23/11/15

Meu filho é um Serial Killer

Geralmente as pessoas me olham estranho quando digo que tenho um filho de dezoito anos. Tenho trinta e três anos. Quando eu e James saímos juntos, não é incomum das pessoas perguntarem se ele é meu irmão mais novo. Ele se passa facilmente por um rapaz de vinte, e eu também. Esses dezoito anos não foram nada fácil, mas gosto de pensar que fiz o melhor possível da situação que me encontrava. No terceiro ano do ensino médio eu engravidei minha namorada. Os pais dela iam colocar o bebê para adoção, mas minha mãe se impôs e me ajudou a conseguir a custódia.

Meu filho é um aluno nota 10. É armador do time de basquete do colégio. Consegui juntar dinheiro suficiente para comprar um bom carro de segunda mão para ele. É popular de todas as maneiras que não fui. Quando eu tinha a idade dele já tinha um filho de dois anos, formado no supletivo e com um emprego em uma fábrica local das empresas Pella. Moramos em um apartamento duplex de dois quartos a algumas quadras do colégio. Ele faz seus deveres escolares sem eu precisar pedir e usa seu tempo livre para ficar cm seus amigos ou arrasando no Call of Duty.

Em algum ponto até achei que ele fosse gay. Não que eu ligasse para isso, mas achava estranho que um garoto da idade dele nunca tivesse uma namorada. Perguntei para ele e ele riu, dizendo “Não pai, não sou gay. Só quero esperar até eu ficar um pouco mais velho para essas coisas. Não quero que você seja vovô com trinta anos. ”.

Isso foi nossa conversa sobre sexo. Junto com a internet e as aulas de educação sexual que eu tinha assinado um formulário de permissão, acho que ele sabia os básicos. A alguns meses atrás me falou que ia sair tarde da noite. Quando perguntei o porquê, me disse que tinha um encontro. Não fiz mais perguntas. Entreguei para ele uma nota de cem dólares e pedi que voltasse para casa antes do café da manhã. Ele era um bom menino. Confiava nele.

Depois disso, começou a ser algo frequente. Avisava-me nas sextas a tarde que iria chegar de madrugada. Todo sábado de manhã eu o encontrava jogado no sofá jogando no Xbox antes mesmo de eu sair da cama. Nunca conheci nenhuma das garotas que saiam com ele, mas achei que isso era por ele ser mais reservado. Como eu disse, confiava no meu filho. Ele tinha uma cabeça boa e eu não tinha motivo nenhum para desconfiar que algo estava fora dos eixos.

Normalmente não vejo o jornal. Achava que meu feed do facebook e twitter já me mantinha informado o suficiente. Por algum motivo, me encontrei na frente da televisão às cinco da tarde e resolvi ver as notícias. Hoje, queria não ter visto. Na televisão passou de um comercial para a ancora do jornal olhando fixamente para a câmera com um ar sombrio. “Hoje à noite cobriremos um caso ainda em progresso. Várias mulheres da redondeza continuam desaparecidas enquanto a polícia procura por pistas se os desparecimentos têm relação entre si. ”

Moramos em uma cidade pacata. A ideia que algo desse tipo estivesse acontecendo tão perto de casa me chocou um pouco. A ideia de que meu filho estava fora de casa ao mesmo tempo em que essas coisas aconteciam na cidade me assustou um pouco demais. Falei com ele sobre. Disse para eu não me preocupar. James já era grande. Tinha dois metros e mais um pouquinho de altura e uma estrutura larga. Eu não estava preocupado que alguém fosse brigar de socos com ele, mas sendo um cara grande também, sabia que ser alto não significa nada para alguém com uma arma.

James me assegurou que não tinha nada com o que me preocupar.  Mas só para me assegurar, surrupiei seu celular enquanto dormia. Instalei um aplicativo que me permitiria ver sua localização o tempo todo. Talvez eu estivesse apenas sendo paranoico demais, mas me lembro de ter dezessete anos e achar que era invencível. Não pensei muito nisso. Depois de configurar o aplicativo para ficar escondido, coloquei de volta no carregador que estava na cozinha e não dei mais muita atenção para aquilo. Pensei que se um dia ficasse preocupado com seu paradeiro, era só eu abrir o aplicativo no meu celular e ver sua localização. Contanto que não estivesse tão longe dos perímetros da cidade, poderia relaxar e voltar a ver minhas séries no Netflix.

