31/12/2015

Os 1%, Parte 2: Becky

PARTE 1
PARTE 3

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Becky iria se encontrar com o tão estimado doutor. Mal conseguia conter suas risadinhas. O grande Sr. Doutor a faria ficar bonita. Todo mundo o acha o melhor, então deve ser. 

Ela sorria de orelha à orelha. Saltitou para fora da sua cama de dossel, e sentou-se em frente a penteadeira. O espelho era rosa com luzes em volta. Fotos dela estavam penduradas pelo quarto como um enorme livro de recordações. No espelho, olhou no fundo dos seus próprios olhos. Por alguns segundos ela viu a mulher de quarenta anos no reflexo. "SAI DAQUI!", gritou, jogando a escova de cabelos rosa no espelho. A imagem havia sumido. 

Se aprontou. Arrumou seus longos cabelos loiros em dois rabos-de-cavalo baixos. Colocou sua calcinha da Minnie Mouse e seu sutiã infantil. O sutiã apertava demais no canto do seu peito, provocando erupções vermelhas na pele ao longo da caixa torácica. Mas as florzinhas amarelas na estampa eram tão lindas. Becky pegou seu vestido rosa mais fofinho e suas meias com babado. Tinha que estar com a melhor aparência possível para ir ver o doutor. 

Saiu de seu quarto. "Mamãe! Papai! Estou pronta!" Aqueles bobinhos estão sempre dormindo. 

"Rebecca?" A voz baixa vinha de um dos quartos adjacentes. Becky riu e abriu a porta com violência. Barry estava na cama, amarrado como sempre. Ele tinha se cagado durante a noite e o quarto fedia horrivelmente. Barry era um bebezão. Ele ainda molhava a cama! 

"Rebecca, por favor, preciso de ajuda." 

"Rebecca, por favor," ela respondeu, ironicamente. "Você é um perdedor, Barry."

"Estou falando sério. Acho que meu olho está infeccionado. Se você pudesse ligar para-"

"Não posso ligar para ninguém, bobão! Só tenho nove anos!" Ela riu dele novamente. 

Lágrimas corriam pelo rosto dele. "Rebecca, por favor, fale comigo normalmente." 

O jeito suave dela mudou repentinamente para obscuro. Rebecca estava de volta. "Isso é o meu normal, Barry. E depois de hoje, Dr. Allship fará minha voz ficar perfeita." Rebecca queria sair do quarto tão rapidamente quanto tinha entrado. Seu rosto rapidamente mudou para a menininha despreocupada. "Aliás, bobão, você não pode sair! Mamãe e papai disseram!" 

Barry continuou a chorar. Era um bebezão mesmo. 

"Vou chamar a Mamãe para te limpar, perdedor." Foi até a cama dele. "Vou pegar o cartão de crédito, também. Quer dizer, você nem pode usar, mesmo!" Riu mais alto enquanto a expressão dele murchava. Ela o zombou novamente e enfiou a unha pintada de rosa dentro da cavidade ocular dele. Barry gritou. Becky não parava de gargalhar. "Você está espalhando seu sangue em mim! Cagão!" 

Mamãe desceu rapidamente pelas escadas. "Sr. Shore?"

Becky ficou sombria novamente e fuzilou-a com os olhos. Rebecca não gostava quando a empregada esquecia o seu lugar. "Mamãe, o que você disse?" Ela empurrou ainda mais a unha. Mamãe pigarreou. "Me perdoe, Rebecca. Quero dizer, Becky. Só estava aqui para ver se o seu...hm..."

"Irmão," Rebecca proferiu, sem rodeios. 

"Sim, claro. Estava aqui para ver se seu irmão precisava de mim."

Becky tirou a unha e Barry continuou a gemer. "Ele precisa de uma troca de fraldas porque é um bebezão perdedor." De repente se alegrou novamente. "Vou lavar minhas mãos e então papai pode me levar ao doutor!"

Ela passou por Mamãe e foi para o banheiro. Lavou suas mãos, fazendo careta para a coisa vermelha que escorria de suas lindas unhas. Olhou para cima e teve um vislumbre da mulher de 40 anos no espelho. "SAI DAQUI!", gritou. A imagem desapareceu. 

Papai a levou ao doutor de carro. Ele não falava muito, mas tudo bem. No carro, Rebecca divagava sobre como estava animada para as aulas e como sua nova voz seria linda. Quando chegaram no consultório, ela beijou Papai na bochecha. Ele só recuou um pouquinho desta vez. 

Ela marchou até o consultório, piscando por causa da brancura absoluta do lugar. Duas mulheres estavam sentada atrás do balcão. Eram parecidas. 

"Preciso falar com o doutor," falou na sua melhor voz cantarolada. 

"Você não em uma consulta marcada." A mulher trocou olhares com Becky. Seu tom era doce porém vago. 

"Não preciso de hora marcada. Quero falar com o doutor." Becky podia sentir as trevas tomando conta novamente. Rebecca observou a mulher em sua frente. Elas achavam que eram muito melhores que ela. 

"Senhora, eu-"

"Não sou senhora nenhuma. Sou uma menininha." Rebecca fechou o punho com força, mas logo soltou. Becky estava de volta com seu sorriso encantador. 

As mulheres da recepção se entreolharam. Sorriram vagarosamente em conjunto. Uma se voltou para Becky. "Chamarei o Dr. Allship imediatamente. E qual seria o seu nome, menininha?" A palavra menininha escorregou da ponta de sua língua como leite estragado. 

"Becky."

Becky só teve que esperar meia hora para consultar com o doutor. Ela foi conduzida até a sala de examinação. Achou que ele seria mais alto e mais bonito. Mas era apenas um homenzinho com uma escrivaninha gigante. Ele não sorria. 

"O que posso fazer por você?"

Becky sentiu Rebecca sair das trevas. Rebecca deu um suspiro longo. "Preciso que você faça minha voz parecer... mais jovem". 

"E para que isso?" O doutor não tinha emoção nenhuma em sua voz. Olhou brevemente de Rebecca para seus papeis em cima da mesa, mas nada escreveu. 


Becky tentou responder, mas Rebecca a impediu. "Tive uma infância feliz, doutor. Meus pais me amavam. Me davam tudo. Eles... morreram quando eu era nova." 

"Como eles morreram?" Dr. Allship parecia genuinamente interessado. 

Becky se antecipou, " Um acidente! Eu não fiz por querer! Eu estava brincando com a arma do Papai e-"

"Basta!" Rebecca colocou a mão sobre a própria garganta. "Depois que morreram as coisas não eram mais tão felizes.  Quero voltar a ter momentos felizes." Ela puxou o cartão de crédito de Barry. "Estou disposta a pagar seja lá o quanto você quiser. Meu marido tem um fundo de garantia sem limites."  

Dr. Allship pegou o cartão das mãos dela, lendo o nome lentamente. "E que idade você gostaria que sua voz se parecesse, Sra. Shore?" 

"Becky." Rebecca sumiu e deu espaço para a animada menina. "Tenho nove anos. Quero soar como nove anos." 

Dr. Allship sorriu pela primeira vez. "Certo, Becky. Basta uma simples raspagem de cordas vocais. Seu marido estará disponivel para tomar conta de você durante a recuperação?"

Becky riu. "É para isso que eu pago minha Mamãe e meu Papai." 

Autor: EZmisery


30/12/2015

Street View da Ilha abandonada de Hashima

Oi gente, Divina aqui!

 Esse post é um pouquinho diferente pois não se trata de uma creepypasta, e sim um link estranho/assustador/inusitado que descobri enquanto estava navegando pelo reddit a procura de conteúdo para o blog e página do facebook do CPBr.  Hashima Island é um site que consiste de um google street view de uma ilha abandonada. No final desse post tem o link para o site!



Quando você abre o link, vê a imagem acima, ouve um instrumental bem tenso e que é um projeto desenvolvido por um Designer chamado Bryan James, que foi patrocinado pelo Google Chrome, um botão para dar like na página do Facebook do projeto e outra para divulgar no twitter. Para entrar no site você tem que clicar no link em vermelho que diz "ENTER THE FORGOTTEN WORLD" (entre no mundo esquecido). Depois que clicar, verá a seguinte imagem, com a legenda logo abaixo:

"Em 27 de Junho de 2013, Google lançou novos street views de um mundo esquecido da costa Japonesa,  na prefeitura de Nagasaki. Faça uma viagem assombrada pela história e descobrimento dos segredos e mitos escondidos nas paisagens desoladas da misteriosa ilha de Hashima." 

