11/04/16

Os bosques e o fundo do mar são assustadores. Mas essa cidade também é.

Trabalhei como médico por seis anos em uma região metropolitana que consiste em um grupo de cidades pequenas e médias. Nossas maiores cidades tem por volta de 60 mil a 100 mil habitantes, mas juntando todas chegamos perto de 500 mil habitantes. Recentemente tenho visto diversas histórias sobre coisas assustadoras que acontecem em florestas e outras áreas isoladas, mas estou aqui para dizer que as cidades não são menos assustadoras, e qualquer pessoa que tenha trabalhado em  uma emergência de uma região metropolitana falará o mesmo para você. 

Devo mencionar que em serviços de emergências médicas temos uma tendência a ser um pouco brutos e insensíveis, não direcionados diretamente aos pacientes ou algo parecido, mas entre nós mesmos. Apelidos que não são nada politicamente corretos e outras coisas parecidas. Acho que é só mais um jeito de lidar com o estresse do que qualquer outra coisa. Por causa da HIPAA, terei que mudar alguns detalhes e nomes, mas o resto será exatamente duas coisas bizarras que aconteceram comigo. 


O diabo que você não conhece.


Começarei essa história dizendo que fui criado por uma família católica mas não sou mais um fiel, mas esse caso me fez ter vontade de voltar a frequentar a igreja. Eram oito da noite no começo de outono, o sol estava se pondo e a cidade estava se acalmando da hora do rush. Na minha empresa, trabalhávamos em expedientes de 24 horas, mas não era incomum que os profissionais pegassem horas extras depois dessas 24 horas (principalmente quando ocorriam eventos especiais como corridas de carro, eventos de MMA, qualquer coisa que precisasse de ambulâncias no local).

Minha parceira e eu estávamos indo para um posto de gasolina encher o tanque do nosso veículo depois de um longo dia de trabalho, nesse ponto eu já estava de plantão a 36 horas. Minha colega dirigia e eu ia no banco do carona, tentando manter meus olhos abertos, quando passamos por um Impala parado no acostamento da outra via, a cabeça do motorista estava encostada no volante e não parece estar se mexendo. Mostro a cena para minha colega e ela só acenou com a cabeça, acendeu as luzes da ambulância e fez a volta no próximo retorno para irmos em direção do Impala. 


Pensando agora, eu queria ter apenas ligado para a equipe em ativa para resolver esse caso, sendo que tecnicamente já não estávamos mais em plantão, mas se fosse uma parada cardíaca, cada segundo importava. Pulei para fora da ambulância e me aproximei do veículo enquanto minha parceira ligava pelo rádio informando que estávamos fazendo esse atendimento e pegava a bolsa do pulo (o nome que demos para a nossa bolsa emergencial onde contém o kit com o tanque de oxigênio, máscaras de oxigênio e o essencial para começar uma intravenosa).


No assento do motorista estava uma mulher Afro Americana de estatura média que aparentava ter uns 70 anos, sua cabeça ainda encostada no volante e totalmente imóvel. Dei uma batidinha na janela, mas sem resposta. Tentei abrir a porta do motorista, estava trancada. Bem, talvez eu terei que quebrar a janela. Virei para minha colega para pedir que o quebrador de janela quando ouço a porta do carro abrir. A senhora está de pé e se aproximando, sorrindo docemente, me dizendo que o carro não quer dar partida. Ok, foi estranho que ela não respondeu de imediato quando bati na janela, mas tudo bem. Não sou um mecânico nem de jeito nem de formação, mas não vou deixar essa senhora na mão no meio da estrada. 

Eu começo a tentar encontrar o problema com o carro enquanto minha parceira conversa com a senhora, giro a chave na ignição mas o carro não pega, foi aí que notei que não havia gasolina no tanque. Tudo bem, acontece nas melhores famílias. De onde eu estava dava para ver o posto de gasolina mais próximo, então penso em apenas ajudá-la a empurrar o carro até lá e encerraria por ali. Um policial tinha acabado de estacionar perto da gente para ver o que estava acontecendo, e eu sai do carro para falar para a senhora o motivo do seu carro não estar pegando e foi aí que a coisa começou a ficar louca.  

O policial ficou conversando com minha colega e a senhora, e cheguei explicando que o carro estava sem gasolina, então decidimos que nós dois iriamos empurrar o carro até o posto enquanto minha colega ia dirigindo a ambulância na frente para que não fossemos atropelados. O policial foi explicar para a senhora o que iriamos fazer e pousou sua mão no ombro dela e BOOM, como se tivesse ligado um interruptor, a senhora mudou completamente. "Não encoste em mim!" ela gritou, empurrando com força o braço dele. O policial foi pego totalmente de surpresa, pois a um segundo atrás era apenas uma senhora muito querida. Andei até eles, querendo acalmá-la, mas toda sua postura estava diferente agora, ela estava gritando e berrando sobre insetos que vão devorar a carne dos indignos, sacudindo os braços loucamente. Logo, começou a andar em direção da estrada, então o policial segura um de seus braços e eu o outro para evitar um atropelamento e tentamos afastá-la do trânsito. Digo que tentamos porque essa senhorinha que não devia pesar mais que 70 quilos nos derrubou gritando "Não me toquem!". Quando digo que nos derrubou, não quero dizer "wow, nos jogou longe" mas tropecei e caí para trás assim como o policial e isso que nos dois somos homens bem corpulentos. Em condições normais, uma mulher idosa como ela não teria toda essa força. 


