11/03/16

Eu trabalhava no necrotério para tirar um dinheiro extra.

Eu não tinha pretensão de contar essa história para ninguém. Nunca. Já fazem mais de quinze anos e, na época, não achei que valesse a pena. Mas como meu tempo na terra está chegando ao fim, de alguma forma não vou suportar deixar essa memória cair em um limbo. Existe uma verdade aí, mas sou muito estúpida para entendê-la. Então vou deixar aqui. Talvez algum de vocês possa dar sentido a isso tudo.

Quando eu tinha vinte e poucos anos, fiz um curso de enfermagem. Olha, não foi fácil nem barato. Então, acabei tendo empregos e funções bem esquisitas no hospital para conseguir pagar minhas contas no final do mês. A maioria nem era tão ruim assim. Na maior parte do tempo envolvia bastante limpeza e trabalho de recepção.

Mas então, é claro, teve o necrotério.

Eu não gostava de trabalhar lá em baixo no necrotério. Francamente, não conheço muitas pessoas que tenham gostado. Mas o pagamento era ótimo em troca de pouco trabalho. Tudo que eu tinha que fazer era limpar e ficar de olho nas coisas quando não havia médicos presentes, algo que acontecia geralmente tarde da noite. Ocasionalmente, tinha que ajudar a mover um corpo de lugar, também. Mas isso não é nada com que eu não pudesse lidar. 

Eu passava minhas noites lá em baixo, mais ou menos três ou quatro noites por semana. Limpava tudo e então me sentava para estudar, tendo certeza que tudo estava "nos trinques", como as freiras costumavam dizer.

Não era um trabalho difícil. Mas eu não gostava.

Veja bem, o necrotério ficava no porão, bem em baixo, depois de um longo corredor com luzes fracas. Você deve pensar que trabalhar em um necrotério faz com que você se lembre da morte e, bem, você está certo. Mas não é só isso. TODO o lugar parecia com a morte, ainda além dos corpos que regularmente abrigava. Pra mim, nunca pareceu normal. Achei que eu estava paranoica.

Mas uma noite foi provado que era muito mais que isso. 

Ainda me lembro que era uma quinta-feira. Não sei o porquê disso se destacar tanto nas minhas memórias, mas simplesmente acontece. Era quinta-feira e eu estava sozinha no necrotério. A noite foi relativamente normal, apenas um corpo tinha sido levado pra lá. Me lembro que o médico que trouxe o corpo parecia no sei limite. Quando perguntei o motivo, ele disse:

"Quando esse cara chegou, estava perfeitamente bem, mas não parava de gritar que iria morrer. Achamos que ele era hipocondríaco ou que talvez estivesse tendo um episódio de surto psicótico. Quando estávamos prestes a sedá-lo, o corpo dele simplesmente... desligou. Foi como se tudo lá dentro tivesse parado. Morreu em poucos minutos. Não conseguimos reanimar. Ninguém faz ideia o que o matou."

Meu coração dava fisgadas enquanto eu ajudava a colocar o corpo na mesa. Estávamos com poucos funcionários no hospital naquele dia, então ele só seria examinado no dia seguinte, quando um médico estaria disponível para fazer a autópsia. Isso significava que eu teria que ficar com aquele cadáver ali a noite toda.

Bem, isso não me incomodava muito. Claro, era meio medonho, mas nada que eu já não tivesse lidado.

Então, quando o médico saiu, peguei meus livros e me debrucei sobre eles, esperando que isso dissipasse a tensão que ficara sobre o necrotério. Me vi procurando algo - qualquer coisa - que faltasse para limpar, mas o maldito lugar estava que era um brinco recém polido . Tentei me perder nas terminologias médicas dificílimas dos meus livros, mas por algum motivo, naquela noite em particular eu não conseguia me concentrar. 

Talvez fosse minha intuição feminina. Ou quem sabe intuição mais... animalesca. De qualquer forma, eu podia sentir que algo estranho estava prestes a acontecer no necrotério.

É um clichê, mas aconteceu exatamente à meia-noite.

Começou com uma queda de energia. O único aviso que tive foi que, por um momento, as luzes piscaram antes da falta de energia, o silêncio que se seguiu era quebrado somente pelo crepitar das lampadas que estavam esfriando.

Merda, pensei. E agora?

Eu estava sentada na mesa onde os médicos costumam preencher a papelada depois das autópsias, então passei as mão rapidamente por de baixo da mesa e por dentro das gavetas, tentando achar uma lanterna. Tentei não pensar no cadáver que esperava no escuro.

Por Deus, Marybeth, é apenas um cadáver, não pode te machucar. Engole o choro! 

Eu estava procurando na terceira e última gaveta quando a luz voltou e vi algo estranho pelo canto do meu olho.

Minha respiração trancou na minha garganta porque em algum lugar no fundo da minha mente eu sabia que já tinha passado por coisa suficiente para saber o que aquilo significava. Mas o resto de mim ainda estava descrente. Lutando uma batalha interna, virei lentamente em direção da outra mesa.

O cadáver estava sentado.

Meu primeiro pensamento, claro, era que não era um cadáver coisíssima nenhuma. O médico já havia dito que ele tinha simplesmente "desligado"... A equipe médica podiam ter se enganado. Mas algo continuava a me impedir de andar até lá para ver se o homem estava bem.

Ele não estava respirando.

