28/01/2016

Os 1% Parte 9: #1477

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Dra. Ellis bate levemente seu pé contra a cadeira. A movimentação continua e o som baixo geralmente conforta seus pacientes. Quase tudo em Dra. Ellis é confortante. Ela tem cabelos castanhos curtos levemente jogados para o lado. Seus olhos são pequenos e redondos, que pairam sobre seu nariz modesto. No mais, ela é uma mulher bem normal que faz o melhor que pode para ajudar seus pacientes. E se a ajuda que dá a eles contribuir para o seu sucesso, melhor ainda.

Seu novo paciente está sentado diante dela. Já tinham se encontrado algumas vezes antes, sem melhora. O paciente se recusada responder pelo seu nome verdadeiro e insistia em ser chamado de #1477. Dra. Ellis não conseguia decifrar o significado destes números a não ser a tatuagem que ele tinha na nunca. Mas hoje estava planejando uma nova abordagem que esperava dar certo. 

"Bom dia" falou calorosamente. 

#1477 olha para frente, piscando vagarosamente. Seus olhos são de uma linda coloração de azul. Se destacam contra sua pele avermelhada. Seu rosto é uma tela em branco. Seu nariz parece ter se derretido em seu rosto, sobrando-lhe finos lábios pálidos. Seu cabelo de penico cobre suas orelhas. 

"Está com vontade de conversar hoje?" Dra. Ellis pergunta. 

#1477 sorri. "O doutor me chamou?" 

O sorriso não é normal. Parece que ele está tentando deixar o sorriso maior que o próprio rosto. Dra. Ellis resiste o impulso de se encolher. 

"Eu sou sua doutora, lembra? Sou a Dra. Ellis." Ela se escora novamente na cadeira, tentando manter sua linguagem corporal aberta. 

#1477 continua a sorrir. "Você não é minha doutora. O doutor é um bom homem. O bom doutor." 

"Pode me falar mais sobre ele?"

"Ele me salvou. Me trouxe de volta. Fez milagres."

Dra. Ellis faz algumas anotações na sua pequena caderneta pautada. O bom doutor. A caderneta já está preenchida com várias outras palavras que havia colhido durante outras sessões. "E antes de você conhecer o bom doutor?"

#1477 se endurece um pouco na sua cadeira, mesmo sendo difícil se mover enquanto confinado na sua camisa de força. Ele quer responder a pergunta, mesmo que seus pensamentos estejam desorganizados. As lembranças vem como imagens que tomam conta de toda sua consciência. A principio elas o dominam, mas então, se lembra da voz reconfortante do doutor. 

"#1477, estou orgulho de seu progresso. Já fizemos tanto em tão pouco. Você é um prodígio." 

Deitado na mesa de operação, finalmente podendo ver sua transformação, #1477 pode entender finalmente seu valor. Seus olhos novos eram ainda melhores que os antigos. Na verdade, todo seu corpo foi melhorado. Onde antes era magro e fraco, agora era forte. Seu peito era largo e seus braços grossos. Podia andar e falar com autoridade. Não conseguia se lembrar de alguma época que tinha sido mais perfeito do que naquele momento. 

Dra. Ellis sabe que #1477 está se esforçando para pensar, e queria poder ler seus pensamentos. Ela fala baixo "Você consegue-"

"Porque estou contido?" #1477 vira sua cabeça de lado e olha para Dra. Ellis. 

"Para sua própria segurança." Dra. Ellis escreve em sua caderneta que o paciente finalmente parece perceber seus arredores. 

"Tem alguma coisa perigosa por aqui?" #1477 olha em volta, mas vê somente o quarto acolchoado. "É você? Você é perigosa?" Em sua mente, vê imagens de dedos perfurando seus globos oculares. 

Dra. Ellis se inclina para frente. "Eu não sou perigosa. Você é perigoso?" 

#1477 pensa. Existe violência em sua mente. Vê sangue e ouve gritos. Não se lembra se algum deles pertence a ele. Ele se mexe dentro da sua camisa de força. Algo em estar contido o faz ficar com raiva. 

"Por favor, pergunte ao bom doutor se posso ser solto." #1477 parecia estar calmo. 

Dra. Ellis começa a ficar impaciente. "Você se lembra o que aconteceu no último verão?" Ela sabe que é cedo demais para falar dos crimes que ele cometeu, mas sem dúvida isso geraria um avanço. 

#1477 fecha os olhos. Pode ver cabelos longos e pele. Ele machucou alguém? Com certeza o bom doutor não permitiria que ele se machucasse ou machucasse a outra pessoa. 

A respiração de Dra. Ellis começa a ficar mais pesada. "Barry, você se lembra das crianças?"

"Esse não é o meu nome." #1477 começa a se contorcer.

"Tudo bem, #1477. Você se lembra das menininhas?" Dra. Ellis sabe que está se arriscando demais, mas está ansiosa para aquilo dar certo.

"Meninas?"

"Sim, três meninas. Nenhuma dela tinha mais do que dez anos. Você se lembra o que fez com elas?"

#1477 pode ver um parquinho escuro em sua mente. Ouve risadas. Gargalhadas. O som faz com que ele sinta arrepios. Lembra do doutor dizendo que sua raiva era justificável. Que a morte, muita vezes, é um resultado que não pode ser evitada. Ele lembra das unhas pintadas. 

"O bom doutor me disse que-"

"Não existe nenhum doutor, Barry. Ele é apenas um homem que você inventou para justificar suas ações. Você cegou as três meninas. Você arrancou os olhos delas com as próprias mãos. Você não se lembra?" Dra. Ellis está quase babando.

#1477 começa a sorrir novamente. "O bom doutor me disse que ninguém acreditaria que ele é real. Foi por isso que ele me mandou de volta para o mundo. Queria que os outros vissem seu milagre." Ele olhou dentro dos olhos de Dra. Ellis. "Eu sou o milagre. Eu sou a perfeição."

"Eu sei que algo aconteceu com você, Barry. Você era um bom homem. Pode me dizer o que aconteceu com sua esposa?" Dra. Ellis estava quase ofegando. Se conseguisse fazer com que Barry Shore, o famoso assassino, confessasse mais assassinatos, seria promovida. Finalmente teria o sucesso que sempre mereceu.

#1477 não consegue lembrar de sua esposa. Lembra de uma criança de trancinhas. Lembra de estar contido. Ele olha para Dra. Ellis com os olhos arregalados. "Esse é um tom adorável de rosa."

"Como é?" Dra. Ellis consegue sentir os ares do quarto mudando. Talvez tenha ido longe demais.

"Suas unhas. Estão pintadas de rosa."

Dra. Ellis tinha esquecido que sua filha havia pintado suas unhas pela manhã. Estava toda borrada. "Ah..."

#1477 sorriu novamente. "Eu farei com que o bom doutor fique orgulhoso."

"Barry, Eu-"

Antes que pudesse finalizar sua frase, #1477 se lançou da cadeira em direção de Dra. Ellis, que começou a gritar. Os guardas abriram a porta rapidamente, para vê-lo em cima da mulher. Um dos guardas tirou ele de cima, mas quase o soltou de tanto medo. 

A boca dele estava coberta de sangue. Sorriu e cuspiu o olho esquerdo da Dra. Ellis. Ela está no chão, gritando, sangue escorrendo da sua cavidade ocular.

"Rebecca! Rebecca! Eu estou livre e você não!" Ele gargalhou. "Obrigada, doutor. Doutor. Bom doutor!" 

Quase que instantaneamente, foi injetado com sedativos e desmaia quase que imediatamente. Dra. Ellis é retirada do quarto com ajuda dos funcionários do hospital. Toda a clinica psiquiátrica está em alerta. Uma das enfermeiras pega a caderneta da doutora que estava no chão. Na primeira página, coberta em sangue, apenas uma pergunta: Será que um dia ele irá lembrar? 


(EM BREVE: OS 1% PARTE 10: PIOTR)

Por: EZmisery 


27/01/2016

Ubloo - Parte 5

                                                                                         <  Parte 4 || Parte 5.5 >

Caminhei no meu quarto do hotel, bebendo uma garrafa de gin, perdido em meus pensamentos.

Amanhã eu teria um encontro com o Banco de Louisiana para visitar a velha escola que Robert Jennings estava procurando. Quando eu os disse que eu estava interessado em comprar o lugar, eles pareciam um pouco surpresos, e quando eu ouvi que ninguém havia se interessado no lugar, eu também fiquei surpreso. A casa, embora descascando e precisando de reparos, era linda. A mulher que falei pelo telefone me informou que aquela escola havia virado algo como um lugar de histórias assombradas para as pessoas da cidade. Ela foi desativada quando fundada, e um monte de estudantes e suas famílias estavam realmente incomodados com o fato do governo os enviar para outro lugar do que prover fundos adicionais. Após isso eu fui ao mercado, mas acho que ninguém lá se sentia bem em falar sobre o que foi feito de bom para aquelas crianças.

Em resumo, sem manutenção o lugar virou uma atração paranormal, mas sem real atividade ser documentada ali.

Tomei uma longa golada de gin e a engoli. Eu não podia acreditar o quão acostumado à essa merda eu havia me tornado.  Embora eu não fosse um bebum antes disso tudo, eu sempre tive um gosto por whisky. Agora era tudo que eu podia beber.

O quarto do hotel que eu ficava era escuro e mofado. Minha conta bancária estava começando a se esgotar agora que eu estava vivendo sem salário por mais de dois meses, e eu não podia pagar os gastos com lavanderia. Eu pensei em escrever umas prescrições e vende-las, mas eu não podia me permitir fazer isso. Enquanto o dinheiro seria bom para se ter, eu recusei virar as costar para quem eu era. Quem sabe? Talvez essa escola me desse alguma informação que eu poderia usar para matar Ubloo. Matar? Balancei minha cabeça. É a porra de uma maldição Voodoo, como eu mataria algo assim?
Coloquei minhas mãos contra minha escrivaninha e procurei por minha garrafa de gin, observando os cubos de gelo flutuarem e baterem nas bordas.

 “Doutor. ”

O som veio de trás de mim. Eu girei tão rápido que eu quase caí, e meus olhos tinham que se acostumarão movimento rápido. Fora eu, alguém estava começando a entrar no meu campo de visão.

Era Andrew.

Ficamos alí e encaramos um ao outro. Ele tinha uma camisa preta e usava jeans. Seu cabelo estava bagunçado e embolado, e seus olhos verdes brilhantes com aquele olhar familiar estavam substituídos por um branco puro.

