28/03/15

Porque os mortos não falam


Minha tia era uma vigarista e ela aprendeu com o melhor – seu pai. Vovô nunca deu muita importância, mas vivia pelo jogo. Passar despercebido foi, provavelmente, o que assegurou que ele nunca fosse pego. Nem uma vez. Ele tinha muito orgulho disso.

Mamãe não assumiu os negócios da família. Em vez disso ela se tornou religiosa e casou-se com um contador. É tão irônico e soa como piada, mas é verdade; papai era o melhor me ajudando com os deveres de casa de matemática. As relações mais pitorescas da mamãe foram mantidas a um braço de distância durante toda minha infância para que não me corrompessem e eu seguisse um caminho de vida mais interessante.

Tia Cassie era a única que podia me influenciar. Ela era psicóloga, o que a tornava minimamente mais respeitável. Mas tia Cassie usava sua habilidade em ler pessoas de um jeito totalmente diferente, provavelmente não intencionada pela Universidade que emitiu o seu diploma.

Tia Cassie era uma autêntica psíquica.

Ela tinha uma loja e tudo. Cristais, ervas, velas. Tudo o que você precisa para preencher o vazio místico em sua vida poderia ser comprado em sua pequena loja. Havia até uma sala privada nos fundos que era usada para leituras e sessões espíritas.

Porque meus pais trabalhavam fora, algumas vezes eu era deixado na loja onde eu ajudava tia Cassie com seus pequenos shows. Eu fazia qualquer coisa, desde brincar com as luzes até bater nas paredes. Brincar com o termostato foi ideia minha e foi bastante eficaz. Clientes vinham para ter calafrios na espinha, não é? Por que não dar isso?

Cassie ajudou a me tornar o cético que sou hoje. Me mostrou os truques de bastidores. Nós assistíamos programas de TV com mágicos e médiuns e tia Cassie explicava cada passo, de uma leitura básica até como impressionar uma plateia inteira.

Depois de um episódio particularmente convincente, eu fiz a pergunta óbvia. Alguma dessas coisas poderia ser real? A resposta da minha tia era firme.

“Os mortos não falam, criança. Quem disser o contrário está fumando pela bunda.”

Era sua convicção, mais do que tudo, que me fazia acreditar nela.

Havia apenas um cliente que eu já vi minha tia recusar. Ele era velho, careca e corcunda. Tirou o chapéu quando entrou e torcia-o nas mãos enquanto falava. Cassie ficou tensa assim que o viu.

O homem alegava ter trabalhado no sistema penitenciário. Corredor da morte. Ele tinha sido responsável pela execução dos piores criminosos condenados do planeta. Em sua idade avançada isso o incomodava, devorava sua alma. Ele queria que Cassie entrasse em contato com as almas que ele havia matado para que pudesse pedir perdão, antes que se juntasse a eles.

Minha tia deu um chilique épico. Eu nunca tinha a visto tão enlouquecida. Ela gritou e jogou coisas gritando para ele sair SAIA SAIA SAIA CALA A BOCA E SAIA

Eu me escondi debaixo do balcão, com as mãos sobre os ouvidos, até que ele se foi. Mais tarde eu pensei que a reação dela era por causa do trabalho do homem. Um executor deve ser o pior medo de um vigarista.

Eventualmente eu descobri. Eu queria fazer um show de mágica para os meus pais e estupidamente pensei em me passar por um médium e fingir falar com meu avô para minha mãe, sabendo que ela sentia muita saudade. Grande erro. Mamãe ficou irada e me proibiu de ver sua irmã de novo.

Eu tinha deixado alguns livros na loja, então eu corri para pegá-los enquanto mamãe fumava do lado de fora do carro. Tia Cassie sequer perguntou o que estava errado. Ela podia ler meu rosto, depois de tudo. Eu dei-lhe um abraço e um adeus cheio de lágrimas. Mas ela me contou um último segredo.

“Criança, há uma maldição nesta família que é passada como uma tocha. Espero que qualquer deus que possa estar lá fora impeça que eu passe para você quando eu me for.”

Nós não conseguimos voltar a nos falar por nove anos. Foi quando o Facebook se popularizou e nenhuma proibição poderia me impedir de tentar contatá-la. Foi estranho. Ela tinha uma vida difícil, diagnosticada com um transtorno esquizofrênico que acabou com seus negócios. Para pagar as contas ela teve que trabalhar de verdade e com seu negócio, também se foram seu entusiasmo e paixão pela vida.

Um dia eu cheguei em casa e havia uma mensagem na minha caixa de entrada que fez meu estômago cair ao chão.

“Te amo, criança. Lembre-se do que eu te disse.”

Disquei o número dela, já chorando. Nenhuma resposta. O que não me impediu de discar de novo e de novo...

Eu estava muito atordoado para dizer a minha mãe. A polícia fez isso por mim no dia seguinte. Acidente de carro. Motorista bêbado.

O funeral foi um borrão. Parentes que eu nunca tinha visto em carne e osso lotando a igreja. Sentei transtornado entre meus pais na primeira fila, meu cérebro tentando descobrir o que era que minha tia queria que eu lembrasse.

Seguimos o cortejo fúnebre para o cemitério em um silêncio mortal. O padre deu suas últimas palavras e então fui deixado sozinho em sua lápide, ainda me esforçando para lembrar. Trechos de conversas dos meus pais flutuavam dentro e fora de minha atenção. Se apenas Cassie não tivesse sido tão enigmática.

“- esperando uma pequena participação. É uma vergonha.”

Pequena participação? Isso me incomodou. A igreja tinha ficado praticamente lotada. Me virei para dizer alguma coisa e finalmente compreendi.

Atrás dos meus pais havia uma série de pessoas, todos de pé olhando o morto a frente. Meus pais não estavam prestando a menor atenção neles. O padre murmurou condolências e se desculpou, andando bem no meio da multidão, sem perturbar uma única alma.

À frente do grupo, exatamente como o dia em que a vi pela última vez, estava Cassie. Todos os “descanse em paz” do mundo não teriam feito a ela bem algum. Sua boca estava aberta, escancarada e foi assim que soube. Sei qual era a maldição da família. Sei porque os mortos não falam. Eles estão ocupados demais gritando.





10 comentários:

  1. Se alguem fumar pela bunda vai escutar os mortos

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  2. Gnt ficou parecendo com aquele filme ( esqueci o nome) q tipo a mulher falava "passa pro david" ai o demonio gritava e pa kk / mas essa creepy ta boa

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  3. com certeza quem inventou essa creepy fuma pela bunda (muito louca')

    *alguém me explica pf?

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  4. Pra quem não entendeu: A maldição era ver pessoas mortas. Ele viu a tia dele gritando ( o fantasma dela na verdade ) por isso ele disse que mortos não falam, pois eles estão ocupados demais gritando.

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