21/09/16

Os Pesadelos de Fairweather

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É uma crença popular de que a industria da televisão é uma grande cabala suja e incestuosa que lida com suas sujeiras apenas jogando-as debaixo do tapete. Sendo uma pessoa que já trabalhou em praticamente todos os cargos que eles pode oferecer - desde entregar cafézinho até produzir e dirigir - não tenho intenção nenhuma de mudar essa tipo opinião. A jogada toda é uma bagunça tóxica e estou feliz por ter saído de lá, mas deixe-me dizer, as piores coisas são o que o público não fica sabendo. 

Há milhões de histórias sobre pessoas sendo devoradas pela máquina - mastigadas, e cuspidas para queimar ao sol ardente das sarjetas de Los Angeles. Incontáveis escritores borbulhantes, estrelas aspirantes, e grandes personalidades brilhantes que foram esmagadas pelas botas coletivas da industria que por muito tempo fiz parte. 

Mas essas histórias deixarei para as manchetes. Não estou aqui para dar com a língua nos dentes sobre o vício em heroína sobre certa celebridade infantil dos anos noventa, ou a queda das diversas princesinhas do pop que foram construídas e depois derrubadas pelos mais "inovadores" shows de talentos. 

Estou aqui só para falar sobre Colleen Fairweather. 

Ela estava programada para ser a estrela da NBC nos anos 90 - uma presença de palco com um cérebro, charme, e versatilidade. Havia uma mágica em Colleen que não se via e nem tem se visto mais desde então, e era uma das poucas pessoas da indústria que eu tinha certeza que - sem contar com a politica de gargantas cortadas no geral - sobreviveria nas redes. Fui sortudo suficiente para trabalhar com ela em vários projetos, e posso atestar que realmente tinha um magnetismo peculiar a seu respeito. 

Deixe-me adivinhar, agora você provavelmente está se perguntando "Se ela é tudo isso, por que nunca ouvi falar nela?"

Vamos chegar lá. Não se preocupe. 

Colleen teve vários papéis pequenos em programas de palco e de variedades, embora eu acredite que os episódios desses respectivos programas tenham sido cortados e encontram-se não disponibilizados. Toque no nome de Colleen Fairweather para Letterman e garanto que o velhote vai ficar todo desconcertado. Essa é a natureza do comércio, quando você é alguém como ela, todos te conhecerão. 

E quando você é alguém como ela, todos estarão de acordo em negar sua existência assim que você sumir. 

É assim que funciona o mundo dos espetáculos, crianças. 

Minhas interações com Colleen eram em sua maioria transitórias, apenas pequenos "Olás" e "Como você está?" quando passávamos um pelo o outro. Minha última interação profissional com ela foi a produção de um episódio piloto de um programa que era seu queridinho muito antes dela entrar na industria da televisão. Me contou que já tinha registrado a ideia no cartório quando tinha vinte e poucos anos. Qualquer outra pessoa que tentasse fazer aquilo receberia milhares de risadas na cara, mas não ela. Conseguia adicionar seriedade a tudo que tocava. 

"Serei grande, Mike," me disse, sua voz cheia daquela confiança total que era sua marca registrada. "É novo, é o que a televisão precisa agora." 

"Tem certeza que não é um tanto, sei lá, esotérico?" Lembro de perguntar, enquanto lia o script mais uma vez. 

"Esotérico? Não tem nada esotérico nisso, Mike. O medo está no sangue do povo americano, nós amamos. Nós nos alimentamos de medo."

"Tá bom, Lovecraft, calma lá. Tenho fé no fato que você poderia executá-lo, mas não faço ideia de como venderemos isso para as redes. Pode destruir nossa credibilidade."

"Não se for verdade."

Isso fez eu pausar. 

"O fato é, Mike, que o público americano está enjoado de ser alimentado a gotas com essas fofocas de celebridades como se estivesse conectado a uma intravenosa de merda. É isso que todos os outros programas de palco estão fazendo. Nós podemos lançar algo totalmente impactante, Mike, algo que pode mudar o jogo."

"Bem Colleen, você mesma disse: só se for verdade. Nenhuma rede de televisão vai comprar uma apresentadora pirada gritando e fingindo alguns sustos."

O tempo depois me provou que eu estava errado, alguns cliques no controle remoto hoje em dia pode provar isso. 

"Você terá que me dar um voto de confiança, Mike. Tenho um contato, algo especial - algo real. Só temos que produzir o piloto, só isso. Te garanto que as redes estarão em cima da gente como moscas em cima de merda de cachorro."

