Postagens Semanais

Segunda-Feira
Francis Divina

Terça-Feira
Gabriel Azevedo

Quarta-Feira
Francis Divina

Quinta-Feira
Gabriel Azevedo

Sexta-Feira
Talisson Bruce

Sábado
==========

Domingo
==========

O motivo para eu não fazer mais trilhas

Preparados para mais um conto nojento? Espero que sim. Essa história pode não ser adequada para o público sensível.  
-

Não quero escrever sobre isso. Mas meu médico sugeriu que eu colocasse em palavras no papel, para que ele tenha uma ideia melhor de como tudo aconteceu. Então vou resumir. Ele nunca viu algo desse tipo em 30 anos de carreira e, na verdade, quer falar sobre o meu caso em uma conferência de Otorrinolaringologia no verão que vem. Então porquê eu estou postando essa história aqui? Porque se eu vou sofrer para escrever, que os outros sofram lendo. Sim, sou um babaca. 

Sempre fui um homem do ar livre. Trilhas sempre foi minha praia. Depois do divórcio, fiz o que achei que deveria fazer: largar meu emprego e fazer todas as trilhas das Cordilheiras dos Alapaches. Sabe como os treinadores dizem para a gente "deixar para lá" quando perdemos um jogo? Depois de ser sodomizado pelo leão da pensão alimentícia, eu precisava da caminhada mais longa possível. Então fui.

Era março quando comecei estava frio pra caramba por um tempo, mas eu sabia que esquentaria no progresso da trilha. Contrariando o desejo de todos meus amigos, insisti em ir sozinho. Eu era um alpinista com experiência. Não, nunca tinha feito uma distância tão longa antes, mas estava com bom condicionalmente físico e sabia bastante sobre passar um bom tempo ao ar livre por ter passado muito tempo nas florestas com meu pai antes dele falecer. 

Para ser honesto, as seis primeiras semanas me entediaram pra caralho. Sim, a paisagem era linda. Sim, o sentimento de completar aquilo e ter mais experiência no final seria memorável. Mesmo assim, foi bem chato. Me encontrei andando cada vez mais rápido, esperando terminar um dia ou dois mais cedo para não ter que lidar mais com aquilo.

Pra ajudar, no pico do meu tédio, peguei uma gripe terrível. Foi um pesadelo. Parecia que a cada dez passos eu tinha que parar, pegar uma folha velha e tirar um litro de ranho de mim. Para aqueles que estão rindo de mim e falando o quão estúpido eu sou de não assoar o nariz sem folhas de árvore velha, ficou feliz de te dar o prazer de uma risada. Mas a realidade da situação era outra. A única vez que tentei assoar meu nariz sem uma folha, tudo que consegui foi um ranho amarelo pendurado que ia das minhas narinas até meus joelhos. Então obrigada por rir e vá se foder. 

De qualquer forma, os dias iam passando e eu parecia um personagem de João e Maria, só que ao invés de migalhas de pão, eu deixava uma trilha de folhas ranhentas. Comecei a me preocupar que a gripe não estava melhorando nem um pouco. Pelo contrário. Meus seios nasais estavam cheios de muco. E quando eu digo cheio, é pra valer; sabe quando você está na cama e vira a cabeça para um lado e consegue sentir o muco drenando e há aquele alívio momentâneo? Esse alívio não existia para mim. E acada poucos minutos, eu estava assoprando meu nariz em qualquer coisa que achasse pelo caminho. 

Em uma manhã no começo de Maio, depois de estar gripado por duas semanas, eu soube que tinha que sair da trilha e procurar uma clínica de saúde. Tinha certeza que eu estava com uma infecção nos seios nasais e estava afetando seriamente o meu desempenho nas caminhadas. Saí da trilha e fui em direção a uma cidade.  

O mapa indicava que eu teria de ficar fora da trilha por quase um dia inteiro. Não era a situação ideal, mas eu realmente precisava de antibióticos. Mas esse desvio foi difícil. Depois de alguns quilômetros, a pressão nos meus seios nasais começou a se transformar em uma dor absurda. Tive que sentar e descansar. Não havia possibilidade de eu chegar na cidade antes de escurecer no ritmo que eu estava indo. Dei o meu melhor para assoar o conteúdo do meu nariz, que agora estava em uma coloração amarelo escuro e na consistência de um chiclete. 

