29/02/2016

Dez Dias, Dez Pílulas

1º Dia

Estou testando uma nova medicação. Meu médico que recomendou. Disse que ajudaria com as coisas. É uma nova droga, ainda sendo testada, então me colocaram em experiência de dez dias. Os efeitos colaterais devem ser mínimos. Nenhum risco, disseram. 

Meu médico disse que eu deveria anotar quaisquer mudanças que sentir em relação ao meu comportamento, sejam elas boas ou ruins. Por isso comecei esse pequeno diário. Me sinto idiota por fazê-lo, nunca tive um antes. Cheguei do médico faz uns vinte minutos. Vou tomar uma das pílulas  agora. Estou um pouco nervoso, apesar dele garantir que vai dar certo. Como sempre, só devo estar paranoico. 

De qualquer forma... Aqui vou eu.

2º Dia

Bem... Não dormi muito bem. Tive dor de cabeça a noite toda. O médico disse que era um possível efeito colateral. Além disso, não notei nenhuma outra diferença. Tomei um Advil por volta das quatro e isso pareceu ajudar.

Estou prestes a almoçar. Eles disseram que eu deveria tomar a medicação de estômago cheio. Ainda bem que não preciso trabalhar hoje. Acho que após o almoço vou tirar uma soneca. Estou cansado e minha cabeça finalmente deu um tempo.

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Engraçado, essa é a segunda vez que escrevo aqui hoje. Talvez eu realmente esteja gostando de fazer isso? De qualquer forma, estou indo dormir. Mais cedo eu almocei, tomei a pílula e desmaiei no sofá. Tive sonhos bem esquisitos. Isso é bem estranho, porque NUNCA sonho.

Bem, já é quase meia noite e preciso tirar algumas horas de sono. Vou tentar acordar cedo e tentar aproveitar ao máximo meu Domingo, talvez fazer um passeio até o lago. Espero que não chova. 

3º Dia

Tive um dia bem estranho hoje. Tudo estava ótimo até que fui para o lago. Tomei a pílula por volta do meio dia antes de sair. Não sei se isso tem muito a ver com o que aconteceu (não vejo um motivo para ser) mas mesmo assim, esse diário é justamente para anotar algo fora do normal durante o teste. 

Então, fui para o lago por volta das três. Levei meu livro, uma toalha e meu deitei perto da margem. Estava ensolarado e quente, um ótimo dia. Haviam algumas famílias lá, principalmente crianças e alguns adolescentes.

Tudo estava indo bem até que... Bem... Eu ouvi essa... Sirene.

Deixa eu explicar: esse lago se situa no meio do nada. Um lugar secreto. Você tem que passar por essa estradinha suja de terra pelo meio da floresta para conseguir chegar lá.  Mas uma vez que você está lá, é muito lindo. Há um ano, alguns moradores depositaram areia em volta da margem e continua lá até hoje. É como estar perto do oceano no meio de uma floresta. 

Então, já era por volta das seis da tarde e o sol esta baixando e essa... sirene... começou a soar pela floresta. Era distante e baixa, ressoando pela água vindo da margem oposta. Me lembrou daquelas antigas cornetas Vikings. 

Atordoado, percebi que eu parecia ser o único a ouvir aquilo. Olhei em volta, tirando meus óculos escuros do rosto, e ninguém nem virou o rosto em direção ao barulho. Bem, depois de três minutos a sirene finalmente parou. 

Depois disso decidi que era hora de ir embora. Comecei a levar meus pertences para o carro e congelei quando coloquei a mão na maçaneta da porta do carona.

Da margem do outro lado do lago, três figuras me observavam. Estavam longe, longe demais para eu conseguir identificar as feições. Pareciam ser três homens, mas não tenho certeza. Havia algo de errado com os rostos, mas não importava o quanto eu forçasse a visão, não conseguia distinguir o que era.

Totalmente apavorado, abri a porta do meu carro e entrei. Enquanto me afastava, podia vê-los me observando do espelho retrovisor. 

4º Dia

Não sei o que fazer. Vou ligar para o meu médico. Tive mais sonhos ontem a noite. Minha cabeça dói. Tomei a medicação um pouco depois do café da manhã, mas acho que era melhor não ter tomado. Pareceu piorar a dor de cabeça.

Hoje fui para o trabalho mas não consegui me concentrar. Sinto como se alguém estivesse me observando.

Sinto que alguém está me observando agora mesmo.

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É quatro da manhã. Acabei de acordar de um pesadelo. Ouvi a sirene de novo. Não sei se foi aqui na rua ou no sonho, mas me acordou. Estou suando feito um louco, me assustou pra caralho. Continuo achando que estou vendo algo passando pela minha janela.

5º Dia

Bem, hoje o dia foi bem melhor. Liguei para meu médico e contei todas as coisas estranhas que andaram acontecendo. Ele falou que os sonhos e a dor de cabeça eram provavelmente efeitos colaterais e que eu não tinha que me preocupar com aquilo. Mas estava cético sobre as outras coisas. Tinha contado todo o resto também e, Deus o abençoe, ouviu tudo que eu tinha para falar. Me assegurou que provavelmente era algo relacionado ao estresse, mas que eu devia avisá-lo se ficasse pior. Ele me lembro que essa não era uma droga licenciada, mas era a melhor chance que eu tinha.

Vou ter que aguentar. Ele disse que tenho que fazer o teste de dez dias para podermos reavaliar o caso. Estou na metade do caminho.

6º Dia

Mais sonhos na noite passada. Sonhei que algo estava deslizando pelo meu chão, como se fosse uma sombra sob meus pés. Toda vez que eu tentava me afastar dela, voltava para de baixo de mim. Eu subi na cama e a coisa subiu pela parede como um pedaço de papel negro. Pouco antes de acordar, ouvi algo parecido com uma risadinha vindo de baixo da minha cama.

Hoje, quando voltei do trabalho, algo em meu apartamento não parecia certo. As portas do armário que fica no me quarto estavam escancaradas. Não lembro de tê-las aberto hoje, mas acho que eu simplesmente esqueci. Fiz questão de deixar bem fechadas.

--–

É quatro da manhã agora. Estou com medo pra caralho. Algo está dando risadinhas dentro do meu armário. Não sei por que, mas cada milímetro do meu corpo está me dizendo para eu ignorar até que pare. Estou escrevendo isso para evitar ter um ataque de pânico.

7º Dia

Estou sentado no meu sofá, pensando se devo ou não ligar para o meu médico. Não me sinto bem. Tomei a pílula. Não sei pra que.

Tenho essa sensação de que se terminar esses dez dias, tudo voltará ao normal. Liguei para o trabalho e disse que não estava me sentido muito bem. Fechei todas as cortinas. Só queria sentar no escuro e não adormecer. Minha cabeça continua me matando de dor. Tem algo de muito errado comigo.

Acho que tem alguém na minha varanda. 

8º Dia

É meia noite. Não adormeci ainda. Estou no sofá, não saí daqui desde ontem, exceto quando fui tomar minha pílula.

Posso ouvir a sirene de novo. Está distante, quase inaudível, mas está lá.

Acho que tem alguém dando risadinhas no meu quarto. 

9º Dia

Liguei para meu médico hoje. Contei todas as coisas terríveis que tem me acontecido. Sabe o que ele disse? Disse que eu tinha que terminar os dez dias, que era necessário ou eles viriam me buscar. Quando perguntei eles quem, o médico desligou na minha cara. Ele parecia atordoado, amedrontado. Mas que porra é essa que está acontecendo? Quem está fazendo isso comigo e por quê?

Ainda estou sentado no meu sofá. Não quero me mexer. Meu chefe continua me ligando, mas estou nem aí. Só preciso terminar o experimento. Só preciso acabar com isso.

Acho que tem alguma coisa no meu quarto. Não consigo ver porque minha porta está fechada, mas posso ouvi-lo. Anda com passos pesados e dá risadinhas. Acho que se eu ignorar, não vai me machucar.

Mas estou me cagando de medo. 