Podia ser facilmente confundido com uma estátua. Tentei falar para mim mesma que estava sim respirando, que simplesmente eu não conseguia ver da distância que estava, mas não fiquei convencida. Tentei me forçar a andar até ele, mas não conseguia.

De repente, a cabeça dele vira em minha direção.

Não vi acontecer de fato. Pisquei e, quando abri os olhos novamente, a posição da cabeça havia mudado. Para piorar a situação, isso devia ser impossível, pois eu estava diagonalmente atrás dele. Cabeças não viram tão para trás assim, a não ser que o pescoço esteja quebrado ou muito detonado. Mas ali estava ele, seus olhos cravados em mim.

E foi aí que notei os olhos.

Na verdade, não existiam. Eram apenas dois buracos nojentos olhando para mim e, sim, ele ESTAVA olhando. Tenho certeza que aquele cadáver tinha olhos quando chegou mais cedo ao necrotério. Mas isso não importa. O que importa é que agora tinham sumido.

Pisquei.

Desta vez, estava sentado na ponta da mesa, com as pernas pendendo para fora. Ele balançava as pernas como uma boneca de pano, e foi com esse movimento tenebrosos que encontrei minha voz. 

Gritei e corri para a porta.

Você se lembra dos corredores que mencionei antes? Os compridos de luzes fracas que eu precisava passar para chegar no necrotério?

Haviam corpos alinhados no chão deles.

Corpos parados, que não respiravam, bem mortos. E nenhum deles tinha olhos.

Mas todos olhavam para mim.

Isso quase fez com que eu parasse ali mesmo, pois sentia que estava presa entre duas mortes diferentes. Estava totalmente apavorada com a ideia de que, se eu pisasse no corredor, eles pulariam em mim como pássaros demoníacos e arrancariam meus olhos para que eu não olhar para eles. Ao mesmo tempo, eu sabia que o outro cadáver estava se aproximando rapidamente. 

Então cometi um erro. Me virei para trás.

Ele estava de pé, a menos de 30 centímetros de mim.

Aqueles buracos no rosto olhavam para mim enquanto a pouca pendia aberta, desengonçada. Uma vibração esquisita emanava do cadáver, e um filete de sangue caia pelo canto de sua boca.

Meu corpo fez a decisão por mim. Corri.

Corri, corri, corri, corri até que consegui sair do hospital. As enfermeiras de plantão tentaram me impedir, mas eu não podia ser impedida. Corri algumas quadras que separavam o hospital de nossos dormitórios. Corri para dentro e caí no chão, assustado imensamente a Irmã Ruth, que estava monitorado o andar naquele dia. 

Irmã Ruth era rigorosa, mas era boa de coração. Ela sabia que eu deveria ficar no necrotério até as quatro da manhã, então estava pronta para me xingar quando viu meu rosto. Não sei exatamente o que ela leu na minha expressão, mas não me castigou. Também não me perguntou o que aconteceu. Simplesmente ligou para o hospital notificando que teriam que mandar outra pessoa lá para baixo para me substituir.

Quando desligou o telefone, eu já estava soluçando, o medo escorria pelos meus olhos. Ela colocou os braços em meus ombros e sussurrou "shhh, está tudo bem, você não precisa voltar pra lá".

E não voltei. Em todos meus anos como enfermeira, nunca mais voltei para aquele necrotério, aliás, nenhum necrotério. Não sou uma estranha para a morte. Essas coisas não me assustam mais. 



17 comentários:

  1. Gostei, me lembrou bastante de jogos como slender e amnesia.

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  2. Me lembrou o Lazaru's effect ou Renascida do inferno :v

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  3. Me lembrou o Lazaru's effect ou Renascida do inferno :v

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  4. Haushs renascida do inferno. Gostei da creepy, fazia tempo que não lia uma creepypasta desse gênero, bem legal, deu um climazinho de história de vó e pude até sentir a tensão da moça, daora.

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  5. Isso me lembrou os anjos do Doctor Who, que se vc pisca-se, desligasse a luz, ou até mesmo se virasse de costa para as estátuas dos anjos ele se aproximava cada vez mais... até te matar. Era tenso os episódios que tinham esses anjos...

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Também pensei nos weeping angels

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    3. Porra, lembrei deles também 0-o os anjos que choram.. Doctor who sz

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    4. Caramba não foi só eu que lembrei kkkkkkkkk Doctor Who melhor coisa ❤

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  6. Isso me lembrou os anjos do Doctor Who, que se vc pisca-se, desligasse a luz, ou até mesmo se virasse de costa para as estátuas dos anjos ele se aproximava cada vez mais... até te matar. Era tenso os episódios que tinham esses anjos...

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  7. :O meu deus, senti uma emoção e medo ao ler isso... É a primeira creppy pasta que leio e posso dizer que adorei, senti uma tremenda adrenalina apenas a ler esse texto nunca pensei antes que isso fosse possível !

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  8. Muito boa, sensacional, perfeita!!! Fazia tempos q eu nao lia uma creepy assim, ah, agora eu fiquei nostalgico. Mano, muito boa, chega fiquei com um frio na barriga.

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  9. É isso aê CPBR!!!! Continuem assim!! Quando eu terminei eu me lembrei de uma gameplay de um jogo de terror q eu vi, que um manequim fica te perseguindo e toda vez q vc olha pra trás ele ta mais perto..

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