Logo depois você será transportado para uma tela onde terá duas opções: "Comece no Pier da ilha Hashima" que está a esquerda, ou "Selecione um lugar", que no canto direito da tela há vários lugares como "Escadaria para o inferno (stairway to hell)", "bloco 65 (65 block)", "escola primária (primary school)" e outras. Quando uma dessas opções é clicada, há uma breve descrição do local, mas infelizmente é em inglês.

Bem, você controla a tela assim como faz no google maps, clicando nas flechinhas e vai explorando diversos locais da ilha abandonada. 


A Escola Primária, bem creepy, você consegue ouvir vozes de criancinhas quando entra. 

Escadaria para o Inferno.
A mina de Carvão.







Particularmente achei o site meio complicado para explorar o lugar mais meticulosamente, porque fica um tanto travado, é em preto e branco e as imagens tem uma especie de efeito que pode não ser muito agradável ao olhar mas acrescenta o ar de creepy na exploração. 

Por esse motivo resolvi adicionar mais um link, o de baixo, onde você pode clicar para explorar a ilha diretamente do Google Maps, onde a imagem pode conter maior qualidade, mobilidade da página e está colorido. Mas obviamente recomendo primeiro dar uma olhada pelo site, pois é uma experiencia e tanto! 









Finalmente Acordado - Final

Parte 1 - Parte 2

Ele viu, ao lado do pé da cama do hospital, uma grande porta de madeira abrindo rapidamente, fazendo um barulho muito alto. Viu apenas uma luz, logo acima de sua cabeça, tão forte que o fez fechar seu olho restante a fim de evitar que este ficasse ruim também. O doutor dizia o nome de alguns instrumentos. Ele tentou acompanhar o que diziam, mas parecia que falavam outra língua. Ele sentiu como se fosse desmaiar. Sua fraqueza aumentava muito e seu corpo pesava, e ele sabia que estaria inconsciente em pouco tempo. No entanto, se sentiu bem com isso. Pelo menos, se dormisse, não sentiria a imensa dor que o atormentava. Abriu lentamente seu olho esquerdo. Dessa vez, pelo menos, não foi tão difícil.

Ele começou a ouvir alguns bipes frequentes, já que estava ligado a um monitor cardíaco. Ele não via a máquina, pois estava em algum lugar ao seu lado, mas conseguia imaginar o gráfico que suas batidas cardíacas faziam. Sentiu um tubo sendo enfiado em sua garganta. Aquilo arranhava, era desconfortável. Contudo, a dor que sentia em todo o resto de seu corpo ia muito além daquilo. Sentiu uma leve ânsia de vômito. O tubo já estava dentro dele antes que percebesse. O homem de óculos escuros se movia rapidamente, suas luvas de látex cheias de sangue. A enfermeira perdera sua expressão assustada, trocara por uma de determinação. Esta seguia ordens em certa velocidade logo que lhe eram dadas, assim como as outras três pessoas que haviam se juntado a eles para ajudar.

O monitor cardíaco começou a desacelerar. Suas pálpebras começaram a ficar pesadas. Ele ouviu o homem de óculos escuros:

-Me dê o desfibrilador, ele está morrendo! - gritou a um dos assistentes

Ele começou a pensar consigo mesmo. "Não! Não posso avisar minha família sobre a figura que vi enquanto ia pra casa. O que ela fez comigo? O que ela faria com ELES?"

Ele ouviu o bipe se transformar num som contínuo. Viu um rosto cruel, frio e sombrio com olhos pretos grandes e profundas rugas verticais que mais pareciam fendas. Não havia boca alguma. Ele se lembrara do rosto daquilo que o deixou do jeito que estava. 

Ele fechou o olho.



29/12/2015

Os 1%

Nova série? Nova série!
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PARTE 2
PARTE 3




Dr. Allship ama seu emprego. Trabalha em um escritório muito limpo e branco. Todas suas recepcionistas são parecidas - mulheres brancas, loiras, com grandes seios e lábios rosados. Não há plantas ou outras coisas vivas lá. Nas paredes estão penduradas pinturas exóticas de mulheres em posições diversificadas. Há algumas luzes de teto que liberam um brilho rosado. O chão não tem uma mancha. Não há nada na porta da frente a não ser por uma pequena placa que diz "Dr. Allen Allship III, Cirurgião Plástico"

Dr. Allship não é um homem ruim. Ele sorri quando é apropriado. Ele gargalha quando é esperado que o faça. Ele tem uma família. Ele tem um cachorro. Ele é bom para ambos. Ele não fuma, não bebe, e não fala palavrões. Ele é um homem baixo, apenas 1,65m de altura e com cabelos grisalhos. Seu pai tinha sido um cirurgião, assim como seu avô. Eles compartilham a profissão, assim como o nome. E mais uma coisa. 

Os Allship sempre tiveram um aspecto peculiar em suas praticas. 

Dr. Allship, o atual e único Allen Allship vivo, executa procedimentos típicos. Lipoaspirações, face lifts, Botox - poderia fazer isso até dormindo. Esses fazem partes de 99% de sua clientela. Seus pacientes o veneram. Até fazem bons comentários sobre sua postura médica. Mas não é por isso que ele ama seu trabalho. 

Ele ama seu trabalho por causa do 1%. 

Seu pai dizia ser um chamado. É preciso fazer as pessoas ficarem extraordinárias. Fazê-las ficarem perfeitas. Seu avô costumava dizer que não sobreviveria com donas-de-casa gordas. Precisavam de pureza para se sobressair. Para serem os melhores. Para superar todas as expectativas. 

Os 1% são os pacientes especiais. Aqueles que nem sabem que são pacientes até serem submetidos a prática. Dr. Allship está trabalhando em um 1% em sua sala de operações. #1476. Ele está sozinho, a não ser pela paciente. Ele a encontrou implorando por mudanças perto da estação de trem. Era completamente nojenta. Seus braços eram cobertos de cicatrizes de picadas de agulha e seu cabelos estava caindo aos montes. Tinha duas unhas faltando. Seus dentes eram amarelados, quebrados e caídos. Estava sentada em seu próprio mijo, drogada demais para perceber que estava urinando. 

Era perfeita. 

Hoje ele está depilando os pés dela. Não os pelos, óbvio. Estavam tão detonados e com cicatrizes dela aplicar a droga entre os dedos do pé que era improvável que algum pelo sobrevivesse ali. Não, Dr. Allship está raspando a pele. A carne. Está modelando um tamanho 34 perfeito. Dr. Allship gosta de numerações estranhas. 

#1476 não pode se mover. Ela não está amarrada, mas recebeu uma dose pesada de medicamento paralisante. É uma técnica interessante porque, mesmo que não possa se mover, consegue sentir tudo que está acontecendo. O processo é parte da transformação, já dizia seu pai. 

Na verdade, ela estava em posição sentada, os olhos colados abertos. Dr. Allship gosta que seus 1% vejam a mágica acontecendo. #1476 tem sido uma ótima paciente até agora. Não gritou muito quando foi trazida ao consultório. Provavelmente achou que ele a pagaria por sexo. Ele, claro, jamais tocaria em uma paciente de maneira inapropriada. Segue um código de ética muito rigoroso. Mas agora ela não pode mais gritar, parte por causa da medicação paralisante, mas principalmente porque ele arrancou a parte debaixo de seu maxilar. O queixo estava muito apodrecido para ser salvo. A língua dela ficava caída pelo buraco de onde deveria estar o maxilar. Fazia um barulho muito feio quando a língua batia contra as bochechas, então Dr. Allship está usando fones de ouvido. Um calmo concerto de Bach ecoa em seus ouvidos enquanto tritura a pele calosa que um dia fora os pés dela. 

Está tudo indo muito bem. Os ossos estão se soltando com facilidade. O sangue sempre é um problema, mas ele já tem alguém para limpar a bagunça depois que terminar. A saliva dela também está sendo outro empecilho, pois está babando tudo que fica abaixo do (não existente) queixo. Mas Dr. Allship é muito paciente. Calmamente ele limpa a baba, posicionando a cabeça dela um pouco mais para trás. #1476 está sendo bem cooperativa. 


O telefone da sala de operações começa a tocar. Isso incomoda Dr. Allship, que não gosta de ser interrompido. Mas estava quase finalizando seu trabalho no pé esquerdo. Ele grampeia uma veia para prevenir hemorragias e pega o telefone. 


"Sim?"


Era uma das atendentes. Ela explica que há uma cliente na recepção exigindo ser atendida. 


"Nome?" Ele pergunta, breve. 


"Becky."


"Vinte minutos." Desliga o telefone. 


Becky é uma cliente. Tinha-o abordado alguns meses atrás sobre um procedimento um tanto singular. Ela queria raspar as cordas vocais para que sua voz soasse mais jovem. Quando questionada o quão jovem queria que sua voz parecesse, ela respondeu "Nove." Dr. Allship, sendo um profissional de respeito, cumpriu o pedido e fez a cirurgia. Foi um sucesso. 


