05/02/15

Sexto aniversário

Não consigo descrever como estou me sentido agora. O que estou vivenciando é tão irreal, que  fiquei convencido que finalmente fiquei louco.

Quase.

Minha mulher, Bea, morreu quando deu a luz. Ela era linda, engraçada, inteligente - mimada. Uma mulher cujo a risada era tão alta que jantar em restaurantes era um desafio, e a qual tinha o olhar era tão intenso que fazia minhas mãos tremerem. Eu a perdi quando ela deu a luz a nossa filha.

Sam.

Claro, eu poderia ter ressentido Sam. Por ter feito partir o que um dia fora meu de um jeito que nada mais seria. Por ter feito partir algo que era tão verdadeiro e puro. Mas não o fiz. Bea não ia querer que eu ficasse ressentido. Não ia querer que a vida da nossa única filha fosse arruinada por ódio.

Mas isso aqui não é sobre luto. Não é sobre o soco no estômago que é perder para sempre alguém que você amava. Isso é sobre algo muito mais sinistro.

Minha filha era muito animada, sempre correndo e gritando, saltando para cima e para baixo, escalando coisas. Então no seu aniversário de seis anos, uma ida ao cinema com suas amiguinhas a tinha deixado com tanta energia que eu mal conseguia acompanhá-la enquanto se desviava e corria pelas pessoas na calçada. Ocasionalmente parava no meio do mar de pessoas e falava "Vamos logo, papai!" em um tom que era quase petulante. Não podia fazer nada se não amá-la.

Tentei segurá-la, juro que tentei. Ela estava muito preocupada em olhar para mim quando atravessou a rua, e o ônibus não teve tempo para parar. Uma batida surda e então o mundo ficou silencioso. Eu segurei seu corpo quebrado em meus braços, muito anestesiado para chorar, muito agonizado para me mexer. Tudo que eu sentia era o sangue quente ensopando minhas roupas. No estado de choque em que fiquei, a única coisa em que passava na minha mente era como iria lavar minhas calças jeans. Soa terrível, eu sei - mas uma perda desse tipo rompe seus sentimentos e te deixa apenas com os pensamentos automáticos que nos torna humanos.

A semana seguinte foi um borrão. Não tenho nenhuma memória da época, a não ser de amigos e familiares dando suas condolências e meus soluços gemidos que podiam acontecer por qualquer motivo - o bater de uma porta, o barulho suave da geladeira ou as vozes na rádio.

Fui ao funeral todo vestido de preto. Por vestido não quero dizer só as roupas, mas toda a minha essência era negra. Não conseguia sentir nada, nem pensar; e o dia passou ao mesmo tempo em um segundo e em um século. Todos queriam me falar da Sam, de como era perfeita - que anjo que era, como se eu não soubesse. Como se eu não soubesse como minha filha era divina.

O homem, que se destacando de todo o resto, veio até mim e me entregou um grande livro de capa de couro. Na época achei que se tratava de algum pai de alguma amiga de Sam, me entregando uma coleção de fotos delas juntas. Ou talvez eu estivesse apenas muito anestesiado para processar as mãos geladas dele e como não mencionou minha filha nenhuma vez.

Por um mês fiquei perdido. Bebia e ficava em nosso apartamento sozinho, assistindo filmes velhos; estava tão entorpecido que nem chorava mais. Foi só quando minha irmã chegou, quando segurou minha mão e conversou comigo que comecei a sair da minha casca. Ela sentava e ouvia as coisas mais insanas que eu tinha a dizer, e gentilmente foi enxotando a depressão de mim. Não completamente, mas suficientemente para que eu começasse a viver de novo algo parecido com a vida real.

Foi ai que abri o livro. Decidi que lembraria de Sam por toda alegria que tinha distribuído, e estava preparado para refletir sobre sua vida sem me sentir miserável.

Abri a primeira página. Era um livro encadernado, cheio de fotos Polaroid da minha filha enquanto crescia. Franzi a testa. Elas eram tiradas de uma certa distância, levemente desfocadas - e eu estava em algumas delas.

