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Minha avó, que tinha Alzheimer, morreu ontem a noite.

Ontem a noite minha avó faleceu. Ela tinha 79 anos. O que, na minha opinião, é bastante tempo. Na verdade isso é 3 anos acima da média dos Estados Unidos. Então acho que não posso reclamar. Mas mesmo assim, é muito triste. 

A morte de minha vó não foi uma surpresa. Nos últimos 5 anos (ou mais), ela sofria de Alzheimer. Sempre foi um pouco desatenta, então no começo ninguém notou que tinha algo de errado. Então, com o passar do tempo, tudo começou a ficar mais aparente.  Entrar em lugares e não lembrar o que foi fazer lá. Fazer um prato diferente do que tínhamos combinado no jantar. Chamar alguns dos meus tios pelo nome errado. Coisas pequenas. Mas logo ela começou a acordar no meio da noite para limpar a casa como se fosse no meio do dia. Ficar olhando para uma parede branca por horas e horas a fio. Não conseguir fazer jantar nenhum. Não lembrar o nome de ninguém. 

Alzheimer é uma doença diabólica. Te come por dentro. Faz um banquete do seu eu antigo, no eu que todos conhecem, no eu que todos adoram. Te esvazia e deixa outro alguém para trás. 

Minha avó sempre foi uma pessoa feliz. Ela amava crianças. Provavelmente essa foi a causa de ter tido 5 filhos. E ela ficou ainda mais feliz quando esses filhos lhe deram 9 netos. Cerca de 2 anos depois do diagnóstico (tecnicamente era demência, sendo que o Alzheimer só se pode diagnosticar depois da morte), ela mesma virou essencialmente uma criança. Risadinhas, sempre sorrindo, palavras sem sentido. Foi muito triste ver ela regredir desse jeito, mas pelo menos ela estava feliz. Isso era o que todo mundo falava o tempo todo: "É triste, mas pelo menos ela está feliz".

Mas no seu último ano, não foi esse o caso. Ficou introvertida. Distante. Confrontante. Ela não saia da cama. Tinha que ser alimentada a força. Isso se tornou uma pressão enorme nos ombros de meu avô. Mesmo sendo apenas alguns meses mais jovem que ela, ele ainda estava muito são e saudável. Sendo um aposentado das Forças Aéreas dos Estados Unidos, provavelmente era o homem mais forte que eu conheço. E vê-lo se desgastando pela mulher que amava, com quem passou mais de 50 anos junto e com 5 filhos... Isso provavelmente foi mais devastador que o Alzheimer.

Mas logo isso se tornou pressão demais. Minha avó foi colocada em uma moradia assistida onde eram especializados em pacientes com demência. Fica a apenas 10 minutos de carro da casa deles, assim me avô podia visitá-la todos os dias e as vezes até passava a noite inteira em um sofázinho ao lado da cama dela. Mais de 50 anos de casamento faz você fazer esses tipos de coisas.

No momento estou terminando meu último ano na faculdade. Três dias atrás minha mãe me ligou e disse que a saúde da vovó tinha pirado drasticamente. Ela não comia. Ela não falava. Ou ela dormia ou ficava deitada em sua cama em completo silêncio olhando para o nada. Seu médico falou para o vovô que o tempo dela estava chegando ao fim. Minha mãe queria que fossemos lá antes que fosse tarde de mais. Então faltei minhas aulas de sexta-feira e fui de carro com minha mãe dar nossos adeus.

Eu nunca tinha ido visitar a vovó na moradia assistida. De fora parece uma casa normal, só que mais estranha e bem maior. Tinha um balanço de dois lugares na varanda da frente. Algumas cadeiras de balanço que pareciam bem confortáveis. Algumas plantas em vasinhos. Um belo jardim. Nos fundos algumas sequoias e um riacho tranquilo. A única coisa que entrega que é mais do que uma casa tranquila no campo, é um enorme portão de metal na entrada e mais um muro de concreto de 3 metros de altura que cerca toda a propriedade. Faz com que se perca toda a serenidade de dentro do local.

Dentro, os funcionários tentam manter a mesma aparência convidativa. Milhares de almofadas e cobertas de crochê. Pinturas e artesanatos pendurados nas paredes. Mais plantas em vasinhos. Mas mesmo assim é estéril como um hospital. Da pra sentir no cheiro. Quando cheguei lá, haviam vários idosos em vários estados de sono em um grande sofá acolchoado em frente a uma televisão moderada. Estavam na metade do filme Monstros S.A.

O quarto da minha avó ficava logo depois de um corredor e virando a direita. Minha mãe e eu fomos recebidos pelo meu avô. Ele se levantou do sofázinho ao lado da cama da minha vó e nos abraçou. Vovó estava dormindo. Ele falou que ela havia comido uma colher cheia de maçã amassada de manhã, mas além disso, só ficou dormindo o dia inteiro. 

Ele continuou falando, mas eu mal o ouvia. Eu não podia acreditar no que meus olhos estavam vendo. Minha avó sempre tinha sido uma mulher encorpada. Não que tivesse sobrepeso ou algo do tipo, mas era algo que gosto de chamar de saudável. Entretanto, agora estava bem longe disso. Estava magra e enrugada como uma uva passa humana. 

Uma pele esticada que abraçava os ossos frágeis. Seus olhos se afundavam no crânio. Sei que é isso mesmo que acontece quando as pessoas chegam nesse estágio, mas... era chocante. Fazia pouco mais de dois ou três meses que eu a havia visto e sim, ela já estava magra naquela época, mas não como agora.

