25/10/16

O Preço do Açúcar

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Quando eu era uma garotinha, se me perguntassem o que eu queria ser quando crescer, é certo que "artista passando fome" não estaria na lista. Provavelmente eu diria que queria ser "um dinossauro" ou "uma astronauta" - e mais tarde, quando descobri que crianças não podiam se transformar em dinossauros e que meninas de pele escura da Nova Zelândia não viram astronautas, eu falaria "professora" ou "enfermeira."

Na escola, progressivamente fui ficando pior em qualquer matéria que não fosse Inglês ou Artes, mas quando me tornei adolescente, minha tia conseguiu para mim um emprego de meio período de faxineira no hospital local. Na época eu não achava o salário tão ruim, e eu era boa no que fazia. Eu gostava de limpar; mesmo que as vezes eu estivesse limpando diarreia do chão ou vomito ensanguentado de paredes.

Depois de um tempo você se acostuma com a maioria dos odores. Bem, exceto o cheiro de Clostridium difficile - também conhecido como "C. Diff". Mas ainda bem que raramente tive de limpar um quarto com um paciente infectado por essa bactéria. 

Eventualmente, meu salário mínimo me permitiu desistir da escola e alugar um apartamento pequeno, de um quarto imundo em um bloco de concreto. Quando eu não estava dormindo ou trabalhando, estava produzindo minhas artes, para vendê-las na feira na manhã de sábado. 

E foi assim que me tornei uma artista pobre de meio período. 

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Existem certos tipos de alimentos básicos que pessoas pobres precisam ter em suas dispensas. Os meus eram arroz e batata; ambos são bem baratos e podem ser transformados em diversos pratos. Ter sido criada por pais que também eram pobres e em um ambiente que reforçava os esteriótipos de gênero, minha me ensinou desde pequena como cozinhar coisas que renderiam para várias refeições. 

"Arroz é sensacional," Ela dizia, "Você pode comê-lo doce no café da manhã e puro no almoço ou  no jantar."

E repolho. Tudo parecia conter repolho.

Mas ainda tenho meus pequenos luxos no meu apartamento minúsculo; um pote de manteiga de amendoim, favos de mel selvagens de Makuna que meu tio que mora no Norte me enviara e outro pote grande de açúcar mascavo para minhas xícaras de chá. 

Você vai entender, então, por que eu estava chateada quando formigas começaram a entrar aqui.

São coisinhas minusculas, as menores formigas que já vi na vida. Quando acordava de manhã, elas estavam ao redor de pequeninos farelos de comida, dividindo-os e carregando de volta para seu ninho em uma mini peregrinação com seus corpinhos marrom-escuro. 

Não fiquei ressentida no começo - eu sabia como era estar com fome. E ao contrário de outra pessoas, eu achava bom que elas estivesse limpando parte de minha bagunça, fazendo-me um favor. 

Mas quando elas fizeram um buraco no meu saco extra de açúcar mascavo, decidi que já era demais.

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Descobri que bórax e açúcar são ótimos mata-formiga caseiro quando estão juntos.

No trabalho tínhamos muitos produtos de limpeza com bórax, para limpar ralos e dissolver sujeiras pesadas. Então fiz uma mistura com a solução, do jeito que aprendi na internet, e depois deixei em um pires em cima da bancada da cozinha.

Não demorou muito para minha pequenas visitantes indesejadas acharem; uma hora depois, um par de formigas marchou pela bancada branca e limpa em direção do pires.

De acordo com minha pesquisa, elas comeriam, e então levariam de volta para o ninho, onde outras entrariam na corrente, até que o veneno tomasse conta de seu lar. Tudo estava indo bem, todas estariam mortas dentro de uma semana, e eu não teria mais um problema com insetos. 

Então quando uma se alimentou do veneno e depois ficou parara da borda do pires junto de sua companhia, achei que tinha preparado a mistura forte demais e ela havia morrido instantaneamente.

Mas continuando minha observação, vi que ainda estava viva, mexendo as antenas e patinhas, pacientemente aguardando com a supervisão de seu amigo.

Usando essa oportunidade  rara de ver uma formiga em repouso, peguei meu caderno de desenho e comecei a rascunhá-las, enquanto me empoleirava na minha cadeira de plástico. 

Quando eu já estava bocejando e desejando minha cama, as duas formigas ainda estava pacientemente sentadas na borda do pires.

De manhã, quando me levantei para tomar banho e depois uma xícara de chá, o pires se mantinha intocado na bancada - apenas o corpo da envenenada continuava lá, com suas perninhas dobradas contra o corpo em uma pose de morte fatal. 

Minha tentativa de envenenar o ninho havia falhado.

