31/03/15

Sr. Dentes

As pessoas ás vezes me perguntam qual é a minha primeira memória. Inevitavelmente, eu minto, tentando evitar a explicação que consequentemente tem que vir com a verdade.

Talvez, de agora em diante, se alguém casualmente me perguntar “Qual é a sua primeira memória?” Eu pegarei minha mochila, onde terão cópias dessa história, e apenas darei para eles. Quando eles lerem, suas faces se contorcerão em confusão, com um toque de preocupação, e finalmente o que eu chamaria de verdadeiro medo.

Mas por enquanto, eu digo ás pessoas que o que eu me lembro é de estar parado em frente á janela da cozinha, mais precisamente em um canto, um pouco empoeirado, e de lá, poder enxergar os troncos tortos de uma árvore na rua.

Essa é realmente uma memória real, mas não é a primeira. Se você quer saber qual é, aqui vai:

Houve uma série de incidentes na cidade que eu cresci durante o verão de 1989 – e com incidentes eu quis dizer assassinatos –. E eu não estou falando de brigas de bar idiotas ou estúpidas vinganças de famílias. Não. Os eventos que aconteceram em Middleton foram muito mais horríveis, e talvez ainda mais porque as vítimas foram crianças.

Não entendi muito bem o que aconteceu em Middleton naquela época, pessoas tomando sorvetes e gotas rosa caindo pelo asfalto ou homens idosos sentados em cadeiras de balanço. Minha família e amigos da minha família me contaram esses detalhes preciosos, e todos eles, até hoje, dizem que aquele foi o verão mais quente que eles já viveram.

E como se isso já não fosse suficiente, em alguns dias todas as casas ficavam sem energia, devido á problemas em Salem, e como resultado, toda a cidade acabava ficando sem ar condicionado. Pequenos ventiladores portáteis eram comprados praticamente todos os dias, e revistas e jornais não foram lidos naquele verão, pois sua única serventia era abanar as pessoas. Quando estávamos sem energia, o único lugar onde havia ar condicionado eram os carros.

Lembro dos meus parentes me contando que os amigos e vizinhos deles passavam grande parte do dia trancados dentro do carro, com as janelas fechadas, bebendo cervejas e ouvindo ao rádio. Ás vezes, essa era a única solução para a umidade e o calor.

E por causa disso, quando as mães saiam para fazer compras, era impossível fazer as crianças saírem dos carros, afinal, as lojas estariam tão quentes quanto o estacionamento, e o melhor lugar de estar, era realmente o carro.

Com isso em mente, você pode entender como o “Senhor Dentes” (esse foi o nome que deram pra ele nos jornais) fazia suas escolhas. Ele sabia que em qualquer mercado ou shopping, haveria no mínimo três ou quatro carros com crianças dentro.

Em um dos carros, no dia 3 de Junho, estava sentado Jeremy Hagger. Um garoto sardento de oito anos de idade, com um grande interesse em desenhos animados.  Quando a mãe dele retornou ao carro acabou encontrando o boneco do Darth Vader do filho no banco traseiro e a porta, também traseira, aberta.

Jornais e mais jornais falaram do desaparecimento do menino ao longo da semana, e então, um homem reportou algo sobre um corpo na reserva. Não demorou muito até que encontraram o corpo de Jeremy na água marrom e o levaram para o necrotério, onde os médicos perceberam que havia marcas de dentes nos braços e pescoço do menino.

A 2ª vítima foi Amanda DeMiller, de sete anos de idade que havia dormido no caminho de volta do Shopping com a mãe, no dia 18 de Julho. Britta DeMiller, a mãe da garota, disse á polícia que como a casa estava quente demais ela havia deixado Amanda dormir no banco de trás, com as janelas abertas, onde estava mais confortável e fresco. A mãe da garota olhou da janela e então percebeu que Amanda não estava mais no banco de trás. A família e amigos procuraram por ela nas florestas de Middleton. Vizinhos foram separados em grupos, e o Sr. e a Sra. De Miller foram de casa em casa tentando saber do paradeiro da filha.