Comecei a acompanhar pela internet um caso de mulheres desaparecidas. A mídia local estava fazendo um sensacionalismo barato com o caso. Seis mulheres tinham desaparecido no período de dez semanas. Variavam de idade e aparência. Nenhum corpo tinha sido encontrado, mas a policias estava investigando como se os crimes fossem todos relacionados. Quando a sétima mulher desapareceu, meu coração parou de bater. Não via Rochelle fazia dez anos. Ela tinha voltado quando James tinha mais ou menos sete anos. Tentou ser maternal, mas não levava jeito para a coisa. Depois de alguns meses de promessas quebradas e perder encontros com seu filho, entrei na justiça e pedi que ela fizesse um teste para ver se ela usava drogas. Depois de rodar no teste, consegui mais um mandato para que não pudesse mais ver nosso filho. Não queria que meu filho tivesse que lidar com aquilo.


Era sábado de manhã e fiquei bastante apreensivo de descer as escadas. James e eu não falávamos muito sobre sua mãe. Ela tinha se descontrolado logo depois que deu a luz a ele e trocava seu corpo por qualquer tipo de droga. Quando procurou por nós, tinha envelhecido vinte anos em apenas sete. Seus braços eram cobertos de marcas de picadas e seus dentes eram amarelos de um jeito decadente. Para ser sincero, fiquei surpreso que ela viva tempo suficiente para ser sequestrada. Com meu coração pesado, me aproximei de meu filho na sala de estar e falei:

“Filho, precisamos falar sobre sua mãe”.

James suspirou e pausou seu jogo. Olhou para cima em minha direção e perguntou “O que foi que ela fez dessa vez? ”.

Suspirei e disse “Ela desapareceu noite passada. A polícia falou que havia sinais de arrombamento e luta em seu trailer”.

James encarou a televisão como se estivesse olhando através dela e despausou seu jogo. Ele continuou a olhar para frente e comentou “Bem, isso não é novidade, não é mesmo? ”.

James e eu não falávamos sobre sua mãe porque ele não gostava de falar dela. Um dos motivos principais de eu ter envolvido um advogado era que durante uma de suas visitas, ela levara James para ser apartamento. Aparentemente recebeu alguns clientes enquanto meu filho estava em seu sofá. A primeira visita a casa de sua mãe acabou sendo um dia de drogados sentando ao lado, enquanto pagavam 20 dólares para foder sua mãe. Três horas depois, um cara chamado Steven o deixou na porta de casa. Estava sentado perto da porta da frente quando voltei do trabalho. Perguntei o que fazia ali e ele respondeu que sua mãe não o queria lá. Ele ficou sentado na rua sem nem uma jaqueta por mais de quatro horas.

De todas as coisas que poderiam ter acontecido com ele, fiquei aliviado que tinha sido só isso. Tinha ouvido histórias tensas de situações parecidas com aquelas que tinham acabado de um jeito muito mais grotesco. Coloquei James imediatamente em uma terapia depois disso. Depois de alguns anos seu trauma diminuiu e as visitas com a terapeuta ficaram mais espaçadas. Depois daquela noite, perguntou dela muito pouco. Pensando melhor agora, me lembro de só uma vez em que ele tocou nesse assunto.