Foi aí que pude finalmente dar uma boa olhada no seu rosto. Estava retorcido, não de um jeito fisicamente impossível, mas certamente em uma expressão nada confortável de se manter, e os olhos... Olha, durante meus anos de trabalho, vi muita gente com olhares loucos, olhares enraivados, olhares de morte, olhos que estavam pendurados para fora da cavidade ocular, mas nunca tinha visto olhos com aquele ódio puro e real. Ela começou a falar virada para mim e era... bem, não sei que língua era, mas não era inglês. Acho que era só um monte de palavras inventadas, mas na época fiquei me borrando de medo.


Antes dela chegar perto demais de mim, ouvi um estalar e um crepitar. O policial já estava farto daquela palhaçada e depois de se levantar rapidamente deu um choque nela com seu Taser. Já vi homens que pareciam montanhas caindo com só um choque desses, mas para ela o policial precisou dar três choques. Minha parceira, sendo muito esperta, já estava com a maca e as algemas acolchoadas para prendê-la. Eu ainda estava um pouco abalado pelo incidente, mas consegui amarrá-la e o policial ainda a algemou a maca só para ter certeza que ficaria bem presa. Ele também nos acompanhou até o hospital (que ficava a apenas alguns minutos dali), e fomos com as sirenes ligadas, que geralmente só é usada quando o paciente está morrendo. 


Fiquei na parte de trás junto com a mulher amarrada e ela ficava alternando risadas maléficas com palavrões e proclamações sobre... hm, vamos dizer que era sobre minhas região masculina privada sendo devorada por vermes. Com certeza ela tinha uma queda por vermes. Sei que a coisa toda pode ter acontecido por um simples surto psicótico, mas nenhuma adrenalina natural do corpo humano aguentaria dois choques de taser. Quem dirá três. Juro que naquele dia eu fiquei olho no olho com o Diabo. 


O homem imortal.


O homem imortal era um passageiro frequente na minha ambulância. Eu sei que parece absurdo mas o cara realmente é imortal. Vamos chamá-lo aqui de "Lou". Lou era um cara realmente malvado. A minha área tinha um problema sério com guerras entre gangues no final dos anos 90, e ele sempre estava metido no meio. Tinha inclusive uma "loja" onde vendia armas, drogas e até bombas caseiras que podiam detonar um carro. Só foi condenado uma vez por tráfico de drogas, mas todo o resto também era bem conhecido e ele não tinha vergonha nenhuma de falar abertamente sobre isso.


Chamávamos ele de homem imortal porque simplesmente se recusava a morrer. Já tinha levado onze tiros em dois tiroteios diferentes, o que fez com que ele ficasse paralisado da cintura para baixo. Não contentes em deixá-lo assim, a gangue rival o atropelou com um carro enquanto ele atravessava a rua em sua nova cadeira de rodas elétrica. Ele passou um mês na UTI, mas sobreviveu... Então eles o atropelaram uma segunda vez e mais uma vez ele não morreu! De acordo com os rumores, os caras que estava no carro foram mortos por uma bomba implantada, mas não tenho como confirmar isso. De qualquer forma, apesar de seu passado, Lou deu uma acalmada agora (no caso, fuma maconha ao invés de crack agora) e na verdade é bem amigável. Não preciso nem dizer que com todos esses ferimentos, sempre estava entrando e saindo do hospital. Então tive oportunidade de conhecê-lo bem.

Em uma madrugada, uma da manhã, recebemos uma ligação da namorada de Lou dizendo que ele não estava respirando e fomos correndo para lá, luzes e sirenes ligadas e tudo mais. Chegamos lá e verificamos que ele está respirando a cada minuto, o que é bom, pelo menos ele não está morto. Noto que há um furo em seu braço que parece bem recente, então supus que estivesse tendo uma overdose de heroína. Colocamos-o na maca e depois na ambulância. Minha parceira começa a fazer uma intravenosa enquanto eu pegava a Naloxona, e damos uma dose inteira para ele... nada. E ele havia parado de respirar.  Coloco nele os eletrodos para monitorar os batimentos cardíacos enquanto minha colega coloca a máscara de respiração e começa a apertar a bolsa de ar. Apesar das coisas que se vê nas séries médicas, geralmente não desfibrilamos pessoas sem batimentos cardíacos porque não é de muita utilidade. A única coisa que podemos fazer nesse caso é uma RCP e uma Adrenalina e rezar para que o coração volte a bater.