Após três dias de busca, um garoto achou Amanda na casa da árvore dele. O pescoço dela estava roxo, devido á asfixia, e haviam marcas de mordidas em todo o corpo dela. Os sapatos estavam trocados... Enfim, e assim a história seguiu.

Isso me trás á minha primeira memória. Meus pais disseram que isso se passou provavelmente na quarta semana de Agosto. Um mês depois que Amanda DeMiller desapareceu, mas ninguém havia sido preso. As pessoas na cidade estavam bastante tensas...

Foi numa tarde e eu estava sentado no carro da minha mãe, que estava estacionado no mercadinho do Henry. Eu lembro que tinha dois carros estacionados ao lado e em frente ao nosso. A música tocava calmamente no rádio, Madonna talvez? E minhas mãos estavam grudentas de tanto comer doces. Você pode estar se perguntando, como, mesmo depois de todo o horror que aconteceu em Middleton minha mãe ainda me deixava no carro sozinho. Mas o fato é que, ela não deixou. Meu irmão mais velho, Stephen (Que tinha 12 anos de idade na época) havia sido designado como meu guardião temporário enquanto ela foi ao mercado. E foi esse exatamente “guardião” que decidiu que aquela seria uma ótima hora para correr até a livraria mais próxima e comprar algumas figurinhas, me lembro de o ver saindo do carro consigo ouvir a voz dele dizendo “Não vá á lugar algum!”

Então lá eu fiquei, esperando que um ou os dois membros da minha família retornassem, e foi nessa hora que eu o vi e essa é a parte mais clara que eu tenho daquele dia na minha cabeça.

O céu estava rosa e roxo e eu podia ver pelo retrovisor que as luzes dos postes iluminavam grande parte da rua, não lembro a hora exata, mas provavelmente não passava muito das 7 da noite. Eu me lembro de o ver, parado lá, pelo menos a uns 15 metros de distância do carro, e quase instantaneamente a música do rádio simplesmente cessou pra mim, assim como qualquer outro barulho na rua.

Parado e em silencio eu encarei aquela figura abaixo do céu rosa e roxo. Havia uma franja negra caindo sob seu rosto, e eu só pude ver um único olho, e me lembrava de luzes verdes fluorescentes. Por um momento achei que ele estivesse sério, ou até mesmo emburrado, mas quando suspendeu seu rosto pude ver que ele esboçava um sorriso.

Ele deve ter ficado parado por pelo menos um longo minuto enquanto eu o encarava, então, olhou ao redor e um segundo depois começou a se aproximar, nunca tirando seus olhos dos meus, e assim que finalmente chegou perto, olhou ao redor mais uma vez, tentando abrir a porta do carro.

“Abra a porta.” Ele disse, olhando pra mim.

Eu apenas o encarei sem dizer nada.

“Abra.” Ele falou novamente.

Seus longos dedos esqueléticos começaram a dançar na minha janela, batendo aqui e ali. Ele se abaixou até ficar na mesma direção que eu e começou a brincar com seus dedos, tentando chamar a minha atenção. Seus dedos sujos lembravam grandes aranhas quando estavam brigando, então ele olhou pra mim e riu, rosnando e assoviando praticamente ao mesmo tempo.

Enquanto ele sorria a boca dele se abriu e eu não pude deixar de encarar os grandes dentes amarelos. Aqueles foram, até hoje, os maiores dentes que eu já vi. Havia espaços entre eles e ás vezes quando eu me lembro, imagino algumas teclas sujas de piano.

Ele ainda parecia bastante focado em brincar com seus dedos, até perceber que uma das minhas janelas tinha uma pequena abertura, e então, sorriu novamente com aqueles dentes horríveis e levou uma das mãos até o espaço aberto. Eu estava praticamente chorando naquele momento.

Ele tentava contorcer seus dedos na entrada, e eu pude sentir o cheiro de roupa suja e sangue vindo dele.

“Ah, qual é? Abre a porta!” Ele disse com uma voz chorosa e triste. “Abre!” Ele continuou repetindo essa palavra umas doze vezes seguidas e cada uma soava de forma diferente.