Me reclinei em minha cadeira e suspirei, esfregando a mão na minha cabeça já careca. As vezes havia uma intensidade desconcertante nela, talvez apenas um sintoma de ser confiante demais, mas era uma pessoa difícil de se dizer não. Em outra vida ela poderia ter sido uma ditadora de alguma nação no pacifico. 

"Tá bom." Eu disse, suspirando, finalmente cedendo. "Mas vai ficar na sua conta se for rejeitado. Não espere que eu leve a culpa pela a porra do fantasma Gasparzinho."

Ela  assentiu com a cabeça e sorriu, sabendo que tinha conseguido o que queria. 

Ia se chamar "Os Pesadelos de Fairweather", um programa de palco com convidados que não são celebridades, mas pessoas envolvidas com coisas paranormais, assustadoras e arrepiantes. A vítima de um Serial Killer que escapou, o abduzido por alienígenas, a pessoa com provas irrefutáveis de que sua casa estava sendo assombrada por um espirito maligno, coisas do tipo. Se ela tivesse me proposto isso meia década antes, eu nem teria pensado na possibilidade, mas o Arquivo-X estava varrendo a nação com suas loucuras paranormais e parecia estar se tornando o programa favorito de todos. 

O programa teria lucro se fosse produzido a pouco custo, conseguindo fazer uma grana com o zeitgeist americano. Mas ela não via assim, não, queria que fosse um marco inovador da televisão, mas para mim parecia só um monte de truques bregas.

Talvez ela tinha mais visão do que eu, mas pensando bem, nós dois estávamos nos iludindo. 

Consegui que uma equipe improvisada produzisse o set nas especificações de Colleen. Tenho que admitir que, para alguém que por fora parecia ser feita para a televisão, quanto mais você conversava com ela, mais percebia que sua disposição estava plantada firmemente no alternativo. Ela queria que o set fosse minimalístico, bastante preto, emoldurada por longas cortinas vermelhas em ambos os lados. Também foi bastante especifica em relação as pinturas que queria penduradas na parede atrás do sofá de couro em que os convidados sentariam: Bosch, Munch, Goya. Coisas bem sinistras.

Parte de mim sabia que - mesmo que houvesse uma possibilidade mínima das redes quererem o programa - definitivamente pediriam algumas mudanças. Eu teria que simpatizar com isso; só de estar de pé ali, olhando tudo por trás da câmera, parecia que eu estava tendo um pesadelo febril. Nenhum executivo com a cabeça no lugar acreditaria que o público americano estava pronto para um "Twin Peaks: O programa de Palco".

Mas Colleen era diferente. Ela estava em seu elemento. Aquela estranha, estranha mulher. 

No dia da gravação ela chegou como se estivesse andando nas nuvens, com aquele enorme sorriso de palhaço pintado em seu rosto. Mal notei a família  com aparência miserável a tira-colo quando entrou no estúdio.

"É perfeito!" Disse, com aquela voz quase de cantora profissional, "Sabia que você conseguiria, Mike!"

"É, bem, espero que você também consiga," falei, "tenho perdido vários dias de sono por causa disso aqui."

A família que Colleen trouxera era jovem demais para ser sua. Os pais não deviam ter mais do que vinte e poucos anos, e a menininha com eles parecia ter uns sete. Desde aquele momento percebi que havia algo estranho ali, ela parecia tão magrinha, tão vazia. Pele pálida e bochechas negativas, como se estivesse desnutrida.

"E, hm, quem são seus amigos, Colleen?" perguntei, tentando disfarçar o nervosismo em minha voz.

"Ah. Esses são os Baxters. São nossos primeiros convidados."

"Claro. Prazer em conhecê-los," falei, mas na verdade não fiquei muito a vontade com eles, "Então, qual é a de vocês? Abdução alienígena, casa assombrada...?"

Todos se entreolharam, confusos e assustados, como bêbados que acabaram de ser pedidos por um policial para assoprar o bafômetro. Mas Colleen estava do lado deles.

"Você verá," disse, com outro sorriso perigoso, "Quando estaremos preparados para gravar?"

"Me dê cinco minutos, e verei o que posso fazer."