“Doutor, por quê você está aqui? “ Ele falou novamente.

Minhas palavras ficaram presas em minha garganta, mas finalmente eu as empurrei para fora.
“Estou tentando encontrar uma maneira de sair, Andrew. Estou tentando vencê-lo. Estou tentando derrotar Ubloo. “

Andrew lentamente balançou sua cabeça.

“Você não pode derrotar Ubloo, Doutor. Não pode. “ Ele disse. “Ubloo está sempre aqui, sempre esperando, sempre observando. “

Ficamos em silêncio, meu estômago revirando em depressão e stress.
“Bem, eu tenho que tentar, Andrew. ” Eu falei. “Eu tenho que tentar, pois eu não posso deixar isso acontecer à mais ninguém. “

E então eu o vi. Ele saiu das sombras de trás de Andrew com lentidão, e com movimentos quase cuidadosos. Sua pele era pálida e cinza, pulando contra seu corpo, e eu vi cada osso e músculo se moverem se desprendendo das suas seis longas pernas. Ele devia medir uns seis metros de altura, provavelmente mais, e ainda assim de joelhos. Sua cabeça redonda e seus olhos pretos me encararam direto. Mesmo sem ter pupilas, eu sentia ele observando cada movimento, me examinando. A longa tromba balançava de sua cabeça para frente e para trás enquanto ele caminhava, como se fosse uma língua. Ele parou bem atrás de Andrew enquanto ele começou a falar novamente.

“Isso vai acontecer com mais alguém, Doutor. “ Seus olhos brancos me encaravam diretamente. “Só há uma saída agora. “

“Ubloo pressionou sua tromba contra a orelha de Andrew. E então eu vi sua língua preta, comprida e fina surgir do nariz de Andrew enquanto ele dava um grito terrível.

Cobri minhas orelhas com minhas mãos e caí me apoiando contra a escrivaninha.

“NÃO! PARE! “ Eu gritava, mas sem resposta.

A carne de Andrew começou a se soltar de seus ossos em pedaços escorregadios, caindo como cera de uma vela derretendo, expondo seu esqueleto e seus músculos. Ele continuou gritando enquanto seu corpo virava uma sopa e caia aos seus pés. Vi sua face derreter e revelar sua arcada dentária, então ouvi um estralo profundo e afiado, vi seus músculos se desprenderem, e a coluna se curvar, enquanto ele gritava em agonia.

“POR FAVOR! EU NÃO AGUENTO MAIS! EU NÃO AGUENTO MAIS! ACABE COM ISSO, POR FAVOR”

E com isso, Andrew parou, com sua mandíbula ainda bem aberta. Ele não era nada mais que meio esqueleto agora, com pedaços de carne e entranhas presos entre seus ossos que não foram para o chão. Ele estava congelado, e então sua cabeça parou e se virou para mim, e as bolas brancas se viraram, revelando aqueles grandes e horríveis olhos verdes. Atrás dele, Ubloo assitia tudo.
 “O fim é o começo, Doutor. “

E então, seu esqueleto se desmontou e seus restos caíram no chão, numa sopa de carne e bile que ele deixou para trás, e a tromba de Ubloo caiu e se balançou pela sua cabeça, enquanto eu ouvia ele dizer.

“Ubloo. “

Minhas pernas estavam penduradas em meus lençóis como madeira lenhada. Eu repousava em uma banheira de suor frio, úmido, encarando o teto escuro enquanto uma linha de luz entrava em meu foco.

Fiquei ali, enrolando um pouco. Até que eu retomei fôlego, levantei e andei até a escrivaninha e abri uma das gavetas. Dentro estava um vidro de pílulas e ao lado, um revólver.

Enquanto eu ficava ali na esperança de achar um jeito de me livrar dessa maldição, uma parte racional de mim savia que só havia uma maneira de me livrar dessa coisa toda.

Peguei um vidro cheio de Adderall e joguei três na minha boca. Peguei um vidro quase vazio de gin e virei o resto na boca. Virei e olhei em volta do quarto, nada. Acendi a luz e chequei meu relógio: 4:37 da manhã.

Era hora de fazer as malas.

Cheguei no banco após as sete. Não estaria aberto em uma hora, então eu peguei um pouco de gin que eu deixava no meu carro e joguei no meu café. O primeiro gole queimou minha boca, mas eu estava pouco me fodendo. Haviam coisas piores que uma boca queimada.

Eu continuava pensando no que Andrew disse, se aquilo era Andrew. Podia ser Ubloo falando para mim? Não fazia sentido. Se ele podia me dizer para acordar todas as vezes, por quê ele iria fabricar uma visão de Andrew para falar comigo? Ouvir aquela coisa falar seria algo mais assustador, na minha opinião.

Conheci a mulher que me mostrou a escola. O nome dela era Linda. Ela estava na meia idade, com cabelo marrom e rugas, e um sorriso brilhantemente branco. Eu tive tempo para me arrumar para esse encontro. Se eu quisesse parecer alguém que iria comprar aquela casa e espremeria a informação dela, eu teria que fazer minha parte. Meu cabelo estava precisamente penteado e eu aparei as pontas da minha barba desfigurada. Coloquei uma roupa do meu velho trabalho que eu havia passado na noite anterior e usei uma colônia também. Que a verdade seja dita, me senti bem por me vestir daquele modo.

Levamos o carro para a escola, que ficava à alguns quarteirões do banco. Quando saímos, eu sentia algo estranho no estômago, do mesmo jeito que você se sente quando vê alguém que você só via em fotos. Eu sentia como se eu conhecesse o lugar, pelo tanto de estudo realizado sobre a casa.
“Pode não parecer, mas ela costumava ser uma belezinha. “ Ela disse enquanto passava por um grande portão de ferro.

Ela puxou um molho de chaves de sua bolsa, com três chaves nela, e as tateou. Eu a observei cuidadosamente. Havia duas chaves douradas e uma prateada. Ela escolheu a prateada e a colocou na fechadura. Olhei para a cerca e inspecionei as pontas afiadas no topo. Não seria legal para o escalar, mas se executado cuidadosamente seria certamente manobrável.

“O jardim está um pouco cheio, nós normalmente mandamos alguém para podá-lo de vez em quando, e para checar o lugar, para ter certeza de que ninguém tinha o bagunçado.

Eu andei pelo caminho de entrada e subi pelos degraus frontais. Eles rangiam sob nossos pés enquanto fazíamos nosso caminho até a porta. Do mesmo molho de chaves, ela tirou uma das chaves douradas e colocou na fechadura. A porta abriu e ela começou a seguir em frente.

“Então, temos aqui a sala de estar e como você pode ver, há um teto aberto com um teto alto que está arruinado hoje em dia. “ Ela dizia enquanto fechava a porta atrás de nós.

A casa era realmente linda, e eu podia entender o por quê de Robert assinar a aquisição como bom investimento. Linda me mostrou o resto da casa. Que estava desabrigada e empoeirada. As tábuas do chão por onde passamos, rachavam. E uma prova da infiltração eram as paredes e os tetos. Na maioria do primeiro andar ficavam as salas de aulas, com exceção da cozinha pequena que os professores usavam como sala de descanso. Subindo as escadas, estava o escritório do diretor e mais salas de aula.

Continuei andando pela casa, com uma metade de mim ouvindo que Linda estava me contando. A outra metade ficava esperando algo para me assustar, mas nada aconteceu. Eu estava chegando no ponto final, e agora eu não podia fazer nada a não ser me sentir perdido e sozinho.

Quando acabamos de visitar a casa, voltei para o banco com Linda para ver alguns documentos e falar sobre números. Me sentei no escritório dela, do lado oposto de sua mesa. Ela colocou os documentos de sua bolsa na mesa e foi buscar café. Quando ela voltou, ela se sentou e pegou a papelada.

"Estamos pedindo um mínimo de $ 685.000 dólares, com todas as taxas em troca da escritura coberta. Há também a taxa de um corretor de 10.000 dólares, mas para ser honesta, eu posso ver o banco dispensa o fato de você se comprometer, pois eles são muito inflexíveis sobre como se livrar da propriedade. "Quando ela terminou de falar, ela deslizou a papelada, e me entregou para dar uma olhada.

Fingi ler e então sentei na minha cadeira.

“685,00 parece razoável. “ Eu disse. “Embora uma casa comum saísse por quase o dobro no mercado, atualmente. Especialmente uma com esse molde quadrado e essa arquitetura. “

Linda sabia o que eu estava dizendo antes mesmo de concluir a fala.

“É isso. “ Continuei “Ouvi alguns rumores sobre a propriedade enquanto eu estive por aqui, e embora eu seja cético, estou também incompreensivelmente curioso. “

Linda suspirou devido às minhas sinceras palavras do inquérito.

“Bem, eu posso te garantir que não há nada a se preocupar sobre essa propriedade. Quando a escola foi desativada, eles enviaram os estudantes para escolas públicas, que muitos pais não ficaram felizes pois ainda havia uma tensão racial. Os pais imploraram para fundar a escola, mas era muito cara para manter. Eles dispensaram alguns dos primeiros compradores, a casa ficou vazia por muito tempo e então as histórias começaram. Mesmo assim, é difícil vender uma casa. Ainda mais uma tão danificada e que teve sangue ruim metido nisso. “

Eu assenti. Fez sentido. Parte de mim estava esperando que tivesse uma história para ser contada, mas tudo que eu encontrei era comum: historinhas medíocres, pessoas vistas pelas janelas, pessoas entrando e nunca saindo, etc.

“Bem, eu tenho que falar com a minha esposa sobre isso e ver o que ela acha. “ Dizer aquilo pareceu estranho. Tomei um gole do meu café. Ele havia esfriado até uma temperatura “bebível”, que me fez sentir um pouco melhor do que eu estava.

“Claro, eu entendo. “ Linda respondeu com um sorriso.

“Nesse meio tempo, você se importa se eu tirar uma cópia da-“ Eu passei minha mão na mesa para pegar os papéis e derramei meu copo de café, que caiu na camisa de Linda e em seu colo. “Ai meu Deus, eu sinto muito. “

“Oh! “ Ela se levantou e olhou em volta, procurando algo para se limpar. “Eu só... ummm-um momento, por favor. “

Ela correu pela sala e eu ouvi seu salto pisando no corredor.

