25/12/15

O Experimento Psicológico Que Participei

Tenho 25 anos e por alguma razão nunca consegui me dar muito bem na vida. Meu currículo consiste em "bicos" atrás de "bicos". Mesmo que eu tenha uma formação. Não tenho vícios e não sou preguiçoso. Pra ajudar, tenho duas crianças que dependem de mim, que crio sozinho. 

Creio que esse é o resumo do porquê pulei de cabeça para participar em um experimento psicológico na BYU. Estavam oferecendo 500 dólares por um único dia de trabalho. Não era possível para mim deixar esse tipo de dinheiro fácil escorregar por entre meus dedos. Pela primeira vez poderia comprar presentes de Natal para minhas filhas que não iriam ser comprados de segunda-mão em brechós. 

Toda essa emoção e ansiedade foi o que me fez não ler direito o contrato que Dr. Phelps me alcançou para assinar. Desde aquele dia, li e reli o contrato diversas vezes, enjoado com as coisas que deixei passar em branco. 

Haviam cláusulas que permitiam que os pesquisadores tivessem acesso a documentos e registros privados dos participantes. Acho que foi assim que conseguiram tudo que precisavam de antemão. E havia outra cláusula que especificava que eles não seriam responsáveis por nenhum efeito colateral provocado pelo experimento. 

Mas ainda assim esqueceram de adicionar a cláusula de discrição, e essa é a razão de eu poder publicar e denunciar as condições inumanas que me fizeram passar. Não só eu, claro. Eles fizeram quatro de nós viver o inferno na terra. 

O campus da faculdade era perto da casa da babá, então fui caminhando. Estava por volta dos -5 gruas, mas nada podia me atingir. Não com a felicidade de que estaria com mais 500 dólares na minha carteira no final do dia. 

Fizeram nós nos espremer na minúscula sala de professores enquanto esperávamos para ser chamados. Tínhamos recebidos instruções de não conversarmos ou fazer qualquer tipo de comunicação uns com os outros durante a espera. 

A primeira foi uma mulher chamada Whitney, que recebeu uma venda e foi conduzida até o final de um corredor. O próximo foi um homem chamado Josh, que recebeu uma pilha de fichas e foi conduzido para a mesma direção, mas sem ser vendado. 

O próximo foi eu, vendado. Fiquei um pouco desconfortável no começo, mas o assistente que me conduzia tinha uma voz passiva e educada. Quando me mandou sentar, ouvi um espirro feminino ao meu lado. Supus que estivesse sentado ao lado de Whitney. Ouvi a última participante, a qual não sabia o nome, entrar e Dr. Phelps pigarreou. 

"Dois de vocês estão sentados e vendados e diante de vocês estão mais duas pessoas  de pé com fichas que contém instruções especificas. Vocês estão pareados por gênero: homem submisso, mulher dominante, e vice-versa; os sentados são os submissos, obviamente. Danos físicos não serão causados em vocês, obviamente."

Ouvi Whitney dar um suspiro de alívio. De repente me senti mais aliviado também. Mas ainda assim o silêncio e as vendas me deixavam tenso. 

Ouvi o som das fichas sendo mexidas e uma voz tremula quebrou o silêncio. Pertencia a um rapaz. 

"Whitney, seu irmão foi assassinado recentemente, certo? Tenho algumas-"

"Espere! Terrance, droga, temos que por o abafador de sons no outro," gritou Dr. Phelps. 

Ouvi uma certa movimentação pela sala, ouvi também palavrões e pedidos de desculpa e de repente enormes fones de ouvidos cobrindo minhas orelhas. Não consegui ouvir nada. 

Então fiquei lá sentado, pensando em Whitney e seu irmão falecido. Naturalmente, comecei a pensar em minha esposa, Jennifer, antes do fatal acidente de carro. Sempre tentava me lembrar dela com vida, mas nunca consigo me esquecer como estava em seus últimos momentos na cama do hospital, em coma, coberta de queimaduras de terceiro grau. 

Parecia que tinham passado horas até que meus fones fossem retirados dos meus ouvidos. Uma porta pesada tinha acabado de ser fechada com força e pude ouvir através das  uma mulher chorando e gritando com alguém, arrastar de pés no chão de madeira e gritos esgotados para que deixassem ela ir embora. 

Pelo silêncio ao meu lado, pude pressupor que tinha "convidado" Whitney a se retirar, se é que você me entende. Mas por que ela estava chorando e gritando tanto? Eu só sabia uma pequena parte de que tinha algo a ver com seu irmão falecido. 

"... Era de se esperar," pude ouvir o professor falando para alguém. "Eles leram o contrato". 

"Mesmo assim, senhor," uma outra voz respondeu rapidamente. "Isso foi... cruel."

O Dr. pigarreou mais uma vez, cortando o assistente, e falou em alto e bom som: "Pode continuar, Lilly." 

