30/11/2015

Vizinhos

Esta semana eu me mudei para uma casa nova. A casa em si é adorável, com dois andares, três quartos, dois banheiros, um quintal cercado e uma cozinha grande. A árvore no jardim da frente é alta e forte e faz um bom trabalho bloqueando as janelas da sala para a rua, a pressão da água é fabulosa, os armários são grandes, e os pisos laminados são novos. O único problema que eu tive até agora é que os meus vizinhos são bem barulhentos. Nossas casas são conectadas de um lado, então nós dividimos as paredes da sala de estar, do quarto e da cozinha. Durante todo o dia, eu posso ouvi-los mexendo em sua cozinha, assistindo filmes no último volume, falando e seu filho pequeno chorando. É um pequeno esforço, mas nada com que eu não possa conviver, suponho.

Agora, para chegar diretamente à coisa que realmente me preocupa, tudo começou quando eu estava no chuveiro esta manhã. Eu normalmente gosto de ouvir música enquanto tomo banho, mas hoje eu decidi que eu preferia apenas desfrutar do silêncio. A atividade foi bastante tranquila, até que, enquanto eu estava no meio da lavagem do meu cabelo, eu ouvi meus vizinhos falando do outro lado da parede. Eu não conseguia entender o que eles estavam dizendo, mas pareceu estranho para mim. Parecia que eles estavam murmurando algo, sussurrando e, ocasionalmente, rindo baixinho, mas eu não conseguia entender como eu podia ouvi-los se eles estavam, evidentemente, falando em voz baixa. Eu pensei que eles deveriam estar de pé absurdamente perto do lado deles da parede, para ser tão audível no meio do meu banho.

Eu não pensei muito neste incidente até que eu estava saindo para o trabalho uma hora mais tarde. Enquanto eu começava abrir a porta do carro, eu me virei de volta para casa, sentindo como se eu tivesse esquecido alguma coisa. Quando olhei para cima, na direção da janela do meu quarto, eu percebi que a casa do vizinho compartilha uma parede do lado oposto do banheiro. Do outro lado da parede do banheiro fica o meu closet.

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Traduzido daqui.


26/11/2015

Não Deixem Suas Beliches Perto Dos Espelhos

Parece que aconteceu na noite passada. Talvez realmente tenha acontecido. Ou talvez isso nunca aconteceu e está tudo na minha cabeça, mas na duvida, posso perguntar ao meu padrasto e já sei o que ele irá dizer: “Aconteceu, realmente aconteceu”. Só parece... Inacreditável. Não me interpretem mal, não é algo extremamente assustador, por isso não espere muito.

Só é estranho, um pouco assustador. Tipo, aquele nível de assustador que faz com que eu me arrepie quando conto pra alguém.

Bem, eu costumava dividir um quarto com minha irmã. Ela é mais nova do que eu, diferença de 2 anos. E, pensando bem agora, me pergunto como conseguimos dividir um quarto por tanto tempo. Quer dizer, eu sei que é normal dois irmãos brigarem de vez em quando, isso não chega a ser chocante. Mas quando nós brigávamos, era de tirar sangue uma da outra.

Eu culpo minha mãe pela maioria, se não por todas as nossas brigas. A rivalidade era muito forte com a gente. Eu era a espertinha da família. Amo ler livros. Já ela, era mais ligada em qualquer outro tipo de coisa. Mas isso não impedia que nossa mãe ficasse nos comparando, tipo, constantemente.

"Shay, por que não pode ser mais parecida com sua irmã?" "Lee, por que não pode ser mais parecida como sua irmã?". Shay era muito mais organizada do que eu, que era uma pateta nesse sentido. Mas eu juro que ela só limpava tanto assim, pra que nossa mãe começasse a reclamar de mim, destacando meus defeitos.

Mas então encontramos o sentido de “irmãs” quando nossa mãe nos apresentou ao nosso novo padrasto. Ele era meio intrusivo, e parecia se forçar dentro de nossas vidas. De repente, as coisas em casa começaram a mudar.

Por exemplo, nossa mãe normalmente fazia a maioria das tarefas de casa. Ser uma mãe solteira com duas meninas de personalidades fortes não deve ter sido nada fácil para ela. Então deixar que alguém entrasse e mudasse o rumo das coisas era provavelmente uma intrusão muito bem-vinda para ela.

A coisa assustadora que aconteceu, foi quando me mudei pra fora do quarto de Shay. Nós só dormíamos juntas pra tentar parar a briga entre nós. Nossa mãe parecia pensar que nos obrigaria a conviver juntas nos colocando naquele quarto minúsculo. Então, quando as brigas finalmente começaram a parar (embora eu achava que era por causa do novo Xbox, graças ao nosso novo padrasto), ela me deixou voltar pro outro quarto de nossa casa.

Fiquei emocionada quando finalmente arrastei minha cama pra fora da beliche que nós compartilhamos. Era totalmente branca e com placas de madeira, bem simples. O pouco espaço que compartilhávamos era absolutamente dominado por ela. Não cabia mais nada, como um sofá ou coisa do tipo. Gostávamos de empurrá-lo pra mais perto do armário, para que pudéssemos sentar-nos na cama e assistir TV. Na verdade, era a nossa mãe que sugeria essa “mudança”. Reclamava que estávamos sentados muito perto da TV, que nossa visão iria sofrer por isso, etc. Então nós a empurrávamos pra mais longe, pra que mamãe parasse de encher o saco.

Agora, o armário era uma daqueles onde as portas eram cobertas por espelhos. Mamãe sempre costumava dizer-nos para não empurrar a cama muito perto deles.

Na noite que isso aconteceu, ficamos acordados jogando “Simpsons: Hit and Run” até cerca de 01:00. Então me mandaram ir pra minha cama. Pela primeira vez, eu sai do quarto, deixando minha irmã dormir sozinha lá.

Não ouvi nada sobre isso até a manhã seguinte. Eu sou uma pessoa movida a café da manhã, o que significa que eu preciso dele, ou simplesmente não funciono pelo resto do dia. Igualzinha minha irmã. Era a influência de nossa mãe novamente... Ambos estávamos comendo nossos cereais, quando meu padrasto entra na cozinha. Minha mãe estava preparando um café da manhã que estávamos famintas demais pra esperar, e por isso, estávamos devorando o cereal.

Meu padrasto deu uma olhada estranha para a minha irmã, e se juntou a mamãe na cozinha. Nós duas notamos. Eu levantei minhas sobrancelhas pra ela, e ela revirou os olhos.

"Você se lembra o que você fez na noite passada, Shay?". Parei imediatamente com minha colher na boca. Shay virou a cabeça.

"... Não". Meu padrasto sorri pra minha mãe que estava sacudindo a cabeça. Coloquei minha colher pote, confusa. O que... O que aconteceu... Por que eles estão... Não poderia adivinhar nem mesmo se ficasse pensando durante 1 semana.

"Eu me levantei para ir ao banheiro. E ouvi vozes, sussurros. Pensei que eram vocês duas conversando. Então fui até seu quarto para lhes dizer que já havia passado da hora de dormir. Mas quando abri a porta, Lee não estava lá. Tudo o que eu vi era você, Shay, deitada de barriga pra baixo na cama de baixo. Você estava apoiando a cabeça com suas mãos... Estava falando com o espelho ."

Deixei escapar uma risada e olhei para Shay. Seus olhos estavam arregalados, mas ela tinha um pequeno sorriso em seu rosto, como se ela estivesse confusa...

Meu padrasto balançou a cabeça, ainda sorrindo: "Não, estou falando sério! Foi estranho. Você estava falando com o espelho. Sussurrando. Mas eu não conseguia entender o que diabos estava dizendo. Era como uma mistura doida de línguas. Eu parei e disse: ‘Shay, o que você está fazendo?’ Porque você estava muito bem acordada. Seus olhos estavam bem abertos. Você não se lembra de nada disso?". Minha irmã apenas balançou a cabeça, olhando para mim. Meu padrasto deu uma risada e continuou.

"Você simplesmente parou e, sem se mover, virou a cabeça na minha direção e olhou direto pra mim. Eu não sabia o que dizer. Fiquei arrepiado. Então só recuei um pouco e comecei a fechar a porta novamente. Fiquei aterrorizado! E sabe o que mais você fez?".

Nesse ponto, senti que meu sorriso havia congelado no meu rosto. Tenho uma imaginação muito fértil, e eu estava vendo a coisa toda se desenrolar na minha mente. Por alguma razão, eu não conseguia olhar para a minha irmã. Ficava olhando pra minha mãe, e ela estava com um sorriso no rosto também.

"Você se virou de volta pro espelho e começou a falar de novo. Fiquei olhando pela pequena abertura que deixei com a porta. Você estava sorrindo também."

Nossa mãe interrompeu: "Viram só? Eu disse pra vocês não deixarem a cama muito perto dos espelhos. É exatamente por isso". Curiosa, perguntei: “Por quê?". Mamãe apenas se virou e voltou pra cozinha. Meu padrasto ficou olhando para a minha irmã.