Minha mãe e meu avô continuavam a conversar, mas parecia um ruído distante para mim. Meus olhos estavam grudados na minha avó. De repente, suas pálpebras abriram. Ela estava olhando na minha direção. Aquele olhar. Não via aquele olhar a muito tempo. Reconhecimento. Não sei explicar, mas em seus olhos pude ver que sabia quem eu era. Mas era mais que isso. Era como se ela estivesse tentando me dizer algo. Olhos mais arregalados o possível. As pupilas tremiam em concentração. Uma lágrima lenta escorregou até seu queixo. Dei um passo para trás e bati sem querer no meu avô. 

"Ah, ela acordou," ele falou andando em direção a cama, gentilmente colocando a mão no gravetinho que era o braço dela. "Olhe quem veio te vistar, Gina." Minha mãe também foi para o lado dela. Minha avó não tirou os olhos de mim por um segundo. Aqueles olhos... implorando... a imagem ainda está gravada em minha retina. 

Era demais para mim. Saí do quarto e fui para a sala de estar do lugar. Me sentei em uma poltrona de couro bem confortável e assisti o final do Monstros S.A. Cerca de vinte minutos depois minha mãe veio e se juntou a mim. Minha avó estava dormindo novamente. Melhor deixá-la descansar.

Não sei bem quando, mas entre o final de Monstros S.A e o começo de Wall-E, adormeci. Quando acordei, estava escuro lá fora. A moradia tinha aquelas enormes luzes florescentes acesas. Creio que seja menos necessário parecer como uma casa de verdade e mais como um hospital a noite. Depois de meus olhos se ajustarem a luz, percebi que minha mãe não estava mais lá. Um senhor estava sentado de frente para mim em um sofá. Barbeado, vestido elegantemente, seu cabelo fino e prateado penteado para trás. Ele sorria para mim.

"Dirmiu bem?" perguntou para mim.

"Desculpa, não era minha pretensão dormir."

"É assim que as coisas funcionam aqui. Ou você dorme, acorda, esquece o que estava fazendo e adormece de novo, ou vai dormir e nunca mais acorda."

Achei que isso era uma coisa bem mórbida a se dizer. Mas provavelmente é a verdade. Não sabia o que responder, então só sorri.

"Como Jimmy está? Ainda jogando bola?" o senhor perguntou.

"Desculpa, não conheço nenhum Jimmy."

"Ele sempre foi um ótimo jogador. Me lembro quando vocês dois jogavam na defensiva. Quebraram a janela do Sr. Wilson umas três vezes!"

"Haha, sim." Lembrei que essa era uma moradia para pacientes com demência. Era melhor só ir acompanhando a conversa vagamente.

"Mande um olá meu para ele quando o ver," o senhor pediu, se ajeitando em seu lugar e olhando novamente para a TV.  "Você o verá. Em breve. Em breve."

"Sim..." Sei que aquilo era inofensivo, mas o jeito que ele repetiu o 'em breve' duas vezes me deixou apreensivo. Disse como se não tivesse dúvida. Como se fosse um fato inevitável. Tentei assistir um pouco de TV mas meus olhos não se focavam no programa.

De repente um grito soou no ar. Um uivo gutural que ecoou pelo corredor. Instintivamente me levantei em um pulo.

"Viu, aí está ele," disse o idoso a minha frente dando um sorrisinho.

Rapidamente fiz meu caminho até o quarto de minha avó. Quando passei pela porta, eu a vi. Estava de pé, batendo violentamente com os braços em meu avô e com enfermeiras tentando dominá-la. De algum jeito, aquele grito primitivo estava vindo da boca dela. Me ouviu entrar e mais uma vez cravou aqueles olhos em mim. Suas pupilas eram pequenos círculos contraídos em um mar branco.

A enfermeira usou esse momento de distração para agarrá-la. Ela berrou novamente enquanto jogavam-na em uma cadeira de rodas e amarravam seus pulsos nos braços da cadeira. Suas pernas também foram contidas.  Tentaram tirá-la rapidamente do quarto, mas eu estava petrificado na porta. As enfermeiras gritaram comigo para eu me mover, mas meus olhos estavam cerrados com os dela.

De repente ela falou.

"Eu me lembro."

Meu avô me tirou do caminho e as enfermeiras começaram a empurrá-la pelo corredor, em direção aos fundos da moradia. Tire as mãos de meu avô de mim e fui para o corredor. Minha avó estava gritando enquanto ia. Ela virou a cabeça em minha direção.

"EU ME LEMBRO! ME LEMBRO DE TUDO! VOCÊS QUE NÃO SE LEMBRAM! VOCÊS QUE ESQUECERAM!"

Foi levada para um quarto nos fundos. Um médico passou correndo por mim e entrou onde ela tinha sido colocada. Pouco depois ele voltou e anunciou que ela havia falecido. Falência múltipla de órgãos. Simples assim. 

Eles dizem que você vê coisas quando está a beira da morte. Que o cérebro produz algumas reações químicas que te fazem alucinar. A vida inteira passando diante de seus olhos. Esse tipo de coisa. Também dizem que é por isso que algumas pessoas relatam ver o céu antes de morrer. Apenas reações químicas. Alucinações racionalmente explicáveis. 

Eu realmente não sei explicar o que aconteceu no momento em que minha vó morreu, mas não consigo acreditar nesse papo. Pela primeira vez em anos, minha avó se lembrou. Pude ver em seus olhos. Ela sabia de algo que nenhum de nós sabia. Algum segredo.

Algo que esquecemos.