28/02/2015

Eu era um soldado da Guarda Real - Parte III (FINAL)


Minha sobrinha veio para a cidade na sexta-feira e eu teria o fim de semana todo com ela. Correr atrás de uma criança de sete anos faz você perder a cabeça sem sobrar tempo para pensar numa mulher louca te assediando. Além disso, eu estava fora daquele trabalho – peguei a documentação de transferência naquela manhã.

Eu passei todo o dia levando a menina a diferentes lugares que ela gosta. Foi muito cansativo. Sábado eu preparei o café e passamos boa parte da manhã assistindo desenho animado. Depois nós colocamos o filme da Mulher Gato e minha sobrinha se vestiu como ela – por algum motivo ela a amava (o filme é um lixo completo). Acho que não estava acostumado a ter que cuidar de crianças, porque eu dormi no sofá, já exausto.

Minha sobrinha me acordou.

“Uki” disse ela (é como ela me chama) “Uki, vamos brincar.” Ela estava segurando meu velho par de walkie-talkies. Eu costumava amar aquilo quando criança, então não poderia dizer não a ela.

“Claro, vamos ver se essas coisas velhas funcionam. Vamos lá fora, eu quero checar o alcance dessas belezinhas.”

Seu rosto se iluminou enquanto ela corria para fora.

Eu liguei o walkie-talkie e comecei a mexer nele. O barulho de estática estava lá, o que significava que as baterias estavam funcionando, era só uma questão de encontrar a frequência certa.

“Ashley? Ashley, está me ouvindo? Câmbio.” Eu tentei algumas vezes.

Finalmente ouvi alguma coisa.

“Ashley, está me ouvindo? Repito, está me ouvindo? Câmbio.”

“Nero” foi tudo o que ouvi em baixo volume.

“Ashley, pirralha, você precisa dizer “câmbio” quando terminar.”

“N...e...ro” ouvi de novo.

“Que merda!” pensei. Com preguiça de ir para fora, tirei as baterias, soprei nelas, como se tivesse algum efeito, e as coloquei de volta.

“Ok, mulher gato, é o Nero, está ouvindo agora? Câmbio.”

“ZERO”

Derrubei o walkie-talkie.

Não era a voz da Ashley. Não era “Nero” o que eu tinha ouvido.

Ashley.

Corri para fora e imediatamente comecei a me odiar por deixar a menina sair sozinha. Ashley estava no quintal, segurando o rádio, apertando com força. À sua frente estava a mesma mulher, inclinando-se toda para baixo, em direção ao rosto de minha sobrinha.

“Zero, zero, zero, zero, zero” era o que a mulher repetia freneticamente para o rosto traumatizado de Ashley.

Sim, quando alguma aberração me incomoda eu consigo me controlar. Mas uma criança, minha sobrinha?

Perdi a cabeça. Corri em direção à mulher e a ataquei com tanta força que tive certeza que a machucaria. Assim que caí no chão me levantei e peguei Ashley. “Você está bem?” Eu gritei. “Ela tocou em você?” Eu nem sequer percebi o quanto a estava sacudindo, provavelmente a assustando ainda mais.

Ashley agora estava chorando tanto que não conseguia responder.

“Vamos entrar” Disse quando me virei para a mulher. Ela continuava caída no chão, o rosto virado para baixo. Assim que entramos em casa, fomos até a janela. A mulher começou a se levantar. Ela virou para nós.

“Estou chamando a polícia” Falei aterrorizado para Ashley enquanto pegava o celular. “Não se preocupe, meu amor, tudo vai ficar bem.”

A mulher deu um passo até a janela. E mais um. Seu nariz estava sangrando e ela estava visivelmente machucada porque estava mancando, mas isso não parecia a incomodar. 

Eu vou admitir, estava quase congelando com a descarga de adrenalina. Nós só ficamos na janela, observando a aberração se aproximar de nós.

“A polícia está a caminho” falei para minha sobrinha que continuava chorando.

A mulher andou até a janela.

Ela... Ela não estava mais olhando para mim. Ela se inclinou até o rosto de Ashley. A pobrezinha agarrou minha mão e estava apertando forte demais para uma menina de 7 anos. Aquela porra, vaca, mulher, o que quer que fosse, se inclinou toda para a janela. Somente o vidro separando ela e Ashley. Quando eu estava quase levando minha sobrinha para outro cômodo, longe dessa coisa, a mulher abriu a boca, mas imediatamente a fechou num sorriso. Isso de novo. Isso era tão impossivelmente estranho. Quando ela abria a boca, as pupilas iam para a parte de trás de sua cabeça, só para imediatamente voltar seguido com um sorriso. Agora ela estava inumanamente alternando entre um sorriso e uma boca escancarada combinada com olhos sem pupilas.

“Vamos sair daqui.” Falei para Ashley assim que a peguei e levei para meu quarto.

A polícia chegou 15 minutos depois. Eles começaram a varredura do bairro e realmente pegaram uma mulher que correspondia com a minha descrição. Eu tive que ir até a delegacia para reconhecê-la, mas primeiro eu tinha que deixar Ashley na estação de trem. Sua mãe queria que ela voltasse imediatamente depois do que aconteceu e eu não poderia culpá-la. Eu a levei até a estação, onde eu combinei com a equipe para ficar de olho nela até chegar a seu destino.

Um condutor muito agradável me prometeu que iria acompanhá-la por toda viagem. Ele pegou Ashley pela mão e lhe prometeu mostrar todas as partes legais do trem. Finalmente a garota sorriu.

Assim que o trem estava se preparando para partir, o condutor colocou minha sobrinha nas escadas. “Diga adeus para seu tio,” ele disse “estamos prestes a sair.”

“Tchau, Ashley, diga para a mamãe me ligar quando Você chegar, ok?”

Ela não respondeu, o que era compreensível. A criança provavelmente continuava terrivelmente assustada, porra, eu ainda estava assustado.

Quando no alto-falante informou que o embarque estava terminado, o condutor abriu a porta para que eles entrassem no trem. Entretanto, Ashley não se moveu. Ela olhou para o condutor.

“Vamos agora.” Disse ele.

Ashley abriu a boca, olhando para o homem.

“Nós temos que entrar agora, estamos quase começando o trajeto, querida.” Ele disse novamente. “Vamos.”

Assim que entrou no trem e Ashley o seguiu, ouvi-a dizer “10, 9, 8”.


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Estou planejando escrever sobre o que aconteceu com Ashley, em algum momento, embora sua família prefira que seja mantido privado.
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PARTE I AQUI

PARTE II AQUI


26/02/2015

Eu era uma das "solteiras gostosas perto de você".

Se você já visitou algum site com conteúdo pornográfico, deve conhecer aquelas propagandas no estilo "solteiras gostosas perto de você". Naturalmente, sabe também o quão falsas são essas propagandas - as mulheres que aparecem nas fotos não estão perto de você, só são fotos tirados de sites de prostituição estrangeiros. provavelmente  você sabe disso tão bem que não perde seu tempo clicando nessas publicidades.

Entretanto, se você clicar, uma janela de chat se abre e você pode escolher com qual garota quer conversar. No começo, o chat é de graça, mas depois de um tempo você tem que se cadastrar para continuar usando. Então tem que pagar por cada minuto em que estiver falando com uma das garotas que escolher.

Eu sei disso porque sou uma dessas garotas.

Seis anos atrás eu era um estudante sempre sem dinheiro. Meu amigo Josh disse que tinha descoberto um jeito super fácil de conseguir dinheiro. "Não é como se você fosse uma prostituta, ou algo do tipo. É completamente anônimo, eles não sabem com quem estão falando. Na verdade, metade de nós somos homens! Você só tem que fingir que é uma garota. Até que é bem divertido. E as empresas pagam bem, você pode trabalhar direto da sua casa e escolher quantas horas por semana quer trabalhar. Tudo que tem que fazer é conversar sacanagens com caras que nunca vai conhecer na vida real."

No começo eu não estava gostando muito da ideia. Sentia que estava trapaceando. Mas então me perguntei se alguém realmente achava que "solteiras gostosas perto de você" era real. Claro que não. Era tudo uma fantasia. Como se estivesse escrevendo um conto erótico em tempo real. E ser pago pra isso. Então deixei Josh me inscrever.

O sistema era simples. A primeira conversa, a de graça, era com automática. Depois que o usuário se inscrevia e começava a pagar, conversava com uma pessoa real (nós, no caso). Nosso trabalho era fazer com que eles ficassem online o maior tempo possível.

No começo era bem divertido. Eu me tornava bem criativo enquanto interpretando "Sally" (uma universitária tímida que estava desesperada por dinheiro), "Kaylee" (uma garota nerd com óculos, muito safada e flexível), e "Rhonda" (uma garota negra gordinha, apaixonada e maternal).

Era hilário e logo parei de sentir vergonha por estar fazendo aquilo. Claramente, meus clientes estavam gostando, e como eu ficava anônimo, não sofria risco nenhum de ferrar com minha carreira futura - com toda certeza não colocaria esse emprego nos meus currículos seguintes. O dinheiro era bem interessante, assim como Josh já tinha me avisado, e como eu podia escolher os horários em que trabalhava, achei ser uma escolha perfeita para alguém como eu, que estudava bastante também.

Mas obviamente existiam pontos ruins. Como você pode imaginar, alguns caras não pegavam leve. Eu não era virgem, mas tive que explorar coisas que eu nem sabia que existia. Haviam alguns que eram extremamente violentos, aqueles que queriam machucar sua parceira (ou ser machucado). Daí existiam caras que queriam que eu interpretasse uma menina de 13 anos. E outros que ainda gostavam de coisas bem mais doentias.