10º Dia

São três da manhã. Ainda estou no sofá. Algo acabou de abrir a porta do quarto. Posso senti-lo me observando, mas me recuso a olhar naquela direção. Estou escrevendo para me distrair e não olhar para lá. Meu coração está batendo tão forte que sinto que vou vomitar.

O apartamento está escuro, mas consigo ver a a silhueta escura e alta pelo canto do meu olho. Está lá de pé, como se estivesse esperando que eu o note.

Vai me matar se eu olhar. Tenho certeza.

Acabou de rir para mim, aquele som infantil soando pela escuridão. Que coisa de quase 2 metros e meio de altura faz esse som? Por que não se mexe? O que quer comigo?

Tem alguém atrás de mim também. Não vou olhar, não vou olhar, não vou olhar. Preciso manter minhas mãos ocupadas e a mente focada para não olhar.

Parece que tem... três... atrás de mim...

Só preciso aguentar até de manhã... só preciso aguentar até o sol sair...

11º Dia

Eu... consegui. Acho. Eu... eu não sei nem o que dizer.

Liguei para meu médico. Disse que havia terminado os dez dias de experimento... Contei sobre minha noite de terror e meus visitantes... e... e sabe a merda que ele falou?

Começou a rir.

Rir de boca aberta, com força, com gosto. Gargalhar. Quando conseguiu se controlar, me disse que as pílulas eram inofensivas.

Disse que as pílulas eram nada mais que Tylenol.

Comecei a gaguejar, minha mente expandindo com essa revelação e com a reação que ele teve. Ele começou a rir de novo e perguntei que diabos ele estava falando.

Ele disse que o experimento era de mentira.

Disse que foi apenas um joguinho que fizera comigo.

Disse que meu caso não havia solução.

Disse que um esquizofrênico paranoico como eu, que sofre de alucinações crônicas, devia ser internado em um manicômio para sempre. 

Disse que nem estava tentando me ajudar, apenas brincando com a minha doença, me deixando mais louco, antes de fazer a recomendação da  minha internação permanente.

Desliguei enquanto ele ainda dava gargalhadas. Minhas mãos estão tremendo, suando.

Não consigo entender. Não consigo entender porque alguém faria algo desse tipo.

Achei que eu estava melhorando...

Os sãos são doentes de uma forma totalmente diferente que a nossa.

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28/02/2016

Butcherface - Parte I

Boa madruga, Creepers! Comecei a traduzir uma série chamada Butcherface, mas pelo visto ela foi descontinuada. Tentei contatar o escritor, mas até agora sem respostas. Peço paciência, pois a creepy fica mais e mais longa (mas também fica melhor e melhor). Até agora ele só disponibilizou 7 partes, mas há um multirão num fórum para ele voltar à escrever/postar a última parte. É isso, boa leitura.

Creepypasta escrita por Dash32.

Aviso prévio, isso será longo.

Em 1997, meu amigo (quem vamos chamar de Chris) se mudou pelo estado. Naquela época, tínhamos 10, e não tínhamos meio que um jeito de ver o outro a não ser por um indo com os pais até a casa do outro, o que seria um incomodo para os nossos pais. Então eventualmente perdemos contato. Durante esse tempo, tive uma chance de visitar a casa dele. Com essa história começando nesse tópico, você deve estar esperando que a casa seja assustadora, mas na verdade, não era. Era uma casa de dois andares muito simples que provavelmente foi construída por volta dos anos 80, com vizinhos por perto, então ela não era muito isolada.

Como eu disse, perdemos contato um com o outro por dez anos, isso é, até Chris contatar um amigo em comum nosso pelo MySpace (eu não tinha uma conta naquele site). Fizemos planos para ligar e sair, pois agora que tínhamos nossos próprios meios de transporte seria bem mais fácil. Após mais ou menos um mês, Chris mencionou que sua família estaria remodelando a casa e eu ofereci ajuda. Ele e seu pai aceitaram a oferta, pois o (s) proprietário (s) anteriores aparentemente não cuidava (m) muito bem da casa.

Então, duas semanas depois, dirigi para a casa dele e estávamos rasgando os papéis de parede, colocando os carpetes, etc. O porão havia virado uma sala para Chris há alguns anos antes e enquanto metade do piso era concreto, a outra metade parecia ter sido destruída e substituída com placas de madeira. Uma dessas placas haviam se quebrado, deixando um piso falso sobre o carpete, esse era o porquê de eles quererem substituí-lo.

Rasgamos o carpete e começamos a rasgar as placas no chão quando encontramos o que parecia um buraco de cinco pés cavado sob o chão. Chris pulou ali pensando que poderia ter maior facilidade em soltar as placas quando ele disse que tinha algo ali. O pai dele pegou uma lanterna e pulamos para ver o que era. Era uma caixa. Era semelhante à uma caixa de sapatos, mas havia três pés de largura e estava extremamente danificada pela natureza. Estava tão deteriorada que você não conseguia pegar um pedaço. Acreditamos que seja lá o que estava ali estaria também muito danificado, mas quando decidimos abrir, vimos que tinha a proteção de um saco de lixo preto. Chris pegou o saco de lixo e seu conteúdo fez barulho de plástico batendo em plástico. Estávamos curiosos para saber o que estava ali, então subimos as escadas e cortamos a sacola com um par de tesouras e encontramos 24 fitas de vídeo desmarcadas. Eu e Chris estávamos curiosos para saber o que estava ali, mas o pai dele afirmou que aquilo era uma coleção de material ilícito de alguém, e que se ainda estávamos curiosos, era para checarmos elas depois que acabássemos o serviço daquele dia.

Desde que o plano era ficar por ali pela noite e os ajular no próximo dia e sair no domingo à noite, decidimos assistir as fitas naquela noite. O pai do Chris estava cansado e não ligou para o que estava naquelas fitas, então ele foi para a cama um pouco mais cedo naquela noite. Então, tiramos o velho VCR do porão dele, conectamos ele com a TV no quarto do Chris, pegamos uma das fitas do saco e colocamos no aparelho.

As fitas certamente não eram filmes contrabandeados como o pai do Chris pensava. Eram filmes caseiros de um homem desconhecido que chamamos de Butcherface. Aparentemente, não havia transição de uma cena para a outra. Era como se ele apenas estivesse filmando algo aleatório por alguns minutos e então deixar a câmera de lado por Deus sabe lá por quanto tempo, até ele achar algo que o interessava. A maior parte da gravação era ele ligando a câmera, encarando uma cadeira. Ele saia de trás da câmera, ia até a cadeira, a jogava no chão, voltava para trás da câmera e a desligava. Ou ele brincando com uma aranha qualquer, com qual ele falava num tom alto, como uma criança, e a fita terminava com ele a esmagando.

Ou então, ele filmando seus pés enquanto andava respirando profundamente. A coisa que sempre era comum em todas as filmagens, é que nas poucas vezes que o rosto dele era mostrado, ele era visto vestindo o que parecia ser um saco de pano com dois buracos para os olhos. Ele era um cara grande, tendo uns dois metros de altura com um físico decente, com alguns músculos, mas sem ser bombado.

O resto da filmagem era muito mais assustadora e sinistra. Algumas das fitas mostravam ele filmando pessoas deixando construções e casas. Ele estava obviamente se escondendo em algum lugar da rua olhando as localizações e também estava respirando profundamente e em alto tom. Muito pior eram as coisas que ele se filmava fazendo. Um pedaço da filmagem mostrava ele sentado numa mesa, com um camundongo preso em um pote de picles grande. Ele destampava o pote de picles, tirava o rato de lá, lentamente colocava sua mão em sua cabeça e começava a torcer até que ele parou de gritar. Ele torceu um pouco mais até a sua cabeça se soltar do corpo, e então desligou a câmera. Outra parte mostrava ele numa fazenda (não havia fazendas na propriedade dos meus amigos, então não sabemos onde isso foi filmado). Ele ligou a câmera, mostrando um porco amarrado à um poste. Ele andou até o porco com um machado em mãos e arrancou a cabeça dele.

