13/04/15

Sob o Gelo

06h52min

Outro pesadelo; acordei em uma piscina de suor, meu coração batia forte e minha cabeça doía de forma anormal. Vi o sol pela janela e percebi que ele havia começado a nascer há pouco tempo, fazendo com que os demônios e a escuridão da noite voltassem de onde eles tinham vindo. A sombra cobria meu quarto como se fosse uma jaula. Eu sentei, achei meu relógio no criado-mudo e coloquei no pulso.

Peguei meu rifle que estava debaixo da cama, fazendo com que uma garrafa quase vazia de uísque caísse no chão. Isso explica a dor de cabeça...

Alcancei a garrafa e a joguei no lixo um momento depois, percebendo que seja lá o que eu tenha feito na noite passada, estava esquecido a partir de agora. Comecei a polir minha arma calmamente, e a contar os segundos, acompanhando meu relógio. Isso é monótono, eu sei... Mas me acalma. É parte da minha rotina.

Minha rotina me mantém vivo.

Minha rotina me mantém são.  

Coloquei a arma ao meu lado e olhei para a janela, enquanto o sol escalava as montanhas com seus raios amarelos. É uma manhã calma... Mas mesmo assim, eu não podia aproveitá-la.

Não consigo tirar a minha atenção do meu sonho; as pessoas costumam me dizer que elas não conseguem se lembrar dos sonhos delas, mas não eu. Meus sonhos ficam gravados no meu cérebro como um filme, esperando para aparecer assim que eu consigo um momento de paz.

Estava escuro e eu estava me escondendo, de que? Não sei. Mas eu sabia que estava lá, eu podia sentir seu cheiro diferenciado. Eu podia ouvir seus pesados e lentos passos. Fechei os olhos, na esperança de que isso fosse me proteger...

Consegui ouvir os passos cada vez mais próximos até que eu simplesmente não escutei mais nada, e, pensando que o pior havia passado, abri meus olhos. Na minha frente estava uma figura – uma mulher – sua face fina estava coberta com longos e molhados fios de cabelo, eu não conseguia ver os olhos dela, mas sabia que ela podia me ver.

Então eu acordei.

Não consigo me lembrar da última vez que tive um sonho agradável, merda... Não acho que em algum momento da minha vida eu tenha sonhado com algo agradável. Quando eu era mais novo, morria de medo do escuro e acordaria gritando á noite. Minha mãe ia ao meu quarto, na tentativa de me acalmar, e me dizia para focar apenas no som da sua voz.

Ela me dizia para pensar em coisas boas, e que essas coisas boas, fariam com que meus pesadelos nunca mais voltassem.

Isso nunca funcionou.

Coisas boas não vinham á minha mente tão fácil assim, então, os pesadelos sempre prevaleciam.

Mas eu não acho que isso seja uma coisa ruim... Nunca entendi o termo “bons sonhos”. Isso aumenta demais a expectativa das pessoas, e pesadelos te mantém realista, com os pés no chão, preparado antecipadamente pra qualquer coisa!

A vida pode ser terrível, mas as merdas que acontecem contigo nunca se igualariam ás que acontecem nos teus sonhos.

Pelo menos é isso que eu digo á mim mesmo.

08h24min

Eu fiz um café da manhã rápido, carne de coelho, uma porção pequena, eu sabia que isso não me sustentaria até o outro dia, então, se eu quisesse jantar, precisaria caçar outro.

Olhei para o meu relógio novamente, tentando cronometrar o dia, se eu saísse agora, ainda conseguiria cortar lenha antes do pôr do sol. Entre tentar ficar aquecido e cozinhar algo ontem, acabei não fazendo muita coisa antes do anoitecer, e se tinha alguma coisa pior do que uma noite fria nas montanhas, seria uma noite fria no escuro e com fome.

A mente começa a vaguear quando você é deixado sozinho na noite, se enche de escuridão, e de qualquer coisa que encontra, e na maioria das vezes, te mostra as coisas que você menos quer ver.

Peguei meu casaco e meu rifle e andei em direção a porta; assim que abri, pude sentir o vento congelante invadindo o lugar e meu rosto, o que me fez perceber que se eu não quisesse morrer congelado, teria que ir e voltar o mais rápido possível. Minhas antigas pegadas criaram um caminho na neve, por causa da minha última aventura na floresta. Eu as segui, pisando exatamente nas mesmas marcas do dia anterior; cada pegada esmagava a neve, fazendo com que o silencio ao meu redor, se enchesse de eco.