Mas desde então ela tem o assediado repetidamente, pedindo procedimentos cada vez mais extremos. Primeiro, queria ter os seios removidos para parecer mais com o tórax de uma criança. Ele atendeu o pedido. Depois quis ter todos os pelos do seu corpo removidos. Ele atendeu o pedido novamente. Todas as vezes ela aparecia sem consulta marcada e exigia ser atendida imediatamente. Mas como era uma cliente muito fiel, ele permitiu esse comportamento. E na verdade, estava intrigado com a singularidade daquela mulher. 

Mas naquele momento ele estava coberto com o sangue da #1476. Está satisfeito com o formato do novo pé esquerdo dela, e cuidadosamente faz o curativo. Tinha feito planos de terminar os dois naquele dia, mas o pé direito podia esperar até amanhã. 

Ele retira suas vestes médicas e lava as mãos. Não gosta da bagunça que as cirurgias causam, mas é um mal necessário. Pega o telefone, uma de suas recepcionistas atende. 

"Sim?" Pergunta em uma voz doce. 

"#1455, por favor, venha buscar #1476 e a coloque de volta na gruta. Também preciso que #955 suba para limpar."

"Entendido."

Dr. Allship desliga o telefone vagarosamente. Não olha para trás enquanto sai da sala de operações. Ele fecha a porta branca. 

Autor: EZmisery


25/12/2015

O Experimento Psicológico Que Participei

Tenho 25 anos e por alguma razão nunca consegui me dar muito bem na vida. Meu currículo consiste em "bicos" atrás de "bicos". Mesmo que eu tenha uma formação. Não tenho vícios e não sou preguiçoso. Pra ajudar, tenho duas crianças que dependem de mim, que crio sozinho. 

Creio que esse é o resumo do porquê pulei de cabeça para participar em um experimento psicológico na BYU. Estavam oferecendo 500 dólares por um único dia de trabalho. Não era possível para mim deixar esse tipo de dinheiro fácil escorregar por entre meus dedos. Pela primeira vez poderia comprar presentes de Natal para minhas filhas que não iriam ser comprados de segunda-mão em brechós. 

Toda essa emoção e ansiedade foi o que me fez não ler direito o contrato que Dr. Phelps me alcançou para assinar. Desde aquele dia, li e reli o contrato diversas vezes, enjoado com as coisas que deixei passar em branco. 

Haviam cláusulas que permitiam que os pesquisadores tivessem acesso a documentos e registros privados dos participantes. Acho que foi assim que conseguiram tudo que precisavam de antemão. E havia outra cláusula que especificava que eles não seriam responsáveis por nenhum efeito colateral provocado pelo experimento. 

Mas ainda assim esqueceram de adicionar a cláusula de discrição, e essa é a razão de eu poder publicar e denunciar as condições inumanas que me fizeram passar. Não só eu, claro. Eles fizeram quatro de nós viver o inferno na terra. 

O campus da faculdade era perto da casa da babá, então fui caminhando. Estava por volta dos -5 gruas, mas nada podia me atingir. Não com a felicidade de que estaria com mais 500 dólares na minha carteira no final do dia. 

Fizeram nós nos espremer na minúscula sala de professores enquanto esperávamos para ser chamados. Tínhamos recebidos instruções de não conversarmos ou fazer qualquer tipo de comunicação uns com os outros durante a espera. 

A primeira foi uma mulher chamada Whitney, que recebeu uma venda e foi conduzida até o final de um corredor. O próximo foi um homem chamado Josh, que recebeu uma pilha de fichas e foi conduzido para a mesma direção, mas sem ser vendado. 

O próximo foi eu, vendado. Fiquei um pouco desconfortável no começo, mas o assistente que me conduzia tinha uma voz passiva e educada. Quando me mandou sentar, ouvi um espirro feminino ao meu lado. Supus que estivesse sentado ao lado de Whitney. Ouvi a última participante, a qual não sabia o nome, entrar e Dr. Phelps pigarreou. 

"Dois de vocês estão sentados e vendados e diante de vocês estão mais duas pessoas  de pé com fichas que contém instruções especificas. Vocês estão pareados por gênero: homem submisso, mulher dominante, e vice-versa; os sentados são os submissos, obviamente. Danos físicos não serão causados em vocês, obviamente."

Ouvi Whitney dar um suspiro de alívio. De repente me senti mais aliviado também. Mas ainda assim o silêncio e as vendas me deixavam tenso. 

Ouvi o som das fichas sendo mexidas e uma voz tremula quebrou o silêncio. Pertencia a um rapaz. 

"Whitney, seu irmão foi assassinado recentemente, certo? Tenho algumas-"

"Espere! Terrance, droga, temos que por o abafador de sons no outro," gritou Dr. Phelps. 

Ouvi uma certa movimentação pela sala, ouvi também palavrões e pedidos de desculpa e de repente enormes fones de ouvidos cobrindo minhas orelhas. Não consegui ouvir nada. 

Então fiquei lá sentado, pensando em Whitney e seu irmão falecido. Naturalmente, comecei a pensar em minha esposa, Jennifer, antes do fatal acidente de carro. Sempre tentava me lembrar dela com vida, mas nunca consigo me esquecer como estava em seus últimos momentos na cama do hospital, em coma, coberta de queimaduras de terceiro grau. 

Parecia que tinham passado horas até que meus fones fossem retirados dos meus ouvidos. Uma porta pesada tinha acabado de ser fechada com força e pude ouvir através das  uma mulher chorando e gritando com alguém, arrastar de pés no chão de madeira e gritos esgotados para que deixassem ela ir embora. 

Pelo silêncio ao meu lado, pude pressupor que tinha "convidado" Whitney a se retirar, se é que você me entende. Mas por que ela estava chorando e gritando tanto? Eu só sabia uma pequena parte de que tinha algo a ver com seu irmão falecido. 

"... Era de se esperar," pude ouvir o professor falando para alguém. "Eles leram o contrato". 

"Mesmo assim, senhor," uma outra voz respondeu rapidamente. "Isso foi... cruel."

O Dr. pigarreou mais uma vez, cortando o assistente, e falou em alto e bom som: "Pode continuar, Lilly." 

Ainda podia ouvir os gritos lá fora, se distanciando cada vez mais. Isso fez com que um sentimento de pavor acordasse em mim, como se fosse uma doença e pensei em arrancar a venda naquele momento. Pensei em exigir saber o que acontecera com Whitney. Pensei em questionar todo o experimento, mas então lembrei das minhas meninas. Me lembrei que estava ali por elas. 

"Eu... sinto muito" sussurrou a outra participante, Lilly. Pelo som de sua voz, parecia estar a poucos metros de mim, na minha frente. "Sinto muito". 

"Leia as fichas, Lilly", brandou Dr. Phelps. "Não diga mais nada, por favor". 

"Meu nome é Lilly Briscoe e conheci sua mulher antes de assassiná-la" 

Mesmo sabendo que estava lendo, aquela frase fez com que os pelos da minha nuca se arrepiassem. Jennifer não tinha sido assassinada. Tinha sido algo repentino, um acidente seguido de fuga, certo? Tentei me convencer que aquilo fazia parte do experimento, mas quanto mais Lilly lia, mais convincente ficava que tudo aquilo que dizia era verdade. 

"Sua esposa e eu estudávamos juntas aqui na BYU. Estudei com você também." ela continuou "Provavelmente não se lembra de mim, mas eu sentava no fundo de uma das aulas que você frequentava. Sou a garota que você chamou de idiota na frente de todo mundo porque achei que a Austrália ainda fazia parte da Inglaterra." 

Lembro disso! Mas não o nome dela. Não conseguia nem lembrar do rosto da garota. Será que era ela mesmo?

"Eu tinha mais aulas com Jennifer, então começamos a ter o mesmo circulo de amizade. Me lembro de você sempre ser anti-social, então nunca estava junto. Mas sua esposa só continuou o seu legado. Sempre achava maneiras de me fazer parecer uma idiota. Uma vez eu e ela tivemos que ir fazer xixi na mesma hora em uma festa que tinha apenas um banheiro. Ela entrou na minha frente, trancou a porta e ficou mais de uma hora falando com você no telefone enquanto eu esperava. E não pude esperar mais. Mijei nas calças e todo mundo viu". 

Lilly não parecia mais estar lendo as fichas. Quanto mais falava, mais pessoal seu tom de voz ficava. Estava começando a parecer que aquela mulher maldita tinha realmente assassinado minha esposa. 

"Me perdoe", sussurrou novamente. 

"Lilly," o professor proferiu. 