“Sinto muito! “ Eu gritei enquanto minhas mãos cavavam sua bolsa e encontravam o molho de chaves. “Eu sou muito desastrado, devia ter te avisado. “ Eu coloquei as chaves no meu bolso, e então tirei a caixa de lenços que eu tinha escondido em baixo da minha cadeira e a coloquei de volta na mesa dela.

“Oh, está tudo mais do que bem! “ Ela disse enquanto voltava com um rolo de papel toalha. “Acontece o tempo todo. Deixe me pegar uma das outras vias para imprimir uma cópia desses documentos para você. “

Linda andou até mim e eu me desculpei por derramar o café. Ela disse que esperava me ver em breve. Acenei para ela do meu carro e não podia fazer nada a não ser observar ela ficando ali com uma grande mancha de café em sua blusa.

Voltei para o meu quarto no hotel e presenteei com uma garrafa de gin e sentei na minha cama. Eu joguei dois Adderall na minha boca e engoli.

Iria para a casa lá pelas duas da manhã. Eu tinha que lembrar de levar a lanterna e algumas ferramentas, no caso de eu ter pego as chaves erradas. Embora altamente desprezível, era a única maneira de me livrar de um erro. Comecei a encher uma bolsa. Lanterna, martelo, pé de cabra, chave inglesa, e chave de fenda. Andei até a minha mesa e peguei uma máscara de ski. Senti algo pesado em baixo dela e olhei para meu revólver. Fiquei ali encarando, e fui atirado de volta a minha realidade quando meu telefone tocou.

O peguei e li o ID da chamada.

Era Eli. Hesitei por um momento e então atendi a chamada.

“Eli, como você está? “

“Tô bem, Dotô. E ocê? “ Ele disse com aquele sotaque sulista encantador.

“Já estive melhor, cê sabe... “ Como posso te ajudar?

“Bem, Dotô. Estive pesquisando sobre aquilo, cê sabe. “

 “E? “ Eu respondi. Ubloo não era novo para mim, então eu estava mais cuidadoso sobre o problema do que ele estava.

“Bem, eu não pude encontrá nada mais sobre ‘Daiala Bu Umba’ especificamente, mas eu encontrei algo parecido. Tava na história de outra tribo. “

Meus ouvidos se atiçaram e senti meu estômago flutuar.

“Continue. “

“Bem, aqui diz, que um membro de sua tribo foi atingido por pesadelos terríveis. Eles o encontraram morto em sua cabana pela manhã, e a pessoa que o encontrou começou a ter os pesadelo. “

“Parece promissor. “ Eu disse tentando esconder a felicidade da minha voz.

“Bom, isso ocorreu poucos minutos antes da tribo ser pega, mas não como as otras tribos, eles não baniram aquele que sonhava, ao invés disso, eles o davam um ‘Ubuala’. ”

“Ubuala? “

“Sim, Dotô. É uma expressão antiga para ‘O despertador’. O Ubuala sentaria com a pessoa afetada e o acordaria se ele começasse a ter os pesadelos, balançando e gritando ‘Ubloo! ’ “

Meu estômago embrulhou. Isso estava ficando macabro, e começou a me afetar de um jeito muito peculiar.

“Isso ajudou? “

“Bem, pra falá a verdade, ajudô um pouco, mas então o membro da tribo começou a reportá o monstro enquanto ele estava acordado. Ninguém acredito nele, e então, um dia, eles dero falta dele e o encontraram com os pulsos cortados enquanto era suposto ele estar pegano água. “
De algum modo, não me surpreendeu.

“Bom, o que mais? “

 “O ancião da tribo autorizou que ele seria o Ubuala do homem que encontrô o último membro amaldiçoado da tribo, e nunca saísse do seu lado. Até que numa noite, quando o homem acordou de seu pesadelo, ele tomou a faca do ancião e se matou antes dele. “

“Merda... “

 “Você está sentado, Dotô? “

“Sim, por quê? “

“Pois você não vai gostá dessa parte. Ela diz que o ancião queria livrar sua tribo da maldição, e que todos que o encontrasse morto iriam herdar dele, então... “

Meu coração estava palpitando.

“Então? “

“Então ele pediu para que sua tribo o levasse a um lugar que ninguém nunca encontraria seu corpo. “

 Silêncio entre nós dois.

“Onde? “

“Eles o enterraram, dotô... Vivo. “

Me senti mal instantaneamente.

“Jesus, Eli... “

“Eu sei, Dotô. Agora as coisa pioram.Eu havia encontrado relatos de pesadelos nos textos de qualquer ponto da história, mas nada após isso. Então eu li a arte do voodoo. Aprendi que uma vez que a maldição foi colocada, o espírito irá caçar até que seja clamado tudo que foi prometido a ele. Esse é o único jeito de cabá com a maldição, então eu não consegui imaginar como enterrar o ancião vivo poderia parar isso tudo. “

Eu caí para trás, em náusea e lágrimas.

“Bem, há algum jeito de o invocar novamente desde que ele chegue num ponto morto como esse?

Quero dizer, deve haver alguma razão para ele voltar. “

“Sim, bem, uma maldição pode sempre ser revitalizada se invocada novamente, mas mesmo assim, ela só irá ter fome do que a foi prometido, e quem for invocá-la precisa saber o exato ritual realizado.

 Procê vê, alguns componentes são necessários pro voodoo. O pajé que invocou Daiala Bu Umba citou usar presas de elefante, cobras e outras coisas como os restos de sua tribo inteira, e o livro que você me deu foi tudo que encontrei da tribo Binuma. Antes disso, todos assumiram que eles nem mesmo existiam. “

Minha cabeça estava girando com toda essa informação.

“Tudo bem, eu não vou dizer que isso está concluído ainda, Eli. E se me enterrar vivo não irá matar essa coisa, eu espero que acabe todas as minhas chances antes mesmo de considerar isso. “

“Entendo, dotô. Me desculpe por te falá isso. “

“Tudo bem, Eli. Qualquer informação é boa informação. “ Hesitei, e então perguntei a coisa que ficava solta entre nós. “Você me enterraria se tivéssemos que fazê-lo, Eli? “

A pausa foi longa, mas finalmente, ouvi aquela voz Sulista velha dizer novamente, suave com água.

“Se tivesse, Dotô, eu o faria. “

Acaba...



25/01/2016

Os 1% Parte 8: Mar

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Meu nome é Amaryllis. Tenho uma família. Sou uma pessoa. Meu nome é Amaryllis. Tenho uma família. Sou uma pessoa."

Mar nunca deixava uma hora passar sem repetir o seu mantra. Ela podia ser jogada em sua cama de metal em quaisquer posições que fosse, os membros abertos e espalhados como casca de banana. Cada centímetro de seu corpo podia estar agonizando de dor. Mas nunca esquecia seu mantra.  

"Meu nome é Amaryllis..."

O tédio em si era uma tortura. Mar era forçada a ficar deitada por horas, até dias na mesma posição. Não havia ninguém para conversar. A única outra pessoa que via além do doutor, era 995. Em sua cabeça, tinha-o apelidado de Otis, o mesmo nome do seu cavalo favorito lá na fazenda. Como o cavalo, 995 fazia exatamente o que lhe era pedido, mas nunca gostava. Havia uma faísca de rebeldia atrás daqueles olhos enevoados. Talvez um dia ele desse um coice e fugisse. Mar gostaria muito de ver isso. 

Mesmo depois de dez anos, a severidade do tédio travava uma guerra na mente frágil de Mar. A verdade é que quando estava com o doutor, ela tinha uma missão. Sua missão era lutar. Era uma guerreira, mesmo quando estava completamente paralisada. O ódio mortal que tinha por aquele homem asqueroso a mantinha viva e brava. 

Mas naquele momento... estava em perigo de perder a si mesma. Agora a dor física não passava de um incomodamento. Podia tolerá-la. Já tinha até se testado, andando com seus ossos quebrados ou arrancando seus próprios pontos. Queria causar o máximo de frustração possível ao doutor. E em adicional, fazia o tempo passar mais rápido. 

"Eu tenho uma família..."

Faziam quatro semanas que o doutor havia visitado Mar. Neste meio tempo ela ficara ouvindo o respirar pesado do pobre coitado que ficava no quarto ao lado. Tinha inventado uma história elaborada sobre quem aquela pessoa seria. Talvez seu nome fosse Kevin e fosse um escalador de montanhas. Ou talvez seu nome fosse Elijah e tinha acabado de fazer a proposta de casamento para sua namorada. Tudo que ouvia era a respiração, o som da dor e suspiros adoecidos. Mas ela também aceitava que talvez ele fosse apenas um joão ninguém que, como ela, tinha caído nas garras daquele doutor maléfico. 

Nessa época, Mar tinha ambas as pernas e conseguia andar relativamente bem, só lhe faltavam os dedões. Entretanto, tinha recebido uma operação pesada em seus peito e braços. Tudo que sobrara de seus braços era a carne exposta dos cotovelos pra cima. O restante da pele e músculos tinha sido removido. Sobrara apenas os ossos do antebraço saindo para fora de um jeito bizarro. O doutor levou um bom tempo retirando a pele, forçando Mar a observar enquanto cortava cada pedacinho de seu músculo. Ele poliu brutalmente os ossos com uma lixadeira, fazendo com que todo o esqueleto dela vibrasse. 

Até agora ela podia sentir os ecos da lixadeira em seus ossos expostos. 

Mar também tinha virado um tipo de "guarda-volumes" para o doutor. Já havia costurado três figados em sua caixa torácica e colocado um estomago dentro do útero dela. O doutor até tentou implantar um novo pé na cintura. Mas o pé começou a apodrecer e feder de um jeito terrível. 

Mar não fazia ideia a quem pertenciam esses órgãos que estavam dentro dela. 

"Eu sou uma pessoa..."

As semanas iam passando e Mar começava a pensar que talvez o doutor não queria mais nada com ela. Afinal, já faziam dez anos. Talvez tenha se entediado. Talvez já havia feito tudo que era possível com ela. Já faziam mesmo dez anos? Talvez só tenha sido alguns dias. Talvez a vida toda. 

Mesmo depois de tanto tempo ela se agarrava na esperança de que um dia escaparia dali. Mas ali, deitada em sua cama estreita, ouvindo os gritos de outras pessoas, não tinha certeza... talvez morresse mesmo naquela prisão. 

"Meu nome é..."