"Você realmente não se lembra de nada disso?". Minha irmã apenas balançava a cabeça, mas de repente, ela parou no meio e disse: "Só me lembro de ter tido um sonho estranho na noite passada. Havia uma garotinha sentada na minha cama, mas isso é tudo o que me lembro".

Estou muito feliz por não estar mais dormindo naquele maldito quarto.


25/11/2015

A Luz no Céu

Minha família tem vivido por todo o sul da Califórnia, de San Diego a Los Angeles e vice-versa. Durante alguns anos, nós vivemos fora de Los Angeles, em um vale ao norte da cidade, uma área chamada Valencia. As pessoas eram especialmente amigáveis aqui. Era uma vizinhança de classe média alta conhecida por suas escolas e valores familiares excepcionais. Esse era o tipo de lugar no qual você poderia andar de bicicleta à noite e ninguém se preocupava que nada de ruim acontecesse.
Também era um lugar conhecido por suas colinas e cânions. Havia tantas trilhas de bicicleta quanto ruas na cidade. Meus amigos e eu costumávamos explorar os cânions à noite em nossas bicicletas, apenas para ver o céu noturno e sentir a brisa fresca contra os nossos rostos.

Andávamos de bicicleta fora das estradas de nossas casas e explorávamos as grandes e intermináveis trilhas que se expandiam até os cânions e o vazio do deserto. Uma noite, meus amigos e eu fomos por uma trilha conhecida, que estava menos gasta do que as que costumávamos ir. Era tarde, por volta de onze horas, mas era verão, então nós não tínhamos horário para voltar. Como eu disse, era um lugar seguro para se viver.

Andamos fora da cidade, passando por suas luzes brilhantes até a densa escuridão. Não conseguíamos ver muita coisa, apenas a lua e o brilho fraco da cidade abaixo de nós. Fomos mais fundo no cânion, até que nos deparamos com uma luz branca imensa que atingia o céu.
Nem preciso dizer que ficamos intrigados. Parecia que alguém estava tentando chegar no espaço, como se a lanterna de um telescópio gigante estivesse indo daqui até Júpiter. Obviamente, decidimos explorar a luz misteriosa.

Fomos até a luz como se estivéssemos sendo atraídos por ela. Havia um grande espaço vazio e aberto no cânion de onde a luz saía. Meu coração batia violentamente em meu peito. Respirei fundo e olhei para a escuridão.

Assim que nos aproximamos de uma floresta cheia de pequenas árvores e arbustos, percebemos que no meio dela havia uma grande fogueira que brilhava e subia em direção ao céu, e ao lado estava a luz que brilhava rumo ao céu noturno. Nos aproximamos mais um pouco, abandonando nossas bicicletas na trilha e caminhando vagarosamente até o fogo. E foi então que ouvimos os cânticos. Era um cântico baixo e gutural que vinha do fogo. Conforme nos aproximamos, vimos que não estávamos sozinhos.

Pessoas trajando capas pretas cercavam o fogo por todos os lados. Elas cantavam em algum idioma que eu não reconhecia. Havia mais ou menos cinquenta delas. Nós estávamos perto o suficiente para ver que as capas eram mantos compridos com capuzes cobrindo seus rostos. O manto de todos era preto, com exceção de uma pessoa cujo manto era vermelho carmesim. E então vimos a garota.

Havia um grande poste no chão com uma jovem amarrada a ele. Podíamos ver a expressão de seu rosto. Ela estava morta de medo. O homem de capa vermelha segurava um grande livro de couro encadernado. Ele rondou o fogo e colocou o livro sobre um pedestal, e então pegou uma faca comprida. Ele andou em direção à garota, a faca brilhando sob a luz do fogo.

Neste momento, meu amigo deu um passo à frente, colocando todo o seu peso sobre um galho seco da árvore. Ele se quebrou como uma fina taça de vidro. Imediatamente, as figuras encapuzadas se viraram em nossa direção. Sem hesitar, eles começaram a correr. Não esperamos para ver o que aconteceria. Pegamos nossas bicicletas e corremos sem olhar para trás. O cântico aumentou em nossos ouvidos - eles estavam se aproximando.

Pulamos em nossas bicicletas e voltamos correndo pelo mesmo caminho que havíamos ido. Olhei para trás para dar uma última olhada,  e tudo o que vi foi uma multidão de figuras encapuzadas em pé à beira da floresta. Eles nos observaram ir embora.

Meu pai arranjou outro emprego alguns meses depois e nos mudamos do vale. Entretanto, o que vi naquela noite nunca ficou para trás. Porque eles estavam lá? Porque havia uma garota amarrada em frente ao fogo? Havia milhares de perguntas não respondidas, do tipo que te faz ficar acordado à noite.

A coisa mais perturbadora, contudo, aconteceu cerca de um mês depois de nos mudarmos. Um dia, em nossa nova casa, eu acidentalmente encontrei uma caixa em nosso sótão. Eu estava procurando por alguns de meus livros que desapareceram na mudança quando bati minha cabeça em uma viga. Uma enorme caixa comprida caiu em cima de mim.

Sentei-me, abri a caixa e tirei alguns itens peculiares, coisas que nunca havia visto. Havia um colar de pentagrama e um pequeno jornal preto com a parte da frente repleta de anotações. Havia também uma foto minha e de meus amigos de nossa antiga vizinhança em nossas bicicletas.

Peguei os itens e coloquei-os no chão perto de mim. E então, eu vi. Na parte inferior da caixa estava uma grande mala de roupas, como as que você pega na Laundromat¹.

Abri a mala. Dentro dela havia uma longa e preta capa com capuz. As iniciais de meu pai estavam gravadas bem na frente.

Crédito: Stephen Pate


¹. Lavanderia conhecida nos Estados Unidos cuja franquia é internacional


24/11/2015

Minha estadia no Resort Hotel Bavaro Princess

Olha, sei que colocar isso aqui no nosleep faz com que pareça apenas mais uma historinha, mas esse é um dos únicos sites que estou conseguindo abrir, e como a página de enviar ainda está carregando, não sei se isso chegará a ser publicado.

Agora é meia noite aqui na República Dominicana, e enquanto escrevo isso, minha esposa está do meu lado, chorando e implorando para que sair imediatamente daqui e ir para o aeroporto para vazar desse inferno antes que alguma coisa aconteça. Estou digitando isso enquanto minha cabeça pensa em mil coisas ao mesmo tempo, então desculpe-me se houver erros de digitação, não tenho tempo para corrigir essa bosta.

Talvez eu esteja louco, não sei, me diga se eu estiver exagerando.

Minha esposa acabou de perguntar se tem alguém lendo isso que está perto de Punta Cana e está disposto a nos levar até o aeroporto. Estamos no Resort Hotel Bavaro Princess. Sei que você deve achar que eu- (NDT¹: autor parou a frase no meio do caminho)

Chegamos aqui ontem a noite. Adoramos Resorts com tudo incluindo, já fomos em vários, e tudo que queríamos era mais umas férias sem complicações. Acho que eu que ferrei tudo, na verdade.

Resumindo: no check-in, perguntei para o recepcionista se tinha como trocar nosso quarto por um melhor, um que tivesse vista para o mar. Ele disse que não, mas tínhamos visto outro casal conseguir a troca, então perguntei qual era o motivo dele não poder fazer o mesmo para nós. Posso ter sido um pouco rude, admito.

Ele respondeu apenas com um “Desculpe, sem trocas”. Não estava disposto a brigar, estava de férias no paraíso, e como não planejava perder muito tempo dentro do quarto, deixei para lá.

Mas quando ele nos alcançou a chave e começamos a nos afastar do balcão, ouvi ele sussurrar baixinho “Americanos”. Olha, não sou americano, mas esse comentário me tirou do sério.

“Com licença? ” Perguntei, andando de volta para o balcão. “Americanos? Cara, você só tem esse emprego graças aos turistas americanos. Que tal ser um pouquinho grato? ”

Me olhou com ódio nos olhos. Provavelmente ele tinha que lidar com todo o tipo de gente idiota, mas eu não estava sendo tão ruim assim, então não entendi qual era o motivo dele estar agindo daquela forma. Estava esperando ele explodir em raiva, por estar me olhando de uma forma que parecia odiar cada molécula do meu corpo.

Entretanto, apenas sorriu para mim.

“Peço desculpas, senhor. Você tem toda razão. Tive um longo dia de trabalho. Por favor, aceite minhas desculpas, e permita-me procurar um quarto melhor. ”

Eu ainda estava um pouco irritado, mas né, o cara pediu desculpas e não havia motivo para chamar o gerente ou algo do tipo.

“Ah, aqui, encontrei uma suíte VIP para você. Sem adição de custos na troca. ”

Ele me entregou as novas chaves e chamou os funcionários que levavam as bagagens.

