13/02/16

Um Dia Típico

Sento. Digito. Clico. Converso fiado. Como. Cago. Digito. Clico.




Isso é tudo que eu faço o dia inteiro no trabalho. O tédio em geral pode se tornar realmente apavorante. Eu entro as seis da manhã. Pego um café na sala de descanso. Sento na minha escrivaninha. Está localizada em uma grande sala com duzias de outras escrivaninhas. Fico olhando meu computador por oito horas. Nesse meio tempo, almoço na sala de descanso. Sou obrigado a entrar em conversas sem sentido com meus colegas de trabalho. Então as cinco horas da tarde eu desligo meu computador e saio. 

Um jeito terrível de passar o dia. 

Mas em casa é pior. 

Sento. TV. Como. Cago. TV. Durmo. 

Isso é tudo que faço em casa. A úncia coisa que muda é o canal da TV. Sento sempre no mesmo lugar do meu sofá nada aconchegante. Como sempre a mesma comida congelada. Durmo sempre na mesma cama velha. Se conseguir dormir pelo menos cinco horas, talvez eu consiga fazer algo produtivo pela manhã. Mas nunca consigo. 

Mas há uma luz no fim do túnel. 

Hoje está programada uma promoção para mim. 

Entro no trabalho as seis da manhã como sempre. Faço um pouco de café para mim. Sento na minha escrivaninha. Como sempre, sinto uma presença terrível atrás de mim. Isso é coisa do trabalho. Toda vez que estou sentado no meu computador, sinto uma escuridão logo atrás de meus ombros. Se me viro para tentar ver, nunca está lá. Mas sei que é real. Penso nele como um supervisor sem nome que observa tudo que faço. Ele flutua pelo ar, sugando a luz do meu cubículo. Se eu tentasse, acho que poderia tocá-lo. É como se fosse um nevoeiro, só que mais pesado. 

Todos do escritório tem um desses. Mas ninguém fala sobre. 

Chamo o meu de Fred. 

Fred flutua por trás de mim enquanto dou uma olhada no meu e-mail. Não há nada de importante. Sally foi demitida ontem. Mas eu senti o cheiro da sua carne queimando quando entrei, então não fiquei surpreso. Larry mandou um e-mail para todo mundo lembrando que é aniversário de Tabitha. É certo que logo mais vou encontrar um cartão na minha mesa para assinar. Vamos comer leitão ao invés de bolo. É a comida preferida de Tabitha. 

Abro um e-mail enviado pelo chefe. É apenas um vídeo longo de uma recém formada gritando enquanto ele a come por inteiro. Ele manda esse tipo de e-mail toda terça-feita. Recebemos diversos do tipo "acabei-de-sair-da-faculdade" querendo trabalhar aqui. Mas quando seu empregador é um ser de terror absoluto, você não pode esperar menos que alguns obstáculos na entrevista. 

Larry rola sua cadeira em minha direção. "Ei! Você já assinou o cartão de Tabitha?"

"Não..." Larry é obcecado por aniversários. Creio que em todo escritório sempre tem alguém que ama festejar. Aqui essa pessoa é o Larry. Talvez seja porquê ele não comemora mais seus próprios aniversário? Não sei. Só sei que não aguento mais fingir que estou interessado em Tabitha estar fazendo 234 anos (pelo quinquagésimo ano seguido). 

As rodas de Larry estão próximas. Posso sentir o cheiro de fluído de isqueiro no bafo dele. "Bem, quando o cartão passar por você, assine e mande pra mim." Ele dá um sorriso de neon. 

Aceno com a cabeça e volto para meu computador. Se eu ignorar Larry por tempo suficiente, ele vai embora sozinho. Por outro lado, Fred ainda está flutuando macabramente. Suspiro e abro meu manual de trabalho. 

Eu sou um dos responsáveis que designam as horas da morte. É um processo demasiadamente lento, levando em conta quantos bebês  nascem por dia. Já estou no milésimo registro e não são nem sete horas ainda. Clico no primeiro da lista e lhe dou uma hora de morte. Estou me sentindo bem vilão hoje, então esse só terá  mais seis horas de vida. Que pena para você, Zhou Li da China. 

Nas próximas horas fiquei aguentando não só a respiração gelada de Fred na minha nuca, como o tédio que é o meu trabalho. Fomos ensinado a variar as horas de morte para que nem todos os bebês que nascerem hoje morram exatamente no mesmo momento posteriormente. Geralmente eu faço aleatoriamente, dependendo se eu acho o nome da pessoa bonito ou não. Ginger Whatley - oitenta e dois anos. Hayden Peyton - cinco meses. Bem, acho que você entendeu. 

Perto da hora do almoço, o cartão de Tabitha aparece misteriosamente na minha escrivaninha. Na frente tem a foto de um gatinho dormindo. Dentro, a foto do mesmo gatinho mordiscando um globo ocular. Tem os seguintes dizeres: "Estamos de olho em você, Tabitha." Assino e adiciono alguns símbolos demoníacos ao lado para que ela ache que estou sendo sincero. 