O que era realmente assustador é que as gravações eram filmadas no que agora era a casa do meu amigo. As gravações eram sempre feitas no escuro, como se esse cara não gostasse de acender as luzes, mas reconhecemos várias localizações da casa. Um pedaço do filme foi obviamente gravado na sala de estar, que mostrava Butcherface usando uma grande faca de caça para cortar a fiação de algo que não podíamos ver, e depois enrolando essa corda bem apertada ao seu braço, grunhindo e gemendo como ele sempre fazia, e usando a faca para fazer cortes profundos em sua mão e braço.

Outro desses “clipes” mostrava ele ficando em frente uma mesa na cozinha. Na mesa estava um ferro de passar roupas. Ele então abriu o zíper de suas calças, tirou o pênis para fora, colocou na mesa e pressionou o ferro quente contra ele. Ele gritou, mas não tirou por uns 30 segundos. Ele finalmente tirou o ferro, limpou a câmera e a desligou.

O que mais nos aterrorizou foi o “clipe” de Butcherface no que costumava ser o quarto de Chris antes de se mudar para o porão. Ele ligou a câmera e mostrou o quarto todo que parecia estar forrado por milhares de velas. Elas estavam em cada mesa, cadeira e estante. As paredes estavam cobertas de pinturas de faces grotescas e fantasmagóricas. Ele então andava até o canto da sala e começava a cavar furiosamente no chão com a faca de caça. Ele a fincava no chão, e a arrastava por todos os lados, a arrancava e a fincava novamente. Desde que aquele quarto estava vago no momento e era usado para armazenamento, e também seria renovado de qualquer modo, o pai do Chris deixou a gente rasgar o carpete na área do quarto. O que achamos era uma parte do chão que havia sido preenchida com areia, sem reais evidências do que tinha sido escondido ali. Outra fita mostrava Butcherface naquele mesmo quarto, com ainda mais velas. Ele estava de joelhos, encarando a câmera de longe, com seus braços para cima, gritando o que parecia ser “para os poços de dor e tortura” (o interessante sobre essa fita é que ele só tinha três dedos em sua mão esquerda, sendo os faltantes o mindinho e o anelar. Ele tinha todos os dedos nos “clipes” anteriores e achamos que ele os cortou).

Esse era o último “clipe” da fita e a câmera parecia perder o foco. A última filmagem da última fita mostrava Butcherface cavando um buraco furiosamente (o buraco que encontramos no porão). Ele estava cavando rapidamente e respirando profundamente. Ele estava constantemente grunhindo. Sua camisa estava de lado, mas ele ainda usava a máscara. Após alguns minutos depois de começar a cavar, ele começou a falar, falar algo como "É isso. É isso. Eles não vão saber. Eles nunca me encontrarão. Será aqui que eu vou me esconder."

                                                                            <Parte II >
Continua..?



26/02/2016

Eu era Professora de Escrita Criativa.

Logo depois de me formar, consegui um emprego em uma cidadezinha na região central de Wisconsin. Na aula dos alunos mais avançados, perto do Halloween, dei um exercício rápido de escrita de ficção. Tínhamos estudado lendas e folclore, e era vez dos estudantes construírem suas próprias histórias. 

Tamanho da tarefa: de 100 até 1000 palavras. Tema: Me assuste. 

A qualidade das tarefas entregues atingiu o nível que eu esperava - afinal, esses eram alunos avançados - mas um dos textos se destacou: uma obra escrita por um aluno quietinho chamado Jake. Sua história de ficção escrita em primeira pessoa parecia tão real... como se tivesse sido mergulhada na realidade. Até demais. Quase como se não fosse inventando, mas sim contando algo que acontecera com ele mesmo. Coloquei de lado, impressionada. 

A tarefa de de Kate era a última da pilha. Me lembro da experiência da leitura vividamente: as gotículas de suor se acumulando em minhas têmporas, o click repetido da caneta em minha mão, e uma sensação de pavor no fundo do meu estômago. Coloquei a dela em cima da tarefa de Jake e pensei: 

O que diabos vou fazer?

Ainda tenho os xerox das histórias originais e as vezes me pego pensando... Qual o motivo de eu ainda guardas esses textos?

Mas tem algo sobre eles - estão interligados, e tem algo muito cru e lindo ali. Me interesso muito pela escrita criativa de meus alunos, e seria uma vergonha deixar a chama desses contos se extinguir. 

Vou compartilhar os contos com vocês, e o que aconteceu posteriormente. 

Eu gosto muito de boas histórias.

***

O Conto de Jake

Meus pais colocaram a vovó Rosie em um asilo quando ela "começou a perder a noção da realidade", como disseram. Ainda acho isso bem cruel. Mas ela parecia feliz. Feliz o suficiente, pelo menos. 

Me lembro de visitá-la. Tinha uma cadeira de balanço, velha e de madeira que ficava de frente para a janela. Lá fora, nada além de campos verdes. Esse verde as vezes sumia e, quando nevava, virava um tapete branco por milhas e milhas. Não tenho certeza de qual estação do ano vovó Rosie gostava mais. Ela não falava muito. O que mais fazia era ouvir a rádio, sempre na mesma estação: 89.1. 

Mas a 89.1 nunca tinha sinal. Sempre na estática. Vovó Rosie ouvia estática, todos os dias, como se estivesse esperando algo acontecer. Ninguém entendia. 

Visitei-a um dia para deixar uma caixa de chocolates de presente. Vovó Rosie se balançava lentamente em sua cadeira, com grandes fones de ouvido cobrindo suas orelhas, olhando a neve cair. Não sei se ela sabia que eu estava ali. Entrei no quarto e coloquei os chocolates em uma mesinha e, de repente, a mão dela alcançou meu pulso e me puxou pra perto.

"Shhhh," sussurrou. "Ouça."

Vovó Rosie se aproximou e colocou o lado de sua cabeça contra a minha. Eu levantei um dos fones e ouvi. Era apenas estática. 

Eu estava prestes a falar, mas ela cobriu minha boca com sua mão. 

"Ouça bem," disse. 

Eu ouvi, mas para mim era só mais estática. 

"Logo, eles virão," disse. "Virão para me levar embora." 

Isso me apavorou um pouco, então fui para casa. Contei para meus pais o que havia acontecido, mas eles não acharam tão estranho quanto eu. 

Continuei pensando naquilo. Não estava conseguindo dormir uma noite, então chamei minha amiga Abby pelos nossos walkie-talkie. Ela mora do outro lado da rua e, de algum jeito, também sabia sobre a 89.1. Me contou que era uma antiga lenda da nossa cidade, e precisávamos de duas coisas para explorar mais esta lenda: um rádio e um armário com a porta levemente aberta. Vire de costas para o armário, ajuste o rádio na 89.1 e ouça, ouça bem. Em algum momento da estática, você ouvirá o som baixinho de um órgão, gritos distantes e o arrastar de correntes de metal ao longo de uma superficial de cascalhos. A porta aberta é um convite. Mantenha seus olhos fechados e, somente se você manter os olhos fechados, uma figura aparecerá e te arrastará para o armário. Daí em diante, seu destino é incerto.

"Como você sabe disso?" Perguntei. 

"Ouvi falar," ela disse. "Não conte para ninguém. Quanto menos souberem, melhor." Olhei pela minha janela e vi Abby em seu quarto. Ela colocou os dedos sobre os lábios.

"É o nosso segredinho," ela desligou o walkie-talkie.

Nos dias seguinte, não conseguia parar de pensar no ritual e na vovó Rosie. Por que ela estaria jogando esse jogo? Por que ela queria ser arrastada para um destino desconhecido? 

Mais uma vez falei para meus pais que estava preocupado com a vovó Rosie. Me desdenharam.

"Desde que o vovô morreu, acho que ela só quer ir..." minha mãe disse. "Ela quer ir para perto dele."

Eu queria saber mais, então decidi que eu mesmo tentaria o jogo. Era tarde da noite e abri apenas uma fresta do meu guarda roupa. Sentei na minha cama com as costas virada para o armário, liguei meu rádio da 89.1, e coloquei meus fones de ouvido. Ouvi a estática e fechei os olhos. 

Fiquei sentado ali por muito tempo, me focando bastante na estática. Quanto mais eu ficava ali, mais a sensação de que meu quarto estava se encolhendo aumentava. Como se estivesse se preenchendo com algo a mais, como se eu não estivesse sozinho.