Durante toda minha carreira só consegui trazer de volta duas pessoas que não tinham mais batimentos cardíacos. Lou foi o primeiro. O coração começou a bater de novo e Naloxona bloqueou a heroína. Voltou quando estávamos na entrada do hospital e ele começou a gritar com todos seus pulmões. Acredito que a Naloxona junto com a Adrenalina faziam um efeito diferente nele. Eu poderia ter dado uma Morfina, mas a Naloxona teria bloqueado também o efeito e seria inútil. Então tentei conversar com ele para acalmá-lo. Eventualmente ele relaxou, e falei para ele que seus batimentos tinham parado e que quase havíamos o perdido, seguido do mesmo discurso de sempre que dávamos para pessoas que sofriam uma overdose, blá blá blá sobre vícios, blá blá blá você tem que buscar ajuda, blá blá blá se tivéssemos chegado um minuto depois, etc. Não sei se essas frases de efeito ajudaram realmente alguém um dia, mas Lou mal parecia perceber que eu estava falando com ele. Estava apenas olhando para o nada, parecendo mais sóbrio do que nunca. Perguntei qual era o problema. Tudo que falava era "Eu vi umas paradas, cara. Vi umas paradas lá no outro lado", mas não mais que isso.

Passados dois meses, eu estava levando Lou para o hospital de novo, mas dessa vez não era nenhuma emergência que se comparasse com a outra vez. Perguntei sobre o que ele tinha visto naquela noite, já que estávamos levando ele para um outro hospital e a viagem seria de mais ou menos uma hora e eu queria bater papo para passar o tempo. Dessa vez Lou se abriu e contou que tinha ido para o inferno; que sua pele estava queimando e que a dor era inimaginável. Disse que tinha conhecido o Diabo. Quase perguntei para ele se o Diabo era realmente uma senhora negra que pesava em torno de 70 kg, mas o cara estava se abrindo para mim e não quis estragar aquele momento e deixei que continuasse.

Ele continuou dizendo que era o Diabo que o mantinha vivo, que o próprio falou que ele não tinha permissão para morrer até que fizesse 100 anos, que essa seria sua penitência por seus pecados, sua tortura. Ele teria que viver até ficar bem velho, sofrendo de dores constantes, vendo todas as pessoas com quem se importava morrendo a sua volta. Falei que provavelmente aquilo fora uma alucinação e que não ficasse se remoendo com aquilo. Novamente ficou quieto e ficou olhando para o nada. Ficou assim o resto da viagem. Não sei se essa história é real, mas com certeza ele ACREDITAVA ser real e estava apavorado. Nunca mais foi o mesmo depois daquele dia. última vez que perguntei para meus colegas, ainda estava vivo. Mas já faz um tempo, então não sei.

E agora contando minha própria história, tive que sair da emergência. As constantes mortes e violência me mudaram para o pior, comecei a me tornar um homem cínico e amargo. Encontrei o alívio da minha consciência nas bebidas alcoólicas. Sei que se eu continuasse naquele ramo teria bebido até morrer. 


15 comentários:

  1. Nem é tão "creepy", surtos com força sobre-humana e EQM são comuns, já vi cada coisa...

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  2. Eh, é tipo uma compilação de coisas estranhas que aconteceram com o cara... Bem estranhas

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  3. Parece mais um relato ahashuahsua, nada demais pessoas tem alucinações e surtos psicóticos

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  4. Na minha Cidade aki,já teve gente falando que viram um homem pedindo ajuda com o carro dele ( de Noite ! )
    Pq tinha alguma coisa no motor.E então alguém parava pra ajudar e abria o capô.Mais quando fechava o Senhor ñ estava mais lá

    Ñ sei se é verdade,mais o meu Avô disse que já aconteceu com ele ...

    Gostei desses relatos ^^

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  5. Na minha Cidade aki,já teve gente falando que viram um homem pedindo ajuda com o carro dele ( de Noite ! )
    Pq tinha alguma coisa no motor.E então alguém parava pra ajudar e abria o capô.Mais quando fechava o Senhor ñ estava mais lá

    Ñ sei se é verdade,mais o meu Avô disse que já aconteceu com ele ...

    Gostei desses relatos ^^

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  6. Fiquei com dó do Lou :c gostei, terror não é só fantasmas e coisas do tipo, e essa Creepy mostra bem isso.

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  7. Gostei bastante mas e mais um relato mesmo surtos psicótico s e alucinações e o que mais tem.

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  8. Sensa! Quando eu li impala me lembrei na hora do Dean, talvez seja ele lá fazendo cosplay de velha.

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  9. Basta o Lou se jogar de um prédio de 20 andares. Quero ver se n morre.

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  10. Uau! Eu tenho esse código créditos IMVU e surpreendentemente funcionou! Eles estão dando-lhes aqui http://imvucreditsgenerator.com

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  11. Lou so me lembrou o personagem do livro nosferatu rs
    Achei legal essa creppy... Dar medo pq parece ser algo que poder acontecer cntg pois não é nd tão sobrenatural assim ...
    J.M

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