A floresta escondia o pequeno terreno onde minha cabine ficava; as árvores eram imensas e atrás delas, as montanhas tomavam lugar... Mas atrás das montanhas... Eu não sei. Não me importo. Esse grande pedaço cheio de neve é minha casa, meu reino.

Eu mantenho o mundo exterior longe de mim, e ele faz o mesmo. É um inexplicável pacto que continua me servindo muito bem nesses três últimos anos. Eu detesto o mundo que eu deixei para trás – todos os dias eu me via perto de pessoas que eu não conseguia aturar – era demais pra mim. Eu não me lembro exatamente quando percebi que não aguentava mais, mas um dia, eu simplesmente soube, e eu tive que sair enquanto pude... Enquanto havia algum resquício de sanidade em mim.

12h31min

Olhei pro meu relógio e depois para o sol, em meio ao emaranhado dos galhos. Estou nessa trilha de merda há três horas, seguindo-a incansavelmente por esse labirinto de árvores. Toda vez que consigo uma boa mira, o bastardo resolve se mexer! Eu o segui até o penhasco, e me escondi atrás de uma árvore caída; apoiando meu cotovelo em um galho, sujo e molhado, esperando que ele em algum momento cansasse de correr e me desse uma trégua dessa perseguição.

Já estou aqui há algum tempo, mas caça exige isso. Calma. Muita calma. Porém, estou acostumado. Quando você tem uma vida como a minha, paciência é uma grande parte dos seus dias. Amanhã talvez eu resolva caminhar e passar na casa do Harry com uma lista de coisas que estão faltando aqui, e talvez eu até construa algumas armadilhas. Faria a caça ser muito mais fácil, e eu poderia usar o tempo livre para me ocupar de outras maneiras... Mas, eu nunca me importei com o fato de ter que caçar; tenho certa satisfação em cozinhar um animal que eu mesmo cacei, só esse pensamento faz meu estômago roncar.

Pelo menos ele parou de se mexer, tento mirar no seu pequeno e gordo corpo, quando vejo algo no canto dos meus olhos. Por baixo da camada grossa de neve, vi algo borrado, que me lembrava uma sombra, se mexendo calmamente. Eu andei por essas florestas vezes suficiente pra saber que ninguém mais mora por aqui, então, o que é aquilo? Tentei me convencer de que era um tronco, mas, se mexia demais; Era algo vivo.

Meus olhos encararam a frente novamente, o coelho havia desaparecido. Eu me distraí por um momento e agora ele havia sumido! Soquei o tronco no qual estava apoiado, machucando um pouco a mão.

NÃO.

Não posso deixar isso me atingir assim, eu demoro muito pra me acalmar depois que me aborreço. Se eu ficar com raiva, nunca mais conseguirei focar novamente e não poderei pegar esse merdinha. Caminhei até o lugar que ele estava e tentei achar as pegadas que ele provavelmente havia deixado e a sombra abaixo do gelo se mexeu novamente.

Eu podia ver claramente, era uma grande silhueta, praticamente dançando embaixo do gelo. Abaixei a arma e me aproximei, percebendo que a forma era praticamente... Humana. Tentei enxergar pelo gelo, mas não havia onde eu pudesse ver, a camada era muito grossa. Nada sobreviveria ali; coloquei um pouco do meu peso sobre o gelo, estava sólido, talvez estivesse seguro e eu pudesse andar em cima.  Passo a passo eu comecei a me aproximar da figura que certamente era humana.

Isso é impossível... Como chegou lá embaixo? Como está vivo?

Fiquei de joelhos e tirei o excesso de neve que descansava ali, uma mão estava pressionada do outro lado. Uma fina e frágil mão. A mão de uma mulher; ela tinha uma marca de anel, e a julgar pelo dedo, presumi que era de uma aliança. Coloquei minha mão no gelo para encontrar a dela, pensando em um jeito de conseguir tirá-la dali. Olhei ao redor e não achei nenhuma pedra pra quebrar o gelo.

Levantei por um momento e depois que percebi, estava abaixo do gelo, sentindo a água fria tocando-me.

A temperatura estava tão fria que queimou minha pele no primeiro toque, meu corpo inteiro simplesmente parou e eu comecei a afundar, mas não demorou muito até que minha mente percebesse o que havia acontecido e foi nesse momento que meus braços involuntariamente começaram a se mexer, tentando me colocar pra cima.