"Quatro meses atrás," ela falou, mais baixo do que a última vez. Sua voz ficava cada vez mais baixa. Continuou. 

"Quatro meses atrás alguém bateu com o carro no da sua mulher e fugiu do acidente. Eu estava bebendo em um bar próximo naquela noite. Me lembro de como cambaleei para lá e para cá até meu carro. Que estava confusa, visão duplicada. Estava bêbada, mas não bêbada demais, tanto que notei o carro de Jennifer parado no sinal vermelho. Lá estava.. aquela... Aquela vadia. 
Ela começou a virar para a direita e acelerei, disparando em direção dela. Não sei o que tomou conta de mim, fiquei possuída. Meu carro tinha se tornado uma extensão da raiva que desenvolvi por ela, então acelerei o máximo que pude e me preparei para o impacto. Eu vi a cabeça dela bater contra o vidro com uma explosão de sangue. 
Demorei poucos segundos para me recuperar, mas meu carro ainda estava funcionando. Eu poderia ter feito algo. Poderia ter aberto a porta do motorista, tirado ela de lá, mas..."

Lilly fez uma pausa e falou com outra pessoa, alguém que estava ao lado dela. "Não consigo. Meu Deus do céu, por que estão me fazendo fazer isso? Olhe para ele. Eu..."

"Você não receberá o dinheiro se não terminar, Lilly" vociferou Dr. Phelps. 

"Eu vi que o carro estava pegando fogo!" Lilly gritou, vomitando as palavras como se fossem veneno na sua boca. 

Pude sentir a determinação dela terminar o experimento, porém misturada com a relutância de articular as palavras. Estava claramente em conflito, mas algo fez-a continuar. Ela estava finalmente se confessando? Por isso era tão difícil? 

"E então fiquei lá" falou rapidamente, tropeçando nas palavras. "Olhei pela rua, tendo certeza que não haveriam testemunhas enquanto eu mantinha a porta fechada com meu carro. O fogo se espalhou no interior. Mesmo que ela empurrasse e empurrasse a porta para sair, não movi meu carro nenhum centímetro. Continuei bloqueando a única saída dela."

Algo começou a ferver dentro de mim. Eu não me sentia mais em um experimento psicológico. Eu não estava em lugar nenhum a não ser em minha própria fúria. Podia ver tudo o que ela descrevia acontecendo diante de meus olhos. Era como se eu estivesse lá na rua, na noite, sentado ao lado de Lilly vendo minha mulher queimar até a morte. 

"E os gritos de socorro de Jennifer eram como música para meus ouvidos!" Lilly berrou, como se lutasse contra sua própria vontade. "E olhei para ela, diretamente em seus olhos... Seus olhos se arregalavam quando me reconheceu e eu... e..." Lilly estava se engasgando com as próprias lágrimas, quase sem conseguir continuar. "E eu ri do medo dela. Da vida dela em minhas mãos. Aquela... vadia efêmera... Então vi um carro se aproximando e dei ré e fugi antes que alguém pudesse me ver. Mas fiquei sabendo que ela sofreu pra caralho antes de desistir e deixar você sozinho com duas crianças." 

Ouvi as fichas caindo no chão, e antes mesmo que pudesse perceber, eu já estava de pé. Em apenas um movimento e arranquei a venda e coloquei minhas mãos envolta daquele pescoço magro. A raiva era tanta que demorou alguns segundos para que conseguisse enxergar alguma coisa. Então vi. Não havia medo nos olhos dela. Não havia malicia, não havia ódio. Só consegui ver tristeza dentro daqueles profundos olhos azuis. 

Então a soltei, antes mesmo do assistente botar as mãos em mim. Tentei falar, mas nenhum som saiu. Ficamos parados, em silencio. 

"Você não a matou," falei, por fim. "Maldito experimento". 

Achei que descobrir aquilo iria me relaxar, mas não. Aquele ácido continuava a corroer meu estomago enquanto eles escoltavam Lilly para fora da sala, ela tremendo e chorando. O professor esperou um pouco até se aproximar de mim com um envelope. 

"Bem, você arruinou o experimento," ele disse. "Pelo contrato, eu não deveria te pagar. Você tinha que continuar com a venda e responder perguntas sobre quais processos legais e sentenças a assassina da sua esposa deveria ter recebido... Mas acho que nós todos sabemos muito bem o que você teria dito. 

"Pena de morte," falei vagamente. 

Minha mente ainda girava, então demorei uns segundos para lembrar do experimento. Ainda estava com aquela sensação violenta de que minha esposa tinha realmente sido assassinada, e não que tinha sido um acidente seguido de fuga. Era incrível como uma dor que eu já sentia podia ser aumentada em níveis que eu nem sabia ser possível. 

Dr Phelps me deu o cheque e me escoltou até a rua. 

"Sabe, essa é um dos erros fundamentais no nosso sistema judicial. Quando você deixa que os familiares do falecido ouçam o que aconteceu de primeira mão ou que ouçam a voz do assassino, todos declaram a pena de morte. Ou continuam lutando por anos a fio para que estes não fiquem livres."

Pensei nisso enquanto voltava para a casa da babá, pelo frio absoluto. Mas eu não via aquilo como um erro. Talvez não seja certo sentenciar alguém de morte, mas com certeza eu o faria se estivesse ouvido Lilly no julgamento. Porra, eu teria a matado com minhas próprias mãos. 

Esse dia me atormenta tanto quanto o dia que Jennifer morreu, mas mal posso esperar para ver o sorriso no rosto das minhas filhas enquanto rasgam o papel de presente sentadas perto da árvore de natal. Apesar dessas imagens assustadoras e depressivas que continuam a aparecer na minha mente, uma coisa eu sei: Nesse Natal minhas filhas iram receber muitos presentes. 



Autor: The_Real_Mugen 



23/12/2015

Sua Nova Amiga

Uma vez encontrei um um brinquedinho no meio de uma estrada. Era uma boneca, daquele tipo que parece um recém-nascido. Olhos arregalados, cílios enormes, a  tinta rosada que lembrava vagamente a cor da pele humana estava descascando do plástico no rosto. Não sei o que foi que me atraiu atenção, mas achei estranho que estava sentada direitinha, com o vestido sujo, deixada pra trás para ser amassada pelos carros. Um brinquedo que certamente um dia significou muito para uma criança. 

Pegando-a, seus membros ficaram pendendo como os de um boneco de ventríloquo sem ventríloquo, grudados por um fio de linha em seu corpo de algodão. Então ouvi um barulho, algo dentro da boneca. Chacoalhando-a, percebi que vinha da cabeça, atrás dos olhos, algo que se deslocava e batia contra o plástico.

Não vi ninguém na rua, então sem pensar rasguei a boneca, quebrando a cabeça, arrancando-a do apoio dos ombros. Espiando pelo buraco da cabeça agora decapitada, pude ver o que provocava o barulho. Um dente, provavelmente humano, que escorregou da cabeça para minha mão.

"Ela era minha amiga" Ouvi uma voz.

Olhando para frente, vi uma menininha perto de mim, apontando para a boneca quebrada em minha mão.

"Ela não vai ficar nada feliz com você" Ela falou, nervosamente.

"Como assim?" Perguntei.

"Você ficaria feliz se alguém arrancasse fora sua cabeça?"

"É só uma boneca" Falei, empurrando a cabeça de volta contra os ombros. " Posso arrumá-la para você, se quiser."

"Não, não gosto de brincar com ela."

A menina então começou a andar, passando por mim, indo pela rua. Eu olhei para a boneca em minhas mãos, os olhos vagos, comecei a me sentir estranhamente nervoso.

"Por que você não gosta dela?" Falei alto.

Em resposta, a menina parou, se virou para mim antes de responder: "Porque ela gosta de roubar várias coisas". Foi então que ela sorriu, revelando um sorriso desdentado. "Agora ela é sua amiga".  E assim a garota desapareceu entre os arbustos próximos.


Autor: Michael Whitehouse


22/12/2015

Compilação de Falhas no Matrix 2


Uma falha no Matrix é uma experiência que prova que há algo de errado no mundo ou em algum “lugar” do seu cérebro.  Aqui está um compilado de pequenas histórias ditas reais.
Fiz essa compilação baseadas em postagens feitas no Reddit. Todas histórias postadas aqui foram escritas e postadas por usuários reais que juram a veracidade do que relatam.  Essa compilação foi feita e traduzida exclusivamente pelo CPBr. 



  • PASSEIO DE CARRO
Enviado pelo usuário Elnendil

Em uma noite tive um sonho no qual estava no carro com minha irmã perto de uma igreja que costumávamos frequentar. Por algum motivo o carro começou a se descontrolar, então pulei no volante e tentei salvar a gente da morte.
Mais tarde naquele dia eu contei para ela do sonho, e ela falou que teve o mesmo sonho, com a igreja e tudo mais, só que no dela era ela no volante, não eu.