“Não precisa, só temos uma mala. ”

“Ah, não, são regras do hotel, por favor, ” falou para mim e depois começou a conversar com outros funcionários em espanhol. Pareceram discutir por um momento, um dos caras olhava para mim enquanto falava em espanhol, mas não liguei muito. Tudo que eu queria era por as mãos em uma cerveja bem gelada e curtir o resto da noite. Depois de uns 30 segundos de discussão, um dos funcionários veio até mim.

“Por gentileza, siga-me”.

Entrando no nosso bloco de quartos, era fácil notar que era diferente dos outros blocos mais comuns. É um conjunto de 9 ou 10 quartos alinhados em forma de U, bem perto do oceano. Aqui está uma imagem que printei do GoogleMaps. Nosso bloco é o da extrema direita, perto do mar.

A primeira coisa que achei estranha foi o jeito que os funcionários que nos acompanhavam se comportaram assim que entraram no bloco, mas ignorei isso por achar ser algo cultural.

“Sigam-me, por favor” disse o primeiro indo na frente, enquanto o segundo andava atrás de nós.

O da frente ia ligando as luzes do corredor enquanto íamos passando, enquanto o de trás ia apagando assim que passávamos por elas. Achei isso estranho por já ser noite, mas achei que, sei lá, era o jeito deles de conservar energia elétrica? Só era estranho andar por um corredor escuro acendendo e apagando as luzes no caminho, uma por uma.

“Este é o seu quarto, senhor”, ele falou, abrindo a porta.

Fui até minha mala e peguei uma nota de 5 dólares, mas fiquei surpreso quando vi que os dois já não estavam mais na porta. “Ei, a gorjeta de vocês! ”, gritei. Sei que esses caras não ganham muito, então uma gorjeta de 5 dólares sempre é bem-vinda.

Eles se entreolharam, trocaram algumas palavras, e relutantemente voltaram até minha porta. Isso tinha sido realmente estranho, mas cara, estou na República Dominicana, me recusava a me envolver com algo que não fosse bebidas alcoólicas.

“Obrigado, senhor, ” o garoto disse nervosamente enquanto pegava a nota. “E senhor...” ele continuou.

“Ei, temos que ir, ” o outro homem o agarrou pelo braço. “Desculpe, muito trabalho, sem tempo pra conversas, desculpe. ”

Vi os dois irem embora pelo corredor da mesma forma que chegamos, acendendo e apagando as luzes. Logo, estávamos de pé no corredor escuro. “Bem, isso foi bem estranho”, falei enquanto entrava no lindo quarto com vista para o mar.

Minha esposa e eu passamos a noite inteira provando diversos tipos de coquetéis no bar. A vida é linda, cara. Admito que ficamos um pouco no brilho.

Voltando para nosso quarto, passamos pela piscina que ficava perto do prédio, ouvimos uma risada alta.

“Será que tem gente fazendo uma festa na piscina? Vamos dar uma olha” Trish disse e me puxou.

Quando andamos até a piscina, vimos apenas uma pessoa. Era uma senhorinha que estava perto do microfone que acho que era usado para festas na piscina. Estava só rindo no microfone, não falava nada, só ria. Não tinha ninguém perto ou com ela, literalmente. Só havia uma luz apontada para ela, o resto estava tudo apagado. Tipo como se ela estivesse em um palco.

Trish e eu nos olhamos e rimos também. Acho que algumas pessoas não conseguem lidar muito bem com bebidas alcoólicas. Enquanto nos distanciávamos, a senhora continuava a rir, e a risada nos seguia pelo caminho, só rindo, sem dizer nada. Quanta diversão.

Quando chegamos em nosso prédio, estava todo escuro novamente. “Isso não pode ser sobre não gastar com energia elétrica”, sussurrei. “Olha, todos os outros blocos estão com as luzes acesas”.

Bem. Nós ligamos todas as luzes do corredor, foda-se aquela bosta de acende/apaga. Quando estávamos nos deitando, percebi que o relógio estava parado em 1:00am. Isso era meio estranho, porque era um relógio digital. Mas eu não estava ligando para isso. Demorou dez minutos para nós dois apagar, acho que a combinação de álcool e viagens fazem isso.  

Acordei por volta das 3:00am, sei disso porque olhei o horário no meu celular, o relógio do quarto ainda estava parado em 1:00am. Sempre acordo no meio da noite quando eu bebo, desidratação provavelmente. Notei que minha esposa não estava na cama. Então a ouvi chorando na frente da porta do quarto.

“Mas que porra é essa...” pensei, “Trish ficou tão bêbada assim? ”

Abri a porta, mas não havia ninguém lá fora. As luzes estavam todas desligadas. Eu as liguei, procurando por minha esposa no corredor. Até caminhei pelos corredores, mas sem sorte.

Quando voltei para o quarto, mais confuso do que nunca, encontrei Trish sentada na cama.

“Com quem você estava falando? ” Ela perguntou.

“Uh? Eu estava procurando por você”

“Você está bêbado, não acredito que você é tão fraquinho para bebedeiras. ” Falou enquanto voltava a se deitar “Ouvi você conversando com alguém lá fora por tipo 5 minutos, vocês me acordaram. ”

Queria entender o que ela estava falando, mas eram três da manhã e tínhamos bebido, então achei que era só a combinação disso nos fazendo ouvir coisas.

Deitei de novo e comecei a cochilar. Então ouvi uma batida suave na porta.

“Ah, devo estar ouvindo coisas de novo”, pensei enquanto me virava para o lado.

Novamente choro na porta.

Me sentei. Não estava imaginando aqui. Podia ouvir, e já não estava mais embriagado.

“Trish, acorda, Trish” sacudi minha esposa.

“Que? Me deixa dormir...”

“Você tá ouvindo? ”

“O que? ”

“Ouça”.

Ela se sentou e ficamos em silêncio. Por alguns segundos estava tudo em silêncio. Enquanto ela me olhava com uma expressão irritada, um choro baixo pode ser ouvido perto de nossa porta. Trish arregalou os olhos.

“O que é isso? ” Perguntou, obviamente assustada.

“Não sei, vou dar uma olhada”, em silêncio, me levantei e fui até a porta. Olhei pelo olho mágico, mas as luzes estavam todas apagadas de novo.

Foda-se.

Abri a porta.

Na minha frente estava uma menininha, por volta dos 10 anos, sei lá, talvez 11, chorando e olhando para o chão.

“Oi, o que aconteceu? Hey, hey,” perguntei enquanto me abaixava para fixar na mesma altura que ela. “Trish, vem aqui, tem uma menininha na nossa porta”.

A garota só ficava parada, chorando e não olhando em minha direção. Ela usava biquíni e estava com apenas uma boia no seu braço direito, então achei que tinha se perdido na piscina fazia um certo tempo.

“Você está perdida? ” Perguntei, tentando fazer com que ela me olhasse, “Trish, por favor, ligue as luzes do corredor? ”

“Não chore, querida, vamos encontrar seus pais, está bem? Pode entrar, se quiser”

A menina começou a entrar no quarto, ainda sem olhar para mim, ainda chorando.

“Amor, ” Ouvi minha esposa me chamar. “Amor...”

“Só um pouquinho, ela está entrando, ” falei enquanto observava ela entrando.

“Amor. ”

Olhei para trás.

Trish se moveu de lugar e revelou o corredor todo iluminado.

Na porta de todos os quartos do nosso prédio haviam pessoas. Homens, mulheres, crianças, famílias, todos de pé na porta, olhando para a gente, sorrindo, não de um jeito assustador, só sorrindo normalmente.

“Mas que merda é essa...” Sussurrei e dei um passo para trás, batendo contra Trish. “O que está acontecendo? ”

“Não sei, não sei, feche a porta, pelo amor de Deus feche a porta, ” Trish implorou, apertando minha mão de um jeito doloroso.


Bati a porta da frente enquanto arrepios corriam pelo meu corpo.

“O que aconteceu? Eles estavam ali antes, no escuro? ” Perguntei enquanto me voltava para Trish.

“Eu não sei, podemos ligar para alguém? Recepção? Alguém? Isso não é normal, né? ” Trish não parava de falar, ainda apertando minha mão com força.

Então ouvimos uma tosse.

A menininha.

Nós dois nós viramos em direção ao quarto. Bem no centro, virada para gente, mas ainda olhando para baixo, estava a criança.

“Ei, você está bem? ” Perguntei dando um passo em sua direção. Ela devia estar apavorada.

Ela ainda soluçava, mas daí olhou em minha direção, fazendo com que eu parasse onde estava.

“Você... Você está bem? Seus pais estão lá fora? ” Perguntei de uma distância que achei ser segura.

Ela ainda chorava, mas começou a tossir, mais e mais. Podia ver dor em seus olhos, queria ajudar, mas algo me dizia para não fazer nada. Isso e o jeito que minha esposa apertava minha mão.

A tosse só piorava.

“Não se aproxime! ” Trish implorou, atrás de mim.