De alguma forma eu alcancei o topo, me apoiei no gelo que ainda estava lá e coloquei todo meu peso nos cotovelos, numa tentativa de sair de uma vez dali. O vento gelado parecia sol de verão comparado com a água que eu havia nadado segundos atrás.

Eu deitei parado, depois de finalmente conseguir sair, e encarei o céu, tentando respirar calmamente. Minha cabeça ainda girava e meu cérebro ainda parecia congelado, como se ainda estivesse imerso naquelas águas.

A mulher. O que aconteceu com ela? Levantei e olhei para o buraco onde havia caído, ela não estava mais lá. Ótimo. Isso é exatamente o que eu precisava. Sem comida e agora essa mulher desaparece.

Levantei novamente, temendo que o gelo fosse quebrar mais uma vez e comecei a andar em direção a minha cabana, e pude, imediatamente, sentir a diferença assim que pisei em um chão realmente sólido, mesmo estando com as botas encharcadas. Eu precisava tirar as roupas antes que eu ficasse doente ou tivesse hipotermia.

Eu quase tive hipotermia quando me mudei pra cá, e não é o tipo de experiência que eu gostaria de ter novamente.

Peguei minha arma e comecei a andar em direção ás minhas próprias pegadas, seguindo-as de volta pra casa. Aquele maldito coelho. O odeio por me trazer até aqui. Amanhã, eu vou matar aquele merdinha e vou ter a refeição mais satisfatória da minha vida.

Não consegui parar de pensar na mulher enquanto eu andava pelas árvores, eu tentei me convencer de que minha frustração e fome fizeram com que eu tivesse uma ilusão. Fizeram-me ver coisas que não estavam lá. Mas algo sobre ela parecia conhecido; aquela mão, aqueles dedos e aquela marca anel. Tão estranho, mas ao mesmo tempo, tão familiar.

16h15min

De alguma forma eu cheguei em casa, realmente não sei como consegui. Depois de meia hora caminhando na neve, comecei a parar repetidamente por cansaço. Queria deitar lá, e esperar que o frio me consumisse.

Mas algo sobre morrer ali parecia estranho; como se eu tivesse desistido. Eu não queria morrer desse jeito.

Em uma época da sua vida, a morte é algo que você não conhece. É algo que você sabe que existe, e que você imagina que pode acontecer, mas ainda é só fantasia. Algo que ainda está fora de alcance, que não aconteceria tão cedo com você.

E então, ela simplesmente chega. E é como uma visita inoportuna que se recusa á sair da sua casa. Infiltra-se na sua pele. Você não pode vê-la, mas sabe que ela está lá, pelo resto da sua vida, mesmo que o resto seja curto, ela espera pacientemente até que consiga te alcançar de todas as maneiras possíveis.

Coloquei minha arma embaixo da cama e minhas roupas molhadas próximo á lareira; ainda estava queimando, mas eu sabia que não ia durar muito. Também não estava me aquecendo como eu queria, mas eu sabia que as roupas iriam secar.

Sentei-me e observei o fogo, e lentamente, o frio começou a passar. No começo, a mudança brusca de temperatura me incomodou, mas eu ignorei e logo a temperatura voltou ao normal e o incomodo passou.

Depois de estar quase completamente seco, sai de casa e observei o céu. Eu tinha pelo menos uma ou duas horas até o pôr do sol, então, andei até o outro lado da cabine e peguei meu machado.

Mesmo que cortar lenha seja uma atividade cansativa, é o tipo de cansaço que eu aprecio. Quando eu fico tenso por causa de um dia ruim, eu uso isso para descontrair; e hoje foi um péssimo dia.

É bom sentir a madeira do machado em minhas mãos.

Aproximei o machado da minha cabeça e com um só movimento cortei a lenha, partindo-a em duas.

Tão satisfatório.

 18h02min

Uísque me aqueceu de um jeito que só o álcool conseguiria fazer, o sol já se pôs e minha casa está cheia de luz laranja florescente. Observei a lareira, enquanto o fogo devorava as toras que eu havia cortado. As chamas ficavam cada vez mais fortes assim que a lenha ficava mais fraca, e, eventualmente, tudo que vai restar é cinza; tanto da lenha quanto das chamas.

