08/01/16

Ubloo - Parte 3

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Joguei esse papel fora e o estudei. Era um acordo de aluguel de um estúdio em um apartamento em Cambridge. Enquanto eu procurava pelo papel, percebi que tinha um rascunho de cheque preso no verso do documento. O cheque valia 180.000.000 dólares que foram pagos para Companhia de Seguros Imobiliários de Cambridge. Ele havia pago por essa propriedade em seu nome por dez anos.

Achei esquisito. Por quê um dos maiores donos de apartamentos do estado alugaria um apartamento para alguém? Eu joguei o envelope na mesa e ouvi um estralo. Peguei o envelope de costas e virei de cabeça para baixo. Senti algo escorregar o envelope e na minha mão, quando eu olhei, encontrei uma chave, com “Unidade E335” etiquetado a ela. 

Olhei de volta para o acordo de aluguel e certamente, li o endereço da propriedade:


Congelei por meio segundo, então freneticamente procurei pelo meu casaco. Eu não posso dizer o por quê eu sentia urgência em ver esse lugar agora, mas eu senti que era muito anormal para ignorar. Meus instintos estavam me dizendo para onde ir e eu confiaria neles.

Fui para o apartamento rapidamente e pulei pelas escadas. A porta da frente estava trancada e eu tentei usar a chave. A chave se encaixou confortavelmente na fechadura e virou com facilidade. Senti meus nervos saltitarem. Entrei no lobby e achei a escadaria. Corri pelas escadas, dois degraus por vez até chegar no terceiro andar. Abri a porta e estava certo, que na minha frente estava a Unidade E335. Parecia que o tempo tinha congelado e eu havia ficado ali encarando a porta. Nessa manhã eu estava bêbado, tentando achar sentido nisso tudo, e agora, aqui estou eu, revirando as coisas de um homem morto e seguindo seus passos.

Por quem eu estava fazendo isso? Para mim? Robert? Andrew? Tirei esses pensamentos da minha cabeça. 

Era meu dia de folga- Eu pensei- Só estou passando o tempo brincando de detetive.

Andei até a porta e coloquei a chave na fechadura, já girando a maçaneta.

A porta balançou-se para dentro e eu estava encarando uma sala enorme. Encontrei um interruptor de luz e o ativei. A sala era o seu apartamento/estúdio de costume. Kitnet e banheiro, tudo numa área grande e espaçosa.

Mas não havia mobílias.

A sala inteira estava completamente vazia, paredes nuas, exceto pelo meio da sala, onde no chão, na minha direção, havia um cofre.

Andei lentamente até o cofre e coloquei minha mão nele. O metal era frio. Tentei o mover, mas estava incrivelmente pesado, deveria estar preso.

Fiquei ali e olhei para ele, ponderando a peculiaridade da coisa toda. Então me caiu a ficha, e experando não funcionar, coloquei os três números.

“12-4-21”

Ouvi o mecanismo interno se ativar e meu coração até parou de bater.

Lentamente, abri a porta e olhei para dentro. No fundo do cofre estavam dois livros. Peguei o primeiro e li a capa:

“O Diário Pessoal de Robert A. Jennings”

 Minhas mãos estavam tremendo. Peguei o livro que estava atrás. A escrita estava em uma língua estranha que eu nunca havia visto antes. Mal virei a capa e achei um pedaço papel solto. Peguei o papel e o desenrolei e meu estômago se revirou.

Era uma cópia quase exata da imagem que Andrew havia desenhado para mim no escritório. Em preto e branco, sentado ali encarando minha existência, estava aquele monstro terrível, Ubloo.

Eu não sabia o que aconteceria primeiro, fechar o livro ou levantar para sair. Eu não sabia por quê, mas eu não podia ficar naquela sala. Não era para eu encontrar aquelas coisas. Com os livros nos meus braços eu corri pela porta do apartamento sem mesmo a fechar. Corri direto para o meu carro, joguei os livros no banco do passageiro e dirigi direto para casa. Quando cheguei lá, agarrei novamente os livros e olhei para dentro. 

Olhava pelos meus ombros por todo o caminho. Cheguei e esmurrei a porta, correndo para minha mesa de jantar e jogando os livros nela.

Imediatamente comecei a folhear as páginas daquele livro com linguajar estranho. Era incrivelmente velho e cheio de imagens. Eu estava no corredor quando parei numa página com um desenho que parecia com um Ubloo cruelmente desenhado. Frenéticamente procurei pelo resto do livro, mas eu não conseguia entender aquelas coisas sem pé nem cabeça. Então, peguei o jornal do Robert e o abri na primeira página.