Comecei a me sentir enjoado, mas esperei que as próximas fotos fornecessem explicações. Na minha cabeça fiz todo o tipo de pretextos de como esse homem tinha conseguido aquelas fotos, desesperado para ver os momentos da vida de minha filha sem me sentir agoniado. As fotos chegavam cada vez mais perto do dia do aniversário de seis anos da minha filha. Eu podia ver o dia que a dei uma pequena bicicleta em seu aniversário de cinco anos, e nos joelhos ralados que isso resultou. Os livros tinham tantas mais páginas, que assumi que estariam vazias.

Mas havia uma foto dela minutos antes do cinema em seu aniversário de seis anos - eu reconheci a capa de chuva que ela insistiu em usar, junto com minhas mãos em seus ombros.

Não havia fotos do acidente.

Ao invés disso a vida dela continuou dentro do livro. No aniversário de sete anos havia uma foto minha e dela no jardim, cobertos de tinta - com uma tela gigante no chão e uma pintura bem confusa. O aniversário de sete anos dela.

O aniversário de sete anos dela.

A realidade do que eu estava vendo me atingiu e fechei o livro com uma batida que soou por toda a casa. Fiquei lá sentado, na mesa da cozinha, olhando para a capa de couro. Devia ser algum tipo de photoshop, eu esperava. Alguém devia ter tido o tempo de fazer essa pegadinha horrível comigo. Digo que esperava porque eu não conseguia acreditar em nenhuma outra explicação. Se é que existia outra explicação.

Rangendo os dentes, decidi que não tinha nada a perder e abri o livro de novo.

Não consigo explicar as emoções que senti enquanto continuava a ver, ouvindo o barulho das páginas virando. Posso tentar, mas nada poderia preparar alguém para ver algo daquele tipo.

A vida dela continuava, mostrando ela perdendo seus dentes de leite, seus primeiros dias no colégio. Meu virar de página começou a ficar mais frenético e comecei a perceber uma coisa. O fotografo estava cada vez mais próximo. Mais perto dela. Enquanto crescia - não em todas as fotos, mas em termo geral - o fotógrafo estava cada vez mais próximo. Mais ousado, talvez.

Ela era linda. Estonteante. Enquanto adolescente era igual sua mãe, cheia de cachos e sorrisos. Eu envelhecia também, mas a cada foto que passava eu aparecia menos e menos.

O aniversário de dezesseis anos dela era estranho. Um grupo de amigos dela, sentados ao ar livre, bebendo de copos de plástico em um piquenique.  Mas havia algo no fundo. Perto dos arbustos do parque onde a foto foi tirada, estava uma figura sombria. Você não notaria ele, se não fosse pela pequena sombra que se formava na grama.  

Me encostei na cadeira por um momento e deixei o ar sair de meus pulmões. Era estranho demais. Estava tão preso em observar minha menininha crescer que mal parei para pensar como isso acabaria. Momentos como esses são tão surreais que você não se vê neles. Eu quase sentia como se eu estive me observando vendo aquilo, como se fosse em um sonho ou programa de televisão.

Continuei.

A figura sombria começou a ficar cada vez mais presente nas fotos. Eu já quase conseguia ver as feições. Sua presença era imponente, e enquanto folhava as páginas eu esperava vê-lo desaparecer. Mas ao invés disso, enquanto as fotografia chegavam perto dos seus dezoito anos (a cada aniversário aparecia uma legenda escrita "Outro ano" de baixo da Polaroid) ela não estava mais em qualquer lugar que eu conhecesse.

Em vez disso, as fotos eram dela em uma pequena casa obscura. O rosto dela estava coberto de medo, e fazia poses estranhas. As vezes ela estava vestida tipo uma rainha antiga outras vezes como uma faxineira, enquanto esfregava o chão. A figura estava bem perto agora. As pernas dele pernas ou seus braços apareciam em todas as fotos. Não importava como ela estivesse vestida, seu rosto sempre parecia estar em constante estado de dor e desespero. Isso estava me matando. Parecia muito magra, tipo doente.