Tomei mais um gole do uísque e sorri enquanto a ideia de ciclo infinito pairava na minha cabeça. Eu geralmente tento economizar minhas bebidas para ocasiões importantes (Por exemplo: quando eu posso apreciar propriamente uma boa comida); mas eu tive um dia longo e eu simplesmente não me importo. Continuo enchendo minha boca com o líquido e depois engolindo, sinto minha garganta queimar como o inferno enquanto desce, porém logo a sensação passa.

Está tarde.

A garrafa está praticamente vazia, eu provavelmente deveria ter parado há algum tempo atrás, mas eu não me importei. Eu merecia um trato depois da merda de dia que tive. É possível até dizer que eu esteja curado; eu ainda me lembro de quando eu costumava beber desse jeito na cidade, depois de uma semana longa de trabalho, os Sábados eram os dias que eu passava com a cara enfiada em algum bar com copos e mais copos de uísque nas mãos.

Os bares eram barulhentos e as pessoas eram chatas, mas eu podia ficar bêbado sem ter ninguém pra me notar, e de alguma forma, eu conseguia chegar em casa – derrubando algumas coisas no caminho – e logo depois, parando na cama.

Tudo parecia se mover enquanto eu levantava e começava a andar em direção á cozinha, eu tento me apoiar na mesa e dizer para mim mesmo que preciso parar, e que se eu não parar, eu vou vomitar.

Apoiei-me na pia e liguei a torneira, aproximando meu rosto da água fria que me acalmou e a fez a tontura diminuir gradativamente.

Parei por um momento e observei a janela. Por que eu decidi vir morar aqui sozinho? Eu sei que tudo que eu preciso é á mim mesmo, mas ás vezes, eu fico um pouco solitário.

As nuvens estavam pesadas em volta da lua, fazendo com que a cabine fosse a única fonte de luz. Foquei na escuridão e senti o pavor tomar conta de mim subitamente. Tem alguma coisa lá fora, e apesar de logo de cara achar que estava vendo coisas, comecei a vê-la se mover novamente, vindo em direção á cabine.

Pressionei meu nariz contra o vidro da janela e disse á mim mesmo que era apenas um lobo ou algo do tipo, mas a forma era humana.

Uma mulher estava parada lá fora. Seu cabelo era longo e cobria parte do seu rosto, e ela usava uma longa e branca camisola, completamente molhada;

Ela era a mulher que estava sob o gelo.

Ela não se movia mais, apenas ficou parada ali, olhando para os próprios pés. Meus olhos foram atraídos pela mão esquerda dela, não pude deixar de lembrar daquela mesma mão apoiada no gelo mais cedo. Pálida, magra e... A marca do anel.

Olhei para o rosto dela novamente e agora ela estava me encarando de volta. Seu olhar atravessava os fios rebeldes de cabelo e chegavam diretamente á mim; eu não sabia o que estava sentindo, mas sabia que nunca havia sentido aquilo na minha vida.

Por um momento, balancei os braços, esperando que ela se assustasse e fosse embora ou simplesmente olhasse para outro lugar, mas ela não o fez.

Eu não podia aguentar mais aquilo. Saí da cozinha rapidamente, passei pela sala e entrei no quarto. Eu só precisava de algumas horas de sono, amanhã isso vai embora e eu posso voltar a fazer as coisas normalmente.

Minha cabeça doía, e o quarto parecia girar ao meu redor; olhei para a minha cama, e numa tentativa falha de deitar, acabei caindo de mau jeito e batendo minha cabeça no chão. A dor me atingiu rapidamente, o que me fez grunhir e abrir meus olhos, tentando focar em algo novamente.

Debaixo da minha cama havia vários papéis com recados do Harry. O efeito da minha queda começou a passar e eu vi as palavras “polícia” e “suspeito” em um deles. Que merda é essa?

Agarrei o papel e comecei a desamassá-lo, logo de primeira não consegui ler, mas depois de esfregar os olhos algumas vezes e com muito esforço consegui entender.

Espero que você esteja bem. A polícia me fez algumas perguntas e eles suspeitaram de algo por um tempo, mas eu acho que estamos livres disso agora. Não precisa mais se preocupar, eles não vão te achar aí. Espero que esses suprimentos durem até o mês que vem.
- Harry

Polícia? Do que ele está falando?

Abri outro recado.

Achei que você fosse me responder, está tudo bem? Estou preocupado. Depois do que aconteceu, espero que você esteja bem aí sozinho.
- Harry

Minha cabeça começou a rodar novamente. Do que ele estava falando? Depois de que? Por que ele estaria preocupado? O que está acontecendo?