Não vou falar sobre os testes de som, luz e maquiagem, pois são detalhes não essenciais. Talvez eu devesse dizer que estava com uma sensação estranha, que alguma parte de mim sabia que essa transmissão já estava ferrada desde o começo, mas estaria mentindo. Minha única preocupação era com o estado de saúde da menininha, e como isso ficaria na câmera, mas todas minhas apreensões ficaram em silêncio pelo medo tangível de que minha carreira afundaria se esse projeto de Colleen afundasse. Mesmo quando Colleen já estava sentada em sua mesa, e a câmera estava prestes a começar a rodar, passavam pela minha mente terríveis visões de mim fritando batatas fritas e servindo hambúrgueres no McDonald's, mesmo com vários diplomas e anos de dedicação à minha carreira.

Entretanto, essas angústia sumiu rapidamente quando a filmagem começou. Colleen, como diversos apresentadores de programas de palco, começou com um monologo - mas o dela parecia que devia ter sido feito por Vincent Price do que por Conan O'Brien.

"Sejam todos bem vindos a uma experiência televisiva como nenhuma outra", ela começou gesticulando grandiosamente como um apresentador de circo, "Todos grandes programas de televisão atravessam fronteiras, isso é um fato. Programas de palco atravessam fronteiras pessoais, dando informações sobre uma pessoa ou outra; game shows atravessam as fronteiras da emoção humana, entregando aos telespectadores entusiasmo e prazer no conforto do seu lar; e boas novelas de drama irão, inevitavelmente, atravessar as fronteiras da ficção e da realidade, fazendo seu coração desejar cada vez mais produções de ações não-existentes. Sim, senhoras e senhores, a televisão é uma arte de atravessar barreiras, mas existe uma barreira que eu, Colleen Fairweather, acredito que ainda não foi atravessada em um programa de TV. Essa barreira, meu querido telespectador, é a da vida e da morte."

Quando pausou seu discurso, a sala ficou inundada de um silencio ensurdecedor. Acho que todos nós ficamos chocados com aquele início.

"Você está assistindo", um sorriso se abriu em seu rosto, "Os Pesadelos de Fairweather". 

Esse seria o momento em que colocaríamos os créditos de abertura, mas tive que me segurar para não começar a aplaudir. Já tinha visto recitações de Shakespeare serem feitas com menos paixão nos maiores teatros de Nova York, e em pensar que ela tinha escrito aquilo sozinha? Algo inédito na época. Antes eu estava vendo um desastre, mas agora já via notas de cem dólares caindo como uma cachoeira em meu colo com aquele singelo monólogo, e fiquei orgulhoso de saber que seria um projeto em que meu nome estaria estampado. 

Não começou a ir por água baixo até que Colleen entrevistar os Baxters. 

"Temos uma convidada muito especial hoje a noite, ela está aqui com sua família," Colleen disse, começando a dar atenção aos Baxters enquanto a câmera fazia o mesmo. "Helen Baxter é uma das médiuns mais novas do mundo. Ela consegue entrar em contato com espíritos e permiti-los que façam manifestações através de seu corpo." 

A garota permaneceu em silêncio, mas sua jovem mãe falou.

"Tecnicamente," disse, "Helen é um conduto. Ela é um corredor estreito entre o nosso mundo e o deles, com uma porta trancada no final. Quando os chama, os espíritos podem vagar por esse corredor e espiar pelo buraco da fechadura." 

Colleen abriu um sorriso. Esse era exatamente o tipo de espiritualidade nonsense que os espectadores ingênuos queriam.

"Você faz isso com frequência, Helen?" Colleen perguntou.

"Não," a menininha respondeu, sua voz era fraca e trêmula do jeito que sua aparência dava a entender, "não de propósito."

"Então pode acontecer acidentalmente?"

"Unhum. Pode."

"Pode nos explicar como é, Helen?"

Helen suspirou longamente e assentiu com a cabeça. 

"Tenho que me concentrar com muita força para que fiquem longe," disse, "Eles sempre estão aqui. Sempre. Consigo ouvi-los arranhando a porta. Se não me concentro para manter a porta fechada na minha mente, eles simplesmente entram."

"Como é a sensação de tê-los lá dentro, Helen?"

Na época, achei que podia ser só paranoia minha, e que eu era o único que estava notando, mas Helen parecia bastante perturbada. Parte de mim queria cancelar aquilo e esclarecer toda aquela situação, sabendo que existem pais que fazem seus filhos passarem por todo e qualquer tipo de coisa pela fama. Mas Colleen tinha todos presos em um transe - esse era o seu espetáculo, nós só estávamos a acompanhando. 