Devolvo o cartão para Larry, que estava soluçando histericamente. Estou prestes a sair para meu intervalo de almoço quando as trombetas começam a soar. Toca três vezes e logo as vozes de mil atormentados proclama: "Mike, apresente-se imediatamente ao escritório do chefe." 

Porra, é agora. Minha chance de promoção. Ajeito minha jaqueta e arrumo meu cabelo preto. Ambos meus chifres estão na mesma posição, então tá tudo bem. Tenho que estar na minha melhor forma para ver o chefe. Ele tem um temperamento bem... delicado. 

Ando até a porta do templo. Nenhum dos meus colegas de trabalho olham em minha direção, isso é protocolo. Dave cortou os pulsos como um gesto de boa sorte para mim. Acho que ouvi Polly sussurrando números. Que desgraçada.

As duas portas do templo são abertas por duas estátuas douradas e entro na sala. Está escuro, iluminada apenas por quatro velas vermelhas no chão. As paredes estão manchadas de sangue. A manutenção e a limpeza deviam fazer uma visitinha aqui. No meio da sala, sentado em um pentagrama no chão, está o chefe. Ele está palitando os dentes com um dos ossos do metacarpo. Um homem comido pela metade está rastejando em direção da porta. Está sorrindo. Ele deve ter conseguido um emprego. 

O chefe acena para mim com sua mão grotesca. "Mike, chegue mais perto."

Dou um passo para dentro do templo e as portas se fecham atrás de mim. Dentro, não há nenhum som, a não ser a respiração horrenda do chefe. "Obrigada por me convidar, senhor." 

"Sim, sim." O chefe arrota bem alto e uma nuvem de gás toxico toma conta do recinto. "Estou impressionado com sua falta de liderança, Mike." 

"Obrigada, senhor." Uma das estátuas douradas me alcança um machado decorativo. 

"Estou pensando em te promover." O chefe inclina em minha direção seu enorme corpo. Sua pele fica para um lado, mas suas entranhas se movem para o outro como se fossem feitas de gelatina. "Você quer ser promovido?" 

Coloco o machado sobre meu estomago, do jeito que deve ser. "Sim, senhor."

O chefe piscas seus olhos repugnantes e o machado começa a ser empurrado contra minha pele. "Muito bem, então. Você conhece as regras?"

O machado está me cortando em dois lentamente. "Sim, senhor."

"Você não está mais encarregado das horas da morte. Agora você será um executador." O chefe se inclina em minha direção e vomita violentamente em mim enquanto o machado termina seu trabalho. Desmaio. 

Quando abro meus olhos, estou em uma cama. A luz é bem diferente aqui. Me levanto, tentando me acostumar com essas perninhas de humano. Olho no espelho. Bosta, sou uma garota. Pareço ter dezesseis anos humanos. O chefe escolheu esse corpo especialmente para mim, então creio que deve estar de bom tamanho. 

Olho em volta até encontrar minha carteira. Sim, eu estava certo. Dezesseis. Meu nome é Molly Dearly. Tenho que me lembrar disso. Também tenho de me lembrar que agora sou um humano. Tenho que me comportar como um ser humano. Já me falaram que o processo da infância é horrível, então tenho que me preparar. Puberdade é um tipo de morte, certo? Mas logo eu já receberei as instruções de como realmente executar humanos. Quero realmente aproveitar essa promoção. Assim como John e Charlie. Inferno, até Aileen conseguiu executar sete humanos antes de ser demitida.  

Sou sortudo por ter conseguido essa promoção, mesmo tendo que lidar com essa vida estranha que foi me dada. Pelo menos não vou ter que assinar mais nenhum cartão de aniversário. 

Fico aqui pensando... Será que Fred já está atormentando outro funcionário?

Autor: EZmisery   

27 comentários:

  1. Massa....Bota a cuca pra funcionar imaginado o sistema e pegando as referencias

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  2. É legal achar coisas de outros funcionários do meu velho emprego... ok, viajei bastante hahaha

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  3. É bom saber como as coisas estão em casa.

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  4. Creepy foda. Ta ligado, tipo, ela vai se revelando aos poucos até vc perceber o q realmente ta acontecendo e que os personagens são um tipo de shinigami

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    1. No começo eu até me identifiquei... Daí fui chegando na metade e, OPA! hahahah

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    2. No começo eu até me identifiquei... Daí fui chegando no final e, OPA! Eu vim pra terra como homem msm

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  5. Criativa a história, particularmente gostei mas poderia ter sido melhor explorada!

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  6. É impressão minha ou o protagonista era o capeta e depois ele reencarnou e virou um assassino em série? rsrs curti a creepy.

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  7. Os colegas são assassinos em série q conhecemos? charlie me fez pensar em Charles manson

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  8. Os colegas são assassinos em série q conhecemos? charlie me fez pensar em Charles manson

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  9. AIN
    Q CREEPY FODASTICA
    AMEI
    QUERO TRABALHA AI!
    Naum...
    Pera
    OPA

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