“Ajuda...” a criança sussurrou em voz baixa enquanto estendia a mão em minha direção, e segundos depois, começou a vomitar. Ela segurava a barriga com uma mão, a outra esticada em minha direção, e vomitava sem parar no chão do nosso quarto. Nunca tinha visto alguém vomitar tanto, ainda mais uma criança.

Demos um passo para trás, aterrorizados. Engraçado como algo desse tipo faz você ficar sóbrio na hora.

Ela finalmente parou e olhou para mim. Agora estava sorrindo.

“Tira ela daqui, amor. Pelo amor de Deus. ” Trish me puxou.

Abri a porta.

“Vaza daqui! ” Gritei. “SAI! ”

Ela deu outro sorriso e começou a correr em minha direção.

Empurrei minha esposa para o lado segundo antes dela bater na gente.

Houve aplausos no corredor. Todas as pessoas que estavam de pé na frente das portas, aplaudiam enquanto a criança corria pelo corredor, ainda com uma mão na barriga e outra esticada para frente. Eles estavam olhando para gente, rindo e aplaudindo.

Bati a porta e espiei pelo olho mágico. Uma por uma, as pessoas voltavam para dentro dos quartos. Era estranho pra caralho, voltando para o quarto de ré, como se estivessem sendo puxados, não sei. Quando as portas se fecharam, quase que imediatamente as luzes se apagaram automaticamente.

“Mas que diabos foi isso? ” Falei, me virando para Trish. Com toda essa loucura, não tinha percebido quão aterrorizada minha esposa estava.

“Amor, por favor, vamos sair daqui, por favor. ” Ela implorou enquanto me puxava para longe da porta.

“Para onde nós iriamos? É de madrugada!”

“Vamos ligar para alguém, fazer alguma coisa, por favor, por favor, ” ela resmungou.
 
Peguei o telefone e digitei o número da recepção.

“Boa noite, em que posso ajudar? ” Responderam imediatamente.

“Sim, olha só, tem algo errado com nosso bloco... Tinha uma criança chorando e vomitando no nosso quarto, e todo mundo estava no corredor no meio da madrugada, e sei lá, tem algo de errado acontecendo aqui. ”

“Entendo, ” ele respondeu em uma voz calma, como se fosse uma ligação normal. “Você está no nosso bloco VIP perto da praia, sim? ”

“Sim, eu acho. Você pode mandar alguém aqui agora, por favor? ”

“Desculpe, senhor. Somente pela manhã. ”

“Olha só, tem alguma coisa acontecendo aqui, tô te falando. Essas pessoas não são normais. ”

Silêncio.

“Alô? Alô? ”

Sem resposta.

“Meu Deus” Bati o telefone com força.

“Eles não vão vir, né? ” Trish perguntou.


Ficamos uma hora conversando e tentando ouvir algum som vindo de fora. Obviamente não encontramos lógica nenhuma para o que tinha acontecido ali. Isso não é normal, né, ou estou louco? Tipo, eram três da manhã e todos estavam de pé em suas portas, no escuro, sorrindo, sem reagir a nada, e depois aplaudindo quando a garota que vomitou correu pelo corredor. Não sei, gente. A garota também não era normal. Foi a coisa mais bizarra que já me aconteceu.

Trish começou a adormecer por volta de 5:30am, exausta de tanto chorar. Eu não consegui. Ainda estava escuro lá fora.

Por volta das 6:00am, levantei para ir no banheiro. Quando voltei, encontrei minha esposa no canto do quarto, petrificada.

“Não me machuque, por favor! ” Ela gritou para mim.

“Amor, sou eu! Olha para mim, sou eu! ” Falei com um pouco de calma, indo em direção dela.

“Para! Para! Para! ” Ela tentou se rastejar mais para o canto.

“Amor, sou eu, seu marido, você só teve um pesadelo. ”

Ela começou a se acalmar.

O que você estava fazendo no armário? ” Trish perguntou, limpando as lágrimas do rosto.

“Que? Eu estava no banheiro...”

“Não, você estava no armário, eu juro! ” Ela falou, passando por mim. Ela abriu a porta do armário. “Olha...” Sussurrou se afastando do armário.

Fui para a frente do armário. No chão do armário tinha uma corda grossa. Que estava em formato de forca.

“Jesus Cristo, alguém só pode estar zoando com a gente” Peguei o telefone e liguei para recepção novamente.

Sem resposta.

“Foda-se essa merda. Foda-se! Vamos embora.” Puxei Trish para a porta.

Assim que abri, ela gritou. De pé na frente da porta estava a mesma menina de antes, vomito ainda em seu biquíni, barriga e em volta da boca. Ela ainda estava segurando a barriga enquanto apontava para nós, e sorria também.

As luzes do corredor se acenderam uma por uma, revelando todos em suas portas, olhando para nós.

“O que vocês querem, porra? ” Gritei, com raiva, medo, mas principalmente frustração. “O que tem de errado com vocês? ”

A garota levantou a mão direita acima de sua cabeça. Apertou o punho e virou a cabeça para o lado, como se estivesse imitando um enforcamento. Risadas ecoaram pelo corredor, então todos, um por um, começaram a fazer a mesma coisa, colocando a língua para fora, depois rindo novamente.

Quase tropecei na minha esposa enquanto recuava para dentro do quarto, e bati a porta.

“Não podemos sair, não agora. ” Abracei Trish, meu coração batendo forte com a adrenalina. “Temos que esperar até o sol raiar”.

Sentamos na cala, ela chorando e eu tendo um monólogo interno sobre seja lá a merda que estivesse acontecendo.

E aqui estamos. Isso tudo aconteceu algumas horas atrás. Agora são 13:03pm. Bosta, acabei de perceber que o relógio digital voltou a funcionar, se é que isso importa mesmo. Olhando pelo olho mágico, não vejo ninguém lá fora.

Estamos nos preparando para nos mandar daqui. Sem um plano fixo ainda. Sei que vamos passar na recepção e perguntar que porra foi essa que aconteceu. Provavelmente vamos embora, não sei ainda. Gastei mais de três mil dólares para um filho da puta zoar com a nossa cara?

Uma coisa eu sei, não vamos passar mais nenhuma noite nessa bosta de quarto.

Edit: Um cara que leu a história no reddit e mora a duas horas do resort entrou em contato comigo e nos tirou de lá. Estamos na casa dele e vamos pegar um avião amanhã de manhã.
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  ¹ NDT = Nota do tradutor.

Conto publicado no nosleep pelo usuário inaaace


23/11/2015

Túneis

Antes que eu comece, existem duas informações que você deve considerar:

Você já percebeu que assim que um espelho reflete em outro espelho, depois daquela imagem se repetir várias e várias vezes, tudo começa a se tornar uma grande e infinita escuridão? O espelho pode até estar quebrado, não importa.  A luz vai sempre desaparecer e apenas um eterno túnel escuro irá ficar ali. Não é uma boa ideia criar esses túneis, mas pra quem é curioso – e eu sei que você é – eles podem ser interessantes.

Outra coisa, sim, a sua sósia vive do outro lado do espelho. A parte boa é que eles são inofensivos e não fazem a menor ideia que você existe. Por que eles questionariam suas intenções quando eles não têm nenhuma? Eles vivem com a mesma quantidade de paz que você se permite ter.

Não importa a hora, o dia e o lugar, mas quanto mais escuro for, melhor. É bom também verificar a hora exata que você começar por razões que explicarei depois; você deve ter dois espelhos, um de frente para o outro com pelo menos um metro de distância entre eles. Pare no meio e não faça um som sequer. Na verdade, se for possível, ao conseguir a localização, evite lugares com barulhos externos, esse é um detalhe muito importante, pois eles se assustam facilmente... Especialmente no começo.

Você deve observar seu próprio reflexo no espelho que você escolher.

Conte quantos reflexos você puder até que você possa ver a escuridão aparecendo, dependendo da quantidade de luz em que você está localizado, esse passo não levará mais de 20 minutos. Sinta-se a vontade para contar na velocidade que quiser.

Assim que você começa a enxergar a escuridão, seus olhos vão capturar uma forma pálida emergindo nos túneis e depois fugindo do seu campo de visão. Isso pode ser apenas sua mente tentando te enganar no começo, mas logo você realmente poderá vê-los mais e mais nitidamente. Quando eles começarem a aparecer em intervalos menores você poderá sentir uma alteração da sua própria imagem no seu reflexo, mesmo que ao toque seu rosto ainda seja o mesmo.

Se alcançar esse ponto, saia de perto dos espelhos imediatamente, deixe o quarto – ou qualquer local que você escolheu – e feche a porta atrás de você. Eles acordaram.

Se no segundo dia você sentir a curiosidade que sentiu no primeiro, pode repetir o mesmo processo descrito acima. Deve começar no mesmo horário do dia anterior, esse é o motivo pelo qual você deveria ter gravado a hora exata. Aquelas coisas que você viu por apenas alguns momentos podem aparecer mais rapidamente caso tenham confiado em você, seu reflexo pode aparecer um pouco tremulo, mas é apenas um truque da mente, nada que você deva se preocupar.