  • FLORES PARA O IRMÃO
Enviado pelo usuário your_a_moron

Eu estava pegando um aeromóvel em uma cidade que ficava a uns 15 minutos de onde eu iria descer. Enquanto esperava, havia uma mulher com olhos vidrados pedindo dinheiro na plataforma. Ela veio até mim, fez uma pausa e perguntou "Com licença, você tem um trocado? Meu irmão está no hospital e gostaria de comprar algumas flores para ele".
Impressionante, pensei. Viciados estão cada vezes mais criativos (e óbvios) para conseguir grana e comprar drogas. Mesmo tendo certeza que aquilo era mentira, dei a ela 5 dólares sem nem olhá-la nos olhos, convicto de que aquele dinheiro não era para flor nenhuma.
De qualquer forma, meu aeromóvel chega e eu entro nele. Pela janela eu a vejo na estação pedindo dinheiro para outras pessoas enquanto o trem começa a entrar em movimento.
O aeromóvel chegou a outra estação 15 minutos depois, e andei até a parada de ônibus. Tinha apenas um ônibus estacionado e, que sorte a minha! Era destinado para aonde eu precisava ir. Então entro no ônibus e me sento em um dos bancos do meio, esperando o motorista terminar de ler seu jornal para dar a partida e irmos para a rodovia. Depois de 5-10 minutos de viagem, o motorista fez uma parada de rotina. A porta se abriu e, para minha surpresa absoluta, a mulher que estava pedindo dinheiro na estação entra no ônibus. Uma dúzia de rosas nos braços. Ela me olha no fundo dos olhos enquanto passava por mim para se sentar nos bancos do fundo. 
Mas como ela chegou ali? Peguei o trem antes que ela. Eu a vi na estação de dentro do vagão enquanto partia. Atravessamos um rio de aeromóvel. Peguei o primeiro e único ônibus que ia naquela direção. E não somente chegou antes de mim como teve tempo de ir a uma loja e comprar flores. 
Até hoje não faço ideia de como isso aconteceu. 



  • FRANCÊS FLUENTE

Enviado pelo usuário Nobody-

Eu estava em Paris, em uma véspera de Natal, fazendo um excursão da Contiki e estava em uma boate, totalmente bêbado e entrei em um táxi com uma garota que também estava na excursão. Na manhã seguinte ela disse que ficou impressionada com meu Francês fluente. Eu ri e falei que não sabia nem contar em francês, mas ela disse que eu tive uma conversa de quase 30 minutos em Francês fluente com o taxista. Fiquei totalmente sem reação e até hoje ela jura de pé junto que aquilo realmente aconteceu. 



  • O NOVO INQUILINO

Envviado pelo usuário way_fairer

Isso aconteceu quando eu estava na faculdade. Esta dirigindo em uma estrada dentro de uma reserva indigna no norte de Wisconsin. Havia um homem no acostamento, meio que mancando, então estacionei e perguntei se ele estava bem. Ele disse que sim, estava bem; só tinha que ir para casa pois sua mulher havia decidido que ainda o amava. Tinham brigado. Perguntei onde ele morava e surpreendentemente era na mesma cidade onde eu fazia faculdade (mais ou menos duas horas dali). Ofereci uma carona. Ele não falava muito, parecia cansado. Quando chegamos na cidade, foi me dando as direções.
"Um pouco mais para lá, estamos perto" ele disse "vire a esquerda nesse semáforo."
"Okay" eu disse.
"Bem aqui,"  disse, apontando "Depois deste caminhão branco."
"Aqui?" estacionei na frente.
"Sim."
"Você só pode estar de brincadeira," falei.
"Que foi?" Disse, sorrindo, como se soubesse o que eu ia dizer a seguir.
"Eu morava aqui," contei.
"Não me diga!"
"Sim, no andar de cima, apartamento três."
"Ah, esse é o meu apartamento!" Agora sorria de orelha a orelha. "Que mundo pequeno."
Me agradeceu pela carona, saiu do carro e entrou pela porta da frente no meu antigo prédio. Sei que pode ser apenas uma coincidência, mas foi um dos momentos mais estranhos da minha vida.



  • PEDIDOS TROCADOS
Enviado pelo usuário HadesSmiles

Eu e uma amiga estávamos em um restaurante em comida oriental e pedimos um prato de frango e outro de camarão. Quando nos sentamos com as caixinhas na mesa, ela abriu a primeira caixa e vimos que era o de camarão. Tinha tudo lá, macarrão, camarão e arroz frito. Ela fechou a primeira caixa e abriu a segunda. Também era de camarão. Sim, macarrão, camarão e arroz frito.
“Ah,” pensei “eles devem ter nos dado um dos pedidos errado.” Quando eu ia falar, minha amiga falou “parece que eles nos deram dois iguais por engano...” e abriu a primeira caixa novamente. Mas desta vez havia o pedido de frango lá. Frango, arroz branco e rolinhos de ovos. Ela congelou e me olhou, eu olhei para ele e ficamos em silêncio. Demorou uns cinco minutos para conseguirmos nos recompor. Até hoje não sabemos o que aconteceu.



  • SONHO SUICIDA

Enviado pelo usuário VvrAase

Em uma manhã, quando eu tinha quinze anos, meu pai parecia cansado e estressado. Perguntei o que tinha acontecido e e contou que tinha tido um sonho muito realístico no qual eu cometia suicídio. Disse que no sonho ele ia até meu quarto e me encontrava enforcado dentro do armário. Ele ficou tão incomodado que se levantou no meio da noite e foi ver se estava tudo bem enquanto eu dormia.
Nada demais, não é?
Até que vinte minutos depois minha irmã vem até meu quarto, tinha acabado de acordar. Ela me olha no fundo dos olhos e a primeira coisa que diz é "caramba, vvrase, tive um sonho muito estranho. Eu vinha até seu quarto e você tinha dado um tiro na própria cabeça. Foi bem tenso."
Falei para ela que nosso pai também tinha sonhado comigo cometendo suicídio na mesma noite. Ficamos lá em silêncio, sem saber o que falar. Nunca tive pensamentos suicidas e isso tudo deixou a minha família preocupada por um tempo. 




  • JAMAIS VU

Enviado pelo usuário TraceBot9000

Já tive diversos déjà vu's quando era mais nova, e mesmo que isso seja um pouco assustador, não se compara nem de perto ao oposto, jamais vu, a qual experienciei duas vezes durante um período de estresse no trabalho a alguns anos atrás. 
Em ambas ocasiões eu estava dirigindo no meu carro, dentro do meu bairro, indo para o trabalho, quando de repente, não sabia aonde eu estava indo ou aonde estava. Era como se eu tivesse me teletransportado para um país estrangeiro. 
Durou apenas alguns segundos, mas fiquei totalmente apavorada. Antes de acontecer comigo, não fazia nem ideia que isso existia.



  • 15% DIFERENTE
Enviando pelo usuário Hedgerow_Snuffler

Uma vez tive uma conversa com um ex-colega de trabalho que me fez duvidar da existência da realidade.
Não me lembro detalhadamente, mas disse que um dia ele estava em casa e teve uma necessidade absurda de ir até seu jardim. Diz ter sido uma das sensações mais fortes de sua vida, e quando pisou os pés na grama sentiu um "balançar", como se tudo estivesse ao contrário por alguns segundos, e sentiu uma espécie de distanciamento ou sensação de estar fora seu corpo. Quando passou a sensação, voltou para dentro de casa.
Enquanto conversava comigo, pareceu ficar muito chateado, pedindo para que eu não pensasse que  fosse louco, mas disse que a próxima coisa que viu foi um carro estacionado na sua garagem. Era o mesmo modelo, mesma placa, mas a cor era diferente. Ficou muito confuso e depois não melhorou pois sua mulher apareceu e perguntou o que estava fazendo, e ele percebeu: "Ela parecia fisicamente com minha esposa, mas de algum jeito não era ela." Disse que ela agora gostava de comidas que um dia disse odiar, e as vezes falava de memórias que ele não recordava de jeito nenhum. Como se nunca tivesse feito as coisas que ela dizia se lembrar.
Falou que o caminho para o seu trabalho era o mesmo, mas de certa forma não era. Havia prédios no caminho que nunca tinha visto nos últimos seis anos. Como se tivesse aparecido da noite pro dia. Ele contou que até alguns colegas de trabalho que ele lembrava tinham desaparecido, e quando perguntava sobre essas pessoas os outros simplesmente diziam que nunca haviam conhecido fulano ou ciclano.
Ele era um cara completamente normal e saudável. Sua vida agora é dividida entre o agora e o antes do "acontecimento". Diz que vive com a sensação que 15% da sua vida mudou naquela tarde. 