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Na semana seguinte, elas fizeram um novo furo no saco do açúcar (que eu já havia colocado dentro de outro saco plástico) e esvaziaram metade do conteúdo.

Enfurecida, pendurei a sacola em um gancho no teto da lavanderia.

Na manhã seguinte, a sacola vazia estava caída no chão, sem nenhum grão de açúcar dentro.

Frustrada, fui ao mercado e comprei veneno de verdade para formigas - junto de outro saco de açúcar. Quando cheguei em casa, coloquei a armadilha no chão da dispensa e o saco de açúcar dentro de uma tigela, a qual coloque dentro de uma tigela maior cheia d´água.

A família de ladrões de açúcar estava prestes a receber sua punição.

Tive um sono agitado, a porta do quarto aberta, irracionalmente tentando ouvir os sons dos pequenos intrusos. Uma parte de mim estava convencida de que elas estavam conspirando contra mim; Eu tinha sonhos fragmentados de formigas enormes rastejando pelos meus armários, mastigando e fazendo furos através do vidro e do plástico, comendo todos os alimentos que podiam encontrar.

Eventualmente tive que levantar, e cambaleei até a cozinha para pegar um copo d'água.

Quando as luzes se acenderam, vi movimento.

O saco de açúcar tinha sido retirado de dentro da tigela e estava deitado de lado na bancada. Formigas sapateavam loucamente pelo balcão, correndo para se esconder em qualquer rachadura ou buraquinho que encontrassem - com certeza suas bocas estavam cheias do meu açúcar.

Pensando rápido, peguei um copo de vidro da pia e coloquei em cima de uma das formigas, que havia acabado de emergir do saco quase vazio de açúcar. 

Eu havia pego uma das ladras. 

***

Definitivamente ela estava me observando.

Seja lá aonde eu fosse, se posicionava dentro do vidro de um jeito que pudesse me olhar. Se eu me aproximava, se a olhava, a formiga se apoiava nas patas traseiras e batia com a antena boa contra o vidro - a outra tinha sido esmagada pelo copo quando a prendi.

"Não vou te soltar," Falei, "Não até vocês pararem de roubar meu açúcar."

Mais algumas batidinhas.

Percebi que ela era muito maior do que as formigas que haviam aparecido primeiro. Essa era brilhosa e escura, como se tivesse sido polida por um engraxate. Sendo maior, seu rosto ficava quase que antropomórfico, o que fazia ser desconfortável mantê-la dentro de sua prisão de vidro.

"Eu poderia te matar, sabe," Continuei, "mas não vou. Vamos fazer um trato; De noite vou colocar um pote de açúcar branco na frente da porta de casa, lá fora. Vocês podem comer e levar o quanto quiserem. Só deixem minhas coisas fora disso."

A formiga me olhava através do vidro. 

"Tá bom?"

Mais algumas batidinhas.

Suspirando, levantei o copo. A antena boa da formiga se remexeu furiosamente por um segundo, depois ela correu e desapareceu em uma fenda entre o fogão e a bancada. 

 ***
Se ela havia me entendido ou não, não sei, mas o pote de açúcar do lado de fora estava funcionando.

Durante a noite elas iam até lá, comiam, pegavam e levavam o conteúdo para seu ninho. Como se o acordo tivesse realmente sido feito, elas não apareceram mais na minha cozinha.

Achei isso tudo muito engraçado; era como uma máfia ilegal, só que pequena e de insetos. Contanto que eu desse à elas uma quantia regular de açúcar, me deixariam em paz.

Mesmo estando contente com esse acordo, tinha alguém que não estava.

Meu vizinho, Charles. 

Um senhor de idade de descendência européia, Charles não tinha muito tempo para gastar com pessoas como eu. Se o meu rádio estivesse muito alto, ele batia na minha porta com sua bengala até que eu abaixasse. Eu mal podia assistir televisão em um volume decente, então eu só assistia filmes piratas pelo meu celular, usando fones de ouvido, claro. 

O rebuliço lá fora vinha acompanhado da voz estridente e petulante de Charles, gritando algumas coisas.

Abri minha porta e o encontrei ali parado, o pode de açúcar esmagado e chutado no fim do corredor, junto de um caminho de formigas gordas esmagadas ao redor do meu tapete da frente.

"Sua pretinha estúpida," ele vociferou contra mim, "Sua selvagem ignorante!"

"Boa noite, Charles."

"Porque diabos você está alimentando as formigas, sua mulherzinha estúpida?"

"Para mantê-las fora da minha casa," tentei começar a explicar, mas ele cortou minha fala.

"Vou contar para o senhorio sobre isso. Ele vai arrancar suas tripas - você será despejada até o final da semana, pode ter certeza."

