03/02/16

Os 1% Parte 10: Piotr

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Piotr não tirava os olhos de seu tio, Otto. Otto estava acorrentado com suas mãos juntas atrás da cabeça, uma enorme tranca pendurada em seu pescoço. Seus olhos estavam levemente esbugalhados e a saliva fazia uma pequena poça no canto de sua boca. Suava absurdamente, criando círculos amarelados em sua camisa branca.

A esposa de Otto, Merle, estava sentada de frente para ele na sala de jantar. Suas mãos tinham sido pregadas na mesa com longos pregos de caixão. O sangue havia escorrido até o chão e já estava seco. Estava cansada demais para se mover, mas sua mandíbula tremia como o cabo de um teleférico.

Piotr estava sentado na ponta da mesa. Estava vestido com o melhor terno do seu tio. Palitou seus dentes enquanto observava seu tio dos pés a cabeça.

Otto piscou, fazendo com que as lágrimas corressem. "Por favor, Piotr..."

"Você não falará meu nome." Piotr estreitou seus olhos. Falava grossamente em Polonês. Os anos morando no Estados Unidos não o serviram muito para aprender inglês. Até tentou aprender, mas nenhum dos outros Judeus queriam o auxiliar no aprendizado. Deus sabe que Otto não teria o ajudado. O melhor que fez foi oferecer a ele um chão para dormir e migalhas para comer.

"O que ele falou?" Merle perguntou para seu esposo em Inglês. Era uma americana que tinha sido rejeitada por dormir com um estrangeiro. Sua família tinha a deserdado quando engravidou. Mas Otto não era tão ruim assim. Claro, era feio. Fedia a cebolas e seu sotaque era bem carregado. Mas era dono de uma lavanderia e conseguia pagar as contas. Merle podia ter parado em lugar pior.

Piotr direcionou lentamente seus olhos em direção a mulher. "Otto, fale para a porca da sua mulher ficar calda ou acabo com a vida dela agora mesmo."

Otto retorceu o rosto e repassou a mensagem para a mulher que puxou ar para os pulmões e não falou mais nada. O apartamento fedia a fezes e sangue. O casal já estava sob o domínio de Piotr por quase um dia. Algo dentro dele tinha estalado. Não aguentava mais ser tratado como um cachorro doente. Os outros sobreviventes eram tratados como heróis. Como realeza. Por que ele não recebia o mesmo tratamento?

Piotr coçou os números tatuados no seu antebraço. Na verdade não estavam coçando - era apenas um hábito. Já tinha aquela tatuagem a quase dois anos. Os números mal rabiscados era uma definição para ele, assim como para todos os outros sobreviventes. Mas havia algo diferente sobre Piotr, e todos sabiam. 

"Precisamos comer," Otto implorou. "E o bebê está faminto. Por favor, só preciso que-"

"Cale a boca." Piotr se levantou, jogando a cadeira para trás. Aterrizou no chão com um estrondo. "Eu tomarei conta da criança."

Piotr tinha cuidado de bastantes crianças no campo de concentração. Claro, crianças eram raramente poupadas. Geralmente eram mortas imediatamente. Ele lembra de ver o trem chegando, carregando apenas meninos e meninas como passageiros. Os mais velhos não tinham mais que onze. Todos foram mortos nas câmaras de gás.

As únicas crianças que eram permitidas nos campos eram as especiais.

Piotr afastou os cabelos do rosto. O ar parado do aposento se tornara opressivo. A verdade era que não tinha pensado no desenrolar de tudo aquilo. Não foi algo planejado. Otto tinha zombado da pele calejada de Piotr e o chamou de vira-lata. Disse que quem devia ter sobrevivido era o irmão dele. Foi isso que o fez surtar. Pegou a faca de cozinha mais próxima e enfiou no braço de Otto. Otto gritou, apertando a ferida. Então Piotr pegou uma pesada tábua de madeira da cozinha e bateu com força no topo da cabeça de Otto. Otto caiu como uma árvore no meio da floresta.

Merle logo veio correndo, apenas para receber um tapa no rosto com uma frigideira de metal. Piotr ouviu o barulho do nariz dela quebrando antes mesmo de cair. Os dois corpos ficaram no chão. Piotr respirava pesadamente, mas se sentia aliviado.

Ele os amarrou antes que voltassem a vida. Para Otto, usou uma corrente de bicicleta e um cadeado. Também quebrou ambas as pernas, com ajuda de um rolo de madeira e uma panela de ferro. Para Merle, pregou as duas mãos dela na mesa de jantar e deslocou os joelhos. Ele demorou um tempo para fazer essas tarefas. Era a primeira vez que tocava em outro corpo humano desde que deixara o campo de concentração.