Nos meus fones, ouvi um órgão tocando na distância e também gritos que pareciam muito longe, mas que se aproximavam. O barulho de metal começou e então ouvi uma voz:

"ABRA OS OLHOS!"

Pulei da minha cama, muito assustado. Abby estava rindo histericamente pelo walkie-talkie. Olhei pelo quarto e vi que estava sozinho. Olhei pela janela e vi Abby, sorrindo e dando risadinhas. Ela levou o walkie-talkie até a boca.

"Te assustei pra caramba!" falou. "Não tem ninguém aí! Você é um mariquinha."

Olhei para a a porta do meu armário. Estava totalmente aberta. A estática da 89.1 soava pelos fones de ouvido.

"Eu só estava brincando," o walkie-talkie chiou. Ainda não tenho certeza se era mesmo uma só brincadeira.

Vovó Rosie morreu duas semanas depois enquanto dormia. Seu tempo tinha chegado ao fim. E eu estava farto de ficar brincando com lendas e superstições. 
***

A história de Jake foi a mais interessante da pilha. A escrita dele precisava de algumas melhoras, claro, mas a ideia estava ali: uma lenda misteriosa, caracterização emocional e um fim ambíguo. Realmente achei que ele tinha inventado tudo aquilo, até que li a história de Kate.

***

O Conto de Kate

Pânico. Medo. Ninguém acreditava em mim. Nunca.

Falei para ele que estava brincando. Sobre tudo. Isso me ajuda a dormir a noite.

Mas sei o que vi. Um garoto, um ritual, a morte. Personificação da Morte. A Morte negra com sua foice, uma entidade que cerca sua vítima, buscando companhia para seu covil secreto e eterno.

Mas eu estava só brincando. Sempre brincando. O que fez tudo ficar bem.

Eu tinha que saber. Saber mais. Fui até o quarto dela. Parecia recentemente vago, como se a tampa de um ralo tivesse acabado de ser puxada para drenar uma pia. Os fones estavam no chão... estática. Nada mais que a estática.

Barulhos no armário. Ouvi uma respiração com dificuldade. Unhas arranhando a porta por dentro. Agarrei a maçaneta - algo, algo a mais. Algo sombrio. Não consigo abrir. Não abre. Me recuso a soltar.

Recuo lentamente. Uma voz baixa, aguda.

Me ajude.

A estática ecoa no quartinho. Nada mais que a estática. Fecho a porta quando saio. Me recuso a contar. Não vou contar. Nunca vou contar. Minha história não existe. Simplesmente não existe.

Não é nada além de estática. 
***

Ali eu tinha duas histórias interessantes e muito parecidas - Jake com um conto mais tradicional de folclore, e Kate com uma escrita mais personalizada, focada em emoções, arrependimentos e segredos. Talvez eu estivesse estudando lendas por muito tempo, ou talvez tinha sido vítima de muitas redações horrendas, mas não conseguia parar de pensar:

Pareciam muito reais.

Alguns dias antes do Halloween, pedi para Kate me esperar depois da aula. Queria saber mais; se ela era a Abby da história de Jake e se estava confessando ter visitado o quarto da avó dele no seu conto. Peguei sua redação e perguntei como havia escrito aquilo. Quais eram suas inspirações?

Ela deu os ombros. "Acho que foi só um experimento. Queria tentar um novo tipo de escrita. Você gostou?"

Fiz que sim com a cabeça. Um conto muito interessante, falei.

"Você já ouviu falar da 89.1?" Kate me perguntou.

Comecei a falar, mas não consegui terminar. Cuspi algumas palavras, mas Kate me interrompeu rindo. "Meu Deus, Sra. Patrick, tudo não passa de uma piada!"

Kate me explicou que ela e Jake tinham conspirado em escrever duas histórias que se interligavam, parcialmente para praticar a escrita, mas principalmente para zoar comigo. Era tudo inventado. Uma pegadinha de Halloween.

"Nós conseguimos te pegar, Sra. Patrick!" Kate riu.

Sorri desconfortavelmente. Era uma boa pegadinha, e sim, me pegaram. Falei que tinha gostado muito do conto, que devíamos continuar trabalhando em cima da escrita experimental dela e para curtir o Halloween. 

Mas algo parecia errado.

Tomei uns drinks com um instrutor veterano - eu, no meu primeiro ano dando aulas naquela cidade, e ele já instruía aqui há muito tempo. Contei para ele sobre a tarefa que tinha dado e sobre os contos de Jake e Kate. Ele riu, mas logo ficou um tanto pensativo.

"Que estranho," falou. "Você diz que Jake e Kate conspiraram para fazer uma pegadinha? Eles eram bem bagunceiros na minha aula no começo do ano, mas no outono pararam de se falar. Nem se quer olhavam na cara um do outro. Foi um tipo de desentendimento. Mas parece que se acertaram."

Nas semanas seguintes, observei Kate e Jake mais atentamente - tanto nas aulas quanto nos corredores. Jamais se falavam. Nem se quer olhavam um para o outro. Agendei uma conferência com Jake e falei o quanto ele havia melhorado como escritor, especialmente com seu conto de Halloween. Eu ri e falei que sua pegadinha com Kate tinha me pegado de jeito. Jake sorriu sem jeito. "Te pegamos, né?" falou. "Foi ideia da Kate."

Tudo foi inventado, disse. A estação 89.1 não existia, e também não tinha uma avó que morrera em uma casa de repouso. Todos personagens e circunstancias eram 100% ficção.

Dei parabéns pelo seu trabalho e disse para que continuasse escrevendo.

Mas mesmo assim, algo parecia errado. Como se eu tivesse perdido um ato de uma peça. Era possível que esses dois estivessem tão empenhados em pregar uma peça em mim que não se falavam mais na escola? Ou talvez estivessem namorando e não queriam que ninguém soubesse, então fingiam que não na escola. Afinal, tinham 15 anos. Para mim, isso parecia um motivo razoável.

Mas me mantinha ainda acordada. Nada mais importava. Fiquei obcecada com as histórias durante o dia e a noite. Notícias, esportes, eventos recentes, tudo isso passava batido por mim. O mundo real escapava entre meus dedos. Eu insistia naquilo.

Armado com alguns possíveis sobrenomes (obrigada, registros escolares), liguei para várias casas de repouso da área. Falei que estava procurando uma velha amiga da minha mãe, Rosie. Todas as ligações seguiam o mesmo script: a recepcionista dava uma olhada em alguns registros e não encontrava nada. Não encontraram nada com os sobrenomes que eu tinha.

Pesquisei na internet e também gastei bom tempo olhando arquivos da biblioteca. Não achei nenhuma lenda local ou folclore relacionada a 89.1. E sempre que eu sentia que estava quase desistindo, eu puxava o xerox da história de Kate.

Ela tinha visitado o quarto da avó de Jake. Era simplesmente real - não poderia ser falso.

Em uma última tentativa desesperada, eu passava muito tempo sozinha no meu quarto, ouvindo a estática da 89.1, de olhos fechados e com a porta entreaberta. Ouvia o mais atentamente possível, internamente desejando encontrar as badaladas do órgão, os  gritos desesperados na distância, e o som agudo do metal. As vezes eu achava que estava ouvido, que só precisava me concentrar um pouquinho mais. E aquela sensação de ter uma presença prestes a sair do meu armário - uma névoa negra esperando para me arrastar. Eu queria que viesse porquê queria que a história fosse real. 

Mas não veio.

Um dia, vi Kate e Jake sorrindo e rindo perto do armário escolar dele. Passei por eles, e Kate piscou para mim. 

Foi a gota d'água. Finalmente percebi que havia realmente sido enganada.

Acabou. Parei de pesquisar sobre a 89.1. Novamente fui beber com meu colega - dessa vez foram muitos drinks, diga-se de passagem - e bêbada, contei tudo que havia feito. Ele achou minha investigação ridícula e muito perigosa.

"Você se apega demais a histórias," disse. "Se eu não te conhecesse, diria que estava pesquisando para escrever a sua própria história. Deixa isso para lá."