Se atrapalhou com seu mantra. Claro que sabia qual era seu nome. Era uma flor, né? Algo diferente mas ainda assim bonito. Começou a entrar em pânico. Tinha que se lembrar. 

"Eu tenho uma família?" 

Ela se levantou e começou a andar pelo quarto. Se lembrava de um pai e uma mãe. Lembrava de irmãos. Mas estas memórias estavam distantes. Ela sempre viveu aqui? Talvez essas memórias fossem todas inventadas. A família era real? Ela era real? O homem do quarto ao lado era real? Ou talvez esses gritos eram dela mesma? 

"Eu sou uma... pessoa?"

Sem aviso, a porta foi aberta bruscamente. O doutor estava ali, diante da luz fraca. Era um homem mirradinho e patético, mas mesmo assim provocava tanto medo. Ela olhou para ele. Haviam lagrimas em seus olhos. 

"Vamos lá." falou friamente. Atrás dele havia uma cadeira de rodas, como o de costume. Ele olhou para ela e fez uma pausa. "Você está... chorando?" 

Ela caiu de joelhos. Seus ossos expostos do antebraço bateram no chão. "Por favor."

Pela primeira vez, ela viu o doutor rindo. "Você está implorando?"

A dor em seu corpo não era nada comparado ao terror em sua mente. "Por favor, me diga meu nome. Não lutarei mais. Só preciso lembrar do-"

"Seu nome é #1101." Ele se curvou sobre ela, parecendo ser muito maior do que o de costume. 

"Eu tinha uma família? Eu tive... Eu sou...?" Tudo que ela sabia parecia estar errado. Havia um gosto amargo em sua boca. 

O doutor não estava impressionado. "Sabe, você costumava ser minha favorita. A única que eu não podia corromper. Mas agora é só mais uma." 

"Meu nome verdadeiro, só me diga uma vez. Eu esqueci. Por favor." Ela podia ver Otis de pé atrás da cadeira de rodas. Esse era mesmo o nome dele? Quais eram os números? Será que estava o inventando? Gritou para ele "Sei que eu disse meu nome para você. Por favor, me diga! Eu preciso saber. Não consigo lembrar." 

O doutor a chutou na boca sem misericórdia. Ela caiu de lado, chorando aos montes. O homem com o gancho nada disse. Apenas olhou pata o lado. 

"#995, venha aqui." O doutor o puxou pelo braço para dentro do quarto. "Urine nela." 

Ela não se mexeu. Ela não tinha ninguém. Ela não era ninguém. 

Sentiu a urina em seu rosto. O doutor observou a cena sem emoção. "Você sempre foi #1101. E sempre será." 


(EM BREVE: OS 1% PARTE 9: #1477)

Por: EZmisery 


22/01/2016

Efeito Gündschau

Quando Hitler invadiu a Polônia em 1939, o Terceiro Reich não tinha começado ainda explorações científicas. Isso mudou com a captura de uma pequena aldeia polonesa.

Em 1940, houve um experimento com cinco dias de duração, conhecido como "Efeito Gündschau."
O experimento testava o impulso humano sobre a gula com várias iguarias. O cientista, respectivamente chamado, foi morto por um colega logo após o experimento, mas o motivo não foi esclarecido nos registros de áudio. Abaixo estão as fitas gravadas, traduzidas pelos Aliados como provas para os Julgamentos de Nuremberg.

-DIA 1
Quem fala é o Doutor Klaus Gündschau. Eu estou acompanhando meus colegas, Médicos Vïktor Übelgrentz e Josef Wehrmein. Hoje será o início de um experimento com cinco dias de duração para ver se a gula irá presidir a auto-dignidade. Quatro cobaias foram escolhidos para o experimento: Dois homens poloneses fortes e altos, uma mulher grávida que dará a luz em três dias, e uma filha de um dos homens com quatro anos. Eles foram alimentados com um javali assado, e os homens ganharam o melhor vinho da Alemanha. Os cobaias reagiram como previsto; muito felizes e surpresos. Pouco sabem estes humanos - que irão se confrontar com pesadelos nunca vistos antes.

-DIA 2
Todos os quatro cobaias estavam de pé nesta manhã. Eles foram servidos nesta manhã com waffles, acompanhando suco e leite. Bacon, ovos e salsichas foram servidos também. Era 13:00, quando foi dado a primeira tarefa para os homens: cada um armado com facas, eles deveriam lutar até a morte. Se eles recusassem, eles iriam ser mortos com tiros.Se eles matassem os outros cobaias, eles seriam torturados e então executados.Como esperado, eles cooperaram. o pai da garota perdeu. A mulher e a garota estavam chorando por causa do conflito, e então os cientistas desativaram o microfone. Dois guardas arrastaram o corpo do homem morto. Os três restantes comeram um guisado assado para o jantar; Além disso, houve um... *pausa* ingrediente extra no jantar deles. *risos*

-DIA 3
Os cobaias acordaram cedo esta manhã. Cada um deles ganhou um croissaint de queijo com um molho à base de manteiga de alho. Nenhuma droga foi injetada no homem durante a noite; isso é um experimento mental, sem variáveis permitidos.O teste do homem foi realizado durante à 13:45. Um doutor entrou na sala para ajudar a mulher que estava dando à luz. O homem, acreditando que a sua bolsa estourou, obedeceu. Um saco foi deixado na mesa imediatamente após o parto.Ele foi instruído privadamente para extrair o coração do bebê e consumi-lo. Considerando a alternativa, ele concordou por nossa persuasão um pouco forte. Entrando na sala, ele abriu a sacola e, sem revelar o conteúdo para a mãe, achou várias ferramentas cirúrgicas dentro. Depois do que parecia ser uma oração, ele pegou o menino e atingiu-o no peito; naturalmente, ele morreu na hora.Cortando o seu peito, o homem arrancou o coração que ainda batia do bebê. Então ele colocou o coração inteiro na boca, mastigando e chorando vendo o bebê ainda espirrando sangue materno. Os guardas removiam a carcaça do bebê enquanto o homem explicava chorando para a mulher aflita o que aconteceu.De um ponto de vista pessoal, eu não entendo o porque dos murmúrios; isso tinha que acontecer com aquele pequeno porco.

-DIA 4

Três cobaias estavam ainda vivos nesta manhã, com a mãe tendo sobrevivido graças a uma operação de emergência após o que o homem fez. Embora fisicamente intacta, ela estava mentalmente deformada; e não mostrava mais emoção, ela começou a murmurar para si mesma. Terapia de eletrochoque foi considerado, mas desnecessária.Salaminhos foram escolhidos para os cobaias; neste ponto, a cozinha era a única coisa que estava fazendo eles prosseguirem. Foram dadas as primeiras e últimas tarefas para a mulher. Ela concordou sem recusar, o que foi muito estranho. Primeiro, ela tatuou cortando os seus seios a palavra vadia. Então, providenciando ferramentas adequadas, pediram para ela cortar suas próprias fezes e ingeri-las.Vou admitir, nós nos divertimos com o que ela fez hoje. É notável que ela fez tudo isso sem sentir dor ou nojo... muito intrigante. Então chegou a vez do homem fazer a sua tarefa do dia: ele deveria bater com o cadáver do bebê congelado na mulher até a morte. Tristemente, ele concordou.
A mulher representava não sentir dor como o parto.
A menina, como previsto, estava fora de si. Algo inesperado aconteceu após o teste, embora; o homem tentou confortar a garota, explicando da melhor forma possível para a garota as causas. Tal será a ironia do teste de amanhã. Dois cobaias sobrando.

-Anotação: Durante o experimento, este homem não sofreu alterações mentais, ainda assim não afetado. Talvez ele se emocionou tanto com o primeiro teste que ele se acostumou a lidar com isso. Hmm.
-Anotação pessoal: Doutor Übelgrentz tentou assassinar um guarda hoje, então, de acordo com o protocolo, Eu atirei nele. Doutor Wehrmein permanece firmemente comprometido com o projeto.

-DIA 5

Nenhum dos cobaias dormiu. Atormentados com os testes de ontem, eles se abraçaram para ter a vida de volta. Para a sua refeição final, os dois comeram os melhores crépes da França. Depois do almoço, foi dada a última tarefa para o homem em troca de uma libertação falsamente prometida; este foi o único jeito que achamos de forçar ele a fazer a tarefa. Ele tinha que fazer sexo com a garota em todos os orifícios.
Concordando sem emoção, ele foi e fez sexo com a garota, deixando ela quase morta. Fornecendo-lhe um serrote, ele foi ordenado a cerrar a garota ao meio, começando com as pernas. Ele fez isso, aparentemente sem reagir aos gritos da garota.Foi então que ele ficou finalmente louco.Pegando o serrote, ele cortou a sua cabeça ao meio; isso é medicamente impossível de se cometer, concluindo que o seu cérebro não funcionaria mais.


-Declaração Final
Parece que, como resultado de promessas quebradas, o que faz estes animais continuarem o caminho para a sobrevivência é o suprimento de comida e luxo infinito. Isso confirma o meu pensamento e do Hitler: Em circunstâncias controladas, o homem irá devorar a sua própria espécie.


20/01/2016

Os 1% Parte 7: Alena

PARTE 1 // PARTE 2 // PARTE 3 // PARTE 4 // PARTE 5 // PARTE 6
Desculpem-me a demora, tive alguns problemas pessoais e por isso atrasei a sétima parte desta série. 


A família Allship tem duas regras que não podem ser quebradas. Primeiro, ninguém pode visitar Allen em seu escritório. Nunca. Alena nunca nem tinha visto o prédio por fora. Segundo, Allen e Theresa tinham um encontro toda quarta-feita a noite. Eles saiam de casa as cinco e não voltavam até muito tempo depois de Alena ter ido para a cama. Alena já tinha ficado acordada até as três da manhã esperando-os, mas nem sinal. Acabou derrotada pelo cansaço.

Alena decidiu quebrar a primeira regra.

Kelly, sua melhor amiga, estava com ela. Tinha a convencido a invadir o consultório de seu pai oferecendo-a quaisquer medicamentos que encontrassem lá. Kelly era uma garota bem legal, mas era viciada em analgésicos. Alena não ligava. Só queria que alguém estivesse com ela nessa missão em particular.

Alena Allship era o oposto completo de seu pai. Enquanto ele era silencioso, sem emoções e rígido, ela era extrovertida e esperta. Adorava passar o tempo com seus colegas da escola. Já namorava com meninos desde o ensino fundamental e era considerada uma das garotas mais populares da cidade. Sua boa aparência e seu jeito gracioso a fazia brilhar. 