Não acho que seja legal eu reescrever essas coisas aqui, mas quero que você saiba que nem sempre foi um mar de rosas. Algumas conversas eram bastante desconfortáveis e algumas vezes eu não sabia se devia deslogar, dispensar o cliente ou continuar. Mas insistia em falar para mim mesmo que era apenas um tipo de jogo, um jeito inofensivo desses caras realizarem suas fantasias. Era só conversa, eles não estavam machucando ninguém de verdade. As vezes fazia esse tipo de "programa", e o quanto mais eu fazia, mais fácil ficava. Me impressionei comigo mesmo quando me encontrei conversando casualmente sobre sexo com facas e sobre chutas as bolas de outro cara para gerar prazer.

Depois de um ano nesse emprego era muito raro ficar surpreso com alguma coisa. Haviam três tipos principais de clientes: a maioria queria conversar sobre putaria "normal", os solitários que estavam mais precisando de um amigo ou terapeuta (conversavam sobre coisas do cotidiano) e os que eram muito pervertidos. Logo aprendi a lidar com todos eles.

Entretanto, um cara realmente estranho apareceu. Ele não parecia se encaixar em nenhuma das categorias acima. Ele não queria conversar sobre sexo, mas também não se encaixava nos caras solitários. É muito difícil descrevê-lo, então vou tentar reescrever um pouco do que lembro da nossa primeira conversa. Ele se chamava "O pescador". Ele sempre queria conversar com "Rhonda":


Eu: Oi querido. É a Rhonda aqui, como você está?
Ele: Fale comigo.
Eu: Okay... O que você tem em mente? ;)
Ele: Apenas converse comigo. Não aguento mais essa casa. Não aguento mais essas vozes. Apenas fale qualquer coisa.
Eu: Bem... Você está afim de que? Está bem quente aqui ;) Quer saber o que eu estou vestindo?
Ele: Não! Não. Só... Fique aqui. Por favor.
Eu: Okay, querido. O que aconteceu? Você está bem?
Ele: Não, eu não estou bem. São essas pessoas. Eles fazem tanto barulho! Não aguento mais.
Eu: Então... você tem colegas de quarto barulhentos?
Ele: Sim! Só quero silêncio. Só quero a porra do meu silêncio.
(Nesse ponto eu estava bastante confuso, mas continuei).
Eu: Talvez você devesse conversar com eles? Falar que você precisa de um pouco de privacidade.
Ele: Não consigo me livrar deles. Sempre tem alguém.

E continuou assim. Logo desenvolvi a ideia de que provavelmente ele não estava completamente são. Pessoas loucas de verdade eram raras nas conversas, mas não inexistentes. Eu não que qualifico como terapeuta, mas dava o meu melhor para fazê-los se sentirem bem.

O Pescador voltava sempre. Eu o reconhecia pelo jeito que escrevia. Usava o chat por horas (nessa época eu comecei a me sentir mal, essa pessoa estava claramente doente e eu estava usando-o em um site pornô para conseguir dinheiro), sempre falando sobre querer silêncio e as pessoas barulhentas em sua casa. Comecei a pensar que não existia ninguém na casa dele - provavelmente era coisa da cabeça dele.

O Pescador virou um cliente tão assíduo que raramente tinha tempo para outros. Ele agendava com Rhonda por horas a fio. Parecia também que não conversava com nenhum outro funcionário além de mim - mesmo quando eles estavam interpretando Rhonda. De algum jeito ele me reconhecia e deslogava quando percebia que era outro funcionário dizendo "Você não é a Rhonda!". Josh começou a fazer piadas dizendo que O Pescador estava perdidamente apaixonado por mim, mas eu não via graça nenhuma naquela situação. Meu trabalho não era mais divertido, tinha me tornado um terapeuta pessoal para uma pessoa aleatória. Perguntei para meu patrão se poderia parar de interpretar Rhonda, mas O Pescador estava dando muito dinheiro para o site e insistiu que eu continuasse.

Então continuei. E para meu pavor, descobri que estava desenvolvimento algum tipo de sentimento por ele. Não algo romântico, nada desse tipo. Mas me pegava pensado quem ele era. Acho que não é possível passar hora e horas conversando com alguém sem criar algum tipo de conexão. Mas ao mesmo tempo conversar com ele me deixava tenso, e ficava feliz por ser apenas "Rhonda" para ele.

Essa foi uma das últimas conversas que tive com ele:

Ele: Não sei como me livrar deles. Não tenho saída. Só quero que vão logo embora.
Eu: Ouça, querido, acho que essas pessoas que você tanto fala... Não acho que sejam reais.
Ele: Eles não são reais?
Eu: Não. Acho que você os inventou. E se eles estão só na sua cabeça, você pode só parar de pensar neles, daí vão desaparecer!
Ele: Posso fazê-los desaparecer?
Eu: Sim, você pode.
Ele: E isso é o que você quer que eu faça, Rhonda? Que eu faça eles desaparecerem?
Eu: Se isso te fazer feliz, sim, querido.
Ele: Você está certa. Posso me livrar deles. Posso fazê-los desaparecer. Eu posso. Obrigada, Rhonda. Eu te amo, Rhonda.
Eu: "Amar" é uma palavra muito forte, querido.
Ele: Vou fazê-los desaparecer agora mesmo.

Ele deslogou. Foi o tempo mais curto que tinha ficado conversando comigo. A conversa me deixou estranhamente preocupado. Sabe, aquela sensação que você sente que fez algo muito errado, mas não consegue definir o que? Me sentia exatamente assim.

Mais tarde naquele mesmo dia ele entrou novamente. Foi a última conversa que tive com ele. E também a última de todas - me demiti logo em seguida.

Ele: Rhonda... O que eu fiz? O que você fez? Por que você me falou para fazer isso?
Eu: Que? Do que você está falando?
(Eu estava tão apavorado que nem entrei no personagem)
Ele: Eu matei todos eles... como você disse que eu tinha que fazer... agora estão todos mortos.
Eu: Não entendi.
Ele: Eles não paravam de falar, depois não paravam de gritar. Continuei e continuei até que eles pararam. E agora só tem silêncio... finalmente meu silêncio.
Eu: Isso está me deixando desconfortável. O que você fez?
Ele: Eu os matei que nem você falou que eu devia fazer. E agora tem sangue pra tudo quanto é lado. Matei minha mulher e meus filhos. Porquê você mandou. É sua culpa.
Eu: Para com isso.
Ele: É sua culpa. Você fez isso. E você vai pagar. Você vai pagar, porra! Rhonda! Vou te encontrar e você vai pagar por isso!
Eu: Vou sair agora.
Ele: Não tente escapar. É sua culpa. Você me fez fazer isso. Esse era seu plano desde o começo. Você que me colocou contra eles. Você fez isso. Você fez isso. Você. Vou te encontrar e fazer você pagar por isso.

Me desconectei. Liguei para Josh e para meu chefe imediatamente e disse que estava me demitindo. Contei honestamente o que tinha acontecido e também que dentro de nenhuma circunstancia eles poderiam dar minha identidade real para ninguém. Fiquei em pânico e Josh teve que vir até minha casa para me acalmar, me assegurando que O Pescador não poderia me encontrar nem se fosse um super hacker, pois meu nome não estavam em nenhum lugar do site.

Meu chefe também me assegurou que a companhia era bem rigorosa com o anonimato de seus empregados. Volta e meia os clientes contatavam a empresa tentando descobrir os nomes reais das pessoas que tinham conversado, mas eles nunca falavam. Faziam isso tanto pela privacidade do empregado e para não quebrar a "ilusão" que o site criava. Meu chefe me explicou diversas vezes que era totalmente seguro e que sentia muito por eu ter que ter passado por aquilo. Ele não queria que eu me demitisse e perguntou se eu queria ficar e apenas não fazer mais o papel de Rhonda, mas eu não quis.

Eu não conseguia parar de pensar no O Pescador e se ele tinha realmente matado alguém, ou se talvez aquilo fosse apenas uma piada de mal gosto. Talvez esse tipo de coisa o excitava? Josh falou que provavelmente era isso mesmo. Fiquei acompanhando os jornais naquela semana, mas nenhum homicídio que foi noticiado se encaixava naquela situação. Considerei ir até a policia, mas eu não sabia nada sobre aquela pessoa. Poderia ser qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo. Talvez nem estivesse no mesmo país que eu? Ele poderia ser Chinês pelo o que eu sabia.

Uma coisa era certa: Se O Pescador tinha matado alguém, fez de um jeito que não chegou a ser noticiado aonde eu morava. Tentei até procurar no Google coisas como "assassinato de família" naquele dia, mas não achei nada. Josh continuou a trabalhar no site e volta e meia eu perguntava se O Pescador tinha voltado, mas estava desaparecido. Fiquei feliz que aquilo tinha acabado, e com o tempo deixei isso para lá.  

Fiquei sem pensar no O Pescador por anos. Até que ontem aconteceu uma coisa que fez isso tudo voltar a minha mente.

Depois de um longo dia de trabalho decidi ir no cinema, sozinho. Só queria um tempo para mim mesmo, sendo que tinha terminado um relacionamento a algumas semanas e tudo estava bastante confuso desde então. Escolhi um filme que já estava a algum tempo em cartaz, assim a sala não estaria cheia. Tive sorte - estava quase vazio quando entrei. Escolhi o melhor lugar (última fileira bem no meio), e comecei a tirar minha jaqueta quando um cara veio até mim.

"Esse lugar está vago?" Falou. Pelo sotaque, pude perceber que ele era estrangeiro. Estava bastante escuro na sala, então não tive como avaliar seu rosto para ver de onde ele parecia ser ou quantos anos tinha.