Na semana seguinte ele me avisou que sairia de novo. Naquela noite tive um surto de preocupação, então abri o aplicativo de rastreamento. Ele foi até um endereço aleatório no outro lado da cidade e depois foi para um lugar no meio do nada. Tinha instalado aqui a muitas e muitas semanas e não tinha mais pensado naquilo. Entretanto, não tinha me dado conta que estava rastreando seus passos. De acordo com os registros, tinha tido naquele lugar no meio do nada pelo menos quatro vezes nas últimas seis semanas. Percebi que uma das suas paradas tinha sido no endereço onde o trailer de Rochelle ficava, bem no dia em que ela desapareceu. Achei suspeito, mas tentava ignorar o que todas as células do meu cérebro tentavam me dizer.
Joguei meu telefone na cama e peguei uma garrafa de uísque que tinha guardado no armário. Bebi até dormir e na manhã seguinte acordei meio grogue. James estava no andar de baixo jogando Dark Souls e comendo Pop-Tarts. Virei um Red Bull que tinha na geladeira e fui para meu carro. Tinha decidido que iria até o local no meio do nada que meu filho tinha ido em todos seus encontros. Queria não ter ido. Eu realmente, do fundo do coração, queria não ter ido.

Meu GPS me levou até uma estrada de terra que não era mais usada. Depois de dirigir por uns 400 metros com uma densa floresta em ambos os lados da estrada, se abriu em uma clareira com um pequeno riacho. Estacionei no final da estrada e sai do carro. Vi resquícios de uma fogueira perto do riacho. Andei até lá. As cinzas ainda estavam mornas. Suspirei em alívio. Meu filho tinha encontrado um lugar tranquilo perto de um riacho e estava tendo seus encontros debaixo das estrelas. Estava quase orgulhoso dele, quando notei pegadas que iam de encontro a pequena lagoa. Parecia que alguém tinha arrastado algo pesado até a água.

Andei para perto da beira e olhei para a água sombria. Me virei de volta para a fogueira e notei manchas de sangue na grama perto de mim. Com relutância, entrei na água e andei alguns passos até que a água batesse um pouco acima da minha cintura, quando meus piores pesadelos foram confirmados. Pisei em algo duro. Coloquei a mão por dentro da água e alcancei algo que parecia uma corrente de metal grossa. Quando puxei, vi um corpo enrolado em um cobertor. Tirei o pano e um rosto bastante inchado se revelou. Era Rochelle. Rapidamente enrolei o corpo de volta e empurrei par abaixo da água. Corri de volta para meu quarto e fui para casa.

Fiquei sentado no carro, estacionado em frente nossa casa, por uns quinze minutos tentando entender se estava tendo um ataque de pânico ou um ataque cardíaco. Meu coração batia tão forte em meu peito que chegava a doer. Lágrimas corriam pelo meu rosto enquanto tentava digerir o que tinha acabado de ver. Tentei me convencer do contrário com quinze tipos de teorias de conspiração que explicavam que meu filho era inocente. Alguém bateu na janela do motorista e dei um pulo no meu lugar. Era James.

Hesitantemente, desci do carro e imediatamente ele me envolveu em um abraço e disse “Seja o que for, está tudo bem agora, pai. Só me conta o que aconteceu”.

Ele era um ótimo filho. Por um momento esqueci do riacho e do corpo de sua mãe. Segui atrás dele para dentro de casa e depois de mudar minhas roupas para umas secas, fui para sala. Sentei em uma poltrona enquanto ele estava sentado no sofá de frente para mim. Depois de alguns minutos de silêncio, encarei o chão e falei:

“Encontrei sua mãe.”

Ele respondeu apenas com um “Ah...”

Não sei o que esperava de resposta, mas aquilo me atingiu de um jeito inexplicável. Não uma expressão de surpresa ou raiva. Era a mesma reação neutra que o vi fazer nas raras ocasiões que o peguei fazendo algo que não deveria.

Olhei em seus olhos e disse “Por favor, me diga que não fez nada de errado. ”


Ele olhou para o lado e falou, “Defina errado. ”

Aumentei um pouco o tom da minha voz “Meu Deus, James, você matou sua mãe? ”

Ele riu e disse “Aquela vadia já estava morta a muito tempo entes de eu nocauteá-la e leva-la para o carro. Qualquer puta que tenta vender seu filho por um pouco de droga já está morta a muito tempo. ”

Não consegui falar mais. Sempre me perguntava o que tinha acontecido naquela noite, mas James nunca quis se pronunciar a respeito.