Mas seu pai sempre a intrigara. Talvez fosse porque ele não demonstrava amor nem encorajamento. Ou a facilidade de fingir que era um pai normal quando precisava. Até mesmo sua mãe, que era quieta e reservada, parecia ter noção da estranheza dele. Foi a curiosidade a respeito disso que a fez invadir o consultório durante a noite.

Abriu a fechadura facilmente com ajuda de dois grampos de cabelo. Ela e Kelly adentraram o lugar silencioso. Mesmo na escuridão, os diversos móveis brancos se destacavam.

"Seu pai realmente gosta de branco" Kelly comentou.

Alena não respondeu. Olhou pelo escritório escuro. Nada fora do normal. Apenas um consultório normal com alguns quadros de gosto duvidoso.

"Então, onde estão os comprimidos?" Kelly começou a andar pelo local.

"Não sei, mas não se preocupe. Ele vai ficar fora a noite toda." Alena tinha escolhido uma quarta-feira a noite para invadir, pois sabia que ele estaria no encontro.

As duas garotas checaram todos as salas, os quais eram consultórios normais. Nenhum analgésico foi encontrado. Acharam a sala de operação, que continha diversas ferramentas cirúrgicas assustadoras. Mas novamente, nada fora do comum. Alena estava começando a ficar desapontada que seu instinto estava errado. 

"Ouviu isso?" Kelly congelou. "Isso é um... choro?"

O som distante de choro podia ser ouvido vindo do chão abaixo de seus pés. Parecia ser uma garotinha, exceto que havia algo estranho em sua voz.

"Foda-se, eu vou embora!" Kelly puxou as mangas da jaqueta para baixo.

"Cala a boca, vamos dar uma olhada." Alena se ajoelhou para olhar debaixo da mesa de cirurgia. 

Definitivamente os sons estavam vindo do chão. Passou as mãos pelos azulejos. Um estava um pouco solto, puxou e viu que em baixo havia uma maçaneta. "A gente simplesmente vai descer lá?" Kelly estava um tanto hesitante. Mas o vício era mais forte. Alena puxou a a maçaneta e uma pequena porta se abriu. Elas observaram a longa escada que levava a escuridão.

Alena começou a descer, mas Kelly só a observou por alguns segundos. Alena olhou por cima do ombro "Vamos, aposto que ele guarda as pesadas qui em baixo." Ela se virou novamente e continuou andado. Sabia que Kelly a seguiria.

A escada parecia descer bem, bem pro fundo. Pelo menos o choro tinha parado. Mas outros  barulhos estranhos ainda podiam ser ouvidos. A escada tinha sido esculpida nas paredes de terra de um jeito estranho. Parecia totalmente fora de lugar, levando em conta o branco absoluto lá de cima. Mesmo preocupada, Alena continuou. Kelly ia logo atrás, sorrateiramente. 

As duas desceram em silêncio.

Finalmente, a escada as levou até uma grande porta de metal. As duas se olharam.

"Tem certeza que é aí que ele guarda as drogas?" Kelly perguntou. "Deve ser." Alena colocou as duas mãos sobre a maçaneta e girou.

O quarto tinha uma iluminação bem melhor do que a escada. Na verdade não era muito bem um quarto, era mais parecido com um corredor. Se estendia além do que podiam ver. Na direita haviam uma variedade de prateleiras e ferramentas. Na parede da esquerda havia uma fila de portas, todas de metal. As portas tinham uma janelinha com barras de ferro. Todas estavam trancadas. As duas andaram pelo corredor juntas. 

Alena engoliu a seco. "Dê uma olhada naquelas prateleiras, talvez ache os comprimidos. Eu vou verificar os quartos." Kelly foi para a esquerda, Alena foi em direção as portas.

Podia ouvir barulhos vindo dos quartos. Pareciam animais. Talvez alguns ratos passeando por ali. E o fedor de podre tomava conta de tudo. Cheirava a mijo e todas coisas nojentas que você pode imaginar.

Ela foi até a primeira porta e tentou puxar a maçaneta. Fechada. Ouviu um movimento vindo lá de dentro. Alena sentiu um arrepio descer por sua espinha. Foi até a segunda porta e também estava trancada. Mas desta vez ela espiou por entre as barras de ferro e tentou ver o que estava lá dentro. Estava muito escuro, mas parecia ter uma cama e alguns trapos em cima. O estranho era que os trapos pareciam estar se movendo, quase como se estivesse respirando. 

"Merda!" Kelly gritou. A grande porta de metal que levava até a escada tinha sido fechada com força. Kelly correu até a porta. "Não abre! Tá trancada, porra!" 

Alena andou até ela "Que merda de porta fecha por dentro?"

"A porta de um médico psicopata, isso sim!" Kelly bateu com os punhos na porta de metal, produzindo um barulho horrível. 

Foi aí que elas ouviram o choro novamente. As duas garotas congelaram. Vinha da terceira porta do corredor. Era um gemido. Parecia de uma menininha mas... era estranho. Como se estivesse resfriada. Estava fungando e soluçando. Kelly encarou Alena, sem saber o que fazer. 

Alena respirou fundo e andou lentamente até a porta. Ela sempre era a corajosa do grupo. Devia ser algo que desenvolveu durante sua criação. Todos seus amigos achavam esquisito que era tão independente. Era a única em seu grupo de amigos que chamava seus pais pelo nome. 

Mas Alena não se sentia tão corajosa naquele momento. Avançou em direção a terceira porta, ciente de todo barulho que fazia. Estava prestes a espiar pelas barras da janelinha quando um rosto apareceu ali. Alena gritou. O rosto era apavorante. Uma mulher de meia idade, mas toda sua pele tinha sido repuxada. Uma peruca loira encaracolada tinha sido costurada grotescamente em seu crânio. Sangue seco coloria sua pele. 

"Socorro!" ela gritou para Alena. "Me tira daqui! Tenho dinheiro, posso te pagar!" A voz da menininha estava vindo daquela mulher. Com o pouco de coragem que restava, Alena ficou nas pontas dos pés para ver melhor. A mulher estava completamente nua. Não tinha peitos. Não tinha pelo em nenhuma parte do corpo. Seu quadril era côncavo, como se alguém tivesse escavado ali até retirar sua pélvis. Ela tremia e sua voz fina a fazia parecer ainda mais apavorante. 

Kelly estava atrás de Alena. "Mas que porra é essa?" 

Alena se virou rapidamente. "Eu... Eu não sei..."  

"Temos que dar o fora daqui!" Kelly correu de volta para a porta de metal. Ela batia repetidamente na porta "Socorro!"

Alena só ficou observando-a, sem conseguir se mexer. 

Foi aí que Alena percebeu que uma das portas, a primeira do corredor que antes estava trancada, estava se abrindo lentamente. Tentou falar alguma coisa, mas era como se tivesse perdido a voz. As costas de Kelly estavam voltadas para Alena e para o corredor. Algo estava saindo da primeira porta. Um homem. Quer dizer, Alena achou que era um homem. No geral, tinha a forma de um ser humano, exceto que estava totalmente deformado. Sua cabeça caia para o lado do pescoço. Mancava lentamente do que havia sobrado de seus pés. E ao invés de uma mão, possuía um gancho no lugar. Os olhos de Alena se arregalavam cada vez mais. Ela não conseguia se mexer. A coisa estava indo em direção a Kelly, que continuava a bater na porta, sem notar o homem. Ele levantou o gancho no ar. 

"#995, afaste-se." 

Kelly se virou, viu o homem e caiu no chão de tanto medo. Começou a se mijar ali mesmo. Mas a atenção de Alena agora estava na origem daquela voz. 

Lá estava, seu pai. Estava de pé mais ao fundo do corredor perto de uma porta aberta. Estava usando roupas cirúrgicas cobertas de sangue. Não havia emoções em seu rosto. 

O deformado se afastou de perto de Kelly. Allen observou Alena. "Não queria que você descobrisse deste jeito." 

"Mas que merda há de errado com você?!" Kelly gritou. "Seu psicopata filho da puta!" 

Alena nem se quer olhou para ela. "Alena, talvez você seja nova demais para entender. Mas é isso que nós Allship fazemos. Somos pioneiros. Somos milagrosos." Ele olhou para dentro do quarto ao qual estava na porta. "Venha, #1302." 

O corpo de Alena começou a tremer ainda mais quando viu sua própria mãe sai do quarto. A mulher sorria como se estivessem em um parque de diversão. Havia sangue em seu cabelo. Allen fez a virar em direção da menina. "Quando encontrei sua mãe, ela pesava mais de 200 quilos. Não tinha ambições, não tinha valores. Mas eu a transformei. Eu fiz com que ela tivesse um propósito: fazer nossa nova geração." Allen tentou sorrir. "Tinha esperança em ter um filho, mas terá que ser você quem irá  continuar meu trabalho." 

Alena não tinha palavras. Kelly não parava de falar. "Você é um psicopata! Nos deixe ir!" 

Allen olhou brevemente para Kelly como se ela fosse um mosquito, depois voltou a olhar para sua filha. "Você vem de uma longa linhagem. Você está destinada a ser a melhor."

Allen começou a andar em direção as garotas, abrindo todas as portas em seu caminho. "Venha, dê uma olhada em tudo que já conquistei. Você pode ver meu trabalho. Isso tudo será seu. Esses são os 1%." Ele estava orgulhoso. Alena nunca tinha visto isso em seu pai. 

Estava ao lado de Alena, com a mão esticada em sua direção. "Queria esperar até seu décimo oitavo aniversário. Mas como meu pai, terei que mudar meus planos. Ele que me deu o meu primeiro, sabe?" Se moveu em direção ao homem deformado, que agora estava atrás dele. "#995 era um garotinho da mamãe quando eu o peguei. Agora está mudando vidas. Esta aqui por um motivo maior. Ele-"

Sua voz parou junto de um gorgolejo sangrento. Uma linha de sangue escorreu pelo canto de sua boca. Caiu para frente, revelando um enorme bisturi cirúrgico enfiado em seu pescoço. Alena, que jpa estava apavorada, deu alguns passos para trás. 

Alguém tinha enfiado uma ferramenta cirúrgica no garganta do bom doutor. 