  • PREMONIÇÃO

Enviado pelo usuário donpapillon

Estava voltando para casa com meu pai, mas antes demos uma passada em um Drive Thru. Comecei a me sentir ansiosa sem nenhuma razão aparente, ao ponto que fiquei tonta e enjoada. Tivemos que esperar um pouco mais que o esperado pois tinham entregado o pedido errado. Fiquei ali sentada, me sentindo uma merda, e do nada senti uma necessidade absurda de ligar para me irmão.
Na tela do meu celular estava uma chamada perdida dele. Tinha sofrido um acidente de carro. Ninguém morreu, alguns ficaram com hematomas sérios, mas ele só tinha ficado abalado. Enquanto falava no telefone mandei ele ficar calmo e se afastar o máximo que pudesse do carro. Ele não entendeu muito bem o  por quê daquela instrução, mas se afastou. Conseguiu fazer com que os amigos com quem estava se afastassem também. Consegui ouvir conversando com os outros pelo telefone e logo depois uma explosão e pessoas gritando.
Depois que toda confusão se acalmou meu irmão me contou o que aconteceu. Seu amigo bêbado tentou impressionar algumas meninas que estavam no carro, acelerou com tudo, mas a parte de baixo do carro bateu em uma pedra, que fez com que todo o mecanismo ficasse um desgraça. Depois do acidente ainda ficaram perto do carro, o motorista ainda tentando fazer funcionar. Chamas começaram a sair pelo capô e o carro começou a queimar rapidamente. O motorista se machucou bastante, teve queimaduras sérias também. Algumas pessoas que estavam perto se machucaram, mas não tanto quanto o motorista. Meu irmão foi o único que saiu apenas com alguns poucos hematomas. Me disse que quando pedi para que ele se afastasse do carro, estava a centímetros do capô do carro.
Nunca tinha sentido nada como aquilo antes, só essa vez. E na minha cabeça nem parece uma memória concreta, e sim algo que vi em um filme. Mas que aconteceu, aconteceu. 



  • PREMONIÇÃO 2
Enviado pelo usuário Tog_the_destroyer 

Eu estava no carro com meu pai quando ouvi distintamente a voz da minha irmã (que estava em casa) dizendo "Vocês já estão chegando? Estou com medo" com uma voz muito preocupada. Dois segundos depois, o telefone do meu pai toca. Peguei para atender, já que ele estava dirigindo. Adivinha quem estava na linha? Minha irmã. Ela disse "Vocês já estão chegando? Estou com medo" no mesmo tom de voz. Fiquei apavorado. 



(Se gostou e quiser mais uma parte de compilações de falha no Matrix, deixe seu comentário abaixo!) 


20/12/2015

Ubloo - Parte 1

Achei essa história no creepyasta.com

Em uma vida passada eu era um psiquiatra. Bem, deixe me reescrever essa frase. Antes da minha vida cair aos pedaços, eu era um psiquiatra, e um dos bons. É difícil dizer o que faz um psiquiatra ser “bom” e o que eles fazem, mas eu comecei em meu campo cedo, tive grandes experiências em meus poucos anos de negócio e não muito antes disso eu tinha mais clientes que eu podia aguentar. Não estou dizendo que alguém iria entrar no meu escritório pensando em se suicidar, fazer uma consulta completa em um dia e tudo ia acabar bem, mas meus clientes confiavam em mim e eu sentia que eu os ajudava verdadeiramente, então eu fiquei muito recomendado, enquanto minha fama ia crescendo. Dito isso, eu era como um “tarja preta” dos pacientes.

Não estou certo de como a família Jennings me encontrou, mas eu presumi que eles foram direcionados a mim pelo psiquiatra anterior, como acontece às vezes. Alguém que você é incapaz de ajudar por seja lá qual o motivo entra pela porta, então você faz algumas recomendações. Um dia eu recebi uma chamada da Senhora Gloria Jennings, uma proprietária imobiliária muito rica que queria que eu trabalhasse com seu filho, Andrew. Aparentemente, Andrew havia desgastado todos os últimos psiquiatras do estado e eu era essencialmente a última opção deles. Andrew era um típico usuário de drogas, seu veneno de escolha era a heroína, e como todos no meu campo podem dizer, essas pessoas eram uma enxaqueca para enfrentar. Se eles não estão limpos e dispersos então eles estão chapados e sem fazer sentido algum. Eu não o aceitaria como paciente, mas a Senhora Jennings me ofereceu mais que o dobro da minha taxa comum, logo eu não podia dizer não. Foi a pior decisão já feita.

Conheci o Andrew cedo numa manhã de segunda. Pela experiência, é mais fácil de conhecer esses tipinhos antes deles terem a chance de se drogar. Melhor cenário para o caso, é quando eles nem mesmo aparecem e você tem uma hora livre, mas Andrew estava quinze minutos adiantado. Ele certamente parecia como um viciado em heroína. Covas escuras em baixo dos seus olhos verdes, cabelo desgrenhado, uma barba rala crescendo em seu rosto. Ele parecia estar em seus vinte anos. Ele era alto e inexplicavelmente magro, e vestia roupas comuns e folgadas que só acentuavam sua silhueta fina. Eu o recebi em meu escritório e o ofereci um assento. Ele se sentou e começou a esfregar suas mãos juntas e a explorar seu escritório com seus olhos em uma velocidade alvejante.
Para minha própria privacidade, me referirei como “Doutor A.”

“Então, Andrew. ” Comecei. “Eu sou o Doutor A. Por que você não me conta mais sobre você? ”

Pela primeira vez ele fez contato visual. Ele hesitou por um momento e então disse:

“Olha, essa deve ser a oitava ou nona vez que eu comecei do zero, então eu vou direto ao assunto. Minha mãe provavelmente te disse que eu sou um usuário de drogas e eu sou. Eu uso heroína e cocaína se eu conseguir ter acesso a isso. “

Abri minha boca para perguntar se ele já usou as duas ao mesmo tempo, para explicar o perigo da combinação, mas ele me pegou em cheio.

“Não, eu sempre uso elas separadamente. Não sou um idiota. “ Ele disse.

“Eu não acho que você é um idiota. “ Eu menti. “Eu já vi um monte de usuários no meu dia-a-dia. 
Confie em mim. ” Andrew não parou de me encarar. Eu me movimentei inconfortável no meu assento e fiz a próxima pergunta óbvia. “O que você usa? ”

“Bem, nas noites que eu não quero ir dormir eu uso cocaína, e nas noites que eu não quero sonhar, eu uso heroína. “ Enquanto ele dizia isso ele jogou o olhar para o chão, ainda esfregando as mãos.

“Desculpa, nas noites que você não quer dormir você usa cocaína? “ Eu perguntei, só para me deixar certo que ele disse isso mesmo.

“Isso mesmo, Doutor. “ Ele disse, ainda não olhando para o chão.

“E por que você não quer dormir, Andrew? “

“Por que, eu não quero ver Ubloo. “ Ele respondeu jogando seu olhar para mim, e registrando minha reação à palavra.

“Me desculpe, quem é Ubloo? “ (Pronunciado “U-Blu”) Perguntei curiosamente.

Andrew suspirou. “Ubloo é um monstro que eu vejo às vezes em meus sonhos, que os controla. ”

“E como esse, “Ubloo” controla seus sonhos Andrew? “

“Bem, eu não sei se o nome dele é mesmo Ubloo ou se é como aquela porra é chamada, mas é tudo que ele sempre diz. E eu sei que ele controla meus sonhos pois a merda que acontece nos meus sonhos, acontece quando ele está lá e ninguém nunca iria sonhar. ” Ele disse para mim, com suas mãos desabraçadas e debruçadas lado a lado.

Estava começando a ficar interessante, e eu decidi ir um pouco mais fundo pela toca do coelho e perguntei a questão torturante; “E que tipos de coisas você têm sonhado? “

“Olha, eu não sou louco. Não é como eu fosse numa grande bebedeira e sonhasse com essa coisa fodida. Eu era um atleta e eu estava num passo de me graduar Valedictoriano antes dessa coisa começar a zoar comigo. “ Ele estava ficando visivelmente nervoso.

