ashley, em algum momento, embora sua família prefira que seja mantido privado.
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PARTE I AQUI

PARTE II AQUI