(EM BREVE: OS 1% PARTE 8: MAR)

Por: EZmisery 


17/01/2016

Ubloo - Parte 4

                                                                                                   < Parte 3 || Parte 5 >

Vi as linhas brancas no meio da avenida desaparecerem uma por uma sob o capô do meu carro enquanto eu reduzia no pedágio. Se eu olhasse muito para essas listras, elas logo se transformariam em uma longa linha branca no meio de um mar de asfalto, e então eu perderia o foco e elas estariam separadas novamente.

Me virei para o banco do passageiro e peguei minha moringa de gin. É triste o quão bom eu fiquei em abrir a tampa com uma mão, enquanto a outra estava na roda. Tomei um grande gole e acabei com a garrafa. Então a atirei pela janela, e ouvi o vidro se estilhaçar em um “crash” satisfatório.

“Tinha que ser microssono. ” Eu continuava dizendo a mim mesmo. Eu não sabia se eu estava finalmente á perder o sono ou se eu havia bebido muito e estava apenas me iludindo, mas eu tinha que focar no fato de que eu vi Ubloo, e não ouvi ele após isso.

“No final eu deixei que as alucinações cobrissem a ausência de sono, e disse para mim mesmo que eu tentaria ter no mínimo 5 horas de sono naquela noite. Nas últimas semanas, eu estava tendo apenas 4 horas por noite, ou seja lá quanto eu podia suportar aqueles pesadelos terríveis.

Pelo meu retrovisor eu chequei na caixa as coisas que pertenciam à Robert Jennings. Hoje era finalmente o dia que eu aprenderia o que aquele livro significava. Eu não posso te dizer por quanto tempo eu comparei essas escrituras com os exemplos no meu laptop, não até um golpe de sorte cega que me fez perceber o que realmente era.

Eu estava sentado no bar de um hotel na Pensilvânia quando um homem veio e sentou-se perto de mim. Tivemos uma curta conversa, mas eu acho que ele ficou assustado pela minha aparência.

Bebemos em silêncio por alguns momentos e então ele o quebrou abruptamente.

“Você consegue ler aquela merda? “ Ele disse isso, mas graciosamente.

“Infelizmente não. “ Suspirei. “Na verdade, estou tentando entender que língua é essa para ser sincero. “

“Oh. “ Ele olhou para sua cerveja e começou a brincar com a borda. “Se importa se eu der uma olhada? “

“Certo, apenas tome muito cuidado. “ Deslizei o livro para ele cuidadosamente. Ele abriu a capa da frente e virou as primeiras páginas.

“Bem, eu te digo. “ Ele começou. “É algum tipo de escrita Africana. “

Minhas orelhas se atiçaram.

“Africana? “ Eu perguntei esperançosamente.

 “Sim. Eu era um guarda de segurança no museu nacional de história na cidade de Nova York. Eu juro que já li alguma merda assim lá. “

Nem me incomodei de agradecer ao homem. Peguei o livro dele e corri para o meu quarto para começar a trabalhar. Eu devo ter escrito uns 500 emails naquela noite, com um pequeno exemplar da escrita afixado, para cada professor de história Africana, dono de museu e tradutor de língua Africana que eu pude achar o e-mail.

Foi assim que eu conheci Eli.

Eli era um professor de história Africana vivendo em Natchez, Mississípi. O e-mail que ele enviou de volta parecia um pouco excitado e surpreso. Ele me disse que esta escrita estava em uma língua quase extinta que ele aprendeu a traduzir com documentos de um professor enquanto estudava para seu doutorado. Eu disse a ele que eu pagaria qualquer quantia de dinheiro se ele me ajudasse a traduzir aquele livro, se eu o entregasse, ele teria de ler direto para mim. Eu não podia arriscar perder aquele livro no correio, e além disso, Natchez estava bem na minha rota para a casa em Louisiana.

Eu havia acabado de ler o diário do Robert em duas semanas. Ele escreveu sobre os seus sonhos, o quão difícil foi de suportar e como eles afetaram sua vida familiar. Robert continuou batendo na porta de seu inquilino, após não o ouvir (ou receber o aluguel) durante semanas.

Se permitiu entrar e o encontrou lá, de pulsos cortados na banheira. Aparentemente, um par de suas calças de brim velhas estavam deitadas no chão do banheiro, e em um bolso Robert encontrou uma imagem da casa em Louisiana, com o endereço e " às pressas " rabiscado na parte traseira da mesma. Achei curioso que ele não fez nenhuma menção de onde ele encontrou o outro livro.

Robert também criou teorias sobre o que Ubloo estava tentando fazer. Ele parecia acreditar que era um espírito vingativo, alimentado por nossos pesadelos ou medo. Que a verdade seja dita: O diário dele não foi muito útil, eram simples recordações de tudo que ele havia passado nos três anos que ele lidou com essa maldição.

Eu saí da minha linha de pensamentos a tempo de ouvir uma mulher gritar.

K-THUMP

E então uma grande fenda em forma de teia de aranha se formou pelo vidro. Eu desviei por instinto e perdi o controle do carro. Ele saiu da avenida para o acostamento, atirando a mulher do meu capô para a paisagem como se fosse uma boneca de pano, até ela ser parada por uma árvore. Então eu ouvi a coluna dela estalar com um afiado “clack”.

Meu carro finalmente parou de deslizar e então eu o ouvi gritar.

“AI MEU DEUS! MARY! ”

Um velhinho estava correndo para o acostamento agora até onde a mulher repousava.

“MARY! DOCINHO, POR FAVOR! “

E se ajoelhou e deitou a cabeça dela em seus braços, com suas pernas reviradas em formas atormentadoras. Ele se virou e me olhou, ainda em choque, com as articulações brancas de tanto virar o volante. Não estava assim até eu perceber a gravidade do que havia acontecido.

“AFASTE-SE! SOU UM DOUTOR! “ Eu gritei, abrindo a porta e correndo até o homem.

“Ela está MORTA seu idiota! Você MATOU ela! “ O velhinho acariciou o cabelo no topo da cabeça de sua esposa.

“Me desculpe, eu... “ Balbuciei, chocado. “Eu não estava prestando atenção. “

“Você estava bêbado seu idiota! “ Ele retrucou para mim. “Um bêbado como você, marmanjo! Foi isso que a matou e matou a sua mãe também. “

Tomei um susto por causa disso.

“Não, isso não é verdade! “

“Sim, é! “ O velhinho chegou por trás dele e sacou um revolver. “Olhe o que você fez, garoto! É tudo sua culpa! “

E com isso, ele engatilhou o revolver, colocou em sua boca, e eu assisti seus miolos saírem pela parte traseira de sua cabeça numa explosão de cores.

Fiquei ali em choque, escutando o silêncio do resultado. Cocei a minha nuca e encarei a mulher e o homem. Como eu sairia disso? Eu cocei a minha nuca novamente. Que momento estranho para me coçar.

Então eu senti meu cabelo se embaraçar. Observei pelo meu ombro surpreso e assustado e lá estava ele. Seu longo tronco, saindo de trás da sua cabeça e a enorme língua que balançava no final do focinho. Ele me encarou com aqueles olhos em um preto sombrio. Tão preto que eu podia ver meu reflexo neles, o reflexo de mim ficando parado ali congelado em medo. Ele se reclinou lentamente em suas pernas e se abaixou quase que graciosamente. Sua cabeça virou para o lado em uma fração de segundos e sem movimento algum eu ouvi.

“Ubloo! “

Acordei com uma baforada de ar quente. As coisas voltaram a mim lentamente enquanto eu bebia suspirando, e então tudo voltou à realidade. Eu havia descansado um pouco do lado de fora da casa de Natchez para pegar um café. Eu devia ter dormido no carro.

“MERDA. “ Eu bati minha mão contra o volante.

Já devia ter sonhado umas 50 vezes com aquela coisa e ainda, de alguma forma, ele dava um jeito de me pegar desprevenido. Cheguei no meu suporte do carro e coloquei a garrafa de pílulas de adderall. Eu joguei duas na minha boca e forcei elas a descer com uma golada de gin.

Por um segundo eu fiquei ali, com a cabeça contra o volante, lutando contra meus pensamentos, então eu virei a chave e liguei o carro, estacionando melhor.

Me levou mais meia hora para chegar onde Eli morava. Sua casa era grande e velha. O caminho era maior do que eu estava acostumado a dirigir. A terra que cercava a casa dele se esticava no que parecia ser eterno. Acho que morar na cidade fazia um lugar como esse parecer anormal.

Parei meu carro na frente da casa dele e ele veio para fora e acenou. Ele estava me esperando, chamei ele quando eu estava a dois minutos lá fora. Ele era da minha altura, porém mais velho, devia ter uns sessenta anos. Ele tinha uma cabeça cheia de cabelos brancos e uma barbicha branca para combinar.

Sua pele era enrugada e ele tinha um par de óculos descansando em seu nariz.

Ele acendeu um cigarro enquanto eu saia do carro enquanto esticava minhas pernas.

“Boa Tarde, Doutor. “ Ele me chamou dos seus degraus da frente. “Preciso dizer que eu tive pesquisano sobre esse seu livro. Num pude achar muito que já num tivesse sido discoberto, e se me dar a chance de traduzir alguma coisa nova, bem, acho que eu poderia tenta. “

Ele falava com um forte sotaque Mississippiano, mas era inteligível. Ele me olhou por alguns minutos e então falou novamente:

“Dotô, cê parece terrívi. Dirigiu muito? “ Ele me perguntou com um tom de sinceridade.

“Só uma noite ruim. “

Eu não podia fazer nada a não ser sorrir daquilo. Abri o porta-malas do meu carro e tirei o livro daquela caixa. Fechei a porta e então estudei a capa mais uma vez em mistério enquanto andava até Eli.

“Aqui está ele. “ Eu disse entregando o livro.

Eli pegou o livro em suas mãos e empurrou seus óculos para enxergar melhor. Ele olhou para capa pela luz do sol por três segundos até eu ver seus olhos se virarem e sua boca se abrirem lentamente.

“Doutor. ” Ele disse gravemente. “Onde ocê encontrou isso? “

“Quem me deu foi um amigo. “ Eu menti, mas foi só meia mentira. “Porquê, como isso se chama? “

Eli virou e me encarou por um longo tempo, e então eu quase vi as engrenagens girando em sua cabeça enquanto ele começava a perceber o por que de eu parecer tão desgastado.