Puxei os xerox da minha bolsa e coloquei-as na mesa do bar, manchando-as de cerveja. Meu colega pegou a história de Jake, lendo-a pela primeira vez. Leu com os olhos apertados, mas parou de repente, congelado.

"Espera," falou. "Você nunca me falou da Abby."

Dei os ombros. Abby era a Kate, falei. Sempre foi parte da pegadinha.

"Eu me pergunto..." pensou em voz alta, "Hmm."

Então ele contou tudo.

Há um ano atrás - mais ou menos dez meses antes de eu me mudar para a cidade - uma aluna da oitava série chamada Abby, desapareceu. Simplesmente evaporou. Em um minuto estava sozinha em seu quarto, no outro havia desaparecido. Alguns suspeitavam que ela havia fugido, mas não havia pistas. Também não haviam evidências de crime algum. Não havia familiares ou vizinhos suspeitos.

Ela simplesmente sumiu.

Eu li o conto de Kate novamente. Meu coração afundou no peito. O tempo todo achei que a visita dela se referia a avó. Mas talvez eu estivesse errada.

Talvez a voz aguda e os pedidos de ajuda no armário eram de Abby. Kate nunca especificou o quarto de quem estava visitando ou onde estava. 

Li o conto experimental mais uma vez, prestando atenção em cada palavra, só para ter certeza.

E naquele momento, tudo mudou. 

Falei com a administração da escola, eles entraram em contato com as autoridades e a policia teve uma conversa com Jake e Kate. Não levou a lugar nenhum. Não importava que Abby morava do outro lado da rua da casa de Jake. Não importava que tínhamos as palavras escritas nos papéis. Eram apenas histórias, as crianças falaram. Apenas histórias. Ficção pura. Afinal, Jake nunca tivera uma avó no asilo. Eles sentiam muito se tinham assustado alguém. Afinal, eram apenas contos de Halloween. Histórias bastante ambíguas. Inclusive, Jake pediu desculpas com os olhos lacrimejando por ter nomeado uma personagem fictícia com o nome da menina desaparecida - não tinha passado pela mente dele que isso era errado. 

E agora eu era um monstro por ter arrastado duas crianças nessa loucura. A equipe escolar me excluía e a cidade me condenava. Eu estava ferrada.

Parei de dar aulas logo após esse ocorrido. Saí da escola segurando uma caixa com meus pertences e Kate sorriu para mim de uma janela do primeiro andar como se soubesse de alguma coisa. Não a vi desde então. 

Não levei muito comigo de lá, mas levei os xerox das histórias. As vezes as leio só para aliviar o passado. E as vezes também, tarde da noite, sinto um fogo dentro de mim, querendo voltar para aquela pequena cidade de Wisconsin. Talvez a vovó Rosie fosse uma tia avó na família de Jake, mas que era chamada de vovó. Talvez eu deixei escapar alguma informação referente a menina desaparecida, sobre a 89.1, sobre as intenções de Kate. Talvez seja melhor eu tentar o ritual mais algumas vezes para ver o que acontece. 

Ou talvez seja tudo besteira.

Foi há dez anos atrás. E talvez eu seja a única a achar que tem algo a mais nessa história.

Eu estaria perdendo meu tempo se voltasse a pesquisar.

Mas mínima chance de que seja verdade é o que me mantem acordada durante a noite. Se não foi verdade, por que as crianças escreveram os contos daquele jeito?

Não tenho uma boa resposta para isso.

Suponho que, assim como eu, eles apenas gostem de boas histórias.


25/02/2016

Sorriso de crocodilo

O som do alarme fez Jack pular com um surto de adrenalina. Jack se sentia pronto para qualquer coisa que entrasse em seu caminho, mas ele precisava ser o mais silencioso possível, pois não queria acordar a sua esposa. Na ponta dos pés, ele seguiu para o guarda-roupa para pegar o seu short e a camisa de caminhada. Ele pôs os tênis e saiu de sua casa. A brisa congelante atingiu seu rosto no segundo em que ele pôs o pé fora de casa. Era uma rotina, ele queria e precisava se exercitar, então caminhava todas as manhãs às 6 a.m. Porém, hoje o dia seria um pouco estranho. Jack continuava com o seu tradicional percurso de caminhada até que passou pelo lago. Ele sempre passava pelo lago, mas dessa vez havia algo estranho. Algo se moveu dentro do lago, e parecia ser algo grande, maior que os esquilos e patos que costumavam frequentar aquele lago. De fato, não havia patos ou esquilos por ali, era como se estivessem tentando evitar aquele local.

Uma grande criatura emergiu próxima à borda do lago. Jack pôde apenas enxergar os olhos da criatura, pois o dia continuava escuro. Finalmente, Jack pode enxergar a criatura por completo e era um crocodilo. Os olhos do crocodilo estavam fixos em Jack enquanto ele se movia. O animal abriu a boca como se estivesse querendo mostrar todos os dentes afiados que ele possuía. A boca do crocodilo se alinhou para formar um grande sorriso direcionado para Jack. O frio tomou conta da pele de Jack e ele correu para casa, sem olhar para trás.

Jack irrompeu em casa e bateu a porta com um grande estrondo. Sua esposa acordou instantaneamente.

“O que aconteceu, querido?”

“Nada,” Jack murmurou enquanto o suor escorria pelo seu rosto, “tem crocodilos no lago aqui perto de casa, pois acho que acabei de ver um!”

Sua esposa sorriu, “Acho que não, que estranho. Ouvi dizer que tem jacarés, não crocodilos.”

Jack assentiu lentamente e deu um grande beijo na boca de sua esposa. Jack caiu no chuveiro e se vestiu para o trabalho. Então ele entrou em seu carro e seguiu para o trabalho. Ele fez questão de passar pelo lago para ver se o crocodilo continuava lá. Para sua surpresa, ele continuava, mas estava boiando na água, se refrescando. Jack continuou seu caminho para o trabalho.

Jack sabia que não havia com o que se preocupar, mas ele continuava nervoso. Ele sentia como se algo o estivesse observado. Ele tentou varrer tal sentimento como simples paranoia, porém, ele estava presente constantemente. Ele se sentia mais assustado e agitado.

Isso durou por semanas, e logo passou de apenas um sentimento para alucinações auditivas. Jack ouvia um sussurro a cada cinco minutos que dizia, “me alimente” ou “estou com fome”. Jack continuou a ouvi o sussurro e achou que não pudesse piorar, mas piorou. Ele passou a ver o crocodilo em todos os lugares. No shopping, no trabalho, em seu escritório, em sua casa. E o crocodilo continuava sussurrando as mesmas palavras nos ouvidos de Jack.

Um dia os sussurros, as visões, e o sentimento pararam abruptamente. Jack se sentia ótimo, ele finalmente conseguiu uma promoção e agora estaria ganhando mais. Jack não acreditava que a sua vida estava mudando para melhor. Na volta para casa, ele se certificou em não passar pelo temido lago. Ele estava ansioso para dar as notícias para a sua esposa. Jack achou que estava sendo recompensado depois de toda aquela insanidade que passou por meses.

Ele empurrou a porta com uma grande batida, gritando. “Querida, tenho ótimas notícias!”

Mas foi respondido pelo silencio. O puro silêncio que pairava em sua casa.

“Querida?”

Mais silencio.

As vozes voltaram. Mas dessa vez, estavam praticamente gritando. Logo a cabeça de Jack estava quase estourando. Jack gritou, “Cala a boca!”

Mas não paravam, continuavam aumentando rapidamente. “Estou com fome! Me alimente! Vou comer!”

Logo, uma mão bateu no ombro de Jack, ele virou-se rapidamente e viu algo que deixaria qualquer pessoa aterrorizada. A coisa era uma mistura de humano e réptil. A coisa possuía olhos negros que rasgavam através da alma de Jack. Era tão inumano. A coisa tinha uma grande boca que se curvava em um largo sorriso com vários dentes afiados. Sua pele era viscosa e escamosa. As unhas da coisa eram longas e salientes, prontas para perfurarem qualquer coisa ou qualquer um. As vozes continuavam gritando alto. Jack chutou e derrubou a criatura, correndo para a cozinha em seguida. Ele pegou uma enorme faca e começou a apunhalar a criatura, repetidamente, o sangue verde esguichando em Jack. Finalmente a criatura estava morta...