James continuou, “Sabe, tive muita sorte. O desgraçado que pagou por mim me deu uma carona para casa e disse para nunca mais voltar na casa da minha mãe. Acho que poderia ter sido bem pior, mas foi nesse dia que me liguei. Entendi o quão sem sentido a vida é. Claro que matei ela. Aquela puta merecia morrer mais seis vezes. ”

Meus olhos enchiam de lágrimas enquanto meu filho confessava mais de quinze assassinatos. Fiquei ali sentado, estupefato, enquanto dava detalhes e descrições que nenhum adolescente da sua idade devia saber. Depois de me contar tudo, apenas fiquei ali sentado. O que eu poderia dizer? O que eu devia ter dito? Meu filho tinha acabado de confessar para mim que era um serial killer, e tudo que eu tentava pensar era um jeito de não arruinar sua vida.

Finalmente consegui ter um pouco de coragem e disse “Precisamos de ajuda para você, filho. Isso não é saudável e-”

James me cortou no meio da frase “Nenhum terapeuta pode me ajudar, pai. Você tem sido muito bom para mim, então vou cortar essa besteira. Nós sabemos que vou fazer dezoito anos daqui mais ou menos um mês. Vou sair da sua cola. Além do mais, tenho planos maiores. ”

Fiquei olhando para ele e tentando entender como ele tinha se transformado naquele monstro. Dezessete anos de paternidade e nunca, nem em um milhão de anos, teria imaginado que ele ficar assim tão fora de si. Me demiti uma semana depois daquilo. Até o dia de seu aniversário, eu já tinha gasto quase todo meu dinheiro em bebida, para tentar esquecer de tudo aquilo. Obviamente, um dia depois que fez dezoito anos, ele sumiu. Qualquer parte de mim que ainda tinha esperanças por ele morreu quando, algumas semanas depois, as autoridades encontraram os corpos na lagoa. Mas ele já tinha sumido a muito tempo.

Recebi um cartão postal faz umas semanas. Era uma foto de uma praia. No verso estava escrito “Oi pai, só para você saber que estou bem. ”

Joguei o cartão em uma mesinha perto da porta de entrada e voltei a beber. Parte de mim quer contar tudo para a polícia. Provavelmente não seria difícil de achá-lo. Mas ainda assim, ele é meu filho. Estou disposto a fazer várias coisas, mas entregar meu filho para a polícia, resultando em um provável corredor da morte não era uma destas coisas. A culpa fica cada dia mais pesada. Por hoje, a única coisa que posso fazer é desejar que ele esteja bem. Não faço ideia onde esteja. Não quero saber. Tudo que posso fazer é esperar que ele pare de matar. Ele é um ótimo garoto. Ele é alto e carismático. Tenho certeza que ele iria longe se tivesse apenas tentado.






15 comentários:

  1. Mano fiquei com pena desse pai (╥╯θ╰╥)

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  2. Maano que foda. Isso daria um ótimo filme. Adorei.

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  3. Pai é um monstro igual ao filho, deixar o MLK solto matando inocentes só pq é filho, deixa ele em um patamar ainda pior que do serial killer.

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    1. Inocentes? A mãe dele deixou o cara comer ele em troca de droga. e.e O cara só n estuprou ele pq é gente boa :v

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  4. Muito boa,esse pai era burro,devia mostrar autoridade e falar pro filho não sair a noite sem mais nem menos,ou pelo menos perguntar o que ele iria fazer,e não 'acreditar no filho só porque ele é 10'.Podia acontecer qualquer coisa...

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  5. Nossa, muito bom. A proposito, sanidade mandou um "oi".

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  6. Muito boa. Narrada numa perspectiva totalmente diferente, muito bacanuda *~*

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  7. Caramba Divina, suas creepys são as melhores, achei ótima! \o/

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  8. Caramba Divina, suas creepys são as melhores, achei ótima! \o/

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  9. Creio que além do filho, o pai também seja culpado. Por mais que eu ame o meu filho, não deixaria ele matar mais inocentes.

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