Fiz que sim com a cabeça e ele se sentou. Fiquei um pouco irritado, o cinema estava quase todo vazio e nesse momento estava afim de ficar sozinho. Tinha que se sentar bem do meu lado? Havia um monte de lugares. Então ele falou de novo.

"Você gosta de filme de terror?"

Sendo que não estava com vontade de fazer amizades naquele momento (e parecia que ele estava dando em cima de mim), educadamente falei que gostaria de ficar sozinho. Ele não respondeu, só pegou um pedaço de papel do seu bolso e começou a escrever ( o que achei ser um número de telefone). Então colocou o pedaço de papel no bolso da minha camisa (o que achei bastante invasivo) e saiu andando. Foi bem estranho. Não mudou de lugar, simplesmente foi embora do cinema. Não assistiu o filme.

Fiquei bastante irritado com aquela situação, mas assim que o filme começou esqueci completamente. Só lembrei novamente do cara esquisito que havia me dado seu número quando cheguei em casa. Peguei o papel do meu bolso para jogar fora, mas antes percebi que não havia números e sim uma frase.

"Te achei, Rhonda. E vou te achar de novo."  






24/02/2015

O único


Eu gostaria de aproveita esta oportunidade para conversar com você, a pessoa que está lendo isto. Há algo especial sobre você. Algo que o torna diferente de qualquer outra criatura neste planeta. Todos os outros seres deste planeta sabem quem você realmente é, mas juramos segredo. Juramos pelos nossos grandes ancestrais que nunca revelaríamos a verdade para você.

Até agora.

Por muitos anos, o mundo inteiro esteve assistindo ao seu amadurecimento. E eu sempre senti a necessidade de contar-lhe que tudo era uma grande mentira. Você anda entre nós, acreditando que somos criaturas semelhantes. É tudo uma farsa. Posso dizer-lhe agora mesmo, categoricamente, que você é o último ser humano neste planeta. De fato, você é o último ser humano em existência.

Anos atrás, nosso posso se aventurou em uma planeta longínquo, conhecido como Terra. Esperávamos descer dos céus, trazendo coisas que nenhum humano sequer teria sonhado. Seria uma conquista fantástica; criar laços com os povos da Terra, construindo uma relação forte o suficiente para mover um planeta.

Porém, quando enviamos o nosso Profeta para iniciar os planos, ficamos horrorizados ao descobrirmos que ele fora tratado com hostilidade. Ele foi sacrificado por seu povo, que era bastante primitivo, a ponto de acreditarem que todas as palavras do Profeta não passavam de mentiras e bruxaria.

Após a morte do nosso profeta, as grandes mentes do nosso planeta concordaram em destruir a terra, junto com a raça humana, tudo pelo bem de todo o universo. E foi o que aconteceu. A terra foi obliterada, e todos os humanos destruídos. Todos, exceto um.

Você.

Entenda, apesar de concordarem com a destruição da terra, o meu povo é bastante generoso. No fim, não queríamos ser os responsáveis pela extinção de uma raça. Então pegamos uma pequena criança, e a colocamos sob os cuidados de dois seres do meu planeta. Eles seriam o que você considera como “pais”. Eles o criaram em um estilo tradicional do meu planeta. Eles o criaram para ser civilizado, ao contrário dos seus parentes humanos.

Decidimos estuda-lo. Queríamos ver a sua adaptação sob certas circunstâncias. É por isso que fazemos coisas acontecerem em sua vida. Coisas que o afetem emocionalmente. Estudamos a tristeza, felicidade, medo, prazer, dor e outras emoções. Apenas saiba que tudo é controlado.

Criamos o conceito de “Religião” para descobrirmos se você aceitaria a possibilidade da criação divina.

Criamos um sistema de autoridades, para instilar um senso de medo e punição.

E mais importante, criamos uma grande rede de “amigos”, “família”, e outros amados por você; tudo em nome dos estudos.

Acho que já falei demais. Apenas saiba de mais uma coisa, jovem humano. A idioma que você fala, não é o idioma próprio da sua raça. Essa cultura não é sua, é nossa. Você é único ser humano que anda sobre este planeta, e a Terra já se foi a muito tempo.

Eu o aconselho a continuar com a sua vida diária, como se não soubesse da estranha realidade por trás de tudo.

Continue vivendo tranquilamente, pelo seu próprio bem.

23/02/2015

Misantropo

Pode me chamar de misantropo, introvertido, eu não me importo. A questão é que, eu sempre preferi ficar sozinho.

Eu tive alguns amigos – se é que posso chamá-los de amigos – pessoas do trabalho, vizinhos, família. Eu até tentei esse negócio de namoro, mas nunca funcionou pra mim. Eu tive uma namorada por dois anos, mas ela me largou porque eu não gostava de sair com os amigos dela e preferia ficar em casa.

O único sentimento que tomou conta de mim depois que ela me deixou foi alívio.

Eu também tentei sair com um grupo de pessoas que conheci online – e com “sair” eu realmente quis dizer no mundo real. Eu fiz isso porque a minha ex falava sempre que eu precisava sair mais, conhecer mais pessoas... Você sabe, “sair do casulo”.

Depois de sair com eles eu percebi que realmente preferia meu casulo, mas deixe-me explicar: Não é que eu não goste deles, eu simplesmente não sou uma pessoa que gosta de sair. Eu não tenho síndrome de Asperger ou nada disso – eu posso conversar, posso ser amigável, sempre ajudei idosas a atravessar a rua quando eles precisam, já doei sangue simplesmente porque estava com vontade, já ajudei pessoas desabrigadas – é apenas o fato de que eu prefiro ficar em casa numa Sexta-Feira à noite lendo um livro, e se eu tiver amigos, vou ser obrigado a sair.

Eu falei isso tudo apenas para deixar claro que o mais sozinho que eu já me senti foi quando estive em volta de várias pessoas, e eu realmente acho que o melhor sentimento que se pode ter é simplesmente solidão.

Isso é... Até essa manhã.

Eu acordei e percebi que não havia luz, eu vivo em um prédio antigo no centro da cidade. É o tipo de lugar onde os papéis de parede estão caindo pelos cantos e a pintura é velha e acabada... Em muitos lugares o teto era apenas uma coleção de buracos, os elevadores fazem barulhos estranhos e o lugar todo tem uma névoa esquisita do que parece ser fumaça de cigarro ou de maconha. Eu já fiquei sem energia antes, e na última vez que aconteceu, não retornou por dois dias, o que me irritou, pois eu havia feito compras no dia anterior e tive que assistir enquanto algumas delas estragavam.

Então, quando eu acordei, meu primeiro sentimento foi irritação. É melhor que haja energia quando eu voltar do trabalho, murmurei. Geralmente nós ficaríamos sem luz na neve, ou depois de uma tempestade... Mas no meu prédio, onde a instalação elétrica era mais antiga que tudo, poderia faltar luz em qualquer época do ano – então, eu nunca me incomodei em procurar razões relacionadas ao tempo para justificar.

Eu abri todas as janelas, mas não ajudou muito, estava tudo meio cinza dentro do meu apartamento. A semana tem sido nublada desde o começo, houve até alguns relâmpagos, então mesmo com a minha maior janela aberta eu não conseguia ver muito, e meu banheiro, que não tinha nenhuma janela, estava mais escuro que um sarcófago.

Meu alarme estava desligado, claro. Então eu chequei as horas no meu telefone e depois de um momento entrei no chuveiro, não me importando muito com o fato de que a água estava gelada e de que eu não conseguia enxergar minhas mãos em frente ao meu rosto. Mesmo se eu tivesse saído pela porta naquele horário, ainda estaria atrasado uma hora para o trabalho. Eu odeio atrasos. Eu geralmente tento estar pelo menos 15 minutos adiantado. É apenas mais uma mania de introvertidos – tentar estar no horário, sempre.

Depois de vestir algumas roupas, saí pelo corredor e fui até o elevador – lembrando somente depois que falta de energia significava falta de elevador – fui em direção ás escadas.

Essa foi provavelmente a primeira vez que senti uma sensação de mal-estar. Eu fiz o que pude para ignorar, porque não sou mais criança e esses tipos de pensamento sempre rondam sua cabeça tentando te incomodar. Mas era difícil, e não só por causa da escuridão do prédio, mas também porque naquele momento percebi que não havia visto uma pessoa sequer durante toda a manhã.

Mas só isso não era tão alarmante, eu já caminhei até o elevador muitas vezes sem ver qualquer outra pessoa, no entanto, enquanto eu atravessava o corredor, usando a luz do celular como lanterna, percebi outras coisas que estavam fora do lugar. Primeiro: Eu não havia escutado nenhum barulho vindo dos apartamentos, e o ar estava desligado, o que deveria deixar qualquer barulho mais alto. Segundo: Eu estava atrasado. Normalmente eu vou para o trabalho antes do horário normal, mas hoje, eu estava indo mais tarde – quando a maioria do prédio também vai – talvez alguns deles tivessem usado o elevador mais cedo, porém, de qualquer forma, alguns deveriam ter usado as escadas comigo.

Quando cheguei ao térreo tudo ficou ainda pior – mais cedo, quando abri a janela, não parei para olhar a rua e não percebi a quão parada estava.

Havia somente carros nas ruas e eles estavam estacionados, nenhuma alma á vista. Os prédios adiante não pareciam fechados, mas também não pareciam abertos; apenas escuros e vazios.  Eu engoli em seco e disse a mim mesmo que provavelmente havia alguma razão para isso, mas a minha mente se recusava a aceitar. Eram 08h30min da manhã de uma Terça-Feira! As ruas estariam lotadas de carros e as calçadas lotadas de pessoas – isso sem mencionar o barulho – mas a única coisa que ouvi foi o vento correndo entre os prédios.

