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Vale da Estranheza

Você já ouviu falar do Vale da Estranheza?

Sou obcecada por isso faz anos. Veja, o Vale da Estranheza se refere ao efeito onde quanto mais humano algo se parece, mais assustador fica. Por exemplo, vamos dizer que uma companhia desenvolve um robô que se parece com a Angelina Jolie. Não importa o quão natural eles achem que possam tornar o robô, não seria uma representação perfeita de um ser humano. Ainda conseguiríamos perceber as diferenças. Talvez teria um atraso na movimentação dos olhos, ou os movimentos das mãos seriam mecânicos demais. De qualquer forma, não importa o quão realística fosse, ainda não seria humana. A companhia tentaria fazer com que ela se parecesse cada vez mais real, e quanto mais humana se parecesse sem de fato ser uma pessoa, mais... repulsa sentiríamos. 

Meu primeiro contato com esse efeito foi porque minha irmã gostava de bonecas. 

Ela é um pouco mais velha que eu, mas sua obsessão não diminuiu com a idade. Eu tive a infelicidade de ter que dividir o quarto com ela. Colecionava diversos tipos de bonecas, em sua maioria eram de porcelana e de juntas articuladas. Você já viu uma boneca articulável? Se não viu, você está com sorte. Tem umas bem absurdas, com olhos desproporcionais em seu rosto. Mas não é tão ruim. Algumas parecem pequenos seres humanos presos em uma caixa de vidro. Se encaixa bastante no Vale da Estranheza, sem dúvida. 

Eu costumava ter pesadelos com aquelas bonecas quando era bem novinha. Sonhava que estavam escalando minha cama e eu não conseguia fugir. Eu me sentia paralisada, assistindo-as vir em minha direção com suas articulações duras, seus olhos de vidro que nunca piscavam. Elas abriam minha pele com suas mãozinhas e entravam dentro de mim enquanto eu gritava e gritava e gritava...

Implorei para minha mãe me dar um quarto só para mim, ou que eu dividisse o quarto com meu irmão. Ela dizia "Não tem nada a se temer, são apenas bonecas e não podem te machucar." Acho que queria que eu superasse meu medo, mas seu plano falhou. Ao invés disso, meu pavor por bonecas se transformou em uma fobia absoluta que começou a afetar outros aspectos da minha vida. Comecei a notar que outras... coisas humanoides... começaram a me incomodar também. Manequins. Fantasias de palhaço. Estátuas. Por muito tempo, vivi com medo. 

Meus pais não aguentavam mais, e foi aí que me levaram em uma psiquiatra, que me apresentou o efeito do Vale da Estranheza. Entender meu medo me ajudaria a superá-lo, ela disse. Acho que está certa. Demorou muito, mas finalmente eu superei minha fobia. Ah, eu ainda não gosto de bonecas, mesmo depois de tanto anos, mas não tenho (normalmente) pesadelos se vejo uma. Consigo lidar com manequins, mesmo que me deixem inquieta. Acho que consegui tomar controle sobre isso.

Bem, consegui.

A razão de eu estar contando tudo isso para você é porque algo... mudou. E eu mesma não estou conseguindo entender o que está acontecendo.

Começou a algumas semanas atrás quando acordei de manhã para ir para o trabalho. Você já acordou um dia, se olhou no espelho e não se reconheceu? Sabe, você tem aquela sensação de "essa pessoa está olhando para mim" e você não se sente como você. Fica com aquela impressão de que algo está fora do lugar. 

Bem, era isso que estava acontecendo comigo. Mas aquela sensação não passou depois de piscar os olhos algumas vezes para clarear as ideias. Não, eu continuei olhando para o espelho, achando que havia algo de errado comigo. 

Eu não tinha muito mais tempo para nada, sendo que já estava atrasada, então sai do meu apartamento apressadamente, esperando que aquele sentimento passasse junto com o dia.

Infelizmente, eu não fui a única a notar.

"Hey, Lizzy, você pintou o cabelo ou algo do tipo?"

O carinha fofo do departamento de transporte estava me olhando dos pés a cabeça com uma expressão confusa em seu rosto. Deus, ele continuava lindo mesmo quando desorientado. Ele era o tipo de cara que você gostaria de comer sushi diretamente no tanquinho dele, mas nunca tinha prestado atenção em mim. Mas ali estava ele, falando diretamente comigo. Tentei ajeitar meus pensamentos corridos e embaralhados e formar uma frase decente. 