“Meu nome é Robert A. Jennings, e desde o último ano tenho sido afetado por encontros paranormais nos meus sonhos, por um monstro que chamo de Ubloo. Sei como isso deve soar, mas tudo que eu escrevo aqui deve ser levado com extrema gravidade, pois como eu temo, não estarei aqui por muito tempo. “

Eu não podia acreditar no que eu estava vendo. Tinha que ser um sonho. Algum tipo de sonho zoado. Eu passei para as próximas páginas e vi lembranças dos sonhos que Robert teve que eram absolutamente horríveis. Sonhos como ficar preso no chão e ver seu filho pular de uma construção de seis andares, para cair na calçada bem na frente dele de novo e de novo. Sonhos como pegar sua esposa o traindo com os vizinhos, o filho gravando isso e esses mesmos vizinhos virarem para bater nele sem motivo algum enquanto sua esposa ria. Sonhos de seus pais serem queimados vivos enquanto os bombeiros riam e molestavam sua esposa. Coisas terríveis. Como esse homem viveu tanto com um fardo desses eu nunca saberei.

Eu passei pelas páginas rapidamente até não encontrar nada à não ser páginas em branco. Parei quando cheguei no final e sabia que Robert havia morrido antes de poder completar esse jornal. Lentamente, folheei de volta até chegar na última página que ele havia escrito. Quando li as palavras, joguei o livro como se ele estivesse pegando fogo e rocuei alguns passos, olhando para o chão.

“O fim é o começo. ”

Andei pela sala por um longo tempo e pensei muito sobre tudo que havia acontecido. Então, ouvi um barulho na minha cozinha. Andei para investigar e senti uma dor estonteante na parte traseira do meu crânio. Caí no chão e minha cabeça parecia que havia sido dividida.

“Olha bebê, ele está em casa! “ Vi um rosto não familiar dizer. Vi um par de botas pretas andarem até mim e me chutarem de leve na testa. “Acorda, doutorzinho! “

Do chão eu vi um par de botas. No final da cozinha vi outro homem, vestido todo de preto com uma máscara de ski, segurando uma arma na cabeça de uma garota.

“Por favor, Doutor A! Me ajude, por favor! “

 Conhecia aquela voz de algum lugar, mas de onde?

“Cala a boca, sua puta. Ele não pode te ajudar! “ Ouvi o outro homem dizer enquanto sua pistola batia no lado da cabeça dela. Ela começou a chorar.

Minhas vistas se focaram e então eu percebi quem ela era. Era Andrea, minha recepcionista.
“ANDREA! ” Eu gritei, mas fui chutado no estômago pelo meu agressor.

Você não me ouviu, parceiro? “ Ele disse enquanto ficava perto de mim, que morria de dor. “Você não pode ajudar ela, porra. “

Ele deu um passo para trás e pisou, e eu senti sua bota pesada vir no meu joelho e senti uma dor explosiva na minha perna. Gritei muito alto e agarrei minha perna, mas quando eu o fiz, o homem me chutou de novo, o que doeu mais que da segunda vez.

“Por favor, Doutor A! Por favor, ajude! Eles disseram que vão me matar! “ Andrea implorou da parte de trás da cozinha.

“Vadia, eu disse, cala a droga da boca! “ Eu ouvi parte da pistola bater em Andrea novamente e ouvi sua súplica.

“Ele está certo, bonequinha. “ O primeiro homem disse. “Vamos matar você. Mas primeiro, vamos te machucar um pouco e vamos nos divertir um pouco. “

“Por favor, pare! “ Olhei para o relógio e apenas vi os ponteiros se acelerarem, ouvi Andrea gritar, e então tudo foi coberto pelo barulho de gritos e o disparo de uma arma, que eu ouvi por trás da minha cabeça.
“Ubloo! “

Acordei em um poço de escuridão e percebi que eu estava gritando. Minha garganta estava seca e minha camisa estava encharcada de suor. Entrei em desespero. Percebi que estava sentado na minha mesa de jantar e corri para o interruptor. O ativei, mas nada estava ali. Nenhum barulho, ninguém na cozinha, nada. 

Tudo voltou a sí de uma vez só. Como eu esqueci de dormir? Após ver aquelas palavras no diário do Robert, sentei e decidi ir pelos acordos de aluguel novamente, que estavam todos bem na minha frente. Devo ter caído no sono fazendo isso, mas como eu não me lembrei de sentar para fazer isso?

Então me lembrei da minha conversa com Andrew. Como Ubloo percebeu que ele podia assustar ele mais com um sonho num micro sono do que em um sonho normal. Como a habilidade de o pegar desprevenido era mais efetiva. Fiquei tão entretido nessa teoria que nem prestei atenção no que estava acontecendo, mas quando vi, estava mal do estômago. Isso não podia estar acontecendo, não podia. Isso não era real, nem mesmo real. Tentei tirar o pensamento da minha mente, mas eu não podia. Não consegui.