Eu usei meus dedos para puxar o máximo que pude. Mas não tive quase nenhum alívio. A maior parte estava bem dentro dos seios nasais, e não importava o quando eu enfiasse o dedo ou assoasse, não saía. Passei por um pequeno riacho para poder limpar minhas mãos nojentas. Puxei a meleca dos meus dedos e tive um vislumbre de algo que me tirou o ar por alguns segundos. Olhei de baixo da minha unha do meu dedo médio. Enfiado ali junto com a terra compactada e ranho, estava um inconfundível verme branco. 

Foi naquele momento que eu surtei pra valer. Tirei de baixo da minha unha e analisei. Não era um verme inteiro. Parecia que minha unha havia partido a parte da frente ou de trás daquela coisinha. A pressão só aumentava enquanto meu pânico crescia. Falei para mim mesmo que talvez o verme já estivesse ali na unha antes de eu cutucar meu nariz. Foi uma consolação bem fútil. Todas as noites nos últimos dias, eu ouvia o que achava ser a movimentação do meu muco. Mas agora eu sabia. Eu sabia o que estava ouvido se movimentar. E quando percebi isso, eu perdi o controle. 

Ao invés de tentar assoprar o nariz, eu puxei o ar, tentando fazer que aquilo fosse para minha garganta e assim eu pudesse cuspir. Depois de algumas puxadas frenéticas, eu senti algo no fundo da garganta. Cuspi no chão. No chão de terra, um verme gordo e branco da metade do tamanho do meu mindinho estava se debatendo em meio da meleca amarela. Gritei. 

Várias e várias vezes eu continuei repetindo essa ação para tirar mais deles. Apenas um saiu. Com uma ligeira diminuição na pressão, eu conseguia senti-los de verdade. Era a primeira vez que eles conseguiam se mexer porque antes estavam muito apertados. Mas agora, passeavam livremente. Eu sentia o corpo deles se arrastando por trás do meu nariz e olhos. Comecei a hiperventilar quando senti um escorregando pela minha narina. E tentei arranhar e puxá-lo com os dedos, mas não conseguia. Ele só ficava vagando por ali. 

A sensação era indescritivelmente horrível e eu precisava tirar aquela coisa de mim. Apertei minhas narinas o mais forte que pude com as mãos. Senti o verme explodir e uma gosma cinza saiu de seu corpo destruído. Tendo-o derrotado, agora eu podia tirar o seu corpo do meu nariz. Tinha mais ou menos 7 cm de comprimento. Caiu no chão da floresta como uma camisinha usada. 

Enquanto o terror que eu sentia era imensurável, ter expelido três vermes fez com que eu tivesse um alívio muito grande da pressão. Mas ainda podia sentir os outros rastejando dentro do meu rosto. Pelo menos o meu respirar estava muito, muito melhor. Comecei a correr em direção da cidade. Não parei até chegar lá. 
  
Não há muito mais a se dizer. Consegui chegar até uma estrada e uma boa alma me deu uma carona até a clínica mais próxima. O médico local ficou bastante surpreso, mas não pareceu achar que eu corria grandes perigos. Perguntou onde eu morava, fez uma pequena pesquisa e achou um Otorrinolaringologista que ficava a poucos quilômetros da minha casa. Mais tarde, naquela noite, eu já estava em um avião para minha cidade. As mudanças de pressão no avião estavam acabando comigo, parecia que os vermes estavam dando uma festa dentro da minha cara, mas consegui com muito esforço manter a compostura. O cara do meu lado não gostou muito que passei a viagem inteira assoando o nariz e cuspindo em uma sacola. 

Na manhã seguinte, me encontrei com o Otorrino. Ele fez vários procedimentos com microcâmeras pelo meu nariz e garganta que me deu muita vontade de vomitar, e fazia vários sons de surpresa e extremo interesse pelo o que estava vendo. Depois de extrair mais sete daquelas coisas, me advertiu que poderiam ter ovos ainda lá dentro e que eu teria que fazer um tratamento para isso. Também tentou desvendar como eles tinham entrado ali. Levou apenas 20 minutos para ele concluir que eu enfiei sem querer ovos de vermes no meu nariz quando usei a primeira folha para assoar o nariz. Ou seja, era uma gripe normal, eu que piorei. Maravilha. 

E era isso. Nas semanas seguintes, ele fez outros procedimentos para limpar meus seios nasais e me deu algumas pílulas que assegurou que mataria qualquer coisa que pudesse ter ficado lá. Semana passada, pediu que eu escrevesse isso aqui para poder dividir com seus colegas Otorrinos, os quais estavam com muita inveja por não terem pego um caso tão legal assim. 

Então, bem, olá! Minha vida agora é assim, pessoal. Toda vez que vou assuar meu nariz, eu acho que vai sair um verme branco, gordo e nojento no papel higiênico. Tenham uma ótima conferência.