 “Não acho que você é louco. “ Menti novamente. “Se eu achasse eu teria desistido e diria para você ir embora. Sou um psiquiatra, Andrew. Eu reconheço um louco quando eu o vejo. ” Isso pareceu o acalmar só por um pouco. “Mas você deve entender que eu preciso saber de tudo antes de fazer um diagnóstico de como te ajudar, então eu vou perguntar novamente; que tipo de coisas você têm sonhado? ”

 Eu o vi se desenredar e eu sabia que eu o havia conquistado. “Coisas terríveis. “ Ele disse. “Pessoas e coisas que eu amo, e então só as piores e imagináveis coisas acontecendo a eles. ” Ele estava encarando o chão novamente.

“Que tipo de coisas, Andrew? “

 “Uma vez...” Ele engoliu seco. “Uma vez eu sonhei que eu estava preso numa jaula, num porão que eu nunca havia visto antes, e tinha três homens mascarados estuprando e batendo em minha mãe. ”
Isso me intrigou, então eu recuei e ele percebeu. Eu estava o perdendo. “Continue Andrew. ” Eu disse confortavelmente, mascarando meu choque e intriga.

“Ela estava me chamando, e eu estava chorando, e toda vez que ela chorava por mim ou chorava por ajuda, um homem batia nela, e não importava o quão mal ela parecia, ela continuava me chamando, e eles continuavam batendo nela e a violando. “

 Agora eu vou parar aqui e dizer que pessoas normais não sonham com essas coisas. Sonhos como esse são aro até mesmo entre os mais severos psicopatas, e agora eu estava começando a entender como Andrew tinha ido em tantos psiquiatras em tão poucos anos. Ou ele era uma fusão dos psicopatas mais criminosos da história, ou ele tinha um novo problema de sono ainda não visto em meu campo. Os prós de diagnosticar um novo problema eram enormemente superados pelos contras de um garoto que poderia potencialmente fazer Ted Bundy parecer um ladrão de bolsa.

Eu já estava abalado, mas tratei de me manter firme. Nessas situações, o mais importante é não se perder nos detalhes e resolver todos os fatos primeiro. “Como você sabe que Ubloo estava atrás desse sonho? “ Eu o perguntei.

“Por quê no final dos sonhos, eu sempre ouço ele fazer aquele barulho horrível; ‘U-blu! ’” Ele encenou, com um grunhido agudo como o som que um animalzinho faria.

“E você sempre escuta esse barulho? É assim que você sabe que ele ‘controlou’ seu sonho? “
“Eu sempre o escuto, mas algumas vezes eu o vejo também, mas apenas por um segundo, e então eu acordo. “

“Eu compreendo. Você consegue desenhar o Ubloo para mim, Andrew? “ Eu o passei um caderninho e uma caneta. Ele parecia confuso de primeira, provavelmente porquê eu estava acreditando em cada palavra e começou a rascunhar. Olhei pelo relógio, vinte minutos haviam se passado, nada mal, pois o lado de fora da janela mostra um tom claro de azul. Eu ouvi a caneta bater a mesa e o caderninho ser deslizado até mim. Eu olhei para baixo para o caderno e sufoquei meu coração fazendo o pular de volta para baixo no meu peito.

A coisa tinha um longo e balançante focinho, quase como uma tromba dos elefantes com uma língua pendurada para fora. Seu rosto era desprovido de recursos, além de dois grandes olhos ovais verticais que eram completamente pretos. Ele tinha seis membros e um torso longo e delgado. Ele estava curvado para baixo, as costas e joelhos médias eram apenas um pouco acima do seu corpo, ele poderia, obviamente, tornar-se muito alto se for necessário. Os pés eram circulares com seis apêndices que vazam para fora, em todas as direções, todos equidistante dos outros. As duas primeiras pernas eram consideravelmente mais longas, e tinha apenas dois dedos extremamente longos em cada mão, tanto na parte superior da sua mão e na mesma direção. 

Era estranho de olhar. Ele não tinha características claramente perigosas; sem garras, sem dentes. 

Ainda assim eu não podia ajudar, mas senti um frio na espinha quando eu examinei.

Saí do meu estado de transe e olhei de volta para o Andrew, que estava me encarando e esperando apreensivamente. Acho que tenho meu diagnóstico. “Bem Andrew, eu acho que sei o que está acontecendo. ”

Ele não parecia muito aliviado. “Oh? “ Ele disse monotonamente

 “Sim, eu acho que o que está acontecendo aqui é que você está tendo um so-. “

“Sonho Lúcido. Sim, eu também pensei nisso. “ Ele interrompeu. Eu assistia isso tudo chocado. “Você acha que eu tive algum pesadelo traumático com essa coisa e agora quando eu tenho sonhos lúcidos eu subconscientemente o insiro na minha mente, que engatilha um cenário traumático para jogar fora antes d’eu acordar.

Raramente em meus dez anos de prática, eu havia ficado sem fala, e eu estava sentado ali, boquiaberto. Andrew me encarou e eu o observei dar um sorrisinho bobo.

“Eu te disse, Doutor A, eu não sou um idiota. Eu olhei para tudo isso quando começou a acontecer. Esse é o motivo pelo qual eu comecei a usar. Eu aprendi que opioides podem parar sonhos lúcidos e no início eles param, mas eventualmente ele continua cavando seu caminho. E quanto mais eu os uso, mais forte ele luta para continuar voltando. Então eu usei a cocaína para me deixar acordado, mas eu vi que ela só piora as coisas. Eu ficava acordado por muito tempo, e comecei a sofrer de micro sono. Eu não sabia se eu estava acordado ou dormindo, e ele deve ter percebido isso. Para você ver, quando eu comecei eu podia dizer que era apenas um sonho. Todos os opioides têm um efeito nebuloso na minha compreensão, mas quando eu entrava em micro sono, os sonhos eram incrivelmente vívidos. Ele percebeu, Doutor A, ele percebeu que eu tinha mais medo dos sonhos em estado de micro sono e ele de alguma forma fez cada sonho bem claro, desde então.

Eu honestamente não sabia o que dizer. Nem se Andrew era completamente louco, ou tão inteligente que ele estava incubando sua própria insanidade. Eu fiz a pergunta que eu tinha guardado.
“Quando foi o seu primeiro sonho com Ubloo? “

“Foi bem após a morte do meu pai. ” Ele disse, com o olhar voltado para o chão. Ele se matou, enfiou uma bala na sua cabeça quando eu tinha dezessete. A noite após o funeral eu sonhei que eu estava parado em frente ao seu túmulo, olhando para a grama. Estava tudo normal por um momento, mas aí eu ouvi ele. Eu ouvi ele gritando do chão, gritando por ajuda, pedindo para o desenterra-lo, mas eu não podia me mover. Eu estava congelado. Eu fiquei ali parado e ouvi a ele bater em seu caixão tão forte que o chão estava pulsando e eu o ouvi gritando de medo, mas eu não podia me mover, e então eu ouvi isso, “Ubloo’, e eu acordei. “

 Eu fiquei sentado ali encarando ele por um longo tempo. Enquanto sua descrição de sonho lúcido ter sido impressionante, não é incomum para as crianças ligarem um evento traumático à fim de entender melhor o que está acontecendo. Eu estava começando a ganhar meu deslocamento de volta.

“Quando foi a primeira vez que você viu Ubloo? ” Ele hesitou por meio segundo e então ele começou a falar.

“Uma vez eu sonhei com meu cão, Buster. Eu estava parado atrás de sua grande cerca, e eu era só uma criança, então eu não conseguiria subir. Buster estava do outro lado de uma autoestrada movimentada, sentado, olhando para mim, e eu sabia -de algum modo eu sabia- que ele iria tentar atravessar para vir me ver, e eu também sabia que eu não faria isso. Ele correu para autoestrada e foi atingido por um carro instantaneamente. Eu gritei e chorei, mas o carro não parou, só continuou correndo. Buster estava deitado ali, quebrado e sangrando. Eu vi ele tentando se levantar, e tentando seguir em frente, e outro carro veio acelerando e o atingiu novamente. Eu continuei vendo ele sendo atingido e virar picadinho pelos carros, mas eles nunca paravam. Essa foi a primeira vez que eu o vi.

Eu ouvi ele bem na minha orelha, ‘Ubloo! ’ E então eu me virei e a cara dele estava a uma polegada da minha, seus grandes olhos negros me encarando, então eu acordei. “

Ele estava tremendo agora, e eu podia dizer que ele estava perto de colapsar. Eu tive que o parar, o empurrando.

“Certo Andrew, eu acho que é um bom momento para parar por hoje. “ Eu me levantei e caminhei até minha mesa e peguei um caderno de prescrições.

 Andrew se sentou ali e piscou para mim. “Você vai... Você vai me dar algo para parar isso? ”
“Por enquanto eu vou te dar algo para suprimir seus sonhos. Até eu poder diagnosticar de onde esses sonhos estão vindo, é importante que você tenha uma boa noite de sono, para te ajudar a limpar seus pensamentos. Vou te ajudar a me ajudar, entendeu?