Ainda podia ouvir os gritos lá fora, se distanciando cada vez mais. Isso fez com que um sentimento de pavor acordasse em mim, como se fosse uma doença e pensei em arrancar a venda naquele momento. Pensei em exigir saber o que acontecera com Whitney. Pensei em questionar todo o experimento, mas então lembrei das minhas meninas. Me lembrei que estava ali por elas. 

"Eu... sinto muito" sussurrou a outra participante, Lilly. Pelo som de sua voz, parecia estar a poucos metros de mim, na minha frente. "Sinto muito". 

"Leia as fichas, Lilly", brandou Dr. Phelps. "Não diga mais nada, por favor". 

"Meu nome é Lilly Briscoe e conheci sua mulher antes de assassiná-la" 

Mesmo sabendo que estava lendo, aquela frase fez com que os pelos da minha nuca se arrepiassem. Jennifer não tinha sido assassinada. Tinha sido algo repentino, um acidente seguido de fuga, certo? Tentei me convencer que aquilo fazia parte do experimento, mas quanto mais Lilly lia, mais convincente ficava que tudo aquilo que dizia era verdade. 

"Sua esposa e eu estudávamos juntas aqui na BYU. Estudei com você também." ela continuou "Provavelmente não se lembra de mim, mas eu sentava no fundo de uma das aulas que você frequentava. Sou a garota que você chamou de idiota na frente de todo mundo porque achei que a Austrália ainda fazia parte da Inglaterra." 

Lembro disso! Mas não o nome dela. Não conseguia nem lembrar do rosto da garota. Será que era ela mesmo?

"Eu tinha mais aulas com Jennifer, então começamos a ter o mesmo circulo de amizade. Me lembro de você sempre ser anti-social, então nunca estava junto. Mas sua esposa só continuou o seu legado. Sempre achava maneiras de me fazer parecer uma idiota. Uma vez eu e ela tivemos que ir fazer xixi na mesma hora em uma festa que tinha apenas um banheiro. Ela entrou na minha frente, trancou a porta e ficou mais de uma hora falando com você no telefone enquanto eu esperava. E não pude esperar mais. Mijei nas calças e todo mundo viu". 

Lilly não parecia mais estar lendo as fichas. Quanto mais falava, mais pessoal seu tom de voz ficava. Estava começando a parecer que aquela mulher maldita tinha realmente assassinado minha esposa. 

"Me perdoe", sussurrou novamente. 

"Lilly," o professor proferiu. 

"Quatro meses atrás," ela falou, mais baixo do que a última vez. Sua voz ficava cada vez mais baixa. Continuou. 

"Quatro meses atrás alguém bateu com o carro no da sua mulher e fugiu do acidente. Eu estava bebendo em um bar próximo naquela noite. Me lembro de como cambaleei para lá e para cá até meu carro. Que estava confusa, visão duplicada. Estava bêbada, mas não bêbada demais, tanto que notei o carro de Jennifer parado no sinal vermelho. Lá estava.. aquela... Aquela vadia. 
Ela começou a virar para a direita e acelerei, disparando em direção dela. Não sei o que tomou conta de mim, fiquei possuída. Meu carro tinha se tornado uma extensão da raiva que desenvolvi por ela, então acelerei o máximo que pude e me preparei para o impacto. Eu vi a cabeça dela bater contra o vidro com uma explosão de sangue. 
Demorei poucos segundos para me recuperar, mas meu carro ainda estava funcionando. Eu poderia ter feito algo. Poderia ter aberto a porta do motorista, tirado ela de lá, mas..."

Lilly fez uma pausa e falou com outra pessoa, alguém que estava ao lado dela. "Não consigo. Meu Deus do céu, por que estão me fazendo fazer isso? Olhe para ele. Eu..."

"Você não receberá o dinheiro se não terminar, Lilly" vociferou Dr. Phelps. 

"Eu vi que o carro estava pegando fogo!" Lilly gritou, vomitando as palavras como se fossem veneno na sua boca. 

Pude sentir a determinação dela terminar o experimento, porém misturada com a relutância de articular as palavras. Estava claramente em conflito, mas algo fez-a continuar. Ela estava finalmente se confessando? Por isso era tão difícil? 

"E então fiquei lá" falou rapidamente, tropeçando nas palavras. "Olhei pela rua, tendo certeza que não haveriam testemunhas enquanto eu mantinha a porta fechada com meu carro. O fogo se espalhou no interior. Mesmo que ela empurrasse e empurrasse a porta para sair, não movi meu carro nenhum centímetro. Continuei bloqueando a única saída dela."

Algo começou a ferver dentro de mim. Eu não me sentia mais em um experimento psicológico. Eu não estava em lugar nenhum a não ser em minha própria fúria. Podia ver tudo o que ela descrevia acontecendo diante de meus olhos. Era como se eu estivesse lá na rua, na noite, sentado ao lado de Lilly vendo minha mulher queimar até a morte. 

