25/01/16

Os 1% Parte 8: Mar

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Meu nome é Amaryllis. Tenho uma família. Sou uma pessoa. Meu nome é Amaryllis. Tenho uma família. Sou uma pessoa."

Mar nunca deixava uma hora passar sem repetir o seu mantra. Ela podia ser jogada em sua cama de metal em quaisquer posições que fosse, os membros abertos e espalhados como casca de banana. Cada centímetro de seu corpo podia estar agonizando de dor. Mas nunca esquecia seu mantra.  

"Meu nome é Amaryllis..."

O tédio em si era uma tortura. Mar era forçada a ficar deitada por horas, até dias na mesma posição. Não havia ninguém para conversar. A única outra pessoa que via além do doutor, era 995. Em sua cabeça, tinha-o apelidado de Otis, o mesmo nome do seu cavalo favorito lá na fazenda. Como o cavalo, 995 fazia exatamente o que lhe era pedido, mas nunca gostava. Havia uma faísca de rebeldia atrás daqueles olhos enevoados. Talvez um dia ele desse um coice e fugisse. Mar gostaria muito de ver isso. 

Mesmo depois de dez anos, a severidade do tédio travava uma guerra na mente frágil de Mar. A verdade é que quando estava com o doutor, ela tinha uma missão. Sua missão era lutar. Era uma guerreira, mesmo quando estava completamente paralisada. O ódio mortal que tinha por aquele homem asqueroso a mantinha viva e brava. 

Mas naquele momento... estava em perigo de perder a si mesma. Agora a dor física não passava de um incomodamento. Podia tolerá-la. Já tinha até se testado, andando com seus ossos quebrados ou arrancando seus próprios pontos. Queria causar o máximo de frustração possível ao doutor. E em adicional, fazia o tempo passar mais rápido. 

"Eu tenho uma família..."

Faziam quatro semanas que o doutor havia visitado Mar. Neste meio tempo ela ficara ouvindo o respirar pesado do pobre coitado que ficava no quarto ao lado. Tinha inventado uma história elaborada sobre quem aquela pessoa seria. Talvez seu nome fosse Kevin e fosse um escalador de montanhas. Ou talvez seu nome fosse Elijah e tinha acabado de fazer a proposta de casamento para sua namorada. Tudo que ouvia era a respiração, o som da dor e suspiros adoecidos. Mas ela também aceitava que talvez ele fosse apenas um joão ninguém que, como ela, tinha caído nas garras daquele doutor maléfico. 

Nessa época, Mar tinha ambas as pernas e conseguia andar relativamente bem, só lhe faltavam os dedões. Entretanto, tinha recebido uma operação pesada em seus peito e braços. Tudo que sobrara de seus braços era a carne exposta dos cotovelos pra cima. O restante da pele e músculos tinha sido removido. Sobrara apenas os ossos do antebraço saindo para fora de um jeito bizarro. O doutor levou um bom tempo retirando a pele, forçando Mar a observar enquanto cortava cada pedacinho de seu músculo. Ele poliu brutalmente os ossos com uma lixadeira, fazendo com que todo o esqueleto dela vibrasse. 

Até agora ela podia sentir os ecos da lixadeira em seus ossos expostos. 

Mar também tinha virado um tipo de "guarda-volumes" para o doutor. Já havia costurado três figados em sua caixa torácica e colocado um estomago dentro do útero dela. O doutor até tentou implantar um novo pé na cintura. Mas o pé começou a apodrecer e feder de um jeito terrível. 

Mar não fazia ideia a quem pertenciam esses órgãos que estavam dentro dela. 

"Eu sou uma pessoa..."

As semanas iam passando e Mar começava a pensar que talvez o doutor não queria mais nada com ela. Afinal, já faziam dez anos. Talvez tenha se entediado. Talvez já havia feito tudo que era possível com ela. Já faziam mesmo dez anos? Talvez só tenha sido alguns dias. Talvez a vida toda. 

Mesmo depois de tanto tempo ela se agarrava na esperança de que um dia escaparia dali. Mas ali, deitada em sua cama estreita, ouvindo os gritos de outras pessoas, não tinha certeza... talvez morresse mesmo naquela prisão. 

"Meu nome é..."

Se atrapalhou com seu mantra. Claro que sabia qual era seu nome. Era uma flor, né? Algo diferente mas ainda assim bonito. Começou a entrar em pânico. Tinha que se lembrar. 

"Eu tenho uma família?" 

Ela se levantou e começou a andar pelo quarto. Se lembrava de um pai e uma mãe. Lembrava de irmãos. Mas estas memórias estavam distantes. Ela sempre viveu aqui? Talvez essas memórias fossem todas inventadas. A família era real? Ela era real? O homem do quarto ao lado era real? Ou talvez esses gritos eram dela mesma? 