O quarteirão todo estava sem luz, tinha que ser isso. Todo mundo ainda estava dentro de suas respectivas casas esperando pela energia.

Liguei uma, duas, três vezes até que ouvi voz entediada do meu chefe falando “Deixe seu recado” – a primeira voz que ouvi em toda a manhã.

Eu abri o navegador e comecei a procurar qualquer informação, mas não havia nada novo desde ontem. Na verdade, minha conexão estava péssima e depois de um momento simplesmente caiu e não voltou mais. Eu tentei ligar para um colega de trabalho – o único que eu sabia o número de telefone – ele havia oferecido o número.

Ele também não atendeu, e eu comecei a me perguntar se a falta de energia estava afetando os celulares por perto, mas ele não morava perto de mim, então seria mesmo a energia?

Acendi a luz do celular e comecei a subir as escadas novamente, meu apartamento era no oitavo andar e eu não estava na minha melhor forma, minhas pernas começaram a doer no terceiro, mas foi no quarto andar que a luz do meu celular falhou e então ele desligou completamente.

“Não, não!” Eu sussurrei e tentei ligá-lo novamente e então lembrei que não o havia carregado desde o dia anterior, e, além disso, eu estava usando ele como lanterna e havia tentado ligar para meu chefe várias vezes, eu provavelmente ignorei o aviso de bateria pouca e agora era tarde demais. “Pedaço de merda,” Murmurei. Algo dentro de mim sabia que eu deveria deixar meu tom de voz o mais baixo possível... Eu coloquei o celular no bolso e comecei a subir as escadas, tentando ficar calmo.

Foi então que eu ouvi, sons de passos vindo da escada – mais precisamente atrás de mim.

Você pode achar que eu ficaria feliz de perceber que havia outras pessoas comigo, ou até achar que depois de perceber como é realmente ficar sozinho, eu ficaria grato em saber que na verdade eu não estava – e por um momento, eu tentei me fazer acreditar que era realmente isso que senti.

Os passos eram lentos, quase organizados demais. Eles ecoavam no escuro como se fosse a morte – no começo estavam delicados, mas logo eu percebi comecei a ouvir as batidas mais fortes, eles estavam pelo menos dois andares abaixo de mim.

Eu não pensei, apenas subi o resto da escadaria e encostei-me à ponta para escutar. Eles continuavam a vir, eu pensei em chamá-los, mas todo resto de instinto que tinha me disse que seria burrice – então eu tentei me convencer de que era apenas meu jeito estranho e solitário apitando na minha cabeça novamente – mas esse sentimento não era apenas o puro desejo de ficar sozinho por um momento.

Toda a lógica que eu consegui formar me dizia que nada nesse vazio deveria estar se mexendo – eu não tinha escutado nem sequer o latido de um cachorro perto do prédio – mas havia algo além de mim, e eu sabia que seja lá o que fosse isso não deveria estar lá.

Quando finalmente alcancei meu andar, parei próximo a escada. Por um momento apenas escutei. Os passos ainda estavam lá, e eles nem haviam aumentado a velocidade, mas pareciam estar mais perto. O corredor estava vazio, como eu imaginei que estaria; afastei-me da beirada da escada e pude escutar meu próprio coração acelerado, ecoando nas minhas orelhas juntamente com minha respiração ofegante.

Eu vi a última janela do corredor aberta, uma névoa cinza entrando por ela, mas ignorei e simplesmente fui em direção ao meu apartamento.

Atrás de mim ouvi os passos no corredor, ainda lentos e calmos. Eu esperei. Talvez eles tivessem ido à outra direção – mas não, os passos estavam cada vez mais altos – vindo na minha direção. Eu me virei rápido e fui em direção ao meu apartamento novamente. Eu não corri, só andei mais rápido, se eu corresse faria mais barulho, e tentei manter minha respiração normal também.

Eu alcancei meu apartamento, mas ainda pude ouvir os passos atrás de mim, e enquanto tentava pegar minha chave me dei conta de que eles estavam perto demais, e que se eu abrisse a porta eles poderiam achar meu único lugar de refúgio. Pensando rapidamente, apenas continuei andando o mais rápido que pude e assim que cheguei ao outro andar percebi que os passos estavam diminuindo, eu ainda podia ouvi-los, mas eles estavam dispersos, como se tivessem ficado confusos ou como se estivessem ido na direção errada.

Minha intenção era dar a volta e retornar ao meu apartamento, mas enquanto eu o fazia me senti meio bobo, afinal de contas, por que eu estava tão convencido de que essas pessoas me perseguiam? Eu era a única pessoa que eu havia visto hoje, mas isso era estranho, não o surgimento de outra pessoa no prédio. Alguma coisa, abdução, desastre ou sei lá o que, havia feito todas as pessoas sumirem, mas me deixaram para trás, e se eu ainda estava aqui, outras pessoas também poderiam estar. Essas pessoas poderiam ser apenas outros moradores do oitavo andar, tão confusas e assustadas quanto eu.

Quando comecei a retornar para o meu andar, ouvi os passos novamente. Eles haviam me encontrado.

Eu corri novamente para o corredor e esperei perto da escada, abrindo a porta dos degraus lentamente – todo e qualquer pensamento que tentava me convencer de que esses passos pertenciam a alguém tão assustado e confuso quanto eu deixaram minha mente – esses passos pesados, não pertenciam a alguém que se encontrava na mesma situação que eu. Eles não estavam assustados, eles tinham um propósito, e esse propósito não poderia ser bom.

Dessa vez eu alcancei meu apartamento e consegui entrar, tranquei a porta e a fechadura e encostei-me a ela, contemplando a porta um momento depois e percebendo que só aquilo não seria suficiente, coloquei uma cadeira apoiada na maçaneta. Então fui ás janelas e coloquei vários móveis próximo a elas.

Por algum tempo, nada aconteceu. E então eu os escutei novamente, não havia duvida de que os passos estavam me perseguindo, a velocidade, lenta e calma, parando vagarosamente quando se aproximaram da minha porta.

Eles pararam. Algo estava atrás da minha porta, esperando, provavelmente por algum barulho, mas sabendo sem sombra de dúvida de que eu estava lá dentro. Eu achei que senti algum cheiro vindo do corredor, algo que tivesse um cheiro... Quente. Era o único jeito de descrever, quente.

Eu esperei, e esperei. O silencio era tangível, e eu senti que o ar ao nosso redor havia ficado mais denso, assim como o resto do mundo.

Minha maçaneta começou a girar, lentamente no começo e logo depois rapidamente enquanto eu sentei lá, sem ação, minha respiração se tornara pequenos soluços, meu coração batendo tão rápido que eu não pude ignorar a pressão constante no meu peito.

Quando finalmente a insistência diminuiu, eu peguei meu notebook, que ao contrário do celular não havia descarregado, e comecei a escrever isso – o barulho na porta retornou mais três vezes, a última vez foi a mais insistente, acompanhada de socos –

Eu não sei se tem alguém aí que vai ler isso. Eu nem sei por quanto tempo mais a internet vai funcionar, eu nunca precisei de outras pessoas até hoje, mas eu definitivamente preciso delas agora!

Por um momento nessa manhã desejei não estar sozinho.


Agora não estou, e não tem outra coisa que eu deseje a não ser ficar sozinho novamente.   


22/02/2015

A Experiência - (Dia 1-3)

Continuação da Creepypasta "A Experiência" 
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Dia 1
10/17/2009
8:05 PM

-Começo da Nota- Dr. Sandoval, se você está lendo esses uploads antes de Eu ter a oportunidade de editá-los novamente, por favor note que o que você está vendo não é o assunto da minha pesquisa. Enquanto ela se desenrola, meus adoráveis ajudantes estão atualmente incapazes de realizar as tarefas técnicas que eu especificamente os incumbi.  Assim, nós não podemos fazer o upload da filmagem. Então, algumas dessas informações estará catalogando dados empíricos, completos com comentários subjetivos. Isso é só para propósitos de arquivamento. –Fim da Nota-

Todos os quatro participantes estão atualmente dopados. Já é obvio que eles estão completamente convencidos de que estamos realizando um estudo de sexualidade e compatibilidade. Na sala de estar, Tabitha (25) e Aspen (18) estão sentadas, juntas, no sofá. No chão, em frente à eles, Elija (25) e Maxwell (18) estão tendo uma discussão para ver quem faz o maior número de flexões. Maxwell tirou sua camisa depois da terceira dose de whisky, atiçando as meninas e a inveja de Elija.

Já que isso, na verdade, não é o assunto do nosso estudo de campo, Eu enviei meus assistentes, Garett e Edward, para ‘consertar’ as coisas na Mansão Rosewood.

Esse dia começou com a exata atmosfera de incerteza, até eles encontrarem as bebidas. Para ampliar a ilusão de que os participantes estão completamente isolados, Eu me encontrei com o zelador ontem e cuidamos de todas as acomodações. Eu dei para ele um cheque dos meus pais de $2,000, pelo aluguel daqui por um mês. Ele disse que o banco estava feliz por receber essa quantia, considerando que ninguém esteve interessado na casa desde os últimos assassinatos.

Assim, com tudo estabelecido antecipadamente, os participantes ficaram por conta própria hoje, nem mesmo sabendo onde colocar suas bagagens. Eu permiti um celular para todos os quatro, na qual eles deverão usar para me ligar; na qual eu irei rejeitar a ligação. Tudo isso seria para aumentar o sentimento de abandono contínuo, a não ser a garrafa de ‘Coragem Líquida’ que deixei para eles.
Você deve ter se perguntado, se a mansão era herança de família deles. Mas eu estou a divagar.
Garett e Edward estão quase ao alcance da casa agora.

