11/11/15

Odeio leite

Sou caloura na minha universidade. Como vocês devem saber, a vida de um estudante pode ser nada fácil. Constantemente você fica com fome, sofre de estresse, tem pouca grana ou falta de tempo. Gosto de pensar que minha mãe me ensinou como gastar meu dinheiro, então mesmo que não estivesse vivendo no luxo, também não estava no lixo. Também tinha noção da importância de ter um emprego. Dinheiro é vida. Vida é me formar na faculdade. Me formar na faculdade é conseguir o meu emprego dos sonhos. Conseguir meu emprego dos sonhos é ter estabilidade para minha família. Estava claro na minha mente o que eu tinha de fazer, sendo assim, na maioria das noites você me encontrava com a cara colada nos livros junto de algumas latinhas de Red Bull. Então quando vi o anuncio no jornal de uma boa família que precisava de uma babá, aproveitei a chance.

“PRECISA-SE DE BABÁ. Preferência para mulheres. Aceitamos estudantes. Deve ter experiência prévia com crianças. Referências são necessárias. Deve ter transporte próprio e estar disponível para trabalhar durante a noite e em horário irregular. Para mais informações ligue: XX XXXX-XXXX”

Para resumir a história, liguei para o número. Fui atendida por uma voz quase angelical. Era a mãe. Conversamos um pouco enquanto ela me contava que tinha apenas uma filha que precisava de supervisão, pois ela e o marido estavam constantemente viajando para outros países, as vezes ficavam fora por até duas semanas. Então me falou o valor absurdo que me pagaria para cuidar de sua filha, Emily, que tinha cinco anos. Fiquei completamente em choque e tive que pedir que repetisse para ver se tinha ouvido corretamente. Eu tinha. Acho que as pessoas ricas não têm medo em gastar uma boa quantia de dinheiro para o bem-estar de suas crianças. Se eu trabalhasse só durante as férias de inverno, o dinheiro seria suficiente para pagar toda minha despesa com a faculdade. Passei os telefones das mães as quais eu já tinha trabalhado de babá, mas ela disse que não precisava pois “conseguia identificar uma boa só pela voz”. A única coisa que me pediu foi uma foto recente para que mostrasse ao marido para ver se ele concordaria com o contrato. Rapidamente mandei uma foto pelo e-mail e em menos de 15 minutos recebi uma resposta. Tudo que dizia era “Contratada! A propósito, você tem uma pele linda!” E assim já estava trabalhando para eles.

Meu primeiro dia foi em um sábado. Conheci a menina, Emily, e ela era uma boneca. Seria muito fácil cuidar dela. Expliquei para a família que alguns dias não conseguiria tomar conta de Emily, por causa do meu cronograma de aulas, mas rapidamente eles disseram que não havia problema; eles encontrariam alguém para me cobrir nesses dias. Os pais dela estavam sempre fora, mas a garotinha tinha tanta coisa em casa que parecia nem ligar. Uma vez perguntei para Emily no que seus pais trabalhavam e ela simplesmente respondeu “Mamãe acha, papai vende”, então assumi que eles eram amantes de arte, artigos antigos ou algo do tipo.

Trabalhei para a família por quatro meses, mas as coisas começaram a ficar meio estranhas; ambos os pais estavam em casa com mais frequência. O pai recebia ligações tarde da noite. Quando passava por seu escritório, conseguia ouvir frases quebradas como “Preciso de mais alguns dias... Tenho uma em mente... Só está demorando um pouco mais para conseguir a peça... Não... Sim, Sarah (sua esposa) já conseguiu o embarque a um tempo”. Isso foi tudo que consegui ouvir, pois Emily começou a chorar por causa de um brinquedo que havia quebrado. Na manhã seguinte, a mãe estava agitada. Aparentemente estava planejando sua próxima viagem para a Índia. Eles queriam ir na sexta-feira, que seria três dias dali. Me perguntou se eu poderia dormir lá na quinta à noite para que estivesse ali de manhã e levasse Emily para a escolinha. Os avós de Emily a buscariam lá e a levariam para sua casa onde ela ficaria pelo resto da semana seguinte. Tudo que eles precisavam de mim era que eu ficasse a tarde de sexta-feira na casa dando uma ajeitada enquanto eles se arrumavam as coisas para a viagem na noite do mesmo dia. Concordei e o resto da semana passou tranquilo.

Na quinta à noite dormi no quarto da Emily. Brincamos um pouco, fingimos que era um acampamento e até fizemos pipoca. A única mudança na sexta de manhã foi que Emily acordou com dor de barriga, então não foi para a escola e ficou em casa comigo esperando seus avós. Eles viriam por volta de 12:45 e os pais de Emily não sairiam até por volta do meio dia. A mãe, parecendo estar bastante contente, fez almoço para nós. Ela parecia feliz demais, quase como se estivesse fingindo. Mas nem liguei. Provavelmente ela estava nervosa com o voo que faria mais tarde. Ela fez um ótimo almoço: leite com achocolatado e sanduíches de queijo quente (sim, sou apaixonada por torrada).  Infelizmente para mim, tinha esquecido de avisá-la que não gostava de leite.