Jack desmaiou, com um suor frio escorrendo por sua testa. Jack finalmente acordou na escuridão. Ele esteve desmaiado por muito tempo, já estava passando de 1 da manhã. Ele tropeçou pela casa à procura do interruptor. Ele ligou a luz e viu algo que o aterrorizaria mais que a própria criatura. Sua esposa... estava no chão, coberta de sangue e mutilada, com os olhos arregalados de medo. Jack começou a chorar desesperado, pois agora ele sabia o que a voz em sua cabeça queria quando repetia, “me alimente”.


23/02/2016

Alguém está fingindo ser minha esposa

As vezes pego Susan sorrindo para mim por nenhuma razão aparente. Já aconteceu mais de uma vez. Estamos lá como sempre, assistindo TV só nós dois. Então, pelo canto do meu olho, noto que ela está olhando para mim e não para a TV. A cabeça virada em 90 graus em minha direção, um sorriso congelado em seu rosto que mal consigo distinguir na minha visão periférica. Tem algo anormal nisso. 

Mas quando me viro para olhá-la, novamente está com os olhos vidrados na TV. Questionei-a na primeira vez, mas ela negou. Fiquei com medo de parecer louco se forçasse a barra, então nunca mais perguntei.

Teve outras coisas também.

Susan tinha uma irmã gêmea. Morreu no parto. Ela nunca fala sobre isso.

Em um dia da semana passada quando fui me deitar, desliguei as luzes e fechei os olhos, Susan já estava adormecida do meu lado. Acordei no meio da noite para encontrar o lado da cama dela vazia. Me virei e ela estava com o mesmo sorrido, de pé ao lado da cama, me observando.
"Querida, o que você está fazendo?"

Nada.

"Querida?"

Só sorria. Ela fez a volta na cama e se ajeitou de baixo das cobertas como se nada tivesse acontecido. "Por quanto tempo você estava de pé?", perguntei. Não respondeu. Mas o lado da cama dela estava gelado e a marca de seus pés estava gravada no carpete fofo.

-

No começo não era essa loucura - por um bom tempo tentei me convencer que era coisa da minha cabeça. Mas não era. Não era a Susan.

Comecei a fazer pequenos testes, foi assim que pude ter certeza. Eu comecei a escolher filmes que já tínhamos visto, só pra ver se ia falar alguma coisa. Comecei a contar histórias que já havia contado. Ela só sorria. Nunca falou nada. 

Eu tirei a prova um dia. Um dia cheguei em casa e ela estava comendo peixe.

Susan nunca come peixe. Ela odeia frutos do mar.

"Salmão?" perguntei.

"Tilápia."

Sentei do outro lado da mesa, de frente para ela. Sorriu para mim.

"Conversei hoje com o diretor da escola de Sarah." falei.

"Sarah?"

"Sim. Nossa filha. Sarah."

Ela deu uma risadinha. "Claro, claro. O que ele disse?"

"Susan, o nome da nossa filha é Camille."

Ela parou a garfada no meio do caminho até sua boca e olhou diretamente nos meus olhos. Vagarosamente colocou o talher de volta no prato. "Quem é você?", perguntei.

"Vou ir dormir" ela disse, se levantando.

Dormi no quarto de hóspedes naquela noite. Com a porta trancada.

-

No dia seguinte, fugi. Levei Camille comigo. Passamos a noite em um hotel.

"Cadê a mamãe?" Camille perguntou, antes de ir dormir.

"Não sei, meu amor. Mas se você ouvir alguma coisa, qualquer barulho que seja, me acorde, ok?"

"Ok."

Sonhei com uma mulher idêntica a Susan naquele dia. Uma mulher que queria ter a vida de sua irmã, a vida que não teve chance de ter.

-

Camille me acordou pela manhã. Estava comendo um cupcake.

"Você pegou isso no frigobar?"

"Não, mamãe me deu."

Fiz uma pausa. "Mamãe esteve aqui?"

Camille fez que sim com a cabeça. "Unhum, ela ficou de pé ao lado da cama. Ficou lá por um tempão."

"Por que você não me acordou, Camille?"

"Eu ia, mas daí a mamãe fez assim," Camille colocou um dedo sobre os lábios e fez 'shhhh'.

Olhei para baixo. O carpete estava amassado em formas de pegada onde Camille disse que havia visto sua mãe.

"Mas tá tudo bem, papai. Ela estava sorrindo."

-

Na noite seguinte já estávamos quase saindo do estado, em um hotelzinho barato na fronteira. Desliguei as luzes, coloquei Camille para dormir e esperei, sentando em uma poltrona, em silêncio. Sabia que ela viria.

Estava um silêncio mortal e eu quase cochilava quando ouvi as dobradiças rangendo. Abri meus olhos e esperei. A porta abriu em câmera lenta. Ela entrou. Nenhum barulho, a não ser da porta. Andou até o lado da cama de Camille. O sorriso grudado em seu rosto.

Me levantei. Fui para trás dela. Ela não podia me ver, seus olhos trancados em Camille.

"Vamos, querida. Vamos para casa," ela sussurrou.

Não olhou para trás. Nem se quer viu a faca quando a cravei em suas costas.

-

Mais tarde, meu advogado me disse que eu não podia recorrer a fiança e teria que esperar pelo julgamento sobre o hospital psiquiátrico.

"Síndrome de Capgras," ele disse. " É um distúrbio de crença ilusória delirante, não muito diferente da Síndrome de Fregoli. Onde a pessoa mantém uma ilusão de que um amigo, cônjuge ou parente foi substituído por um impostor fisicamente idêntico ao anterior."

Falei para ele que minha intenção era somente proteger minha filha. Falei que a mulher não era Susan. Mesmo assim, todos os jornais estampavam a mesma notícia: "Engenheiro bem-sucedido de Los Angeles sequestra filha e mata esposa."

"Não era a Susan!" Falei para ele, de novo e de novo. "Não era a Susan!"

Ele disse que eu pegaria de 25 anos até prisão perpétua, mas a alegação de insanidade pudesse funcionar.

-

Eles me prenderam ontem a noite, minha primeira noite do hospital psiquiátrico. Camille está com o Serviço Social, me falaram. Meu quarto é coberto de material almofadado, desde as paredes até o teto - chamam de quarto acolchoado, mesmo. Para eu não me machucar.

Tive que tomar alguns comprimidos para conseguir dormir.

Algo me acordou minutos antes da meia noite. Quando abri meus olhos, tudo estava em completo silêncio. Fui até a porta e espiei pela janelinha. O corredor estava deserto.

Olhei para trás. Perto da minha casa, o chão acolchoado estava amassado em forma de dois pés. 
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22/02/2016

Quem ligou?

Essa foi a primeira vez que tive que lidar com algo que não entendia. Antes desse acontecimento, nunca acreditei que coisas inexplicáveis podiam acontecer de fato, mas agora tenho certeza que o sobrenatural é real.

Isso aconteceu logo depois de eu começar no meu emprego atual. Eu e meu supervisor estávamos no nosso escritório, lidando com papelada burocrática, quando recebemos uma ligação de uma moça de meia-idade que dizia ter uma mulher estranha em seu apartamento. Naturalmente, tivemos que investigar a reclamação e ajudá-la (se possível).

Apressados, fomos até o apartamento dela e chegamos lá por volta das 18h30. A mulher estava esperando por nós na rua, com medo de entrar sozinha em seu apartamento. Meu superior fez algumas perguntas, e ficamos sabendo que ela sempre tivera a sensação de que alguém estava a observando constantemente. Também disse que, quando notou que não estava sozinha, correu para fora e trancou a porta para seja lá quem estivesse na casa dela, não saísse.