10:20 PM

Aplicamos o truque facilmente neles essa noite. Garett se posicionou de um jeito, que ele pode ser visto pela janela da sala de estar, silhuetado contra as luzes dos pilares dos portões, enquanto Edward chegou na frente da porta e começou a bater nela, aumentando lentamente o volume.

“Quietos”, disse Aspen. “Ouvi um som estranho.”.

Estavam todos na cozinha, sentados em volta do balcão, em banquetas. Agora as batidas ficaram altas suficientemente para eu ouvir pelo monitor.

“Vocês escutaram isso?” Tabitha perguntou para os outros.

Todos trocaram olhares confusos, exceto Elija. Pareceu ser a oportunidade certa para ganhar um grau de machismo na frente das garotas. Ele estufou o peito e foi para a porta. As garotas começaram a andar na ponta dos pés atrás dele. Maxwell deixou a sala de estar. Olhando em volta nervosamente, ele avistou a sombra de Garett pela janela e engasgou em voz alta.
Maxwell foi correndo contra os outros e trouxe os outros para a sala de estar para fazer cena. Ele mostrou à eles a janela, mas eu já havia comunicado ao Garett para voltar. Max foi ridicularizado pela Aspen, sua parceira sexual assumida, por ser um “Gatinho assustado”. Isso causou um efeito debilitante nele.

Dia 2
10/18/2009
9:30 AM

Eu contatei Maxwell e pedi à ele para fazer uma gravação em vídeo na sala do ocorrido, relatando o que aconteceu na última noite.

“Eu vi um monstro na última noite,” Maxwell disse pela câmera. “Um grande monstro que carregava uma grande espada.” Ele me surpreendeu pela espada. “Ele olhou para mim e tinha dois grandes olhos brilhantes. Não sei sobre esse lugar, cara. Era suposto estarmos pegando mulheres aqui, mas eu estou com más impressões. Eu acordei no meio da noite e escutei as vozes das garotas no quintal. Elas estavam falando que algo estava seco. Ossos secos ou coisa do tipo.

Curiosa pela última parte, eu perguntei meus assistentes se eles tinham ido de volta na casa após eu cair no sono. Eles não foram. Só pode-se concluir que ele não escutou as meninas, mas era outro alguém, compartilhando os mesmos traços que o “Monstro demoníaco” que ele disse ver enquanto bêbado.
“Eu disse que a única chance de ter sorte é com o álcool.” Maxwell continuou. “Mas você apenas nos deixou o suficiente para a última noite.”

Na verdade eu deixei. Eu achei que não tinha mais nenhum sobrando.

Essa confissão inteira dele, me serviu como um grande passo à frente para minha hipótese, não foi pelos efeitos do álcool. Isso foi mais tarde reforçado pela entrevista com a Tabitha, mais tarde, na qual ela descreveu que um som de batidas foi mais como um ruído de garras, como se alguém estivesse esfregando longas unhas num quadro negro. Assim, foi dado para nós, dois testemunhos absurdos, distorcidos por um pouco de medo e muito licor.

É, a menos que o barulho que eu ouvi não seja o mesmo que eles ouviram. No entanto, aplausível como obviamente é, não é errado notar linhas alternativas de razão quando eles apresentaram-se.

6:00 PM

Aspen e Tabitha estão tomando banho num banheiro comunitário no terceiro andar, ala oeste. Elas descreveram uma à outra um sonho que elas dizem ter tido na última noite; Não pela câmera, mas de uma à outra, em conversa. Apesar de não idênticos, seus sonhos foram similares. Elas descreveram ir para um poço que surgiu atrás da mansão, e que elas tinham descido o balde para pegar água, mas trouxeram para cima, somente areia.

Seria essa outra consequência do álcool?

Deveria ser mais lógico assumir que uma das duas estava exagerando a verdade do seu sonho. Algumas vezes, quando colocadas em situações de isolação, criaturas sociais podem extrapolar-se na tentativa de achar algo em comum com os poucos indivíduos que estão disponíveis no momento. Exemplo: Achando ter experiências comuns que nunca aconteceram à eles.

Dia 3
10/19/2009
9:05 AM

Depois um dia de ressaca, descanso e recuperação, a real experiência começa agora.
Hoje os participantes estarão se aventurando nos 20 hectares de campo florestado. Essas ordens foram recebidas com desaprovação unânime. Maxwell era o mais perturbado, percebe-se que foi pelo seu encontro com o “monstro”. Mas estando no meio das fêmeas, ele não expõe seus medos.
Eu dei instruções para cada par (novamente, Elija e Tabitha; Maxwell e Aspen) para se posicionarem em pontos opostos da mansão antes de marchar pela floresta. Eles irão ter de encontrar as bandeiras azuis e vermelhas que eu escondi deles, e então voltarem para casa. A razão “do porquê eu ter feito isso” que eu providenciei, foi que era um exercício de construção de confiança.

Mas, o que realmente preparamos para eles, foram marcações de terra, completamente traçadas levemente com sangue falso (só para atiçarmos a curiosidade), restos de roupas rasgadas e alguns poços de fogo que vão expelir fumaça em meio ao frio. Todos os sinais em necessários para fazê-los acreditar que há pessoas não vistas ainda, além deles. Postarei os resultados ás 5:00 PM, dessa noite.

2:30 PM

Todos pararam. Eles estavam juntos em um círculo diretamente atrás da casa. Eu não pude ver o que eles estão aprontando. Eu nem mesmo sei se eu devo arriscar enviando Edward para averiguar. Estão num lugar onde as câmeras não alcançam eles diretamente.

Talvez eles estão apenas muito assustados para ir para frente. Eu os darei mais trinta minutos para decidirem o que eles farão antes de me chamar.

3:00 PM

Liguei no celular deles. Tabitha foi a única que atendeu. Eu a disse que eu podia ver nas câmeras que eles não estavam se movendo. Eu perguntei o que eles estavam fazendo.

"Venha aqui. “Disse ela.

"O quê?" Eu estava um pouco nervosa. Eles souberam que eu estive lá? "Não, Tabitha."

Ouvi um barulho com chacoalhos. Agora Aspen estava no telefone.

"Temos algo para te mostrar” ela disse.

Ela não soou assustada ou perplexa. Sua voz estava pura.

"Não posso" Eu disse. No monitor Eu pude ver que o Edward estava mais perto possível dos arbustos. Muito perto. Ele estava quase perto demais. “Isso irá interferir no experimento, você sabe disso. Estou à 50 milhas de distância.”.

“Ela disse que não pode vir” Aspen disse para os outros.

“Aspen, por que vocês não estão indo procurar suas bandeiras?” Perguntei. “O que vocês encontraram?”

“Vamos lá” ela ainda estava falando com os outros. “Vamos entrar de novo.”.

Eu vi ela fechar o celular através das câmeras. Eles permaneceram parados por mais alguns minutos e então voltaram pra casa, caminhando juntos.

5:00 PM

Garett e Edward estão ambos de volta. Garett sabia que nada havia acontecido, era ele que fazia as últimas preparações no meio do mato. Mas Edward tinha ido para investigar aonde os participantes estavam ficando. Ele disse que não havia nada lá. Nem mesmo uma pedra revirada.

Enquanto isso, todos os quatro participantes estavam na suíte máster. Aspen estava num largo, ornamentado closet. Tabitha e Elija estavam sentados perto um do outro na cama, e Maxwell está olhando pela janela.

Nenhum falou com o outro por várias horas, a menos que o microfone tenha quebrado por algum motivo.

Me encontrei pensando na única maneira de manter esse experimento nos trilhos: Seria descer a estrada e dirigir para lá com meu carro, como se eu estivesse indo só visitar. Tinha deixado o carro escondido numa estrada de terra pouco menos do que uma milha a baixo da colina. Mas então uma coisa estranha passou pela minha cabeça. Tabitha e Aspen disseram que elas queriam que eu fosse até lá. E agora, elas tinham bolando uma maneira de me fazer sentir obrigada a ir até lá.

Que tipo de plano foi esse? Eu precisava de saber mais antes de contatá-los novamente, e antes de tomar qualquer decisão. Estamos focando em todas as evidências na revisão das gravações de vídeo e áudio de ontem á tarde até agora. Esperançosamente nós temos algo tangível para ser contado amanhã. Alguma explicação. Percebe-se que eles estão simplesmente tendo segundas intenções com o experimento.
Se for o caso, Eu devo pensar no que eles irão me contar. Aí têm coisa.
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Continua...



21/02/2015

Eu era um soldado da Guarda Real - Parte II

Eu estava hesitante em chamar a polícia depois que o que quer que seja aquilo deixou meu apartamento, mas minha namorada não. A polícia chegou depois de 20 minutos. Pegaram nossos depoimentos, a descrição da mulher e pediram que ligássemos imediatamente caso alguma coisa acontecesse. 

Mas minha mente estava em outra coisa. Meu comandante. Ele disse para não falar com ela. E eu falei. E agora eu estava acordando com ela na minha cama e, diabos, como ela entrou no meu apartamento? Caramba, tantos pensamentos.

No dia seguinte eu fui até o escritório do comandante

“Senhor” Eu disse cuidadosamente – você precisa entender que perder o emprego, não importa o quão ferrado fosse, definitivamente não estava na minha lista – “Senhor, precisamos conversar.”

Ele me olhou de sua mesa e eu juro pra você, juro que ele já sabia. O seu rosto perdeu toda emoção. Ele sequer perguntou o que estava acontecendo. “Sente” ele disse assim que inclinou a cadeira para trás.

“Senhor, eu...” Eu estava um momento difícil confessando ter quebrado as regras da Guarda.

“Você falou com ela. Você respondeu” Disse ele se inclinando na minha direção. “Não falou?”

“Bem, eu apenas pedi pra ela sair do caminho, isso é tudo.”