"É como estar bem no meio de uma sala lotada. E você não consegue fazer nada, nem mesmo se quiser. Você só se sente coberta de mãos frias - te tocando, te agarrando. Você tenta gritar, mas o som nunca sai da garganta. Você só fica lá, quieta, como se alguém estivesse movendo seus braços e pernas e falando com sua voz." 

Se houve algum momento que pedia uma intervenção lógica, seria quando uma menor de idade falasse aquelas coisas em um programa de TV no horário nobre. 

"Isso é fascinante, Helen," Colleen disse, "acredito que milhões de americanos estão agora com o coração apertado por você, Helen, mesmo que não entendam completamente sua experiência." 

"E se ela mostrar como funciona?" O pai falou, seu rosto brilhando como um garoto adolescente que acabou de descobrir o Boa Noite Cinderela. 

Eu estava louco para matar aquele cara, mas ficou claro que Colleen já havia planejado aquilo tudo. Tinha sido ela que havia encontrado aqueles lunáticos, ela já estava com todas as cartas na manga desde o começo.

"É uma ideia fantástica!" Falou, segurando uma mão a outra de tanta alegria, "Você acha que conseguiria dar uma pequena demonstração para nós, Helen?"

Aquela pobre garotinha apenas assentiu tristemente. Estava prestes a ser humilhada publicamente na TV aberta.

"Exclusivamente aqui, caros amigos!" Colleen falou com uma risada. "Um contato autentico com o mundo espiritual! Nada mal para um programa piloto, não é mesmo?"

Todos riram como um bando de hienas. O encanto já estava quebrado para mim.

"Fique a vontade para quando estiver pronta, Helen. Não queremos te apressar."

Eu esperava uma apresentação clichê. Todos nós já vimos a porcaria do exorcista, e eu basicamente estava com um cartão de bingo da possessão na mão esperando que a cena se desenrolasse. Talvez ela começasse a falar em uma língua desconhecida, ou então xingaria todo mundo enquanto convulsionava. Ou então seus olhos revirariam nas órbitas, talvez até vomitaria no carpete se estivesse completamente dedicada a cena. De qualquer forma, me enjoaria. 

Mas não foi isso que aconteceu. Para começar, ela simplesmente caiu de lado na poltrona como uma boneca de pano, com os olhos fechados. Ela ficou assim tempo suficiente para eu considerar fazer um corte na gravação e chamar a ambulância, mas no momento em que eu estava me levantando da minha cadeira, seus olhinhos verdes reabriram e ela começou a se ajeitar em seu assento. 

O engraçado é que tenho absoluta certeza que, antes dela desmaiar, eram azuis e não verdes.

Por um minuto ou dois, ela ficou lá apenas respirando pesadamente.

Era uma respiração irregular e trabalhosa, como se não estivesse acostumada a fazer aquilo e estivesse tentando pegar o jeito.

E então falou. Com uma voz profunda e masculina.

"Onde estou?" Ela, ou seja lá quem estivesse através dela, falou, "Como cheguei aqui?"

Fiquei horrorizado. Aquilo tinha que ser um tipo de ventriloquismo, uma variedade bizarra de dublagem humana que eu não conhecia. Comecei a analisá-la da melhor forma possível, tentando ver se encontrava microfones ou alto-falantes grudados em sua roupa, mas quanto mais falava, mais difícil ficava de negar que a voz estava saindo de sua boca. 

"Você está em um estúdio de gravação," Colleen falou, tratando aquilo como se fosse algo completamente normal, "Você está seguro aqui. Não se preocupe. O que aconteceu com você?"

A voz que saia de Helen começou a ficar agitada.

"Eu... eu estava em uma boate," ele falou, como se estivesse tentando recordar memorias já apagadas, "estava me divertindo, mas comecei a me sentir mal. E... e eu fui lá fora para pegar ar puro, daí um cara mandou entregar a carteira. Falei que não tinha dinheiro, para me deixarem em paz, mas ele tinha uma faca. Fui gritar... tentar alertar alguém, mas ele só.. só..."

Ele parecia estar a beira das lágrimas. A expressão facial de Helen era compatível com a angustia na voz.

"Ele enfiou a faca no meu pescoço e eu cai. Deus, eu estava sangrando, havia tanto sangue. Estava sentindo minha vida saindo de mim, então senti aquelas mãos. Elas me puxavam para fora do corpo e me levavam para a escuridão fria. Eles fazem coisas terríveis lá, eu só quero voltar. Por favor, me deixe voltar!"

De repente, sem aviso, Helen deu um grito absurdamente alto antes de cair de novo na poltrona. Quando acordou, seus olhos eram azuis novamente, e sua voz estava normal. 