Eu não conseguia mais.

Isso era doentio. Totalmente doentio.

Minha menina.

Continuei bravamente.

A última foto que vi antes de fechar o livro e jurar nunca mais abrir, era de seu aniversário de 18 anos. A legenda em baixo dizia "Finalmente!" em uma letra corrida.

Ela estava olhando diretamente para a câmera, chorando. Estava de joelhos, vestida com um vestido de gala preto - com uma maçã na boca e com os braços amarrados nas costas. A maquiagem estava arruinada pelas lágrimas. Como se estivesse pedindo piedade, implorando para que eu a ajudasse. Mas eu não podia.

Fechei o livro e sai da cozinha, meu corpo se contorcendo com o meu choro.

Eu não podia chamar a policia, claro. Ela estava morta.

Mas o que me deixa acordado a noite não foi o conteúdo que eu vi.




E sim que ainda existe muitas páginas para serem vistas.




18 comentários:

  1. O.O Sinistro,e interessante,dá vontade de saber mais

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  2. Acabo? Não vai ter continuação? A Creepy acaba assim?

    Foda-se o fato de um estranho ter dado uma coleção de fotos onde mostrava a filha dele crescendo mesmo estando morta, foda-se o fato de uma sombra estar seguindo a filha dele nessa coleção, foda-se o fato de ter um fotografo maniaco fotografando a vida toda dela, foda-se o fato de supostamente a filha dele ter se transformado em uma escrava até ter 18 anos e virar um escrava sexual da sombra sinistra que a seguia, foda-se o fato dessa caramba de coleção de fotos estar mostrando um futuro que não existiu, quer dizer que a creepy acaba assim? sem nenhuma explicação? e vamos morrer sem saber que merda foi que aconteceu nessa parada?

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    1. Calma, cara. Que rebeldia Huahsua' A gt tá na esperança de ainda postarem, quem sabe, a continuação.

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    2. Concordo. O final deixou muito a desejar.

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    3. Concordo. O final deixou muito a desejar.

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  3. Pera, pensando um pouco aqui comigo eu cheguei a uma conclusão, o cara que deu aquela coleção de fotos seria alguma criatura querendo tranquilizar ele mostrando que se a filha dele não tivesse morrido agora o futuro dele seria muito horrível, e que mata-la agora seria um ato de piedade para que ele não passa-se por tudo aquilo

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  4. Pera, pensando um pouco aqui comigo eu cheguei a uma conclusão, o cara que deu aquela coleção de fotos seria alguma criatura querendo tranquilizar ele mostrando que se a filha dele não tivesse morrido agora o futuro dele seria muito horrível, e que mata-la agora seria um ato de piedade para que ele não passa-se por tudo aquilo

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  5. Ou é atropelada no presente ou vira escrava sexual no futuro. Esse destino é uma merda, puta que pariu.

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  6. A morte é o melhor remédio, porque nela não há doença :)
    Acabei lembrando da Morte, de American horror story-Asylum. Ela era f*da.
    (CPBR está cumprindo as promessas, hein \o/)

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  7. Toda vez que eu recarrego a página aparece o vídeo de lavender town na tela O.O

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  8. ou morre ou vira escrava

    tá foda ser humano

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  9. ah, uma sugestão, não é melhor colocar o "ler mais" nos posts? é meio chato ir pra página inicial e ter que ficar rolando horrores de texto :\

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    1. Pse por isso q eu vejo as postagens no cell

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  10. Q destino cruel....por mais q o futuro mude....a dor n será evitada....
    (*_*)

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  11. Ele disse que ainda faltavam várias páginas.. Quem sabe ela não se vingou. Como naquele filme que a mina pega os caras que estupraram ela e joga um deles numa banheira com ácido..

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  12. To gostando de vê o CPBR voltando ao antigo padrão

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  13. Não saquei o fim... O brother que deu o álbum queria mostrar pra ele que a vida dela teria sido pior? Ou ele de algum jeito trouxe ela de volta só pra zuar com a vida dela?

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