“É um texto religioso. “ Ele começou, com sua voz oscilando. “Escrito por um pajé da Tribo Binuma. “

“Doutor em bruxaria? “ Perguntei curiosamente. “Como Voodoo? “

“Sim Dotô. “ Eli virou-se para mim enquanto ele falava. “Mais num é qualquer voodoo. A Tribo Binuma e mais especificamente esse pajé, são referidos na história Africana como uma das mais desumanas de toda a história. “

Ficamos alí por um momento nos degraus da frente da casa dele. Com apenas o som do vento em nossa companhia.

“Bem Doutor. “Eli começou. “Vamos entrar, e ter certeza que não é falso até ter conclusões absolutas. “

Entramos juntos e Eli me levou para seu escritório. Ele começou a examinar o livro, o texto, o papel, tudo. Enquanto ele fazia isso, ele me deixou fazendo várias tarefas simples para ele. Como por exemplo, preencher armários, procurar por textos que ele não tinha na internet, pegar chá doce da geladeira. Após duas horas, ele finalmente se sentou em sua cadeira e virou para me olhar.

“Caramba dotô, isso é uma coisa séria. “

 Eu estava satisfeito ao ouvir isso. Verdade seja dita: eu não considerei nem a possibilidade desse texto ser falso, e agora que eu estava a minutos de obter as respostas sobre Ubloo, e como parar ou matar ele, eu finalmente senti um peso ser tirado dos meus ombros.

“Então eu vou te dizê o quê tá acontecendo. “ Eli começou. “Tenho um quarto de visitas lá em cima. Se ocê num tiver lugar para ficar, ocê pode se acomodá comigo e podemos traduzir esse livro em... oh, eu num sei... trêis dia? ”

Me senti desconfortável.

“Me desculpe Eli, mas é muito tempo. “ Ele me olhou de volta. “Preciso de voltar para a estrada no por do sol. “

Ele parecia surpreso, e legitimamente surpreso.

“Diacho! Minino, parece que cê não dormiu por dias! Certamente cê pó' ficá uma noite fora da estrada. “

“Me desculpe, mas eu estou esgotando meu tempo. “ Eu levantei e caminhei por ali enquanto Eli segurava o livro. “Posso? “

“Bem, cumcerteza, Dotô. É seu, de qualqué jeito. “

Folheei as páginas até a parte que eu precisava.

“Não mais, Eli. “ Eu disse enquanto chegava perto do texto que eu tinha que ouvir. “Quando eu sair isso é seu, faça o que quiser com isso. “

Parei na página que eu queria. Uma cruel imagem de Ubloo me encarava com um texto em volta.

“Por favor, esse é o texto que eu preciso. “ Eu disse antes de perguntar qualquer coisa.

Eli virou a página e leu em silêncio por alguns minutos, e enquanto ele o fazia, eu podia ver que ele entendia. Quando ele estava finalmente pronto, ele virou para mim e me olhou com grandes olhos tristes.

“Quanto tempo? “ Ele perguntou.

“Por volta de dois meses. “ Eu disse de volta, com meu coração partindo por finalmente estar hábil para dizer para alguém que entendia.

“Jesus... “ Ele disse se desanimando, e então; “um momento dotô. ”

Ele se levantou e caminhou até a cozinha, e voltou com uma bandeja. Nela, duas taças cheias de gelo, e uma garrafa de algo que parecia whiskey. Eu ri, e por um segundo me senti humano novamente. Eli me encheu uma taça, depois uma para ele, e bebemos juntos em silêncio.

“Então agora você entende o por quê de eu não poder ficar “ Eu finalmente disse.

“Sim, Dotô. Agora ocê deve querê se sentá pra ouvi isso, por quê é uma longa história. “

Me sentei perto de Eli e me debrucei, com o coração palpitando para saber o que vinha à seguir.
“Essa criatura, é chamada ‘Daiala Bu Umba. ‘ “

“Daiala Bu Umba? “ Perguntei curiosamente, achando estranho aquelas pessoas não chamarem do mesmo nome que Robert e Andrew chamavam.

“Sim, Daiala Bu Umba, que traduzido vira ‘Aquele Quem Mostra’. “

Um arrepio percorreu minha espinha enquanto Eli continuava.

“Aqui diz que esse pajé era muito poderoso, e seu povo – a Tribo Binuma- tavam sendo caçados pelo deserto por um clã rival. Ao invés desse clã acabar com eles na batalha, eles enviaram seus meiores guerreiros para o acampamento Binuma pela noite, e acabaram com eles em sono.

O pajé estava fora, rezano pros Deuses para ajuda seu povo à escapá, mas os Deuses tinham abandonado ele por usar voodoo pra derrotá seus inimigos, e suas preces não foram atendidas.

Quando ele voltô pro campo, ele encontrou toda sua tribo massacrada em suas camas, incluindo sua esposa, que tinha um filho. O pajé tava possuído pelo ódio e raiva, e usou seu mais poderoso voodoo para se vingar do clã rival, e abandonar os Deuses que viraram as costas para ele.

Ele pegou tudo que pode encontrar após o ataque; presas de elefante, peles de cobra, ossos de animais e tudo que significavam algo importante. Ele os empilhou junto com os corpos de sua tribo derrotada e queimou tudo, consagrando uma maldição voodoo enquanto isso, uma maldição que tomaria conta do clã rival, pra invocar um espirito que iria assombrar seu sono do mesmo jeito que assombraram sua tribo. “

Eli parou e me olhou.

“Qué que eu continue, dotô? “

Tomei um gole de whisky e solenemente concordei.

“Numa questão de dias, o clã rival estava tendo pesadelos horríveis e num podiam dormir. Eles sonhavam que estavam sendo assaltados pelas outras tribos e vendo suas mulheres e crianças estupradas e assassinadas, com plantações queimando e períodos de seca que nunca acabavam. Após isso, o clã virou se contra o outro e tiraram suas vidas, até nenhuma sobrar.

Mas algo estava errado. Quando o pagé ouvi que o clã havia sido destruído ele comemorou, mas continou a ouvir pessoas sendo atingidas por “Aquele Quem Mostra”. Ele percebeu que a besta que ele havia criado não podia ser parada, por isso teve um apetite por desespero que não podia ser satisfeito. Um por um, as pessoas seriam afetadas pelo espírito, e quando morressem, isso se passaria de um para o outro, e assim em diante. “

Ele parou e me encarou.

“Bem? Eles puderam o parar? “ Perguntei

“Aqui não diz. “ Eli disse com tristeza. “Aqui diz que as tribos começaram a exilar todos que atraiam o espírito assassino, por isso era impossível lutar. Deixando o espírito, ele seria contraído por uma tribo diferente. “

 “Meu estômago se revirou. Era isso. Eu não tinha escapatória. Eu teria que lidar com Ubloo por todo o tempo que eu vivesse... ou o pouco que eu vivesse. Vejo agora o por quê de Andrew e Robert terem tirado suas vidas.

Meus olhos começaram a lacrimejar e Eli me deu outra taça de whiskey.

“Entendo que cê qué volta pra estrada, Dotô. Vou continuar traduzino e te chamarei se eu encontrar algo que ajude. “

Engoli todo o whisky em um gole só e joguei meus olhos nas minhas mangas.

“Obrigado Eli... “ Eu forcei. “Deixe eu ver, eu posso sair sozinho. “

Me levantei antes dele poder me parar e corri para a porta da frente. Antes de eu puder descer para o meu carro, Eli estava na porta da frente e me chamou.

“Dotô! Onde é que cê tá ino? Se cê num se importa de responde. “ Ele disse. A tristeza na voz dele me fez pensar em largar tudo.

“Vou seguir as pegadas de um homem morto. “ Respondi. “Elas apontam para algum lugar em Louisiana. “

Eli me encarou e seus olhos começaram a lacrimejar.

“Bem, eu desejo o melhor procê, Dotô. Num posso imaginar a coisa que cê viu e nem quero vê, mas Deus abençoe ocê por lutá. “

 Cambaleei e abri meu carro, mas parei e olhei para Eli.

“Daiala Bu Umba. “ Eu disse com um sorrisinho. “É bem melhor do que eu estive o chamando. “

“Do que ocê tava o chamano, Dotô? “

Parei por um segundo e pensei sobre o nome idiota que eu havia dado para ele.

“Ubloo. “ Eu disse com um sorrisinho de canto de boca.

“Ubloo? “ Eli olhou para mim, confuso.

“Sim. É isso que ele sempre diz para mim no final dos sonhos. “ Hesitei. “Significa algo? “

Eli olhou para mim com um olhar que eu nunca vou esquecer. Um olhar em seus olhos que eu sabia que nunca seria dado para outro alguém em sua vida, e ele disse:

“Sim Dotô. Ubloo é a abreviação para ‘Ubuaa Loo. ‘”

O vento soprou gentilmente entre nós e a grama se balançou na luz do por do sol, enquanto eu esperava o que seria a última coisa que eu ouviria dele.

“Significa ‘Acorde’. “



Continua...



16/01/2016

Volto Já

Achei isso no diário da Chloe. Tento entender isso, mas nunca consigo. Aí vai...

* * *

Era um dia chuvoso. A chuva já estava quase se esgotando, e assim que ela parou, a energia acabou. “Que ótimo”, pensei. Meus pais estavam na sala e eu, na cozinha. De repente, um breu. Por incrível que pareça, todas as velas acesas entre os ambientes foram apagadas subitamente.

A cozinha da minha casa é legal. Acho que é o cômodo com as janelas mais iradas de toda a casa. Porém, elas são extremamente cabulosas. Por serem completamente de vidro, tudo que se passa ali fora, possivelmente você consegue ver pela entrada da cozinha.

Dessa vez, não foi diferente.

Vi uma luz, que parecia ser de uma lanterna, se aproximando da janela. A vontade foi de gritar, mas eu sou uma expert em fatos de horror. Jamais se deve gritar – como nos filmes – ou ir até o local “assombrado”, a não ser que você queira ser morto. Ou tirar uma selfie com o assassino ou o que é que seja.

Poderia ser só meu irmão, que mora do lado da minha casa, procurando a origem do corte de energia.

Abaixei na janela e esperei Ela se revelar. Mas isso não aconteceu.

“Você anda lendo muito creepypasta”. Me xinguei de idiota por algum tempo.

Decidi que eu só teria uma opção nessa noite quieta, escura e sem graça: dormir.

Fui até a sala – que estava vazia, já que meus pais foram para o quarto deles há muito tempo – pegar meu cobertor e voltei para a cozinha, porque eu não durmo sem uma garrafa d’água do meu lado.