Assim que você terminar de contar o máximo de reflexos que conseguir, pisque apenas uma vez para recuperar o foco e não feche os olhos novamente – não é como se você pudesse mesmo se quisesse –.

Você vai notar que eles começam a aparecer não só nos reflexos mais distantes como nos mais próximos também, mas você não sabe dizer se eles tem rosto ou feições que lembram humanos.

Não deixe sua curiosidade te cegar, procurar por semelhanças humanas em algum deles é inútil, mesmo sabendo que você vai continuar tentando entendê-los.


Se eles aparecerem com menos de seis reflexos distantes do seu, eles se tornaram finalmente confortáveis com sua presença e você, com a deles. Eles se tornaram bonitos demais para serem ignorados; você ficou concentrado demais para notar seu próprio reflexo te avisando, apontando e te mostrando a coisa que tentava desesperadamente te alcançar no espelho atrás de você. 


Finalmente Acordado - Parte 2

Perdeu a primeira parte? Clique aqui

O médico aproveitava sua xícara de café na sala quando a enfermeira cutucou-o e pediu que fosse ajudá-la na emergência imediatamente. O homem podia ver o pânico nos olhos daquela mulher, então decidiu que não devia perguntar nada, apenas segui-la. Sete anos na ala de traumas do hospital o ensinaram que haviam horas em que podia-se fazer perguntas e outras onde só se escutava e corria. Deixou o café no balcão, perto do jornal do dia, e foi como uma bala atrás da enfermeira.

Quando chegou na emergência, os paramédicos chegavam com a maca no hospital. Deram uma rápida descrição da situação do paciente e tudo o que haviam feito para mantê-lo vivo. Não disseram o que acontecera com ele. Parecia que ele tinha entrado numa briga com uma máquina de moer carne e saído com vida milagrosamente. Dois plantonistas foram e ajudaram a guiar a maca em direção à Sala de Emergência 1 enquanto a enfermeira checava o que os paramédicos haviam lhe feito.

O médico começou a an
alisar a condição do paciente. A primeira coisa que percebeu foi seu olho direito. Caído. Só continuava preso ao corpo dele por algumas veias. No lugar do mesmo, havia carne viva. Ele estava todo coberto em sangue. Sua garganta, rasgada, apesar de a traqueia estar bem, só com uma fina camada de pele em cima. Ainda que estivesse vivo, o médico mal lhe podia chamar de sortudo. O resto de seu corpo estava coberto por cortes profundos e haviam, ainda, pedaços de carne e músculo pendurados. Enquanto examinava seu paciente, o médico viu algum tipo de fluido que saía do nariz do homem. Checou as orelhas e viu que tal fluido saía de lá também, portanto constatou que ocorrera algum tipo de lesão cerebral. Soube na hora que aquele homem não sobreviveria mais uma hora, e muito menos a noite toda.

Ele abriu seu olho esquerdo. "Ele ainda está consciente! Tomara que possamos estabilizá-lo até, pelo menos, acharmos seus parentes.", o médico pensou. Sabia que não podia mantê-lo vivo por muito mais, mas talvez pudesse trazer sua família, para que o semi-morto conseguisse passar um tempo perto de seus amados. É muito mais difícil relatar a morte de alguém que se ama quando não há um último contato. Sabe, dizer um "eu te amo", ou "tudo ficará bem" ou, até mesmo, "desculpa ter ficado bravo daquele jeito quando você saiu". As veias dele saltaram em seu pescoço e um pouco de sangue saiu do corte que havia lá, manchando a roupa do médico...

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Em breve parte 3.


Meu filho é um Serial Killer

Geralmente as pessoas me olham estranho quando digo que tenho um filho de dezoito anos. Tenho trinta e três anos. Quando eu e James saímos juntos, não é incomum das pessoas perguntarem se ele é meu irmão mais novo. Ele se passa facilmente por um rapaz de vinte, e eu também. Esses dezoito anos não foram nada fácil, mas gosto de pensar que fiz o melhor possível da situação que me encontrava. No terceiro ano do ensino médio eu engravidei minha namorada. Os pais dela iam colocar o bebê para adoção, mas minha mãe se impôs e me ajudou a conseguir a custódia.

Meu filho é um aluno nota 10. É armador do time de basquete do colégio. Consegui juntar dinheiro suficiente para comprar um bom carro de segunda mão para ele. É popular de todas as maneiras que não fui. Quando eu tinha a idade dele já tinha um filho de dois anos, formado no supletivo e com um emprego em uma fábrica local das empresas Pella. Moramos em um apartamento duplex de dois quartos a algumas quadras do colégio. Ele faz seus deveres escolares sem eu precisar pedir e usa seu tempo livre para ficar cm seus amigos ou arrasando no Call of Duty.

Em algum ponto até achei que ele fosse gay. Não que eu ligasse para isso, mas achava estranho que um garoto da idade dele nunca tivesse uma namorada. Perguntei para ele e ele riu, dizendo “Não pai, não sou gay. Só quero esperar até eu ficar um pouco mais velho para essas coisas. Não quero que você seja vovô com trinta anos. ”.

Isso foi nossa conversa sobre sexo. Junto com a internet e as aulas de educação sexual que eu tinha assinado um formulário de permissão, acho que ele sabia os básicos. A alguns meses atrás me falou que ia sair tarde da noite. Quando perguntei o porquê, me disse que tinha um encontro. Não fiz mais perguntas. Entreguei para ele uma nota de cem dólares e pedi que voltasse para casa antes do café da manhã. Ele era um bom menino. Confiava nele.

Depois disso, começou a ser algo frequente. Avisava-me nas sextas a tarde que iria chegar de madrugada. Todo sábado de manhã eu o encontrava jogado no sofá jogando no Xbox antes mesmo de eu sair da cama. Nunca conheci nenhuma das garotas que saiam com ele, mas achei que isso era por ele ser mais reservado. Como eu disse, confiava no meu filho. Ele tinha uma cabeça boa e eu não tinha motivo nenhum para desconfiar que algo estava fora dos eixos.

Normalmente não vejo o jornal. Achava que meu feed do facebook e twitter já me mantinha informado o suficiente. Por algum motivo, me encontrei na frente da televisão às cinco da tarde e resolvi ver as notícias. Hoje, queria não ter visto. Na televisão passou de um comercial para a ancora do jornal olhando fixamente para a câmera com um ar sombrio. “Hoje à noite cobriremos um caso ainda em progresso. Várias mulheres da redondeza continuam desaparecidas enquanto a polícia procura por pistas se os desparecimentos têm relação entre si. ”

Moramos em uma cidade pacata. A ideia que algo desse tipo estivesse acontecendo tão perto de casa me chocou um pouco. A ideia de que meu filho estava fora de casa ao mesmo tempo em que essas coisas aconteciam na cidade me assustou um pouco demais. Falei com ele sobre. Disse para eu não me preocupar. James já era grande. Tinha dois metros e mais um pouquinho de altura e uma estrutura larga. Eu não estava preocupado que alguém fosse brigar de socos com ele, mas sendo um cara grande também, sabia que ser alto não significa nada para alguém com uma arma.

James me assegurou que não tinha nada com o que me preocupar.  Mas só para me assegurar, surrupiei seu celular enquanto dormia. Instalei um aplicativo que me permitiria ver sua localização o tempo todo. Talvez eu estivesse apenas sendo paranoico demais, mas me lembro de ter dezessete anos e achar que era invencível. Não pensei muito nisso. Depois de configurar o aplicativo para ficar escondido, coloquei de volta no carregador que estava na cozinha e não dei mais muita atenção para aquilo. Pensei que se um dia ficasse preocupado com seu paradeiro, era só eu abrir o aplicativo no meu celular e ver sua localização. Contanto que não estivesse tão longe dos perímetros da cidade, poderia relaxar e voltar a ver minhas séries no Netflix.

Comecei a acompanhar pela internet um caso de mulheres desaparecidas. A mídia local estava fazendo um sensacionalismo barato com o caso. Seis mulheres tinham desaparecido no período de dez semanas. Variavam de idade e aparência. Nenhum corpo tinha sido encontrado, mas a policias estava investigando como se os crimes fossem todos relacionados. Quando a sétima mulher desapareceu, meu coração parou de bater. Não via Rochelle fazia dez anos. Ela tinha voltado quando James tinha mais ou menos sete anos. Tentou ser maternal, mas não levava jeito para a coisa. Depois de alguns meses de promessas quebradas e perder encontros com seu filho, entrei na justiça e pedi que ela fizesse um teste para ver se ela usava drogas. Depois de rodar no teste, consegui mais um mandato para que não pudesse mais ver nosso filho. Não queria que meu filho tivesse que lidar com aquilo.