“Não, não o comando da Guarda Real. Você disse mais alguma coisa para ela?” “Eu disse” (Se você lembrar, além de dizer “ABRA CAMINHO PARA A GUARDA REAL”, eu disse “Senhora, por gentileza...”)

“Puta que pariu, filho. Puta que pariu.”

Foi a primeira vez que ouvi o comandante falar palavrão.

“Senhor, quem é esta mulher?”

“Estou indo ao arquivo para sua imediata remoção da Guarda” Ele me ignorou enquanto abria a escrivaninha para procurar alguma coisa.

“Senhor?” Perguntei sem acreditar que estava para perder meu emprego.

“Não se preocupe, eu vou encontrar outra coisa para você fazer. Mas seus dias na Guarda terminaram. Espere a transferência dentro de uma semana.”

“Senhor, mas eu só...” “Isso é tudo, filho, você pode sair agora.” Disse ele, sem nem me olhar.

Eu estava chateado. Mas se eu ia continuar recebendo sem ter que ficar parado na rua e lidar com turistas/criaturas bizarras, eu estava bem. 

A nova programação saiu e eu iria trabalhar só um turno naquela semana. Isso veio a calhar, porque eu deveria cuidar da minha sobrinha de 7 anos que viria me visitar de Birmingham, e eu já tinha planejado todo o fim de semana com ela.

A terça-feira chegou sem mais nenhum incidente com a vaca da boca escancarada. Minha namorada tinha finamente se acalmado. Ela voltou para Amsterdã naquela manhã e de bom humor. A vida estava voltando aos trilhos.

Meu turno naquele dia era das 18 às 22 horas em frente ao Palácio de St. James. Normalmente são dois guardas trabalhando ali, mas por qualquer razão, eu iria trabalhar sozinho das 21 às 22 horas. Aqui é como o local onde eu trabalhava se parece.

A pequena casinha de madeira é onde estaríamos de pé no caso de uma tempestade. “Ok, amigo, aguenta aí, está quase terminando” meu colega de guarda disse às 21h02 enquanto caminhava de volta para dentro.

“Mais uma hora. Mais uma hora dessa merda de trabalho e eu estou livre. Deus, como isso é bom...” Pensei enquanto continuava parado no meu posto. A noite estava excepcionalmente quieta, mas como estava começando a chover, pensei que era como o esperado. 21h30. Continuava garoando, continuava entediante. Quase lá, 21h45. A chuva continuava, então eu decidi passar os últimos minutos em meu posto.

Eu me virei.

E não deveria ter virado.

Ali estava ela.

Se eu fosse um escritor, eu usaria todas as ferramentas descritivas para pintar um retrato do quão horripilante aquela mulher estava naquela noite. Deixe-me dizer, foi a coisa mais aterrorizante que eu já vi, e eu já vi uma criança ser morta por uma mina terrestre.

A mulher estava parada na porta do meu posto. Ela estava vestindo um vestido branco que estava quase brilhando no escuro. Mas seu rosto, cara, seu rosto. Ela não estava olhando pra mim, o que, de certa forma, tornava isso ainda pior. Ela estava olhando para o céu ou qualquer coisa que estivesse lá em cima. Seus olhos foram tão longe que eu só podia ver uma parte de suas pupilas. Sua boca estava tão aberta, agora eu tinha quase certeza de que não era possível para um ser humano fazer isso.

Tem algo surreal sobre parar em frente a alguém que não age racionalmente. Tipo, se você está sendo assaltado, você sabe que eles querem seu dinheiro. Cara, se você leva um tiro, você sabe que eles estão tentando te matar. Mas o verdadeiro horror mental é não saber que merda ela queria de mim.

21h49. Ok, 11 minutos disso e eu finalmente...

Ela deu um passo em minha direção. E mais um. A mais ou menos dois passos de mim ela parou.

Ela começou se inclinar. Aquele cacete de inclinado. Seu rosto parou bem perto do meu. Primeiro sua cabeça começou tremer devagar, depois começou se mover incrivelmente rápido. Era um pequeno tipo de tremor, como eu disse antes, meio que como quando você sai do chuveiro para o quarto com ar condicionado e começa tremer. As pupilas estavam tão para cima, eu mal podia vê-las. Sua cabeça agora estava tão trêmula que eu imaginava como isso era possível. E a boca, cara, aquela boca estava tão anormalmente, tão inumanamente aberta. Juro que vi os cantos da boca começando a sangrar porque sua pele não era capaz de suportar aquela abertura.

Nenhum som.

A rua estava silenciosa, provavelmente o maior silêncio que já presenciei. E o pior é que era noite. Sei que faço muito isso, mas imagine mais uma vez – você está parado sem se mexer no meio da rua e ali está essa mulher com a boca escancarada e sangrando a dois centímetros do seu rosto, fazendo seja lá a merda que ela está fazendo, sem uma alma viva à vista. Sem nenhum som.

21h54.

Acaba logo.

Então, como se ela ouvisse meus pensamentos, suas pupilas desceram de volta e olharam direto pra mim. Eu quase dei um pulo. Ela fechou a boca, eu não acredito que estou dizendo isso, mas eu preferia que ela continuasse aberta. Sua mandíbula começou a abrir e fechar rapidamente, como se ela estivesse mordendo algo invisível. Seus dentes estavam batendo com tanta força que eu tinha certeza que iriam quebrar.

Era demais pra mim, não podia aguentar mais.

Dei um passo para trás e gritei “PARE ESSA MERDA JÁ!”

E ela parou. Parou de bater os dentes, boca fechada, ela voltou à posição normal sem se inclinar. Ela deu um passo na minha direção e, pela primeira vez, sorriu.

“4, 3, 2, 1, 4, 3, 2, 1, 4, 3, 2, 1” começou a sussurrar, sem perder o sorriso.

“O que é isso? Que merda é essa?” Eu supliquei. Estava pronto para agarrá-la, sacudi-la, qualquer coisa só por uma resposta. Que raio ela queria de mim, certo?

21h58.

“Que merda!” Veio de trás de mim.

Meu comandante.

Ele correu até mim, desconsiderando essa cadela louca na minha frente.

“Você falou com ela?”

“Eu...”

“VOCÊ FALOU COM ELA?” Ele berrou alto enquanto me agarrava pelo uniforme. Ele nem prestou atenção na mulher.

“Sim.”

“Jesus Cristo... Que número?” Disse enquanto finalmente me soltava.

“Senhor?” Disse confuso como você pode imaginar.

“Qual foi o último número que ela disse? Qual foi? Foi um zero?”

“Não, acho que ela parou no 1... Mas por que...?”

Todo esse tempo a mulher apenas continuou parada olhando para nós com um sorriso. Então deu um passo em nossa direção. Ela caminhou lentamente entre meu comandante e eu.

“Não diga nada a ela. Nem a porra de uma palavra” O comandante disse com um medo evidente em seu rosto.

A mulher virou de costas para mim e de frente para ele. Ela encarou seu rosto e até mesmo por trás eu podia ver sua boca sendo aberta.

“Vá, apenas vá” Disse ele olhando para mim. Ele estava evitando encará-la. Ouvi-a cerrando os dentes.

“Não posso deixar você” Disse.

“Vá e não volte. Eu cuido disso.”

Sabe, eu gosto de pensar que sou corajoso, mas naquele momento tudo o que eu queria era ir embora. Espero que você não me culpe por isso. Então comecei correr para longe.

“E nunca fale com ela novamente!” gritou o comandante enquanto eu fugia.

Agora eu sei que muito disso soa como besteira e você está certo, realmente é. Claro, olhando para trás agora, eu poderia ter a detido, inferno, e poderia até mesmo ter matado a cadela e assim estaria com o comandante. Mas quer saber? Quando você se encontra numa situação tão impossível quanto irreal como esta, você não age racionalmente, você não pensa logicamente como se estivesse numa situação normal. Eu fui para casa, tomei um banho gelado (depois de ter certeza que as portas estavam trancadas) e desmaiei na cama.

De manhã eu mandei uma mensagem para meu colega de turno pedindo para ver se o comandante estava bem e ele respondeu “Está, por que não estaria?”. Era tudo o que eu precisava saber, eu estava fora daquela vida.

_________________________________________________________________________________

CONTINUA...

PARTE I AQUI.



20/02/2015

Colaboradores

Gabriel Azevedo dos Santos (Dono e Tradutor)

Francis "Divina" Lopes (Dona e Tradutora)

Alex Lupoz (Designer Gráfico)

Ítalo Alexandre Brito (Tradutor)

Flavia (Tradutora)

Hellen (Tradutora)

Thiago (Tradutor)

Adriana (Tradutora)




18/02/2015

Trabalho recebendo ligações no 190. Essa foi a ligação mais esquisita que já recebi:

"190, qual sua emergência?"

"Ah, oi, então... Isso vai soar estranho, mas tem um homem no meu jardim cambaleando em círculos."

"... você pode repetir, senhor?"

"Ele parece... doente ou perdido ou bêbado ou qualquer coisa assim. Acabei de acordar para pegar um copo d'água e ouvi o barulho da neve sendo pisoteada de baixo da minha janela então espiei... Estou olhando para ele agora mesmo, está a mais ou menos uns 10 metros da minha janela. Algo está errado."

"Qual seu endereço, senhor?"

"“ número 1***, Quarry Lane, no bairro P***** P***.”

"Irei mandar uma viatura para aí, mas vai demorar um pouco. O senhor está sozinho em casa?"

"Sim, estou sozinho."

"Você pode conferir se todas suas janelas e portas estão trancadas? Fique no telefone comigo enquanto isso."

"Tenho certeza que a porta da frente está trancada, vou checar a porta dos fundos. [...] A propósito, agradeço sua ajuda, sei que isso é meio estranho mas espero que-"

...