Ele piscou novamente. “Sim, eu entendi, obrigado. Eles têm drogas para suprimir os sonhos? ”
“Bem, tecnicamente não. Tem uma droga nova chamada cyproheptadine que é usada no tratamento da febre do feno, mas um dos efeitos colaterais é a supressão de sonhos/pesadelos especialmente e especificamente aqueles induzidos por stress pós-traumático.

Continuei escrevendo a prescrição em silêncio e podia sentir os olhos do Andrew em mim. “Mas não é para SPT (Stress Pós-Traumático), é para o Ubloo. “

“Eu sei, Andrew” Eu menti para ele pela última vez. “Mas isso vai funcionar também mantendo Ubloo longe dos seus sonhos. “

 Isso serviu para ele. Ele estava super feliz e pulou do sofá. Ele continuou me agradecendo e me dizendo que eu era o melhor doutor que ele já viu. Então ele se sentiu como se realmente tivesse uma chance enorme. Eu não podia ajudar, mas sorri disso. Acho que era a razão de eu ter ficado agarrado com essa prática após tanto tempo. Eu caminhei com ele até a porta e apertei sua mão. Ele me olhou direto nos olhos, sorrindo pela primeira vez desde que conheci ele, e saiu do meu escritório.

Essa era a última vez que eu veria Andrew Jennings vivo.

Uma semana se passou e na outra segunda, Andrew não apareceu. Agora eu poderia normalmente suspirar de alívio, dizer para minha secretária que eu estava saindo e pegar café na rua de baixo, mas eu não estava ajudando. Eu devia perguntar sobre Andrew. Eu estive pensando sobre esses sonhos dele desde que ele saiu, e que a verdade seja dita: Eu estava quase indo atrás dele saber mais sobre o desenrolar da história. Eu saí do meu escritório e disse para minha secretária que eu estava saindo e para cancelar minha próxima consulta. Nas minhas mãos eu tinha a conta de Andrew Jennings pela nossa última sessão, que tinha seu endereço acoplado.

Ele estava ficando num apartamento que sua mãe havia conseguido do outro lado da cidade. Eram apenas uns 15 minutos de carro do meu escritório até lá. Eu tratei de parar na frente da porta da construção enquanto alguém que estava saindo achou seu nome na diretoria. Seu nome estava escrito no papel, então eu podia dizer que ele não esteve por muito tempo ali, sua mãe provavelmente o colocou ali pois ele estaria perto do meu escritório, para facilitar seu transporte.

Ele ficava no último apartamento do primeiro andar. Eu andei pelo longo corredor até eu finalmente parar em sua porta. Parei por um segundo e pensei sobre o que eu estava fazendo, mas minha curiosidade ficou maior e eu bati forte três vezes.

Sem respostas. Sem som de movimento lá dentro. Após eu ter esperado um bom momento, eu bati novamente, mais alto.

“Andrew, aqui é o Doutor A. Você pode vir até a porta, por favor? “

Ainda nada. Tentei a maçaneta e surpreendentemente ela se girou. Senti o peso da porta e podia dizer que ela estava aberta.

Eu não podia te dizer o tempo que eu fiquei ali, com a mão na maçaneta, apenas pensando. Pensando como isso iria parecer; Doutor se permite entrar no apartamento do paciente. Doutor encontra seu paciente carregado de heroína, ou provavelmente em overdose. Em overdose de heroína, mas possivelmente da nova droga que receitei a ele –um usuário conhecido- semana passada. Mas o que era pior, era pensar sobre esses sonhos terríveis que ele tinha, como também em um pedaço de madeira separando eu e ele.

Respirei fundo, e abri a porta.

A primeira coisa que eu percebi é que os tons estavam apagados, e que não havia luz à não ser por uma lâmpada de baixa voltagem na esquina. O ar estava velho e mofado, e jogados na mesa, tinham agulhas, colheres e saquinhos vazios.

Andei pela sala de estar e não vi sinais do Andrew. Havia um corredor no final da parede em que o sofá estava contra. Peguei meu celular e liguei a lanterna. Eu andei pelo hall lentamente, minha respiração estava ofegante e minhas mãos tremendo. Havia uma porta à minha esquerda que estava entreaberta. Cuidadosamente, olhei pela presta e joguei a luz da lanterna dentro da porta. Era o banheiro. Moderadamente sujo, mas não o pior que eu já vi. Não havia sinais de luta, vômito no banheiro, nada que indicaria uma overdose em potencial.

Deixei um suspiro de alívio e fui de volta para o hall. Só tinha uma porta restante, logo em frente. Estava totalmente fechada, toda branca com uma maçaneta prateada. Eu fiquei ali no escuro com minha lanterna e procurei por um interruptor de luz. Esses apartamentos eram velhos, o interruptor deve estar no quarto do Andrew, atrás da porta.

Percebendo que não seria fácil, e engolindo meus nervos, eu comecei a me afastar da porta. Cada passo parecia uma milha. Meus pés estavam desajeitados e minhas pernas pesadas. No momento em que eu cheguei à porta, senti como se uma hora tivesse se passado. Fiquei ali e comecei a encarar pela porta branca, levantei minha mão e lentamente passei meus joelhos contra a porta.

“Andrew? ” Eu perguntei enquanto eu batia. A porta rangia e gentilmente se balançou para dentro. Pela fenda eu poderia fazer o contorno com o braço, e empurrei a porta, agora totalmente aberta.
Andrew estava no chão, escorado e sentado num canto. Sua pele pálida e branca, seus olhos verdes encarando a porta que eu entrei.

Fiquei parado ali e o encarei, mergulhado em choque. Foi a primeira vez que eu vi um corpo morto fora do caixão. Parecia vazio e sem vida. Vi sangue no carpete e suas unhas estavam rachadas e sangrando, erguidas de volta em seu dedo em algumas partes. Eu, de algum modo, tentei achar o interruptor e liga-lo, foi quando eu vi isso.

“O FIM É O INÍCIO”

Estava cravado profundamente na madeira quando eu o vi. Encarei isso o suficiente para ver o que isso queria dizer quando o cheiro me atingiu. A coisa mais podre que eu já havia sentido, e naquele momento, tudo se estabilizou e eu me senti com muita náusea, mais do que toda náusea que eu já havia sentido em minha vida.

Eu corri para o corredor e vomitei imediatamente, eu fiquei ali vomitando quando uma senhora idosa saiu à algumas portas de distância de onde eu estava e se assustou quando me viu.

“LIGUE PARA O 911! ” Eu gritei para ela, vomitando novamente. Ouvi sua porta bater e tentei fazer meu caminho pelo corredor para o saguão, parando a cada minuto para forçar vômito.

Quando o atendimento de emergência veio, eles o deram como morto na cena.  

Eles devem ser acostumados com esse tipo de coisa, pois não pareciam muito intimidados pelo Andrew.

Dei uma entrevista para o policial e o disse que ele era meu paciente, e que eu estava o visitando. Eles não pareciam muito desconfiados e me disseram que se eu precisasse de algo eles chamariam. Eu deixei meu cartão de negócios com eles e voltei para o meu carro. Enquanto eu saia, um carro chegou “arranhando” o chão do estacionamento e eu vi uma mulher chegar. Era a senhora Jennings. Ela estava berrando e gritando e alguns oficiais tiveram que a segurar.

“É O MEU BEBÊ! NÃO, POR FAVOR DEUS, NÃO! ” Ela gritou enquanto tentava lutar com os policiais. Eu já tinha visto tudo que eu podia suportar e caí fora do estacionamento. Chamei minha secretária e a disse para cancelar todos os meus encontros do dia, parei na loja de bebidas para pegar uma garrafa de whisky e me enfiar em casa. Eu fiquei lá bebendo por silêncio por um longo tempo. 

Como de costume, eu liguei no jogo e pedi comida, mas quando chegou, eu não consegui comer.

Pela hora que eu havia terminado a garrafa, estava tarde. Então eu levantei e cambaleei pelo hall para meu quarto, chutei meus sapatos e caí de cara no meu colchão. Fiquei ali deitado pensando sobre o Andrew, sobre seu corpo pálido e sem vida debruçado no canto me encarando com aqueles grandes olhos verdes, sobre sua última mensagem “O Fim é o Início” que ecoava em minha mente tentando achar uma rima ou uma razão para isso. Meus pensamentos estavam ficando mais lentos e minhas pálpebras estavam ficando pesadas. “O fim é o início” passando de novo e de novo em minha mente.

Me senti querendo dormir quando eu ouvi isso.

Do nada e em todos os lugares ao mesmo tempo.


 “Ubloo. ”
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Continua...