Era sábado de manhã e fiquei bastante apreensivo de descer as escadas. James e eu não falávamos muito sobre sua mãe. Ela tinha se descontrolado logo depois que deu a luz a ele e trocava seu corpo por qualquer tipo de droga. Quando procurou por nós, tinha envelhecido vinte anos em apenas sete. Seus braços eram cobertos de marcas de picadas e seus dentes eram amarelos de um jeito decadente. Para ser sincero, fiquei surpreso que ela viva tempo suficiente para ser sequestrada. Com meu coração pesado, me aproximei de meu filho na sala de estar e falei:

“Filho, precisamos falar sobre sua mãe”.

James suspirou e pausou seu jogo. Olhou para cima em minha direção e perguntou “O que foi que ela fez dessa vez? ”.

Suspirei e disse “Ela desapareceu noite passada. A polícia falou que havia sinais de arrombamento e luta em seu trailer”.

James encarou a televisão como se estivesse olhando através dela e despausou seu jogo. Ele continuou a olhar para frente e comentou “Bem, isso não é novidade, não é mesmo? ”.

James e eu não falávamos sobre sua mãe porque ele não gostava de falar dela. Um dos motivos principais de eu ter envolvido um advogado era que durante uma de suas visitas, ela levara James para ser apartamento. Aparentemente recebeu alguns clientes enquanto meu filho estava em seu sofá. A primeira visita a casa de sua mãe acabou sendo um dia de drogados sentando ao lado, enquanto pagavam 20 dólares para foder sua mãe. Três horas depois, um cara chamado Steven o deixou na porta de casa. Estava sentado perto da porta da frente quando voltei do trabalho. Perguntei o que fazia ali e ele respondeu que sua mãe não o queria lá. Ele ficou sentado na rua sem nem uma jaqueta por mais de quatro horas.

De todas as coisas que poderiam ter acontecido com ele, fiquei aliviado que tinha sido só isso. Tinha ouvido histórias tensas de situações parecidas com aquelas que tinham acabado de um jeito muito mais grotesco. Coloquei James imediatamente em uma terapia depois disso. Depois de alguns anos seu trauma diminuiu e as visitas com a terapeuta ficaram mais espaçadas. Depois daquela noite, perguntou dela muito pouco. Pensando melhor agora, me lembro de só uma vez em que ele tocou nesse assunto.

Na semana seguinte ele me avisou que sairia de novo. Naquela noite tive um surto de preocupação, então abri o aplicativo de rastreamento. Ele foi até um endereço aleatório no outro lado da cidade e depois foi para um lugar no meio do nada. Tinha instalado aqui a muitas e muitas semanas e não tinha mais pensado naquilo. Entretanto, não tinha me dado conta que estava rastreando seus passos. De acordo com os registros, tinha tido naquele lugar no meio do nada pelo menos quatro vezes nas últimas seis semanas. Percebi que uma das suas paradas tinha sido no endereço onde o trailer de Rochelle ficava, bem no dia em que ela desapareceu. Achei suspeito, mas tentava ignorar o que todas as células do meu cérebro tentavam me dizer.
Joguei meu telefone na cama e peguei uma garrafa de uísque que tinha guardado no armário. Bebi até dormir e na manhã seguinte acordei meio grogue. James estava no andar de baixo jogando Dark Souls e comendo Pop-Tarts. Virei um Red Bull que tinha na geladeira e fui para meu carro. Tinha decidido que iria até o local no meio do nada que meu filho tinha ido em todos seus encontros. Queria não ter ido. Eu realmente, do fundo do coração, queria não ter ido.

Meu GPS me levou até uma estrada de terra que não era mais usada. Depois de dirigir por uns 400 metros com uma densa floresta em ambos os lados da estrada, se abriu em uma clareira com um pequeno riacho. Estacionei no final da estrada e sai do carro. Vi resquícios de uma fogueira perto do riacho. Andei até lá. As cinzas ainda estavam mornas. Suspirei em alívio. Meu filho tinha encontrado um lugar tranquilo perto de um riacho e estava tendo seus encontros debaixo das estrelas. Estava quase orgulhoso dele, quando notei pegadas que iam de encontro a pequena lagoa. Parecia que alguém tinha arrastado algo pesado até a água.

Andei para perto da beira e olhei para a água sombria. Me virei de volta para a fogueira e notei manchas de sangue na grama perto de mim. Com relutância, entrei na água e andei alguns passos até que a água batesse um pouco acima da minha cintura, quando meus piores pesadelos foram confirmados. Pisei em algo duro. Coloquei a mão por dentro da água e alcancei algo que parecia uma corrente de metal grossa. Quando puxei, vi um corpo enrolado em um cobertor. Tirei o pano e um rosto bastante inchado se revelou. Era Rochelle. Rapidamente enrolei o corpo de volta e empurrei par abaixo da água. Corri de volta para meu quarto e fui para casa.

Fiquei sentado no carro, estacionado em frente nossa casa, por uns quinze minutos tentando entender se estava tendo um ataque de pânico ou um ataque cardíaco. Meu coração batia tão forte em meu peito que chegava a doer. Lágrimas corriam pelo meu rosto enquanto tentava digerir o que tinha acabado de ver. Tentei me convencer do contrário com quinze tipos de teorias de conspiração que explicavam que meu filho era inocente. Alguém bateu na janela do motorista e dei um pulo no meu lugar. Era James.

Hesitantemente, desci do carro e imediatamente ele me envolveu em um abraço e disse “Seja o que for, está tudo bem agora, pai. Só me conta o que aconteceu”.

Ele era um ótimo filho. Por um momento esqueci do riacho e do corpo de sua mãe. Segui atrás dele para dentro de casa e depois de mudar minhas roupas para umas secas, fui para sala. Sentei em uma poltrona enquanto ele estava sentado no sofá de frente para mim. Depois de alguns minutos de silêncio, encarei o chão e falei:

“Encontrei sua mãe.”

Ele respondeu apenas com um “Ah...”

Não sei o que esperava de resposta, mas aquilo me atingiu de um jeito inexplicável. Não uma expressão de surpresa ou raiva. Era a mesma reação neutra que o vi fazer nas raras ocasiões que o peguei fazendo algo que não deveria.

Olhei em seus olhos e disse “Por favor, me diga que não fez nada de errado. ”


Ele olhou para o lado e falou, “Defina errado. ”

Aumentei um pouco o tom da minha voz “Meu Deus, James, você matou sua mãe? ”

Ele riu e disse “Aquela vadia já estava morta a muito tempo entes de eu nocauteá-la e leva-la para o carro. Qualquer puta que tenta vender seu filho por um pouco de droga já está morta a muito tempo. ”

Não consegui falar mais. Sempre me perguntava o que tinha acontecido naquela noite, mas James nunca quis se pronunciar a respeito.

James continuou, “Sabe, tive muita sorte. O desgraçado que pagou por mim me deu uma carona para casa e disse para nunca mais voltar na casa da minha mãe. Acho que poderia ter sido bem pior, mas foi nesse dia que me liguei. Entendi o quão sem sentido a vida é. Claro que matei ela. Aquela puta merecia morrer mais seis vezes. ”

Meus olhos enchiam de lágrimas enquanto meu filho confessava mais de quinze assassinatos. Fiquei ali sentado, estupefato, enquanto dava detalhes e descrições que nenhum adolescente da sua idade devia saber. Depois de me contar tudo, apenas fiquei ali sentado. O que eu poderia dizer? O que eu devia ter dito? Meu filho tinha acabado de confessar para mim que era um serial killer, e tudo que eu tentava pensar era um jeito de não arruinar sua vida.

Finalmente consegui ter um pouco de coragem e disse “Precisamos de ajuda para você, filho. Isso não é saudável e-”

James me cortou no meio da frase “Nenhum terapeuta pode me ajudar, pai. Você tem sido muito bom para mim, então vou cortar essa besteira. Nós sabemos que vou fazer dezoito anos daqui mais ou menos um mês. Vou sair da sua cola. Além do mais, tenho planos maiores. ”

Fiquei olhando para ele e tentando entender como ele tinha se transformado naquele monstro. Dezessete anos de paternidade e nunca, nem em um milhão de anos, teria imaginado que ele ficar assim tão fora de si. Me demiti uma semana depois daquilo. Até o dia de seu aniversário, eu já tinha gasto quase todo meu dinheiro em bebida, para tentar esquecer de tudo aquilo. Obviamente, um dia depois que fez dezoito anos, ele sumiu. Qualquer parte de mim que ainda tinha esperanças por ele morreu quando, algumas semanas depois, as autoridades encontraram os corpos na lagoa. Mas ele já tinha sumido a muito tempo.

Recebi um cartão postal faz umas semanas. Era uma foto de uma praia. No verso estava escrito “Oi pai, só para você saber que estou bem. ”

Joguei o cartão em uma mesinha perto da porta de entrada e voltei a beber. Parte de mim quer contar tudo para a polícia. Provavelmente não seria difícil de achá-lo. Mas ainda assim, ele é meu filho. Estou disposto a fazer várias coisas, mas entregar meu filho para a polícia, resultando em um provável corredor da morte não era uma destas coisas. A culpa fica cada dia mais pesada. Por hoje, a única coisa que posso fazer é desejar que ele esteja bem. Não faço ideia onde esteja. Não quero saber. Tudo que posso fazer é esperar que ele pare de matar. Ele é um ótimo garoto. Ele é alto e carismático. Tenho certeza que ele iria longe se tivesse apenas tentado.