Depois do questionário, abrimos a porta e tentamos investigar a cena. O apartamento era muito pequeno e as janelas estavam barradas com tábuas, o que significa que não havia lugar para alguém se esconder ou fugir. Vasculhamos cada canto da casa e não achamos sinais de invasores; no entanto, fiquei com a constante sensação de estar sendo vigiado. Sentia como se alguém estivesse andando por lá comigo e com meu superior, invisíveis a nossos olhos.

De qualquer forma, tínhamos mais um lugar para olhar antes de sair: o quarto dela. Senti alguém chegando de fininho por trás de mim enquanto olhava dentro do guarda-roupa, então me virei rapidamente apontando minha arma. Para meu alívio, era a mulher que havia nos chamado; mesmo recebendo ordens para não entrar, ela havia nos seguido. Conferimos, nada havia sido roubado. Já estava na hora de vazarmos daquele lugar arrepiante, mas antes, meu supervisou aconselhou-a a procurar ajuda profissional, pois poderia estar desenvolvendo algum transtorno mental.
 
Agora aqui está a parte louca: Duas semanas depois desse estranho incidente, recebemos uma nova ligação da mesma mulher. A voz dela estava estranha, mas continuava repetindo "por favor, me ajuda" e desligou o telefone logo depois. Mesmo suspeitando que  ela estivesse apenas imaginando coisas como da última vez, decidimos que era melhor dar uma conferida.

Chegamos no apartamento dela pouco depois das nove 21h00 e fomos logo entrando. O primeiro lugar que checamos foi o quarto e, para nossa surpresa, encontramos o corpo dela. Chamei a ambulância o mais rápido possível enquanto meu supervisou examinava o cadáver. O mais estranho era que ela já estava morta fazia um certo tempo. Mesmo eu sendo um tanto inexperiente, meu supervisor já havia visto cadáveres suficientes para saber que já estava morta muito antes de nos ligar. Não parecia ser assassinato, pois não havia sinais de luta.

Levou dez minutos para a ambulância chegar e darem uma segunda opinião sobre o caso. Já estava morta fazia mais ou menos uma semana, e a causa da morte é desconhecida. Meu superior ficou muito mais calmo que eu, mas continuava em um estado de descrença. Decidimos nunca mais discutir sobre aquele caso, mas até hoje me arrepio pensando nesse incidente em particular. 


19/02/2016

Os 1%: Capítulo bônus

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Allen II não acreditava em nostalgia. Para ele, era perda de tempo. Quando era puxado por suas memórias de infância, rapidamente se ocupava com outra coisa para evitar  quaisquer emoções inúteis. Seu pai costumava dizer que emoções eram a raiz da preguiça. Allen II dava o seu melhor para não sentir nada, entretanto sua admiração por seu pai era inevitável. 

Estava sentado em sua cadeira funcional da sala de estar, olhando o jornal em suas mãos. Havia fogo na lareira. Permitiu-se curtir as breves ondas de calor em suas extremidades antes de voltar a ler. Estava lendo os obituários, como sempre. Isso era o mais próximo de entretenimento que tinha. Não sorria quando via um rosto familiar naquela coluna de jornal, mas poderia. A mulher estava sorrindo na foto. Ele nunca havia testemunhado um sorriso dela. 

Olga desceu as escadas com passos barulhentos. Ele não olhou para ela. Sabia como se parecia; o cabelo estaria em um coque. O rosto, que um dia fora bonito, estaria carrancudo. Pensou por uns instante no dia em que tinha a conhecido; no dia do casamento. Seu pai havia o encorajado a encontrar uma mulher alemã para se casar. "Algo jovem," disse, sua voz pesada pela origem Polonesa. "Jovem e Germânica. Algo que permita que continuemos nosso trabalho, que talvez até aprecie-o." 

Olga tinha quinze anos quando se casaram. Allen II, trinta. Já tinha se formado em Medicina e sua prática estava florescendo. Seus pacientes apreciavam o fato dele ser efetivo e ágil. Ele, obviamente, desprezava todos seus pacientes normais. Apenas os 1% eram interessante ao seu ver. 

Allen II pegou-se devaneando e sacudiu a cabeça violentamente. Olga se aproximou, hesitante. 

“Kann ich dich fragen-“

"Em inglês!" Allen II não levantou sua voz, mas falou de uma forma que quase fez Olga chorar. 

"Sim, Inglês. Me desculpe." Ela já estava nos Estados Unidos por doze anos. Doze anos de intensa fiscalização do seu sotaque. Allen II tinha a ensinado inglês espancando-a. Mas mesmo com toda aquela brutalidade, as vezes se esquecia. "Quero comprar um presente para Allen. Posso usar o talão de cheques?"

Allen a zombou, sem tirar os olhos do jornal. "Você o mima demais. Se ele pretende seguir com o negócio da família, tem que se tornar um homem. Não precisa de presentes." 

"Mas ele só tem nove anos!" Olga tinha devaneios diários sobre fugir com seu filho e dar um jeito de ir para a Alemanha e viver uma nova vida lá. Talvez eles adotassem uma menininha e criariam-na juntos. 

"Quando eu tinha nove anos, já ajudava meu pai na sala de operações. Seu filho mal consegue segurar firme em uma faca enquanto corta a carne no jantar." Allen II finalmente levantou seus olhos e encontrou com os da esposa. Ela era linda. Qualquer outro homem se sentiria abençoado em ter filhos com ela. Mas tudo que ela criou fora um filhinho da mamãe e um ingrato. "Além do mais," disse com frieza, "Gastei o resto do nosso dinheiro com o novo consultório. Tem o espaço de armazenamento que eu preciso." 

"Mas é Natal!" Olga queria muito ser uma boa mãe. 

"O Natal é um feriado sem sentido que só serve para homens gordos e crianças preguiçosas." Jogou seu jornal no chão e se levantou. 

Allen não permitia decorações na casa.  Acreditava que eram excessivas e desnecessárias. Allen II não gostava de nada que considerava desnecessários como: sobremesas, música, filhas e conversa fiada. O Natal sempre era só mais um dia comum na casa dos Allship. Esse ano não seria diferente. 

Allen II não tinha intensão de bater em sua mulher, mas mesmo assim ela se afastou. Era tão fraca, tão diferente das qualidades alemãs que seu pai tinha tido esperança que ele achasse em uma esposa. 

Olga secou uma lágrima. "Posso pelo menos tirá-lo da gaiola agora?" 

Os dois adultos olharam em direção da cozinha, onde Allen III estava sentando silenciosamente em uma gaiola de cachorro. Allen II tinha o posto lá de manhã porquê o menino tinha derramado leite no balcão. Honestamente, já tinha até se esquecido do garoto ali. 

"Tudo bem, pode deixá-lo sair. Você sabe onde estão as chaves."Novamente, se sentou, olhando para a lareira. 

"Mamãe, você pode me tirar daqui também?" Uma voz fininha soou da cozinha. Era James, o ingrato. Ele já estava em sua gaiola por um dia e meio. Fedia lá. Pelas primeira horas, ele chorava e se jogava contra as grades. Mas eventualmente se acalmou e se sentou o mais quieto que conseguiu, se balançando para frente e para trás. " Por favor, mamãe." 

"Não me chame assim." Olga andou até Allen III, abriu a porta e o abraçou. Sussurrou algo doce em seu ouvido. 

James colocou o rosto contra a portinha. "Mas mamãe, eu -"

"Por mim você pode apodrecer aí dentro." Olga pegou Allen III pela mão e o levou para longe da cozinha. Ela o levaria para o andar de cima e o daria seu banho da noite. 

James olhou para os dois sem esperanças. Estava prestes a chorar quando seu pai veio até a cozinha e ficou de pé na sua frente. Não olhava nos olhos de seu pai. Tinha medo de seu pai. O homem quase sorriu, gostando do medo que seu filho mais novo sentia. 

"Você quer sair?" perguntou calmamente. 

"Sim, por favor." James tentou não tremer a voz. 

"Sabe, quando eu tinha sua idade, já havia matado três homens. Meu pai me ensinou como. O primeiro matei com uma faca. O segundo com um machado. E o terceiro com um martelo. Meu pai me assistiu e me corrigiu quando errei." Allen II olhou para baixo. "Você quer matar um homem? Tenho um amarrado no meu consultório agora mesmo." 