"Não, por quê?" Perguntei, me xingando mentalmente por ter sido tão monossilábica. Na verdade, eu só estava nervosa pra caramba. 

"Ah, você só está... diferente hoje. Mas está bonita!" Ele sorriu para mim tão brilhantemente que quase esqueci o que havia visto hoje de manhã no espelho.  Quase, mas não. 

Eu esperava que tudo estivesse normal no dia seguinte. Talvez eu estivesse apenas com a aparência cansada no dia anterior, e Tanner - o gostoso do Transporte - estivesse apenas sendo simpático. Ok, isso não parecia ser 100% verdade, mas talvez se me forçasse a acreditar, tudo ficaria bem. Claro, isso até o dia seguinte quando olhei no espelho. 

Algo tinha mudado definitivamente.

Eu não tinha que ir pro trabalho, então sentei em frente ao meu espelho como uma narcisista babaca tentando entender o que diabos estava acontecendo comigo. Rapidamente estava virando uma obsessão a minha procura do que havia de diferente. A resposta não foi imediatamente aparente, mas depois de algumas horas, percebi algo.

Meus olhos. Havia algo esquisitos sobre meus olhos.

Meus olhos sempre foram de um cinza fosco, nada muito surpreendente. Mas agora, de alguma forma, estavam mais escuro. E a cor parecia se espalhar mais do que deveria, cobrindo um pouquinho do que deveria ser branco. A mudança foi tão sútil que mal percebi, mas ali estava, estampada em meu rosto. 

Assim que fiz essa descoberta, outras coisas começaram a aparecer para mim. Meu cabelo estava mais escuro - mas só um pouquinho - e mais grosso também. Olhei para a raiz do cabelo e parecia mais... definidas, se é que isso faz sentido. Como se não tivessem crescido naturalmente, mas sim implantadas ali. 

Minha pele parecia mais limpa, mas só um pouco, como se a cor estivesse mais bem distribuída. Minha unhas, que sempre tiveram a propensão a quebrar e descamar, estavam perfeitamente lisas e translucidas.

Era quase como se eu estivesse olhando para uma versão boneca minha.

Bonecas. Vale da Estranheza. Meu coração disparou.

Minha mente começou a sobrecarregar e comecei a entrar em pânico. Estava prestes a pegar meu celular, com a intenção de ligar para minha terapeuta que não via faziam dez anos, quando consegui me acalmar o suficiente para pensar um pouco.

Você está sendo ridícula, minha voz da razão disse. Você está estressada e imaginando coisas que não estão lá. Você é um ser humano. Olhe, você está se mexendo, respirando, entrando em pânico, pensando... tudo são características da humanidade que existe em você. Você está bem. Tudo está bem. 

Decidi que minha voz da razão estava certa e larguei meu celular. Seria melhor ignorar o problema, talvez assim sumisse (como se isso tivesse alguma vez funcionado...). 

Só que não sumiu. E outras pessoas começaram a notar.

Recebi outros comentários como os de Tanner. As pessoas queriam saber se eu tinha pintado o cabelo, feito uma dieta ou se estava usando maquiagens novas. Eu só sorria e tentava mudar de assunto. Mas logo os comentários pararam e as pessoas começaram a agir diferente comigo. Bem, na verdade as pessoas me evitavam no geral. Notei que todos estavam esquivando de mim, me olhando estranho. Quando estavam ao meu redor, elas pareciam... perturbados. Como se algo em mim deixassem os outros desconfortáveis.

Vale da Estranheza, a voz do medo sussurrou para mim.

Está piorando. De alguma forma, todas minhas imperfeições humanas estão sendo suavizadas.  E tudo dentro de mim está começando a parecer mais entorpecido. Não dou mais risada nem sorrio muito. Não é que eu não consiga - minha pele não está virando de plástico, meus olhos não estão virando de vidro. É como se a coisa que ficava dentro de mim e me fazia sorrir, chorar ou gritar tenha começado a petrificar, mesmo que eu seja de carne e osso.

Certamente não sou uma boneca. Isso eu sei. Mas estou começando achar que nem humana sou mais. 

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