Agarrei outro papel e comecei a ler.

Realmente queria que você me respondesse. Não sei como você está se saindo sozinho aí, talvez eu pudesse te fazer companhia se você precisar. Eu só estou preocupado com o que você pode estar fazendo a si mesmo. Desculpe-me por trazer isso á tona, mas, um cara não pode simplesmente afogar sua mulher e fugir como se nada tivesse acontecido. Sério, você pode falar comigo sobre isso, por favor, deixe-me saber como você está!

Do que ele estava falando? Isso só pode ser algum tipo de brincadeira.

Joguei os papéis embaixo da cama novamente.

Eu nunca havia me casado e com certeza não tinha matado ninguém.

Também não estava me escondendo. Estou aqui porque quero estar, eu preciso estar isolado. Não preciso? Estou tão confuso, eu passei por muita coisa hoje, não posso lidar com isso agora.

Olho para as minhas mãos, meus dedos estão tremendo; e então, eu ajoelhei.

Eu não poderia matar alguém, poderia?

Olhei para a minha mão esquerda.

O que está errado comigo? Como nunca notei isso antes?

Uma marca de aliança descansava no meu dedo anelar.

Senti como se alguém tivesse batido na minha cabeça, meus pensamentos começaram a se organizar lentamente.

Samantha.

Meu chefe me irritou no trabalho, cheguei em casa agitado e bêbado. Só queria ficar sozinho e beber! E ela sabia disso, mas ela gritava. Ela gritava porque eu ia bêbado pra casa todos os dias, nós brigamos, eu gritei. Nós jogamos coisas um no outro, e eventualmente, ela disse que não podia mais ficar comigo e foi ao banheiro para se acalmar.

Mas eu não estava calmo, eu precisava dizer exatamente o que eu achava sobre ela e as merdas que ela fazia. Como ela pode sair andando daquele jeito? Como se nada tivesse acontecido, como se nós não fôssemos nada um para o outro? Como se eu não valesse o tempo dela?

Foi aí que ela começou a murmurar.

Afundei meu rosto em minhas mãos e minhas lágrimas alcançaram o chão; ouvi passos na sala ao lado. Era ela. Por que ela simplesmente não me deixa só? Tudo que eu quero é ficar sozinho!

As chamas já não estão mais fortes e a luz não alcança mais meu quarto, e eu ainda estava sentado no chão. Conseguia ouvir os passos chegando cada vez mais perto, e ela continuava a murmurar. Eu não aguentava mais isso!

Comecei a ir em direção ao canto do quarto, perto do meu guarda-roupa.

Deixe-me sozinho, por favor. Por favor.

Meu coração batia fortemente e meus dedos tremiam como nunca antes.

Fechei os olhos.

Por favor, vá embora. Por favor! Você não é real, você está morta, eu te matei, eu matei você! Apenas vá! Deixe-me viver, deixe-me esquecer.

...

Tudo está calmo. Será que ela foi embora?

Abri meus olhos e ela estava a centímetros de distancia do meu rosto. Tentei gritar, mas não consegui. O cabelo longo ainda cobria seu rosto, se arrastando no chão entre nós. Os olhos dela estavam fixos nos meus; meus olhos começaram a pesar e eu deitei no chão. Tudo começa a passar por mim, exceto ela. Ela ficou lá, parada, me encarando.

E então, tudo ficou escuro.

06h52min


Outro pesadelo; acordei em uma piscina de suor, meu coração batia forte e minha cabeça doía de forma anormal. Vi o sol pela janela e percebi que ele havia começado a nascer há pouco tempo, fazendo com que os demônios e a escuridão da noite voltassem de onde eles tinham vindo. A sombra cobria meu quarto como se fosse uma jaula. Eu sentei, achei meu relógio no criado-mudo e coloquei no pulso.

Peguei meu rifle que estava debaixo da cama, fazendo com que uma garrafa quase vazia de uísque caísse no chão. Isso explica a dor de cabeça...

Alcancei a garrafa e a joguei no lixo um momento depois, percebendo que seja lá o que eu tenha feito na noite passada, estava esquecido a partir de agora. Comecei a polir minha arma calmamente, e a contar os segundos, acompanhando meu relógio. Isso é monótono, eu sei... Mas me acalma. É parte da minha rotina.

Minha rotina me mantém vivo.

Minha rotina me mantém são. 




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