"...Senhor? Você está ai?"

"Ele... ele ainda está no meu jardim. Mas está... que porra é essa, ele está de ponta cabeça..."

"Senhor, fique comigo no telefone, o que está acontecendo?"

"Ele está olhando pra mim... mas ele... ele está plantando bananeira. Está totalmente parado, olhando para mim. Ele está plantando bananeira e está sorrindo para mim e não está se movendo."

"Ele... está plantando bananeira, senhor?"

"Eu... Eu não sei como... sim, ele está de ponta cabeça e virado para mim com esse sorriso enorme, totalmente parado... mas que PORRA... por favor, mande alguém aqui AGORA."

"Senhor, você precisa manter a calma. Eu já chamei a viatura e estão a caminho."

"Os dentes dele são enorme... Porra, por favor, me ajude..."

"Senhor, eu quero que você fique de olho nele mas tenha certeza que sua porta dos fundos esteja trancada. Queremos que todos os pontos de acesso a casa estejam seguros. Pode ir falando comigo enquanto confere novamente a porta?"

"Okay... Estou andando de costas enquanto mantenho contato visual com ele... Minha mão está no trinco da porta... está trancada. Preciso checar a tranca, então vou parar de olhá-lo por um segundo."

"Tudo bem, senhor. A ajuda está a caminho. Só fique no telefone comigo, tudo vai ficar bem.
Senhor?

...

O senhor ainda está aí?"

"Ele... o rosto. Ele está com o rosto contra o vidro."

"Senhor, você precisa falar comigo. O que está acontecendo?"

"Eu olhei para a tranca por um segundo e agora... o rosto. O rosto dele está pressionado contra o vidro da minha janela da frente. Os dentes são enormes e ele continua sorrindo... Não tem cor em seus olhos... Me ajude, por favor, ele simplesmente não se mexe!"

"Senhor, preciso que você vá para o quarto mais próximo e se tranque lá dentro. Você tem algum porão ou quarto em que possa se trancar?"

"Ele não para de me olhar... Ele vai me machucar..."

"Senhor, você precisa me ouvir. Se tranque em algum lugar seguro até que a viatura chegue na sua casa. Você está me ouvindo?"

 "Eu... Sim, sim... Eu vou me trancar no meu quarto."

"Você tem certeza que está sozinho na casa, senhor?"

"Sim, estou sozinho...

...espere...

ele está se mexendo. Ele está fazendo não com a cabeça. Ele pode nos ouvir.

Ele está dizendo que não estou sozinho."

...

"Senhor, o senhor está ai? Eu estou ouvindo barulhos. O senhor está bem?"
...

"Senhor?"


17/02/2015

Dr. Xander

Xander estava deitado sobre a mesa de operações, como sempre...

Os pais de Xander eram cientistas e o odiavam tanto, que costumavam usa-lo como cobaia. Xander também nutriu um grande ódio pelos seus pais, porém, nunca pôde fugir dos maus tratos.

Seus pais já tinham descoberto o segredo para a imortalidade, ao misturarem diferentes soros em um laboratório particular. Como sempre, utilizaram a fórmula recém-descoberta em seu próprio filho, para comprovarem se a fórmula realmente funcionava. Bom, ao que parece, a fórmula realmente funcionou, já que Xander manteve-se em seu corpo de 17 anos por 15 anos. Não havia crescido um único centímetro, ou envelhecido um único dia. Seus pais o apunhalaram no coração por seis vezes, e os ferimentos se curaram, mesmo que Xander pudesse sentir toda a dor. Seus pais se recusaram a tomar a mesma fórmula, pois não queriam passar a eternidade convivendo com a sua “Cria Indesejada”.

Xander continuava esperando por seus pais na mesa de operações. Seus profundos olhos azuis cobertos por seus cabelos negros. Ele olhava pela janela, para a grande floresta que rodeava o laboratório. Ele sempre pensou em quão estranho era aquele velho e assustador laboratório no meio daquela floresta.

Os pensamentos de Xander foram interrompidos pelo som dos passos dos seus pais que entravam na sala de testes. Seu pai verificava se ele estava bem preso à mesa enquanto sua mãe enchia uma seringa com um estranho líquido. “Esse soro deve curar qualquer doença mental!” A mãe de Xander explicou. “Como você é a nossa cobaia, e possui a síndrome de Ekbom e Distimia, acaba tornando-se a cobaia perfeita!” Ela exclamou, injetando o soro em seu braço.

De repente, Xander soltou um grito agudo. “Efeito reverso! Efeito reverso!” Seu pai exclamou. O grito de Xander tornou-se uma gargalhada enquanto ele se libertava das amarras. Xander não conseguia parar de rir. O soro, ao invés de curar seus transtornos mentais, havia o tornado um louco homicida. Seus pais correram para a saída, porém, Xander foi mais rápido e puxou a alavanca que trancava as saídas. Xander rapidamente os nocauteou.

Seus pais acordaram gritando e se debatendo nas amarras. Xander entrou na sala, em seus quase dois metros de altura, ele parecia bem mais assustador. Sua pele possuía um tom bastante pálido, quase branca. Ele fechou a porta e aproximou-se alegremente de uma mesa onde havia vários objetos afiados. Ele ria como uma criança, enquanto verificava os objetos na mesa. Ele pegou uma seringa e um bisturi.

Ele caminhou para outra mesa onde estavam vários soros diferentes e preparou uma seringa com um líquido negro. Ele virou-se para o pai e sorriu, aproximando-se com um olhar insano. Ele segurou o braço do pai, e injetou o líquido negro em sua veia. Ele afastou-se sorrindo, enquanto observava a pele do pai começar a borbulha e apodrecer.

Os gritos de dor eram como música para ele. Depois do último suspiro do pai, ele ainda desejava mais. Ele agarrou o bisturi e aproximou-se da mãe. Sua mãe suplicava para que ele se afastasse.

Xander ignorou as súplicas e utilizou o bisturi para cortar o estômago de sua mãe, deixando seus gritos de dor preencherem a sala. Xander continuou a disseca-la, cortando seus pulsos para arrancar as veias, colocando-as em um pote de coleta. Ele retornou para a mesa de instrumentos e trocou a seringa e o bisturi por um pequeno machado. Então cortou os pais em pequenos pedaços, colocando-os em uma sala isolada, dentro do grande e velho laboratório.


NOTÍCIAS URGENTES 

Katelyn, uma garota de 15 anos que estava desaparecida ha 3 dias, teve o seu corpo encontrado na porta de sua própria casa! A parte superior de seu corpo parecia ter sido dissecada enquanto a parte inferior fora cortada e posta em uma cesta com uma nota. A nota dizia: 

‘Caros pais de Katelyn, 

Sinto dizer que a sua filha não conseguiu. Sinto muito por essa infelicidade. Meus pêsames, 

Dr. Xander'

16/02/2015

Vagão 66

Era cedo... Cedo demais, sabe...? Tão cedo que sua mente ainda queria te fazer acreditar que é noite.
Pensamentos sobre voltar para minha cama e dormir novamente pairavam sob minha mente enquanto eu continuava a dirigir. “Eu nunca acordei tão cedo” pensei, ligando a luz do carro e olhando para os horários dos trens. “4:24, vou poder chega 4 horas antes das aulas, tempo de sobra.” Sorri para mim mesmo, pensando que talvez pudesse colocar algumas atividades que eu havia deixado passar semanas atrás, em dia.

Assim que eu cheguei à estação eu notei o quão peculiar parecia. Eu venho frequentando essa mesma estação há uns três anos e mesmo assim algo parecia... Diferente. Eu passei as mãos nos olhos fechados, tentando fazer com que o resto de sono que ainda estava lá, fosse embora e fui em direção a uma vaga que estava próxima – eu demorei um pouco mais que o normal para apertar o freio e o carro quase não parou a tempo, o que me fez pular do acento com medo de ter atingido o meio-fio. Eu sorri novamente e prometi que iria dormir mais cedo essa noite, assim como eu havia prometido tantas outras vezes.

Eu saí do carro, a manhã de Janeiro atingiu meu corpo que ainda estava travado e preguiçoso por causa do sono. Abaixei-me para pegar minha mochila e meus pêlos dos braços e do pescoço se arrepiaram, o que me fez cruzar os braços, numa tentativa de evitar o frio.

 A estação tinha um tipo de ponte, que atravessava os dois trilhos, tanto de ida quanto de volta. Eu comecei a subir as escadas rapidamente, e meu corpo me fez lembrar novamente, que ainda estava cedo demais para esse tipo de “atividade física”. Apoiei minha mão no corrimão e continuei subindo; assim que cheguei ao topo, choraminguei involuntariamente... Parecia que eu havia quebrado algum osso.

A dor na minha perna me distraiu por um momento do fato de que todas as luzes da ponte estavam apagadas, a única iluminação estava vindo da Lua, que por sinal, estava praticamente coberta de nuvens finas da manhã, ela estava a minha direita, brilhando em cima de mim. Eu fiz uma piada mental sobre a Lua me seguir em todos os lugares, como se eu estivesse me apresentando em um palco e fosse uma grande estrela de um grande show, e a Lua fosse o holofote, me observando incessantemente para não perder nenhum ato sequer – mas o humor na verdade dividiu lugar com o medo que eu senti depois de analisar melhor a situação.

Era como se eu estivesse sendo assistido por alguém, e isso me assustou bastante; comecei a andar mais rápido para o outro lado e assim que eu cheguei lá, uma sensação de alívio tomou conta de mim.

Continuei a caminhar na área perto dos trilhos, todos os acentos estavam vazios, mas eu ainda senti que não estava sozinho. Só não sabia se era uma companhia desejável ou não.