Em um momento de sorte, uma mulher que havia estacionado no carro ao lado do nosso, retornou com seus quatro e barulhentos filhos. Quando a viu, o Sr. Dentes começou a se afastar do carro, praticamente correndo no estacionamento, mas não antes de olhar sob os ombros, ainda sorrindo e me observando até sair de vista.

A memória acaba ali. Depois me explicaram que meu irmão retornou ao carro e me encontrou chorando histericamente. Não importa o quanto ele me disse pra me acalmar do lado de fora do carro, eu não conseguia abrir a porta.  Minha mãe retornou um momento depois, e ela disse que a única coisa que eu conseguia falar era “Tinha um homem aqui.” e eu apenas continuei repetindo isso nas horas seguidas. “Tinha um homem aqui.”

Mas... Assim como o calor, o homem que cometia os assassinatos (Identificado como Raymond Sandler, 29 anos de idade) foi pego depois de atacar uma menina em um parque de diversões, durante sua festa de aniversário. Ele aparentemente havia obrigado ela a entrar em um carro vermelho, durante uma briga em um posto de gasolina... Os empregados chamaram e polícia e o carro foi finalmente encontrado alguns quilômetros depois.

Enquanto isso eu tentava ver as semelhanças entre o homem no estacionamento e o Sr. Dentes, enquanto observava o jornal do meu pai na mesa um dia depois da prisão do Sr. Sandler. Lá, em uma foto tremida e grande, estava estampado o rosto que eu vi centímetros do meu, dias atrás, separado apenas por um pedaço de vidro.

Aparentemente, naquele dia não fui pra escola. Depois de ver aquela foto, eu não conseguia parar de gritar.

Sabendo que eu quase fui uma vítima, minha família e as pessoas de Middleton não iam me dizer nada sobre o assassino mesmo se eu ficasse interessado, anos depois. Acho que eles não queriam me deixar pior do que eu já estava.

Então, no ensino médio, eu fiz a minha própria pesquisa. Entendi que ele ficou conhecido como Sr. Dentes porque mordia a pele de suas vítimas e ele matava as vítimas – em 90% dos casos – por estrangulação. Ele foi diagnosticado com Esquizofrenia, e estava sempre delirando, e assim, seu registro estava sempre mudando.

Cada vez que ele confessava sobre os assassinatos cometidos, os números aumentavam e eu também notei na pesquisa que o verão era a época de “caça” dele. Alguns especulavam que era por causa do fácil acesso ás crianças porque ficavam sozinhas no carro, e outros sugeriam que o verão simplesmente despertava algo no Sr. Sandler. Algo que adormecia entre o inverno e o outono, e então simplesmente acordava quando o sol estava muito quente.

Quem sabe?

Os anos tem tornado a memória mais suportável. Eu tenho quase 40 anos agora e quando não penso naquele sorriso maligno durante o dia, acordo á noite depois de um pesadelo. Geralmente nos meses mais quentes.

Um dia, uma das minhas filhas (que não sabem nada sobre o verão de 1989) pode me perguntar, “Ei, pai, qual sua primeira memória?” E eu posso contar a elas sobre o tempo que eu passava na cozinha, encarando a os troncos das árvores que estavam na rua. Ou talvez eu apenas diga: “Dentes. Eu me lembro de dentes.”




13 comentários:

  1. Gostei, mas tem muito erro de português (desculpa, sou chata com essas coisas)

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  2. como alguem consegue ler uma creepy boa dessas e prestar atenção em qualquer erro de portugues, pelo amor de deus, deve ser muito doente

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  3. Queria ver o céu rosa e roxo, num finzinho de tarde qualquer... Seria tão lindo :)

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  4. Thiago dizem que em middleton no verao tem um céu assim
    Muahaha

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  5. Creepy fantástica! Sensacional mesmo!!

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  6. #partiumiddleton #verocéu #depoisvoltar XD

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  7. Posso estar sendo burrinha, mas.. Existiam ar condicionados nos carros em 1989? Isso me incomodou a creepy inteira kkkk

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  8. na verdade o primeiro carro com ar condicionado foi lançado em 1939
    (excelente creepy.. detalhada mas não muito longa nem maçante.. Gostei!!)

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  9. Muito boa apesar de não dar aquele arrepio ma nuca no final como os contos antigos davam.

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