21/11/2015

Fitas sobre minha amnésia

Meus pais sempre me contaram histórias sobre a minha infância que, por algum motivo, eu nunca me lembrava. Histórias sobre como eu costumava ter um amigo imaginário chamado Bill, que supostamente vivia dentro das paredes com a sua cobra de estimação chamada Axel. De onde diabos eu inventava essas coisas eu não fazia ideia, mas aparentemente eu passava muito tempo com Bill e Axel, pois meus pais sempre falam sobre isso quando vou visita-los.

Decidi que sairia em uma pequena viagem na semana do natal de 2009. Trabalhando em Manhattan na área de negócios, conquistando muito dinheiro e subindo para a classe média alta nos últimos anos, decidi fazer uma pausa de tudo isso e passar um tempo na casa onde cresci na Pennsylvania. Lá pelo dia vinte e dois de dezembro, cheguei à casa dos meus pais onde eles imediatamente me levaram para o meu antigo quarto.

No momento em que entrei no quarto um arrepio percorreu o meu corpo, não que fosse por um sentimento estranho, sobrenatural, ou desagradável, mas um arrepio pela simples nostalgia, o que era estranho considerando que eu não me lembrava do meu quarto. Eu mal lembrava de qualquer coisa dos meus anos de infância. Apenas me lembro da minha adolescência, na época em que fui mandado para viver com a minha tia por causa do meu transtorno bipolar, o que meus pais não aguentavam mais, porém, agora que já tenho tudo sob controle, não há mais com o que se preocupar.

Tia Janice estava chegando para jantar na casa dos meus pais, então eu iria revê-la depois de quase quatro anos. Não vou mentir, eu me senti um pouco emocional, pensando sobre como mal vi meus velhos e adoráveis parentes desde que consegui o emprego em Manhattan, mas a minha vida pessoal estava indo bem, apesar da minha ‘não tão interessante’ vida amorosa. No momento eu estava me encontrando com uma garota chamada Amanda, mas já não nos víamos há algumas semanas devido a sua viagem para o funeral de um tio na Califórnia.

O jantar era um assado, feito especialmente pela minha mãe. Outra pequena coisa que de alguma forma me lembro da minha infância: a minha mãe cozinhando e dando o verdadeiro significado para o ditado “Assim como a mamãe costumava fazer”. Desejei que Amanda pudesse cozinhar assim. No jantar, a Tia Janice me contou algumas histórias hilárias sobre a minha infância e outros eventos na casa, muitos de momentos festivos e outras reuniões familiares. Infelizmente, não pude me lembrar de nada desses eventos, mas eram divertidos de se ouvir.

Depois doo jantar, Tia Janice teve que ir embora, então eu a beijei na bochecha e ela se foi. Ela ainda preservava a sua boa aparência, apesar de já estar em seus 70 anos. Eu sorri ao observa-la partindo, pois me lembrei dos meus agradáveis momentos da adolescência enquanto morava na casa dela em Pittsburgh. Agora ela morava perto dos meus pais, desde que o marido dela, meu tio George, morreu há alguns anos.

Lá pelas 23:00, meus pais foram dormir e me falaram que eu poderia ficar acordado ate quando quisesse, desde que não fizesse muito barulho. Decidi ficar no meu antigo quarto e assistir um pouco de televisão até ficar cansado, então eu fiz isso, passando pelos canais até não encontrar praticamente nada de interessante. Acabei desligando a Tv e ficando apenas a observar o meu velho quarto.

Abri o meu armário e encontrei os típicos objetos que se encontraria no armário de um garoto: bonecos, Legos, quadrinhos. O que chamou a minha atenção foi uma caixa marrom no fundo do armário, obscurecida por uma pilha de roupas infantis. Afastei algumas roupas peguei a caixa enferrujada, abrindo-a para encontrar seis fitas cassete, todas marcadas com números feitos de crayon na letra de uma criança pequena.

No fundo da caixa encontrei um pedaço de papel dobrado, retirado de um caderno. Peguei o papel e o desdobrei para encontrar, escrito também com crayon, “As Aventuras de Bill e Axel”. Reconheci o nome do meu amigo imaginário e a sua cobra de estimação. Achei aquilo muito interessante e poderia até me ajudar a lembrar de algumas coisas da minha infância. Com sorte, havia um VCR no meu quarto.

Vasculhando a caixa, peguei uma fita intitulada “#1”, e a pus no VCR. O VCR cuspiu a fita algumas vezes, mas na terceira ou quarta vez a fita finalmente entrou e começou a transmitir. Havia apenas estática por uns trinta segundos até que finalmente apareceu: um eu muito jovem no meio do mesmo quarto onde eu estava agora. O quarto estava exatamente igual. Eu estava sentado no meio do quarto, com minha cabeça apoiada em minhas mãos, encarando a parede e murmurando coisas incompreensíveis.

Pensei que eu estivesse brincando de esconde-esconde ou algo assim, então não havia estranhado de primeira. Depois de uns dois minutos comecei a me preocupar, já que a minha versão mais jovem havia começado a murmurar mais alto, porém, de maneira ainda incompreensível, quase como num idioma desconhecido. O som foi cortado completamente, a imagem começou a tremer, as cores começaram a distorcer, e eu pude ouvir um fraco sussurro vindo do vídeo.

Aumentei um pouco o volume para poder distinguir melhor o sussurro, mas de repente um chiado de fazer os ouvidos tremerem saiu do vídeo e uma forte estática tomou conta da tela. Com um salto, corri para o VCR e ejetei a fita, mas é claro que o VCR havia mastigado a fita, destruindo ela completamente. Vasculhei a caixa mais uma vez para pegar uma segunda fita, e a encontrei convenientemente bem no topo da pilha de fitas, com um “#2” escrito com crayon vermelho.

Essa fita começou como a primeira. Quando finalmente surgiu a imagem, não havia som. Parecia uma continuação da primeira, mas agora o jovem eu encarava a câmera, e a minha cabeça não estava mais apoiada em minhas mãos. Meus olhos possuíam profundos círculos negros ao seu redor, e eu parecia extremamente exausto e assustado. Os sussurros surgiram outra vez, porém mais alto e claro que antes. Pude ouvir, para meu horror, um nome ser dito no meio dos sussurros: “Patrick”. Meu nome.

A fita foi rapidamente ejetada do VCR, sozinha, largando por trás um bolo de fitas magnéticas emboladas. Não vou negar que naquele momento eu já estava quase molhando as calças. Eu já sentia que aquela casa possuía algo de anormal. Que aquelas paredes literalmente pudessem falar, e que eu havia bloqueado as minhas lembranças da infância por alguma razão. Isso também teria sido a causa da minha desordem bipolar na adolescência?

Peguei a caixa de fitas e corri para o meu carro, sem nem mesmo me despedir dos meus pais, que estavam dormindo, e dirigi para longe daquele lugar. Eu estava cansado, mas eu tinha que sair daquela casa. Dirigi para a casa da Tia Janice e contei tudo para ela, mostrando a caixa de fitas. Seu rosto sorridente logo se tornou pálido, parecendo quase assustado, e nervoso. Ela me pediu que sentasse e relaxasse. Ela se sentou ao meu lado, segurando a minha mão, e me contou a verdade por trás de tudo: as fitas eram de um teste psiquiátrico para as minhas atitudes devido a uma possessão demoníaca que ocorreu em minha infância. Um exorcismo foi efetuado, e quase resultou em minha morte, e quando o demônio deixou o meu corpo, acabei sofrendo amnesia, e foi por este motivo que fui mandado para morar com a Tia Janice.

Acabei retornando para Manhattan, e no outono seguinte me casei com a Amanda. Não convidei e nem contei para nenhum membro da minha família sobre o casamento, e não vejo meus pais ou a Tia Janice desde aquela noite de 2 de dezembro de 2009. Ainda tenho algumas fitas comigo, mas continuo muito assustado para assisti-las. Tudo o que sei é que o demônio continua espreitando pelas paredes daquela casa.


19/11/2015

KATHERINE.exe (ATUALIZADO)

Só para vocês saberem, não estou escrevendo isso para obter atenção, ou karma, ou que seja. Só estou tentando compartilhar algo que achei muito interessante. Também não é por razões nobres, honestamente, só sou um carinha tedioso e não estou acostumado a me envolver com essas coisas loucas.  

Meu nome é Jay. Trabalho em um pequeno prédio comercial como assistente de vendas de uma pequena marca de software de segurança. Não irei entediar você com os detalhes sórdidos do meu trabalho não-interessante – a única razão a qual eu o aguento é para sustentar minha namorada e minha filha, que nasceu faz 11 meses. Normalmente eu perco a maior parte do meu tempo no meu escritório navegando na internet, esperando que algo interessante aconteça que não seja as fofocas rotineiras que ficam circulando por aí.