Quando o casal acordou, gastaram bastante tempo apenas gritando de dor. Piotr passou esse tempo com o filho recém-nascido do casal. Embalava o menino calmamente. O bebê segurou o dedão de Piotr, que ainda estava ensanguentado. 

Mas agora Piotr precisava tomar algumas decisões.

Otto mordeu o lábio de tanta dor. "Piotr, esse não é o seu eu verdadeiro. Esse é o seu eu do campo. Você não é assim."

"Você não faz ideia de quem eu sou verdadeiramente."

Piotr lembrava do dia em que ele e seu irmão chegaram no campo. Sua mãe, pai e irmã mais nova também estavam lá. Tinham sido espremidos dentro de um trem. Ninguém falava para onde estavam indo. Era apenas um emaranhado de gente, todos usando estrelas amarelas.

Quando chegaram no campo, os soldados estavam dividindo-os em grupos. Pessoas com "corpos capacitados" eram colocados em um setor. Crianças, idosos, pessoas com deficiência, e quaisquer outras pessoas que os soldados não fossem com a cara, eram colocados em outro setor.

Piotr e seu irmão tinham treze anos. Não tinham idade suficiente para serem colocados com os trabalhadores. Acharam que seria levados para ficar com os idosos e sua irmã mais nova. Mas um soldado os parou. Olhou os dois dos pés a cabeça e um sorriso foi aparecendo lentamente em seu rosto alemão.

"Vocês são gêmeos?"

Piotr falou algo em alemão e acenou com a cabeça rapidamente. Ele e seu irmão eram gêmeos idênticos.

O soldado direcionou os dois para outro setor do campo. A mãe deles chorou e gritou por eles, mas outros soldados mantinham-a afastada. Os meninos olharam pra trás para ver sua família sendo escoltadas em direção da floresta. Ficaram olhando para trás por tanto tempo que quase esbarraram em um homem usando um uniforme especial. O mesmo olhou para os dois e riu. 

"São perfeitos! Levarei os dois."

"Sim, Dr. Mengele." O soldado empurrou os meninos e eles caíram, os dois ralando um dos joelhos. Essa foi a menor quantidade de dor que sentiram nos sete meses seguintes. 

O jeito que Otto olhava para Piotr devia ser parecido com o jeito que as vitimas de Mengele olhavam para ele. Piotr tinha dado aquele olhar muitas vezes. Lembrava de ter sido submetido a uma variedade imensa de experimentos. Um dos piores que conseguia lembrar era o de ter água fervente derramada no canal do ouvido. Era muito mais do que dor física - era o som da água ecoando em seu crânio. O som durou muito tempo, até depois de ter saído do laboratório de Mengele.

Mas Piotr tinha sofrido pouco comparado com seu irmão. Piotr não entendia o por quê. Qual era o motivo de ter sido menos torturado? Seu irmão que tinha sido quase dilacerado. Seus olhos tinham sido removidos para estudo. Um rim também. Ambos eram medidos e documentados diariamente, mas seu irmão sempre sofria mais. O sangue dele era drenado diariamente. Era deixado tão fraco que mal conseguia ficar de pé. O irmão de Piotr era muito tormentado, e na maioria das vezes, Mengele obrigava Piotr a assistir aquilo.

A maioria das crianças que presenciassem aquelas torturas lembraria somente da dor. A dor no próprio corpo e ador estampada no rosto do irmão. Mas Piotr começou a notar outra coisa.

O poder.

Mengele era um Deus enquanto fatiava seja lá quem fosse. Controlava cada um de seus pacientes. Se Piotr se recusasse a participar de qualquer um dos experimentos, Mengele o mandaria para a morte sem nenhum problema. O poder era esmagador. 

Piotr sentia aquele poder enquanto observava o casal na sala de jantar. Ele passeou por volta da mesa. Otto e Merle se sentiam desamparados. Ele pigarreou. "Sabe o que Mengele falou para mim na última vez que o vi?"

Otto começou a tremer. Merle olhou confusa para ele, não entendendo o polonês de Piotr. Otto apenas balançou a cabeça em direção dela. Piotr deu com os punhos na mesa e os dois olharam para ele.

"Disse que a perfeição era possível. Mas que é preciso de homens dedicados para isso."

Foi logo após ouvir isso que Piotr viu seu irmão morrer em uma cama fria de metal. A falta de sangue e as constantes infecções nos beliches dos setores tinham levado o melhor dele. Morreu diante dos olhos de Piotr. Seu irmão gêmeo. Seu único amigo.

"Como era o nome do seu irmão?" Mengele perguntou.

"Allen."