E então, eu a vi.

Juro, eu gostaria de não ter visto.

Uma face distorcida, amarelada. Um capuz preto cobria grande parte de seu rosto, mas eu ainda conseguia vê-la. Ela possuía um risco no lugar dos olhos. Eu paralisei. Ela sorriu com os “olhos”. O sorriso mais perturbador que eu já vi em todos os meus 18 anos de vida.

O breu cobria o quintal. E eu vi Ela pela janela transparente. A maldita janela de vidro!!!

Corri para o quarto dos meus pais e expliquei. Pela primeira vez, eles acreditaram em mim.

A minha mãe me lembrou que a janela do meu quarto estava aberta. Porra. A janela dava para o quintal, onde Aquela insignificante estava. Corri e tranquei a janela, mas assim que me afastei por 2 segundos, as fechaduras da janela se estouraram e a janela explodiu, causando um estrondo insuportavelmente alto.

Dessa vez, o medo não me travou. O mais rápido que pude, fechei a porta do meu quarto, o tranquei e empurrei alguns móveis para a porta.

Passei pelo corredor e olhei a janela novamente. Ela estava com uns buracos negros no lugar dos riscos – que antes eram seus supostos olhos – e um sorriso marcado com algo semelhante a sangue.

Gritei “Vá embora!”. E ela riu e sumiu.

A energia voltou.

Abri a porta do quarto dos meus pais e os vi no chão, ensangüentados. Havia um bilhete preso nas mãos entrelaçadas deles.

“Não se preocupe, querida. Eu voltarei.”

Chorei tanto, mas tanto, que desmaiei ali.

Quando despertei, estava na escuridão e senti um riso de criança muito próximo de mim. E Ela falou, me esmagando com a mão “Eu não disse que voltaria?”

* * *

Isto é tudo. Chloe está desaparecida há 3 anos. Estranho que eu ouço risadas o tempo todo. E o pior é que eu não sei se essas risadas são dela.

Fonte: Fricativando
Autora: Gabriela Azevedo


14/01/2016

Os 1% Parte 6: Theresa/#1302/Brittney

PARTE 1 // PARTE 2 // PARTE 3 // PARTE 4 // PARTE 5

                   

Três mulheres estavam jogadas no tapete branco e penicante do quarto. Elas olhavam para o nada que era o teto branco e liso. O quarto é abafado e cheira levemente como desinfetante. Não há barulho, a não ser o trânsito lá fora.

Theresa gosta do silêncio. Ela raramente fica em silêncio quando estava com sua filha. 

#1302 não nota o silêncio. Ela só consegue notar as ferroadas de dor que cada respiração trás. Um dos seus pulmões tinha sido perdido durante as diversas cirurgias. 

Brittney preenche o silêncio com uma corrente de pensamento infinita. Vai até sua infância. Lembra do balão rosa que ganhou no seu sexto aniversário. A bexiga se soltou de seu pulso e voou até o teto da sala de estar. Ficou lá por quase um ano até que caiu, derrotado, no chão. Se lembra de ver a casca murcha caindo tristemente até o piso. Lembra também de chorar quando finalmente encostou no chão. 

Theresa não gosta das outras duas mulheres. Fazem a sua vida mais difícil. Preferia se concentrar no jantar do que lidar com as distrações constantes.

#1302 não gosta nem desgosta de nada. Não tem mais a habilidade de sentir emoções. Mesmo que a maioria de suas funções cerebrais funcionem normalmente, ela é incapaz de formar uma opinião.

Brittney gosta das outras duas. Nunca teve amigas em sua vida. Cresceu totalmente solitária. Quase nunca lhe é permitido sair. Teve que desenvolver uma relação consigo mesma para conseguir continuar. Conversa consigo mesma o tempo todo - em sua cabeça, é claro. Conversa sobre os meninos que costumava sair no ensino médio. Lembra de como eles escolhiam suas roupas e nunca se desculpavam por serem violentos na cama. Eles eram doces algumas vezes, por que ela era linda. Bittney linda, rainha do baile. Até que conheceu Greg. 

Toodas as mulheres sentiram um arrepio.

É tudo culpa do Greg. Ele é o culpado por tudo de ruim que aconteceu. Até #1302, que só fala quando é mandada, sabe o quão terrível Greg é.

Greg tinha o cabelo mais macio do mundo. Isso foi a primeira coisa que atraiu Brittney. O cabelo loiro escuro caía delicadamente em seu pescoço. Ela sempre estava tentando passar a mão, mas ele não gostava. Então ficava a noite inteira acordada assistindo ele dormir, observando os fios voando e caindo com a respiração. Amava-o muito.

Theresa se senta. As outras também. Theresa não quer pensar no passado. Ela tem coisas para fazer. Tem tarefas que precisa realizar antes que sua filha chegue em casa. Theresa gosta de pensar no futuro. Se imagina com mais filhos e mais liberdade. Que alegria seria ter amigas assim como as outras mulheres tem.

Mas Brittney sempre volta. Ela pensa em como o bolor começou a crescer na geladeira do apartamento que Greg comprara para ela. Começou pequeno, como um pingo de tinta verde em uma tela branca. Mas parecia crescer incessavelmente. Fedia tanto que ela nem ia na cozinha. Dependia totalmente de Greg; ele que trazia comida para ela.

Greg gostava de dar comida a ela. Na verdade, era a única coisa que faziam. Explicara que só estava tornando-a mais linda. Quanto mais comesse, mais bonita ficaria. Ela rapidamente pulou dos 55kg para os 130kg. Ficou maior do que qualquer roupa que tinha, então estava sempre nua em casa. Não tinha nada para fazer a não ser olhar TV e esperar Greg voltar. E cada dia parecia que ela crescia mais.

#1302 não tem muitas memórias. Foi criada a dezoito anos atrás. Lembra de luzes muito claras e de muita dor. Lembra de assistir sua pele sendo descascada. Lembra da sensação de ter a gordura do seu corpo ser retirada e colocada em uma travessa de metal. Lembra da furadeira fazendo buraquinhos em seu crânio. Mas essas memórias parecem distantes. Como se tivessem acontecido como outra pessoa.

Theresa chegou ao limite. Não quer mais isso. Ela se levanta. As outras duas também.

Brittney lembra de uma época em que não conseguia se levantar. Foi por volta dos 200kg. O peso de seu corpo fazia seus ossos estalarem. Doía demais se mover. Greg, é claro, amava o corpo enorme dela.  Se deleitava nele. Transava com ela como se o sexo fosse a manter gorda. A visitava todos os dias. Banhava ela com elogios e comidas fritas. Brittney gostava da atenção.   

Theresa teria dado um tapa em Brittney, se pudesse. Teria feito diversas coisas violentas. Fantasiava com assassinatos quase que diariamente. Variava entre atropelar diversas pessoas com sua minivan até cortar a garganta de sua filha. Nunca realizava essas fantasias, é claro. Ela é muito boa em manter o autocontrole. 

#1302 é melhor ainda nisso. Se mandada, poderia ficar parada em um canto por dias sem se mover. Poderia experienciar uma quantia indescritível de dor sem fazer nenhum barulho. 

Brittney não tem autocontrole. Quando seu corpo ficou grande demais para sua cama queen size, Greg a arrastou para o chão. Disse que, de qualquer forma, os ângulos das câmeras ficariam melhor lá. Ele a filmava diariamente para sites adultos. A chamava-a de "Peggy a Porca". Ela tinha fãs por todo o mundo. Greg faturava muito dinheiro. Brittney fazia tudo que ele mandava. Usava quaisquer objetos que pedia ou dormia com qualquer estranho que Greg convidada para seu apartamento. Ela o obedecia completamente. Até o dia que ele trouxe um porco de verdade e ordenou que ela transasse com o animal.  

Theresa quer bater com os punhos contra a cabeça de novo e de novo e de novo. Bater até que fiquem as marcas do seu anel de casamento em seu crânio. 

#1302 lembra em silêncio o que se marido faria caso ela se machucasse. 

Theresa se acalma.

Brittney coloca a mão na cabeça e sente os cabelos loiros caindo delicadamente em seu pescoço, assim como os de Greg caiam. Ela sente os pontos escondidos atrás da orelha. #1302 sente a dor profunda que vem ao mexer os dedos. Theresa queria estar sozinha. 

Brittney queria ter matado Greg no dia que o conheceu. Antes do incidente com o porco. Antes dele ficar bravo e ameaçar vendê-la. Antes dela descobrir que nos Estados Unidos, no século 21, uma mulher podia ser vendida para outro homem pelo preço certo. 

Brittney devia ter morrido muito tempo antes de Theresa chegar. #1302 devia ter a matado. Mas Brittney estava cheia de tanto ódio que se recusava ser retirada. 

Então agora, três mulheres ocupavam um corpo que tinha sido dobrado, quebrado, sangrado e renascido. Agora estavam pequena, pesavam menos do que quando Brittney conheceu Greg. A maquiagem sempre estava bem feita. Elas faziam o que lhes era mandado. Até Brittney não era estúpida o suficiente para falar em voz alta. 

As três mulheres ouviram um assobio vindo do andar de baixo. #1302 anda até a porta, ignorando a dor dos seus ossos ao andar. Fica de pé no último degrau, olhando para baixo, vendo seu marido. 

"O Doutor precisa de alguma coisa?" #1302 pergunta com uma voz doce e cantarolada. 

"Alena estará em casa em breve, #1302. Preciso de Theresa."

Theresa sorri. 

"Sim, Allen?"

Allen olha para ela sem emoção. "Hoje a noite você fará bolo de carne. Falará para Alena que passou os dias com suas amigas. Perguntará a ela sobre a escola. Depois da janta, você se deitará comigo e tentaremos ter um filho homem mais uma vez. Estou começando a ficar impaciente." 

"Sim, Allen."

Allen pendura o casaco enquanto sua esposa desce as escadas. "Já fiz trinta abortos em você, Theresa. Se seu utero parar de funcionar, serei forçado a usar outra paciente para ser minha esposa. E você sabe que não sou tolerante com fracassados."

"Sim, Allen."

Theresa sorri docemente. #1302 observa-o pelos olhos compartilhados sem sentir nada. Brittney sente o ódio fervilhar dentro dela. 

Ela tenta se focar naquele balão decadente do seu sexto aniversário, caindo lentamente para sua morte. 

(EM BREVE: OS 1% PARTE 7: ALENA)


Por: EZmisery