Enquanto eu esperava um denso nevoeiro se aproximou mais e mais, o que me fez abrir e fechar os olhos várias vezes para conseguir enxergar a estação que era tão familiar para mim.

Mas a questão é: Se eu me concentrasse o suficiente eu conseguiria enxergar tudo como se não houvesse nevoeiro nenhum. As janelas quebradas, as pontes deterioradas, a pintura gasta das paredes, e alguns grafites. Exatamente o que eu via todos os dias, o que me fez acreditar que minha mente estava me dizendo o que estava lá porque era o que eu queria ver.

“A falta de sono está começando a afetar meu cérebro,” Eu pensei e continuei tentando enxergar em meio à neblina, o que começou a me incomodar, tanto mentalmente quanto visualmente; então eu fiquei grato quando ouvi o barulho de trem se aproximando. Levantei, pegando minha mochila um momento depois e observei a luz do trem chegando lentamente perto de mim.

Mas só a luz, eu ainda não podia ver nada do vagão mesmo sabendo exatamente como ele era, assim como a estação.

Outra onda de alívio passou por mim quando eu tentava me convencer de que todas essas impressões que tive na estação enquanto estava sozinho foram meras invenções da minha mente sonolenta.

Finalmente eu consegui enxergar o trem enquanto ele parava lentamente, apenas alguns metros distantes de mim. Eu fiquei assustado ao perceber que esse não era o trem que eu geralmente pego, não, esse era mais velho e destruído, uma locomotiva. Eu nunca tinha visto algo parecido, pelo menos pessoalmente. Eu costumava ver trens como esse em livros de história ou na internet... Mas mesmo assim, era um trem e eu não ia arriscar ficar na estação sozinho novamente.

Então eu entrei.

O interior era como eu esperava – meio sujo e gasto por causa dos anos de uso, e assim como eu também esperava, não havia outros passageiros no trem nesse horário. Observei O Condutor – havia apenas um – e ele parecia ser bem mais velho do que eu, mas por causa do seu casaco eu não consegui ver seu rosto.  Ele estava caminhando para o lado oposto ao meu então eu deixei a ideia de vê-lo pra depois.

Eu não gostava desse vagão, mas assim que eu sentei, ele começou a andar, então eu não tive muita escolha; mesmo se eu tentasse, não conseguiria explicar, algo sobre ele era simplesmente sinistro.

E o que mais me deixou desconfortável foi o silencio, eu não conseguia ignorar o som do barulho externo da locomotiva que parecia cada vez mais alto; olhei pela janela e as nuvens continuavam desaparecendo atrás de mim. O trem definitivamente estava se mexendo. Eu encostei minha cabeça na janela e dormi.

Não demorou muito até que eu acordasse, nenhum traço de sono restou, eu estava completamente acordado. Sem cansaço, sem dor nos olhos ou na perna, sem fome, nada.

Eu passei meus olhos na cabine e percebi que havia ficado muito mais escura, olhei para trás, tentando enxergar algo no vagão anterior e fiquei feliz de ver que a luz estava acesa. Eu levantei e comecei a andar em direção a ele, por alguma razão não achei necessário pegar minha mochila, então a deixei no meu acento e continuei andando em direção a porta.

A cada passo que eu dava eu ficava mais contente, e eu não sabia o porquê; apoiei minha mão na maçaneta e me senti mais seguro e protegido do que nunca, abri a porta e a luz quase me cegou por um momento, precisei de alguns segundos piscando os olhos para conseguir enxergar algo.

Quando eu finalmente consegui enxergar, fiquei chocado de ver minha família sentada no vagão... Que tinha... Móveis?

“Minha avó tinha esse mesmo sofá, essa é a casa da minha avó...”

Algumas memórias da minha infância passaram pela minha mente e eu me deixei distrair com elas até perceber o que estava acontecendo. Eu já estive aqui antes, não, não apenas na casa da minha avó, mas nesse exato momento, nessa mesma situação, eu já passei por isso, eu já estive aqui. Meu Deus! É como se eu soubesse o que iria acontecer, como um filme que já vi muitas vezes.

Mas eu não sabia.

Primeiro eu me perguntei por que todos estão sentados em volta de uma cama? E o clima havia mudado de calmo para tenso, eu olhei para os rostos dos meus familiares, eles pareciam cansados e de luto, encarando algo que não era eu.

Esse foi o dia que minha avó morreu, mas não só isso, não era tão simples assim.  Eu senti a dor, a agonia e a incapacidade que havia sentido meses atrás, mas eu também conseguia sentir a dor de cada familiar junto comigo.

Os sentimentos voavam na minha mente, dúvida, raiva e medo. Parecia que alguém havia filtrado todos os sentimentos ruins e tivesse jogando todos eles pra mim. Os choros e os gritos, todos ecoando na minha cabeça.

Eu andei em direção á cama que eles estavam sentados em volta e lá estava a minha avó. Eu tentei chorar para conseguir algum tipo de alívio, e nada! Eu não conseguia expressar nada, raiva, medo ou tristeza. Eu senti como se fosse explodir.

Meus olhos pararam na minha avó, ela já estava morta, mas seu rosto não estava calmo e sereno como eu me lembrava. Os olhos doces que me observavam quando eu era mais novo simplesmente erodiram na minha frente. O seu sorriso doce e alegre virou uma risada maliciosa e macabra, contorcida pela dor. E eu não podia fazer nada, estava desamparado.

Apoiei-me nos meus joelhos e senti meus olhos doerem novamente assim que uma luz branca tomou o quarto mais uma vez, não havia cama agora, nem parentes. Apenas uma imagem no canto do vagão, um corpo pendurado em uma corda.

“Estranho” pensei; “Aquelas parecem as botas de jardinagem da minha avó.” Isso me atingiu em cheio, que tipo de pesadelo doentio é esse que eu me encontrava? Eu consegui – ou tentei – gritar dessa vez e parecia o grito mais forte e grave que eu já havia dado em toda minha vida.

Tudo ficou preto.

Quando consegui enxergar novamente, vi apenas uma luz fraca atingindo meu rosto. Não consegui me mover então olhei em volta e percebi que estava na casa dos meus pais, eu estava confuso, as luzes estavam todas desligadas, a casa estava silenciosa, mas eu estava feliz que o pesadelo finalmente tinha acabado.

E então o telefone tocou.

Um frio na espinha passou por mim enquanto o telefone continuava a tocar, eu não tinha um telefone desde... Ah não. De novo não. Por favor.

Finalmente consegui me levantar e só então percebi que estava deitado em um sofá, mas não era eu quem estava se mexendo, eu estava apenas observando, eu não conseguia me controlar, eu podia sentir cada coisa que meu corpo fazia, mas... Não era eu! Não agora...

O momento continuou e eu consegui ver uma garrafa vazia de uísque rolando pelo chão, passando perto de mim... Com muito esforço, eu consegui agarrar o telefone que ainda tocava, e aproximei do meu rosto.

Daniel? A voz dela fez com que todos os pêlos dos meus braços se arrepiassem e meus olhos marejassem.

Sim?  Eu havia respondido e era evidente que eu havia bebido.

Preciso de uma carona, perdi meu ônibus.

To indooo. Ouvi-me cantar as palavras e resmunguei comigo mesmo pelo meu comportamento idiota na época.

Você está bem, Daniel? Ela perguntou, e eu desliguei e andei em direção a porta.

Eu lutei com tudo que pude para acabar com essa loucura, tentando me mover para o lado oposto e segurar minha respiração numa tentativa falha de desmaiar. “Não entra no carro, não... NÃO!”

Assim que entrei no carro e peguei as chaves, desmaiei, mas apenas por alguns segundos... Logo eu estava de volta ao pesadelo.

Eu estava quase lá... Mas como eu havia chegado lá, tão bêbado? Porque isso está acontecendo? Eu não conseguia parar de me perguntar mais e mais até que o carro parou.

Virei minha cabeça e a vi, lá estava ela, minha irmã mais nova, Sam. Eu não pude controlar as lagrimas ao vê-la. A mesma garota jovem e bonita de 12 anos de idade me esperando em frente à escola, anos atrás. Sorrindo pra mim em meio à loucura desse pesadelo – tudo passou tão rápido depois disso, o efeito da bebida, o sinal vermelho, o caminhão – Deus, eu ainda posso ouvir os gritos. DANIEL! DANIEL!  Altos em minha cabeça como se fosse hoje

A culpa.

Minha mãe nos deixando.

Nenhuma pessoa para partilhar a dor.

Tudo isso por minha causa e apenas continua brincando com a minha cabeça, as mesmas cenas...

Eu mereço tudo isso.

Eu acordei no assento do Vagão 66, senti o suor frio escorrendo pela minha testa enquanto eu continuava tremendo e tentando não convulsionar.

Senti um tapa no meu ombro e virei assustado, me deparando com uma cara esguia que me lembrava a morte. O condutor que vi mais cedo quando entrei no trem.

“Bilhetes, por favor.” Uma voz seca e poderosa ecoou da boca dele. Minha mão se moveu involuntariamente e o que senti foram vários papéis velhos que pareciam estar manchados com alguma coisa. Tentei me convencer de que não era sangue...

Eram fotos – da minha avó, meu pai, minha mãe e meu avô e outras pessoas que eu conhecia, que também tinham morrido – eu continuei segurando-as e me assustei um pouco ao perceber que a última delas era uma foto minha.

Foi então que me ocorreu – quando eu tentava achar os bilhetes para entregar ao Condutor – que eu não me lembrava de ter acordado essa manhã. O condutor observou meus bilhetes e quando os recebi de volta havia o que parecia ser um carimbo de duas mãos ossudas nele.


E então tudo que vi foi escuridão.