Ubloo estava controlando meus sonhos agora.

Vomitei no chão da minha sala de jantar. Estava tudo acontecendo muito rápido.

Olhei em volta freneticamente. Tinha que me mudar. Tinha que sair daquele lugar. Talvez se eu corresse ele tivesse que me perseguir. Valeria a pena.

Corri para meu quarto e comecei a empacotar minhas coisas. Corri até minha escrivaninha e peguei meu bloco de prescrições. Eu precisaria disso, definitivamente. Comecei a entrar em delírio até eu perceber que eu não sabia para onde eu estava indo. Até que caiu a ficha.
Louisiana.

Eu iria voar para Louisiana. Empacotei a maioria das minhas coisas, com essa sendo a ideia principal. Mas comecei a me sentir pensativo sobre isso. Não podia me deixar admitir que eu estava indo para esse lugar para continuar o trabalho de Robert. Ainda não, eu não sabia o suficiente.
Eu iria dirigindo.

Ficaria em hotéis pelo caminho e faria a pesquisa. Leria o diário de Robert, encontraria o que os outros livros diziam, encontraria a casa que Robert queria que eu comprasse. Eu tinha muito trabalho para voar para Louisiana. Eu tinha que aprender. Eu tinha que estudar tudo que Robert escreveu e sabia que essa era minha chance de dar cabo em Ubloo.

6 SEMANAS DEPOIS
Peguei minha mala enquanto me aproximava do balcão de checkout.

“Nos deixando tão cedo, Mr. Abian? “ A garota por trás do balcão disse para mim.

“Sim. Me desculpe, mas preciso de voltar para a estrada agora. “ Eu disse com um sorriso.

“Bem, foi um prazer te ter aqui. Eu sempre me sinto mais segura trabalhando aqui quando um Doutor fica conosco. “ Ela sorriu de volta.

Me despedi e fui para a porta. Chequei meu relógio. 7:01 da manhã. Perfeito. Eu estaria em Mississípi lá pelo final da tarde. Então eu seria capaz de encontrar um lugar e esperançosamente me encontraria com Eli, se ele pretendesse ficar acordado até tarde.

Comecei a olhar para cima pelo meu relógio.

Seria bom finalmente saber o que aquele livro di-

Em um instante já havia desaparecido. Mas eu sabia que eu havia visto. Eu vi. Eu vi aquela porra antes de sumir pela borda da construção.

Me encarando pelo canto da construção tinha uma cabeça cinza com pele brilhante, e dois olhos com um preto profundo. Em baixo daquela cabeça havia um longo focinho que balançava e se chicoteava enquanto ele empurrava sua cabeça para trás.

Fiquei ali, paralisado, com minha mala na mão. Fiquei ali e esperei. Esperei acordar.

Mas eu não acordei.

Continua...


18 comentários:

  1. Só espero que o final não seja tão decepcionante quanto o da laranja... Ubloo é tão promissor!

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  2. Não me referindo ao post, mas o que aconteceu com o mundo das Creepypastas? Depois de quase um ano, resolvi dar uma olhada nos meus blogs favoritos: aparentemente quase todos acabaram ou estão fazendo postagens somente em intervalos gigantescos de tempo, até mesmo no CPBr não vejo posts dos escritores "clássicos". A era de ouro acabou?

    (Caso não me reconheçam, sou o dono do Casa dos Terrores)

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    1. Também acho isso, pra mim a última grande creepy foi Candle Cove e 1999. Muitas atuais nem dão medo

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Essa creepy começou ótima mas agora ta parecendo aqueles filmes dramáticos. Foi bem fraca essa parte, ta bem sem graça agora. Espero que melhore mais pra frente.

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  5. Quantas partes restam? A creepy tá tão perfeita ❤

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Ouviu um rosto, certo? hm... Me explique como soa esse som e.e

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    1. Obrigado por apontar, Lipe. Peço perdão pelo vacilo XD

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    2. Eu falei brincando kkkk ;-;
      Mas fico feliz que tenha ajudado :3

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  8. Já li essa creepy no Creepypasta.com e achei maravilhosa. Thiago tá de parabéns pelo trabalho com a tradução, tá ótima!!

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    1. Bom que tenha gostado, Maria. Obrigado :)

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  9. Qual é essa tal Creepy da laranja? Tô vendo geral falando sobre ela e queria ler...

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    1. Se chama "A história dela segurando uma laranja."

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  10. Qual é essa tal Creepy da laranja? Tô vendo geral falando sobre ela e queria ler...

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