"Allen deu a vida por uma causa maior. A busca da perfeição. Existem pouquíssimas pessoas que podemos dizer que morreram em busca da perfeição. Uma porcentagem mínima." Mengele acenou para Piotr e o menino foi levado embora.

Mas aquelas palavras... Elas gritavam dentro do seu crânio. Por sete meses tinha feito parte de algo maior do que ele. Tinha visto o que a busca da perfeição podia fazer. E Allen... ele era o verdadeiro herói. Se Allen estivesse vivo até hoje, os outros judeus falariam com ele. O ajudariam a aprender inglês. Porque ele era perfeito.

Piotr respirou fundo. Uma onda de calmaria tomou conta do corpo dele. Até o bebê parou de chorar. Agora ele sabia o que tinha que fazer.

Pegou uma faca de cozinha e segurou com força. Ficou de pé atrás de Merle, que estava balbuciando em inglês para que não a machucasse. Sem hesitar começou a esculpir no pescoço dela. Ela gritou, mas não conseguia se mexer. Ele usou a faca para esculpir um grande "1" no pescoço dela. A pele tinha sido retirada para deixar um "1" sangrento lá. Como no campo Piotr tinha recebido números, seus projetos também os teriam. Já tinha diversos projetos em mente, assim como Mengele.

Foi em direção a Otto enquanto o mesmo gritava. "Pare! Pare, Piotr!"

Ele cravou no pescoço de seu tio com a mesma força, esculpindo um "2". O casal chorava de dor. O sangue escorria pelos ombros, ensanguentando as roupas.

Piotr foi no outro quarto e trouxe o bebê. O menino piscou e começou a rir. Piotr sorriu e começou a rir também. 

Piotr parou de usar seu nome de batismo e começou a usar um novo - Allen. Ele deu o mesmo nome para seu novo filho. Falou para seus vizinhos que havia fugido de Auschwitz e dado um jeito de entrar nos EUA. Usava camisetas de manga longa para cobrir suas tatuagens. Desde o estranho desaparecimento de seus tio e seu irmão, ele tomou conta da lavandeira. Até que era um negócio lucrativo, e logo pode se mudar do pequeno apartamento no gueto para uma casa mais decente. Uma casa com porão a prova de som. 


(EM BREVE: OS 1% PARTE 11: #1101)

Por: EZmisery 


15 comentários:

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    1. Por enquanto 14, mas a série ainda está em desenvolvimento e o autor está para lançar mais partes. P

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  2. Cara vai entender!! Eu quero saber o que houve com a filha do Allen PQP!!!!

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  3. Essa creepy é mt confusa, só terminando ela toda pra entender, porque assim.... sem condições de entender alguma coisa!!!!

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  4. A série é excelente, mas as traduções das partes estão demorando demais!
    e quando sai a última parte do Ubloo?

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  5. Muito bom. No caso, esse Piotr é o primeiro Doutor né? E o bebê é pai do Allen atual?
    Essa creepy é muito boa :D
    Obrigada por traduzi-la Divina.

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    1. Com certeza. Eu já cheguei a pensar que o bebê seria o primeiro doutor, mas acho que o primeiro é o Piotr mesmo.

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    2. Se bem que na verdade o Allen atual é o James... irmão do Allen mesmo...
      Mas é isso mesmo... o bebê é o pai deles

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  6. Um cirurgião plástico judeu? É o Taub revoltado :v
    Essa creepy só melhora. Engraçado saber que nenhum dos Allens realmente se chamavam Allen.
    Continuem com o belo trabalho na tradução, esse blog é sem dúvida o melhor blog de terror brasileiro <3

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  7. ESSA CREEPY É MASSA E A TRADUÇÃO DE VCS TA MT FODA.

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  8. Demorei, mas cheguei 0/ obrigado por mais uma parte Divina :3 eu estou ficando confuso ;^; Piotr se transformou em Allen correto? Ele foi o primeiro a iniciar essa "busca da perfeição" ? Ou seja... o primeiro Allship Safadão dos 1%?
    obs: na parte em que o Piotr pede para que o Otto (pai da Anne Frank, é isso mesmo produção?-q) diga para Merle ficar calada esta escrito "calda", desculpe ser chato, mas eu ri ;-;

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Não creio! Entrou experimento nazista, gêmeos e o Mengele! Esse maluco fez coisas bizarras no Terceiro Reich, e acredita-se que quando ele fugiu pro Brasil no fim da 2ª guerra, se instalou no RS e deu inicio ao 1ª clonagem de animais, e há um mito de que a cidade de Cândido Godói tem o maior índicie de Gêmeos do Brasil devido à sua passagem por lá, em sua época de fugitivo. Lindo d+ isso ai!

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