A duas semanas meu desejo se realizou de um jeito bastante trágico. Meu colega de trabalho, um representante de RH que vou chamar de Dan (para não revelar seu nome real), chegou ao escritório surtando porque tinha perdido um pendrive. Ele fez toda uma cena, jogando no chão coisas que estavam em cima da mesa dos outros, gritando com o gerente e, basicamente, teve um ataque de pânico ali no meio do escritório. Ficava repetindo que era um pequeno pendrive vermelho com a letra “K” escrita na parte de trás com marcador preto.  Pegou todos de surpresa, não tínhamos ideia do que estava acontecendo, mas os seguranças do prédio vieram e tiraram ele dali. Naquela noite, Dan se matou com um tiro na cabeça. No dia seguinte todos ficamos chocados e tristes de ouvir aquela notícia.

Antigamente Dan era um cara bastante extrovertido e amigável, mas cerca de seis meses atrás a filha de oito anos dele, Katherine, foi atropelada por um carro enquanto andava de bicicleta e entrou em coma.  Dan era pai solteiro e amava sua filha mais do que qualquer coisa nesse mundo, sua mesa estava sempre cheia de fotos dela e estava sempre contando a todos as coisas maravilhosas que ela fazia na escola; aparentemente ela tocava violoncelo muito bem. Não preciso nem dizer que quando ela se acidentou ele acabou se fechando. Katherine ficou em coma por aproximadamente três meses antes de falecer. Dan tinha feito um funeral privado para ela, ou pelo menos foi o que fiquei sabendo, e se recusava a falar da morte dela com qualquer pessoa que seja. Se distanciou de todo mundo e raramente emitia qualquer som, até o dia que surtou antes de cometer suicídio.

Fico pensando, se tivesse encontrado o pendrive, ele teria se matado mesmo assim? O destino funciona de maneiras misteriosas – enquanto Dan não conseguiu de jeito nenhum encontrar o pendrive, eu o achei hoje de manhã. Estava fazendo uma xícara de café na sala de intervalo e acidentalmente deixei cair um pacotinho de açúcar atrás da mesinha de café. Me abaixei para pegar e lá estava o pendrive vermelho com a letra “K” escrita em caneta permanente preta. Chocado, o peguei e fiquei pensando no que fazer com aquilo. Refleti o dia inteiro e decidi levar para casa e ver o que tinha dentro.

Sei que soa egoísta, provavelmente eu devia ter entrado em contato com sua família para devolver o pendrive, mas honestamente fico feliz de ter pego, pois acabei tendo um dos dias mais intrigantes da minha vida.

Quando cheguei em casa logo o coloquei no meu computador. O drive estava nomeado “K” e tinha apenas quatro pastas dentro. Uma chamada “FOTOS” (PICS, em inglês), outra “ROLAND”, outra “ENSINAR” (TEACH em inglês) e a última era “FALAR” (TALK em inglês). 

No folder “FOTOS” haviam algumas fotos bem bonitas de Dan e sua filha se divertindo juntos em um parque de diversão. Obviamente não me sinto confortável de dividir o conteúdo na internet. São memórias dele, não algo para mostrar para o mundo inteiro.  

Na próxima pasta, “ROLAND”, havia um conteúdo um pouco mais perturbador. Pareciam ser alguns artigos escaneados. Era um pouco difícil de ler, mas era sobre projetos feitos por uma empresa chamada “Roland Biomech” (tentei googlear esse nome, mas nada relevante apareceu). Aparentemente essa empresa fazia experiências com certos tipos de tecnologia para ajudar pacientes com deficiência ou lesionados. Um artigo falava de um paciente que tinha perdido todos seus dentes, então trocaram toda sua mandíbula com algum tipo de sistema que fragmentava a comida antes de ir para seu esôfago. Haviam uma nota de rodapé dizendo que o sistema inteiro sofreu um colapso, afundando a face e crânio do paciente; o sujeito em questão não sobreviveu.

Outro artigo se referia a um experimento, que consistia em colocar aparelhos eletrônicos no cérebro de uma paciente que estava com depressão, utilizando uma técnica para tentar ”retirar” a depressão de lá, projetando imagens felizes da Internet na mente dela. No começo tinha sido um experimento bem-sucedido, mas logo foi determinado que o paciente tinha recebido “informação demais” e ela entrou em um estado catatônico depois de gritar por horas que “sabia tudo de uma vez só”.

E parece que de alguma forma Dan tinha se candidatado para fazer parte dos experimentos da Roland Biomech. O requerimento, datado de três meses atrás, continham as informações pessoais de Dan, o estado de coma de Katherine, o tipo sanguíneo dela, e outras coisas desse tipo. Uma das perguntas de sim/não no formulário era “Você está confortável com quaisquer alterações, grandes ou pequenas, que o paciente possa vir a sofrer depois que as operações forem completas? ” Dan tinha marcado Sim.  

Abaixo do escrito “procedimento requisitado”, Dan tinha escrito “Transferência de Consciência”. Abaixo havia um carimbo com a palavra “APROVADO”.

Um dos últimos arquivos era o mais difícil de se ler, mas algumas partes estavam destacadas e notas foram escritas a mão ao lado. Eu não sou um programador, apenas um vendedor de software, mas juro que o artigo parecia ser execuções de programas e códigos. A maioria era reunida em colunas, com coisas intituladas como “Memórias”, “Emoções”, “Resolução de Problemas”, etc. Uma das notas escritas a mão que consegui entender dizia “NOME DAS PASTAS PARA ENTRADA/SAÍDA: ENSINAR/FALAR”

Decidindo que já tinha visto muito daquelas bostas criptografadas, cliquei na pasta “ROLAND” e fui para a “ENSINAR”. Esse era o que tinha mais arquivos, um monte de manuscritos com nomes estranhos como “ola.cpp” “comofoiseudia.cpp”, e “tocarvioloncelo.cpp”

Havia também um arquivo baixável chamado “KATHERINE.exe”. Cliquei no arquivo e o mesmo começou a baixar, apenas uma barra colorida na tela e nada mais. Quando terminou de baixar, uma pequena tela preta apareceu com a frase “INSIRA COMANDO”.

Confuso, minimizei o programa e cliquei na pasta “ENSINAR”. Fui até a última pasta chamada “FALAR”, e vi que estava vazia.

Fiquei bastante desapontado. Que bosta sem sentido era essa? Cliquei de novo na pasta “ENSINAR” e depois novamente em dois arquivos aleatórios: “ola.cpp” e “tocarvioloncelo.cpp”. A pequena tela preta que tinha aparecido antes, fechou. Então, sozinho, a pasta “FALAR” abriu com um novo arquivo – “quemevoce.wav”

Aqui está o arquivo que coloquei no youtube. Há alguns momentos que é bastante alto, então vá com calma no volume. Tem mais ou menos um minuto e quarenta segundos o áudio. Por volta dos 46 segundos eu consigo ouvir claramente um violoncelo tocando. Também consigo ouvir um “who are you?” (Quem é você, em tradução para o português) aos 1:31 do vídeo.

Honestamente eu não sei o que achar disso tudo, mas sei que Dan amava sua filha mais do que tudo, e que se tivesse qualquer jeito de mantê-la por perto, não importa o quão “desonesto” precisasse ser, ele faria. Por qual outro motivo ele teria entrado em contado com essa empresa? O que tinha de tão importante no pendrive que fez com que Dan se matasse?

Essas pessoas da Roland transformaram uma garotinha em um programa de computador, que eu acabei de baixar e me comuniquei com ela.
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EDIT:

Então, hoje cheguei a noite em casa e achei isso.


Metade de mim está surtando, a outra quer mandar esse pessoal se foder. Preciso de um tempo para organizar meus pensamentos.

Aqui está a tradução do que está escrito:

“Para o inquilino,

Chegou ao nosso conhecimento que o inquilino, Sr. Jay Durst, teve contato recente com propriedades pertencentes a empresa Roland Biomech ou alguma de nossas entidades afiliadas. Nossos registros indicam que o inquilino está redistribuindo esta propriedade, assim visto no site:

http://www.reddit.com

A propriedade em questão está registrada como: Transferência de Consciência. Por favor, considere que quaisquer redistribuições de propriedades pertencentes a Rolando Biomech ou alguma de nossas entidades afiliadas resultará na remoção total das propriedades posteriormente citadas.

Se você tem interesse de marcar um horário com a Roland Biomech para um de nossos serviços únicos de caridade, por favor entre em contado com algum de nossos consultores ou qualquer usuário da Roland Biomech.

Estaremos monitorando quaisquer atividades futuras que acharmos questionáveis.

Lana Porter

Roland Biomechanicals

Gerente de propriedades & segurança”

Que porra é essa?
Preciso de um tempo para pensar. Atualizarei assim que possível.