"Isso foi incrível, companheiros," Colleen disse, até aquela confiança característica que parecia infalível parecia um tanto abalada pelo o que havia acabado de presenciar, "uma comunicação ao vivo com o mundo espiritual. Acho que nunca vimos algo parecido com isso." 

Helen Baxter parecia que havia acabado de correr uma maratona usando sapatos de chumbo. Ela já era magra e pálida antes do incidente, mas depois ela parecia estar prestes a sucumbir. Eu estava a um fio de cabelo de cancelar tudo e levá-la para um hospital. 

"Helen, para as boas pessoas que acabaram de ligar seus televisores," Colleen falou, com faíscas brilhando em seus olhos, "Acha que pode fazer de novo?"

"Acho melhor não." Ela praticamente sussurrou.

"Prometo que só pedirei mais essa vez, querida, e depois terminaremos a entrevista. Chamarei meu próximo convidado e você poderá tirar um cochilo no camarim."

Helen olhou para seus pais, provavelmente procurando um pouco de apoio contra os apelos de Colleen. Suas esperanças foram despedaçadas quando rapidamente assentiram com a cabeça, sorrindo de orelha a orelha, aqueles desgraçados negligentes.

"Vá em frente, querida, você consegue." A mãe encorajou-a.

Finalmente, Helen se convenceu que teria que se submeter a todo aquele processo inconfortável novamente e deu outro longo suspiro. Alguns segundos depois, ela caiu em sua poltrona de novo, preparando-se para ressurgir como outro espirito. 

Demorou um pouco mais para voltar daquela vez. Estava na cara que algo de errado estava acontecendo. 

Quando acordou, e seus olhos se abriram preguiçosamente, não estavam azuis. Também não estavam verdes, nem castanhos ou cinzas. Estavam amarelo-mijo - iris, esclerótica, tudo - e a pupila tinha se transformado em uma fenda reptiliana que cortava todo o meio de seus olhos. Sua voz não parecia ser nem feminina nem masculina, era apenas um som profundo, gutural e - além do mais - cruel. 

Era um som completamente difícil de se descrever de uma forma realista.

"Como é bom estar de volta," ela chiou junto de uma risadinha macabra, "Faz tempo que aguardo por isso. Nunca achei que ela abriria a porta para mim." 

Colleen parecia estar totalmente alheia ao perigo que pairava sobre a situação.

"Qual seu nome?" Perguntou para a voz que irradiava do corpo de Helen. Não tenho certeza se ela realmente estava acreditando naquilo ou não.

"Não há razão para tentar," disse, "A boca dessa garotinha não teria capacidade de pronunciar meu nome nem se quisesse. E mesmo se pudesse, você não entenderia."

"Pode nos dizer quem você é?" Colleen perguntou.

"Você faz muitas perguntas, não é mesmo?" a voz perguntou de volta, "Isso te satisfaz, Colleen? Te faz parecer ter algum propósito?"

"Estou tentando ser educada," Colleen disse, mantendo a compostura, "pergunto se pode fazer o mesmo"

"Ah, você está perguntando de novo. Estou ficando terrivelmente entediado."

A jovem mãe falou, "Você está sendo filmado. Diga algo para a câmera."

A coisa riu.

"Merda. Caralho. Buceta." falou isso e deu risadinhas.

"Nós vamos ter que, uh, por o bip nisso tudo." Colleen disse, finalmente estava caindo a ficha dela, sobre toda a bizarrice daquela situação. "Acho que provavelmente é melhor pararmos por aqui.Muito obrigada por sua particip-"

"Mas eu acabei de chegar," a voz falou pela boca de Helen, "não quero ir embora. É muito chato o lugar da onde eu venho. A única coisa que ouço lá são gritos. Aqui consigo pensar por mim mesmo, apesar das suas perguntinhas idiotas."

Primeiro achei que era um truque de luz, mas parecia que Helen estava ficando mais alta. Pouco a pouco, a barra da sua saia se afastava cada vez mais de seus sapatos, e seus braços finos iam se afastando cada vez mais das pontas das mangas. Como já havia me levantando, comecei a andar para trás em choque, vendo aquela garotinha mudar diante dos meus olhos. 

"O que diabos está acontecendo?" Colleen perguntou aos pais, mas eles não tinham respostas.