"Até mais, Charles," Falei, sorrindo e fechando a porta na cara dele.

Ele ficou balbuciando lá fora por um tempo, mas depois voltou para seu apartamento.

De manhã, todos os corpos das formigas haviam sumido, e um pote novo de açúcar estava em cima do meu tapete. 

***
 Não ouvi uma palavra se quer do senhorio, muito menos de Charles. Mas não ousei alimentar as formigas de novo, por medo de causar mais problemas.

Quase três semanas depois deste incidente, uma formiga solitária e gorda atravessou minha bancada e parou ao lado da minha xícara de chá.

Com sua antena boa, bateu em minha xícara.

Mais algumas batidinhas.

Em seguida, caminho despreocupadamente para longe, desaparecendo na fenda de onde surgira.

Naquela noite deixei um pote com açúcar do lado de fora, e de manhã havia uma surpresa para mim.

Dentro do pote vazio estava um lindo pingente branco-creme.

Eu já havia tentado fazer esculturas com osso, mas apesar dos meus talentos artísticos, eu nunca havia pego o jeito. Seja lá quem fizera aquela peça, era um artista muito talentoso; era um espiral duplo perfeito coberto de padrões de desenhos complexos, muito parecido com aqueles que meus ancestrais usavam. 

E todas manhãs depois daquele dia, um novo pingente de osso aparecia, tão lindo quanto o anterior.

***
Os pingentes saem como água, na feira.

Saem tanto que poderei alimentar minhas amiguinhas por um bom tempo.

A polícia nunca descobriu o que aconteceu com Charles. Falaram que a equipe forense não encontrou nada - nenhum sinal de arrombamento, nenhum sinal de luta. Foi como se o velhinho tivesse simplesmente desaparecido.

A nova inquilina apareceu aqui no sábado, uma senhora de cenho franzido e amargurado. Na primeira noite ela socou nas paredes e gritou profanidades quando liguei minha televisão.

Mal posso esperar para levá-la para a feira. 

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FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você o ver em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

KEEP CREEPYING!

TRADUÇÃO POR: FRANCIS DIVINA


29 comentários:

  1. Não entendi porras nenhumas... Como que ela matou o cara afinal ... O osso dele apareceu no pote? Wtf

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    1. Acho que foram as formigas que mataram o cara

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    2. As formigas mataram o cara e fizeram os pingentes com seus ossos, dando-os de presente à moça em troca do açúcar

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  2. Eita pô
    As formigas da máfia ilegal matam a galera e transformam em pingentes em troca de açúcar?
    Eita kkkkjkkl

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  3. O que essas formiguinhas serelepes não fazem por um pote de açúcar né, tsc tsc

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  4. Kkkkkkkk nusss. Definitivamente, eu não esperava por esse final.

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  5. Austrália e seus amigos mandando abraço kkkk

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  6. Kkkkkkkkk creepy no estilo classico, adorei... me lembra das primeiras creepys que li pela internet ha anos atras... Muito boa memso

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    1. Só um detalhe... Os brasileiros poderia criar uma creepy com o titulo "o preço do feijão"... Isso sim assusta a gente

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    2. Caraca, esse aqui zerou a vida até o final do século UAHSHSUAHSUHSS

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    3. ra, concordo contigo, bem estilo classica msm, essa creepy foi sensacional fahejqndkam

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  7. Normalmente eu não comento, mas essa creepy em particular eu adorei, a ideia de as formigas trabalharem pelo seu pote diário de açúcar e punir o velho por ter matado as formigas foi ótima hahaha

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  8. MUITO BOA! Concordo com o Gabriel Marçal, creepy clássica, plot twist... show!

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  9. MUITO BOA! Concordo com o Gabriel Marçal, creepy clássica, plot twist... show!

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  10. Gostei muito e por serem justamente da nova Zelândia eu penso que formigas que matam um ser humano é transformam seus ossos em pingentes não parece muito surreal

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  11. Gostei muito e por serem justamente da nova Zelândia eu penso que formigas que matam um ser humano é transformam seus ossos em pingentes não parece muito surreal

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  12. Já tô recrutando um exército aqui em casa...

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  13. To indo agora fazer um acordo com as formigas que vivem na minha cozinha

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  14. Uma versão macabra de "O Sapateiro e os Elfos", legal :)

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  15. Este comentário foi removido pelo autor.

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  16. Histórias que me fazer dizer: Eitaaaa Caralho!!!! S2

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  17. Nada assustadora mas muito encantadora, parece um daqueles filmes q geralmente tem o jonny Depp (n q eu goste dele). Gostei muito a pesar de não ser meu estilo.

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  18. Atualmente eu tenho um acordo com lagartixas, mas elas só matam insetos xD

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