"E os gritos de socorro de Jennifer eram como música para meus ouvidos!" Lilly berrou, como se lutasse contra sua própria vontade. "E olhei para ela, diretamente em seus olhos... Seus olhos se arregalavam quando me reconheceu e eu... e..." Lilly estava se engasgando com as próprias lágrimas, quase sem conseguir continuar. "E eu ri do medo dela. Da vida dela em minhas mãos. Aquela... vadia efêmera... Então vi um carro se aproximando e dei ré e fugi antes que alguém pudesse me ver. Mas fiquei sabendo que ela sofreu pra caralho antes de desistir e deixar você sozinho com duas crianças." 

Ouvi as fichas caindo no chão, e antes mesmo que pudesse perceber, eu já estava de pé. Em apenas um movimento e arranquei a venda e coloquei minhas mãos envolta daquele pescoço magro. A raiva era tanta que demorou alguns segundos para que conseguisse enxergar alguma coisa. Então vi. Não havia medo nos olhos dela. Não havia malicia, não havia ódio. Só consegui ver tristeza dentro daqueles profundos olhos azuis. 

Então a soltei, antes mesmo do assistente botar as mãos em mim. Tentei falar, mas nenhum som saiu. Ficamos parados, em silencio. 

"Você não a matou," falei, por fim. "Maldito experimento". 

Achei que descobrir aquilo iria me relaxar, mas não. Aquele ácido continuava a corroer meu estomago enquanto eles escoltavam Lilly para fora da sala, ela tremendo e chorando. O professor esperou um pouco até se aproximar de mim com um envelope. 

"Bem, você arruinou o experimento," ele disse. "Pelo contrato, eu não deveria te pagar. Você tinha que continuar com a venda e responder perguntas sobre quais processos legais e sentenças a assassina da sua esposa deveria ter recebido... Mas acho que nós todos sabemos muito bem o que você teria dito. 

"Pena de morte," falei vagamente. 

Minha mente ainda girava, então demorei uns segundos para lembrar do experimento. Ainda estava com aquela sensação violenta de que minha esposa tinha realmente sido assassinada, e não que tinha sido um acidente seguido de fuga. Era incrível como uma dor que eu já sentia podia ser aumentada em níveis que eu nem sabia ser possível. 

Dr Phelps me deu o cheque e me escoltou até a rua. 

"Sabe, essa é um dos erros fundamentais no nosso sistema judicial. Quando você deixa que os familiares do falecido ouçam o que aconteceu de primeira mão ou que ouçam a voz do assassino, todos declaram a pena de morte. Ou continuam lutando por anos a fio para que estes não fiquem livres."

Pensei nisso enquanto voltava para a casa da babá, pelo frio absoluto. Mas eu não via aquilo como um erro. Talvez não seja certo sentenciar alguém de morte, mas com certeza eu o faria se estivesse ouvido Lilly no julgamento. Porra, eu teria a matado com minhas próprias mãos. 

Esse dia me atormenta tanto quanto o dia que Jennifer morreu, mas mal posso esperar para ver o sorriso no rosto das minhas filhas enquanto rasgam o papel de presente sentadas perto da árvore de natal. Apesar dessas imagens assustadoras e depressivas que continuam a aparecer na minha mente, uma coisa eu sei: Nesse Natal minhas filhas iram receber muitos presentes. 



Autor: The_Real_Mugen 



22 comentários:

  1. Traduzi uma creepypasta desse mesmo autor e.e
    Essa creepy é bem legal, mas eu não achei doentio. Seria normal pra mim.
    Ah, e tem alguns erros gramaticais aí. Mas ta muito bom :3

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  2. Krlh, muito foda, até fiquei tenso...

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  3. DR. FELPS KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
    FELPS AI DEUS

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  4. Não entendi nada do final. Alguém pode me explicar?

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  5. jovem...vc tem uma paciencia infinita.Acho q ja teria matado ela antes q pudesse se explicar..

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  6. Eu sou mórmon...
    BYU é o site da faculdade da igreja (brigham young university) e Phelps provavelmente vem de william w. Phelps ele foi um membro muito importante na igreja e morreu no século xx, gostei da creepy mesmo assim... mexe com o psicológico :)

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  7. Cara eu achei bem feito o que a lilly fez pra esses pau no cu

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  8. Cadê as outras partes do Ubloo?

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    1. Thiago, o tradutor que está traduzindo Ubloo, está doente. Semana que vem ele volta para postar a parte dois e três.

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  9. Muito boa Divina, parabéns pela tradução!

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  10. Isso tá mais pro resumo de uma novela do Gilberto Braga do que uma creepypasta.

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  11. Li ouvindo uma música do Hozier.. PQP! Achei que iria ser uma bosta e no final, eu achei foda. Parabéns

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  12. Doutor felps? Por acaso o enfermeiro é o cellbit

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  13. Interessante a reflexão que o texto traz. Apesar de alguns erros, muito bem escrito e muito bem apresentado as aflições do personagem em questão.

    Gostei.

    http://o-olho-magico.blogspot.com.br/

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  14. Interessante a reflexão que o texto traz. Apesar de alguns erros, muito bem escrito e muito bem apresentado as aflições do personagem em questão.

    Gostei.

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