Helen continuou a se estivar e se dobrar até que não parecia mais ser uma garotinha. Ela estava esticada e corcunda, sua pele bem grudada em seus ossos. Seus lábios estavam repuxados, revelando os dentes e a gengiva, como se algo estivesse querendo sair de sua garganta.

"Mas que porra é essa?" falei em voz alta, finalmente conseguindo dizer algo.

Colleen parecia congelada no seu lugar, enquanto uma língua impossivelmente grande pendia da boca de Helen, indo até seus tornozelos. Era preta como o breu e fedia muito, e parecia pontuda na ponta, quase como um ferrão.

"Meu Deus do céu," Colleen falou, parecendo voltar a vida, "O que diabos eu fiz?"

Ela nunca obteve respostas para aquela pergunta. A criatura enrolou a língua nela, enfiando a ponta na base da garganta e cortando sua traqueia sem nem fazer esforço. Consegui ver aquela ponta negra da língua emergindo da nuca de Colleen, enquanto o sangue caia como uma cascata em seu peito e corpo.

A língua saiu novamente por onde entrara com um som de trituração horrível, depois Colleen colapsou em sua mesa, rosto para baixo.

Naturalmente, comecei a correr para a saída, esperando que a criatura-Helen começasse a perseguir seus pais. De algum jeito, no meio da confusão, uma luz de estúdio estava frouxa em suas dobradiças no teto e desabou no set. As tábuas de madeira e as preciosas cortinas vermelhas de Colleen pegaram fogo, e antes que pudéssemos fazer qualquer coisa, o palco estava sendo engolidos por chamas. Provavelmente poderia ter sido apagado se alguém tivesse corrido de volta e lidado imediatamente enquanto ainda estava nos estágios iniciais do incêndio, mas todos preferiram correr em debandada para salvar suas vidas ao enfrentar seja lá o que diabos aquela menininha se transformara. 

Conseguir sair bem a tempo, mas a vezes queria não ter conseguido.

Aquela noite foi uma noite de gritos e de chamas. 40 pessoas morreram no incêndio - mas quantas pessoas morreram de fato em consequência do incêndio ainda é uma pergunta aberta. Eles conseguiram encontrar o o corpo chamuscado de Colleen, e partes prováveis dos corpos dos pais da menina. Levou semanas para rasparem e retirarem os outros corpos carbonizados do estúdio, cenário e tudo mais, e ainda mais tempo para identificá-los e fazer com que tivessem um enterro decente.

O pior de tudo é que não encontraram qualquer corpo que fosse levemente compatível ao do monstro que começou toda aquela confusão, e Deus sabe onde ele deve estar agora. Aquela coisa assombra meus pesadelos desde então.

O estúdio emitiu uma ordem de sigilo sobre o caso logo que descobriram sobre toda a situação. Nós pagaram e também ameaçaram que perderíamos nossos empregos se não assinássemos aquelas montanhas de papeis dizendo que não poderíamos dar um pio sobre o caso. Fizeram com que a coisa toda desaparecesse, e todos os que morreram naquela noite trágica tiveram suas mortes reduzidas a um mero acidente, o resultado de um incêndio bizarro. Nada que pudesse ser previsto. 

Um monte de papo furado.

Sem justiça, sem resposta, sem qualquer encerramento satisfatório para os envolvidos que foram completamente descartados da industria. As fitas que tínhamos do caso foram destruídas pelo fogo, e o pior de tudo é que, seja lá o mal que liberamos naquele dia, ainda está solto por aí até hoje. 

Mas então, não vejo nenhum motivo para ficar irritado com isso. 

É assim que funciona o mundo dos espetáculos, crianças. 

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FONTE: DoubleDoorBastard

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

KEEP CREEPYING!

TRADUÇÃO POR: FRANCIS DIVINA


10 comentários:

  1. Pela primeira vez nessa empresa vital, eu posso dizer com toda minha sinceridade, que esse conto foi espetacular

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  2. Muito legal. Incrivel. Mas você já viu a minha peça?

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  3. Opa, acho q ela abriu a porta pra um demoniozinho. Mtu legal o conto \o

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  4. 12 moderadores do blog e só um posta. Ta na hora de achar novos colaboradores hein.

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  5. Deve ser maior doido ler quem se lembra desses programas mas enfim assustador e pior foi minha irmãzinha levantando aqui dormindo, ai meu coração kkk

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  6. Foda, sensacional, tão bem escrito!

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  7. Isso me lembrou o filme Insidious, a garotinha agora está perdida no além enquanto uma criatura maligna domina seu corpo... Pobrezinha

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