"Eu sou uma... pessoa?"

Sem aviso, a porta foi aberta bruscamente. O doutor estava ali, diante da luz fraca. Era um homem mirradinho e patético, mas mesmo assim provocava tanto medo. Ela olhou para ele. Haviam lagrimas em seus olhos. 

"Vamos lá." falou friamente. Atrás dele havia uma cadeira de rodas, como o de costume. Ele olhou para ela e fez uma pausa. "Você está... chorando?" 

Ela caiu de joelhos. Seus ossos expostos do antebraço bateram no chão. "Por favor."

Pela primeira vez, ela viu o doutor rindo. "Você está implorando?"

A dor em seu corpo não era nada comparado ao terror em sua mente. "Por favor, me diga meu nome. Não lutarei mais. Só preciso lembrar do-"

"Seu nome é #1101." Ele se curvou sobre ela, parecendo ser muito maior do que o de costume. 

"Eu tinha uma família? Eu tive... Eu sou...?" Tudo que ela sabia parecia estar errado. Havia um gosto amargo em sua boca. 

O doutor não estava impressionado. "Sabe, você costumava ser minha favorita. A única que eu não podia corromper. Mas agora é só mais uma." 

"Meu nome verdadeiro, só me diga uma vez. Eu esqueci. Por favor." Ela podia ver Otis de pé atrás da cadeira de rodas. Esse era mesmo o nome dele? Quais eram os números? Será que estava o inventando? Gritou para ele "Sei que eu disse meu nome para você. Por favor, me diga! Eu preciso saber. Não consigo lembrar." 

O doutor a chutou na boca sem misericórdia. Ela caiu de lado, chorando aos montes. O homem com o gancho nada disse. Apenas olhou pata o lado. 

"#995, venha aqui." O doutor o puxou pelo braço para dentro do quarto. "Urine nela." 

Ela não se mexeu. Ela não tinha ninguém. Ela não era ninguém. 

Sentiu a urina em seu rosto. O doutor observou a cena sem emoção. "Você sempre foi #1101. E sempre será." 


(EM BREVE: OS 1% PARTE 9: #1477)

Por: EZmisery 


21 comentários:

  1. AHUEHAUEHAUEA.. Quando ela imaginou se o nome do cara era Elijah, lembrei da guitarra de 5 cordas @-@ enfim .. Partes cada vez menores <|3 como ela teria enfiado o bisturi se não tem mãos? ;-;

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    1. Poisé, então provavelmente não foi ela que matou o doutor.

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    2. Não pode ter sido ela. #1101 morreu na parte 3, não é?

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    3. Verdade, só se esssa parte for antes dakela...

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    4. Essa parte é antes da parte três. Nessa parte aqui ela ainda tem a boca aberta para falar e tem as pernas, na 3, se não me engano, eles relatam que ela não tem membros, tem a boca costurada e não tem órgãos genitais. Fica subentendido que ela morreu, mas não confirmado.

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    5. Acho que não, ela só perdeu seus últimos traços de sanidade... Ainda acho que foi a esposa xD

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    6. Mas de todo jeito, quando ela morreu o Allen/James ainda estava vivo. Não tem como ela ter matado ele... tem? O.O

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  2. E muita coisa ruim para uma historia so

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  3. Quem será que matou o James? O verdadeiro Allship (#995), mesmo depois do James ter matado sua mãe, não faz nada contra o "Doutor".

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  4. Eu preciso de maaaaaais, não demora pra parte 9 por favoooor ;-;

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  5. Já tem a parte 5 de Ubloo? Se não, quando vão colocar?

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  6. Ansioso pela próxima parte

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  7. Essa parte 8 se passa depois que o doutor é atingido no pescoço? E se #995 se tornou vítima do doutor com 16 anos e numa parte da história diz que ele (995) e mais uma mulher se viam todo dia nesse lugar que acontece os experimentos por 43 anos, então significa que agora #995 tem 59 anos? Alguém me explica....

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Acho que foi a Kelly, sei lá..
    Ah, tem um "pata" no fim do texto, não deveria ser "para"?

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  10. Acho que foi a Kelly, sei lá..
    Ah, tem um "pata" no fim do texto, não deveria ser "para"?

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  11. ESSA CREEPY É MT MANEIRA <3

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  12. A numero 1001 morreu quarenta e tres anos depois de chegar na clinica e o doutor ainda estava vivo, ou pode ser outro doutor ja q eles herdam o nome alem do oficio

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