Assim que terminou de preparar os sanduíches, avisou que ela e o marido tinham que sair e que, assim que a menina fosse embora com seus avós, eu poderia dormir no sofá se assim quisesse. Logo que eles foram, Emily e eu ficamos nos encarando por uns segundos até que para minha surpresa descobri que enquanto estava conversando com sua mãe na porta, Emily tomou não só o seu leite como o meu também. Não que isso fosse grandes coisas, eu nem gosto de leite mesmo. Pouco depois os avós chegaram e a levaram. Eu, ficando entediada e sabendo que mais ninguém estava em casa, aproveitei para explorar os aposentos. O escritório era o que mais me interessava. Entrei lá e era como se fosse o céu para mim. Havia uma parede inteira cheia de livros, uma lareira e uma escrivaninha. Sim, senhor, queria que meu futuro fosse como aquele.

Andei até a prateleira e puxei um dos livros. Para minha surpresa, quando o segurei, um envelope caiu. Imediatamente me abaixei e o peguei, e quando o fiz, senti algo duro dentro. Eu virei para ler e na sua frente estava escrito “Chave Extra”. O envelope já estava aberto então botei a mão dentro e peguei a chave. Imaginei que a chave pertencia a escrivaninha que estava do outro lado do aposento. Eu estava curiosa, mais curiosa impossível, então andei até a escrivaninha para examiná-la. Obviamente havia um buraco de chave. Coloquei e girei. Encaixe perfeito. Não tenho certeza o que estava esperando encontrar ali, mas com certeza o que encontrei de fato não era o que eu esperava.

Era uma pilha de papel. Comecei a folheá-los. Em cada um dos papéis havia uma foto de uma garota impressa. Idades diversificadas, de 7 a 28. Raças diferentes. Todas haviam uma coisa em comum. Elas estavam “embarcadas”. De repente a realidade bateu, fria e dura. A família para quem eu trabalhava eram traficantes de órgãos, de mulheres. Me senti enjoada. Levei alguns segundos para me recompor e voltei a folhear os papéis. O que não havia percebido no começo é que havia informações no verso das folhas. Atrás de cada um havia um diagrama do corpo humano. Em cada diagrama havia uma parte do corpo destacada. Uma tinha o coração colorido. Outra os olhos. Uma tinha diversos órgãos vitais destacados. O pior era que no final da página havia um endereço: Bangladesh, China, Haiti, Equador, México... Era como se fosse uma etiqueta de envio. Enquanto folheava meu horror só aumentava. Havia detalhes de como elas foram mortas, o que foi pego delas, para quem seriam enviadas e quando.

“Betty Phillips, 23, morte por estrangulamento, 15/04/2015, enviada para China, produto entregue a mão. Produto inclui: Fígado, coração e pulmões. ”

“Hanna Lew, 12, entregue viva, 04/07/2015, enviada para Rússia, produto entregue a mão. Produto inclui: Espécie viva para teste.”

E a lista ia. Algumas eram mortas, outras não. Meus chefes eram ladrões e traficantes de orgãos. Então peguei a próxima folha. Tinha meu nome, mas eram apenas anotações. Continha meu peso, altura, melhores atributos, etnia, e outras coisas. As informações ainda não eram completas...

“T****** M*****, 18, morte por envenenamento, morte prevista para 30/11/2015, a ser enviada para Índia. Produto inclui: Pele e olhos.”

Havia uma nota na folha “Coloquei uma boa quantidade de Ricina em seu leite hoje, ela não sentirá o gosto, o que faz que seja o assassinato perfeito. Ficará difícil para ela respirar e com ajuda de outras toxinas que tomei liberdade de usar, ela ficará completamente imóvel. Todo seu sistema irá desligar. Ela morrerá de um jeito doloroso, silencioso e solitário... ela morrerá em algumas horas, e quando voltarmos a noite já estará pronta. Então iremos para a índia onde pegaremos os U$ 500,000. ”

Flashbacks correram pela minha mente.

“Você tem uma pele linda!”

“consigo identificar uma boa só pela voz”

“Emily, o que seus pais fazem?”

“Mamãe acha, papai vende.”

Então me lembrei. O leite. Eu nunca gostei de leite. Mas Emily sim. Ela bebeu meu leite.





25 comentários:

  1. Esse foi foda.
    Agora sim o CPBR voltou, fico feliz.

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  2. Como é bom entrar no site e ver uma creepy nova postada.

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  3. Parabéns pelo retorno, ainda por cima com uma ótims creepy. É isso ai.

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  4. Que reviravolta! Fiquei todo arrepiado.

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  5. Só consigo pensar numa coisa dps de ler essa creepy: Se Foderam ! kkkkk

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  6. Eu tava rolando e li "Ela bebeu meu leite".....pensei merda

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  7. Eu tava achando a história toda meio previsível, mas o plot twist no final valeu a pena :D

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  8. Excelente história, me lembrou até quando conheci o blog em fevereiro de 2012

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  9. Muito bom o blog ter voltado a ativa! Ótima creepy parabéns!

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  10. Coitada da Emily...

    Mas a creepy é ótima

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  11. Coitada da Emily...

    Mas a creepy é ótima

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  12. Caralho '-' por causa da crueldade dos pais a criança que pagou,essa deu até o frio no cérebro dos classicos mindfucks

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  13. Nossa, que crudade. Por causa dos pais a filha morreu. Constrangedor.

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  14. A Hanna Lew vai virar lolita. XD

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  15. A Hanna Lew vai virar lolita. XD

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  16. Amei essa creepy. Aaaaaaaah. Odeio leite tbm

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  17. Amei essa creepy. Aaaaaaaah. Odeio leite tbm

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