James não conseguia encontrar palavras para responder. Ao invés disso, começou a se mijar de medo. Tremia como uma folha enquanto uma poça de urina se formava em volta de seus pés. 

"Foi o que eu pensei." Allen II deu as costas para a gaiola e foi para o outro aposento. Sentou de volta em sua cadeira, levou o jornal até perto do rosto, e leu sobre a mulher que tinha sequestrado três anos atrás. A família dela tinha finalmente aceitado que estava morta. Eles a colocaram no obituário com uma foto sorridente. Allen quase gargalhou sozinho. O que fariam se descobrissem que ela estava viva, recuperando-se de uma cirurgia no porão escuro que tinha acabado de criar de baixo de seu consultório? O investimento que fizera era necessário; precisava das celas logo abaixo de seu consultório normal para continuar o negócio de seu pai sem medo de ser descoberto. 

A mulher sorridente era a primeira paciente em seu novo porão. Podia imaginá-la agora, deitada na cama de metal,  se recuperando lentamente de seu transplante de face. Seu novo rosto era muito mais suave e branco, muito menos judaico. Logo ela estaria perfeita. 

Suspirou profundamente, ignorando o choro de seu filho no outro aposento. Seu novo porão era o mais próximo de um presente de Natal que já havia ganhado. Relutantemente, se permitiu curtir aquela conquista. 
-

Nota da Tradutora: A autora,  EZmisery, ainda não lançou o próximo capítulo. Teremos que aguardar por ele. Nesse meio tempo, trarei boas creepypastas (que não sejam série) para vocês. Sejam pacientes e lembrem: também sou fã do cara e estou ansiosa para ler e trazer a história traduzida para o Blog! 


18/02/2016

O Terror no Quarto 1046 (CASO REAL)

Na cidade de Kansas, Missouri, na tarde do dia 2 de Janeiro de 1935, um homem entrou no saguão do Hotel President e pediu por um quarto que ficasse bem longe do térreo, vários andares acima. Não carregava bagagens. Assinou o registro como "Roland T. Owen" de Los Angeles e pagou por um dia de estadia. Foi descrito como um homem alto, jovem, charmoso, com uma "orelha de couve flor" e com uma cicatriz enorme ao lado da cabeça. Ele recebeu as chaves do quarto 1046. 

No caminho que fez até seu quarto, Owen falou para o rapaz que era responsável por carregar as malas, Randolph Propst, que sua ideia original era fazer check-in no Hotel Muehlebach, mas achou um absurdo pagar cinco dólares por uma noite de estadia. Quando chegaram até o quarto, Owen tirou dos bolsos do seus casaco uma escova de cabelo, uma escova e pasta de dente, e colocou-as no banheiro. Os dois saíram, o funcionário trancou o quarto e ambos voltaram para o saguão. Ele deu a chave a Owen, e o cliente saiu do Hotel enquanto Randolph voltou para suas tarefas habituais. 

Mais tarde naquele dia, uma camareira foi até o 1046 para fazer a limpeza do quarto. Owen estava dentro do quarto. Permitiu que ela entrasse e pediu que deixasse a porta destrancada, pois estava esperando um amigo que viria em breve. Ela notou que o lugar estava bastante escuro, um pequeno abajur era a única fonte de iluminação no local. Posteriormente disse para a policia que Owen parecia estar nervoso, até mesmo amedrontado. Enquanto fazia a limpeza, Owen colocou seu casaco e saiu, lembrando-a que queria que o quarto ficasse destrancado.

Por volta das 16h, a camareira voltou para o 1406 com toalhas novas. A porta ainda estava destrancada e o quarto pouco iluminado. Owen estava deitado na cama, totalmente vestido. Em uma escrivaninha ela viu um bilhete que dizia "Don, voltarei em quinze minutos. Me espere."

A próxima movimentação que se tem registro de Owen foi por volta das dez e meia da manhã do dia seguinte, quando a camareira foi fazer limpeza no quarto mais uma vez. Ela destrancou a porta com uma chave-mestra (algo que só conseguiria fazer se a porta tivesse sido trancada pelo lado de fora). Quando entrou, ficou um tanto nervosa ao ver Owen sentado silenciosamente em uma cadeira, observando a escuridão. Esse momento constrangedor foi quebrado pelo toque do telefone. Owen atendeu. Depois de ouvir a linha por alguns instantes, falou "Não, Don. Não quero comer. Não estou com fome. Acabei de tomar café da manhã." Depois de desligar, por algum motivo começou a interrogar a camareira sobre as tarefas que ela realizava ali no Hotel President. Novamente ele reclamou do preço absurdo do Hotel Muehlebach. 

Ela terminou de arrumar o quarto, pegou as toalhas usadas e saiu, bastante feliz de não precisar mais ficar na presença daquele hóspede estranho. 

Naquela tarde, novamente foi ao quarto 1046 com toalhas limpas. Pelo lado de fora, ela ouviu dois homens conversando. Bateu na porta e anunciou o motivo de estar ali. Uma voz desconhecida respondeu rispidamente que eles não precisavam de toalhas novas. A camareira deu os ombros e partiu. 

Mais tarde naquele dia, uma mulher chamada Jean Owen (não era parente de Roland) fez check-in no hotel, e ficou com o quarto 1048. Não conseguiu ter uma boa noite de sono. Ela ficou incomodada com os constantes sons de pelo menos uma voz masculina e outra feminina que discutiam violentamente no quarto vizinho. Mais tarde, Sra. Owen ouviu barulho de briga e um pouco depois um "arfar" que achou ser barulho de ronco. Até pensou em ligar para a recepção, mas infelizmente não o fez. 

Charles Blocher, operador noturno do elevador, também notou uma movimentação incomum naquela noite. Acreditou que estava acontecendo uma festa bastante barulhenta no quarto 1055. Em algum momento depois da meia noite, ele levou uma mulher até o décimo andar. Ela estava a procura do quarto 1026. Charles já havia a visto inúmeras vezes no hotel - ela era, como descreveu discretamente em suas próprias palavras, "uma mulher que frequentava diversos quartos de hotéis diferentes com diversos homens diferentes". 

Alguns minutos depois, o elevador foi novamente chamado para o décimo andar. Ela estava preocupada pois o homem com quem devia se encontrar não estava em lugar algum. Sem poder ajudá-la, Blocher desceu novamente. Mais ou menos meia hora depois, a mulher chamou-o o elevador de novo, pois queria descer para o saguão. Uma hora depois, voltou acompanhada de um homem. Blocher levou-os para o nono andar. Por volta das quatro da manhã a mulher saiu do hotel, quinze minutos depois o homem também foi embora. Esse casal não foi identificado, e não se sabe até hoje se eles tiveram alguma conexão com o Owen do quarto 1046. 

Às vinte três horas daquele mesmo dia, um trabalhador chamado Robert Lane, estava dirigindo em uma rua do centro da cidade quando viu um homem correndo na calçada. Ficou confuso ao perceber que, mesmo em uma noite fria de inverno, o homem trajava apenas calças e uma regata. 

O homem acenou para o motorista, pensando ser um taxista. Quando percebeu que tinha se enganado, pediu desculpas e perguntou se Lane podia levá-lo para algum lugar que pudesse pegar um táxi. Lane concordou e comentou "Você parece que se meteu em alguma confusão". O homem fez que sim com a cabeça e resmungou "Eu vou matar aquele [palavrão] amanhã." Lane percebeu que seu passageiro estava com um corte no braço. 

Quando chegaram ao seu destino, o homem agradeceu Lane e saiu do carro e começou a chamar por um táxi. Lane foi embora, sem saber que tinha acabado de desempenhar um pequeno papel em um dos mais misteriosos e estranhos assassinatos daquela cidade.

Por volta das sete horas da manhã seguinte, a operadora de telefones do Hotel President percebeu que o telefone do quarto 1046 estava fora do gancho. Três horas se passaram e ninguém havia ainda colocado o telefone no gancho, então ela eviou Randolph Propst para mandar que desocupassem a linha, seja lá quem fosse que estivesse usando-o. O funcionário encontrou a porta trancada, com uma placa de "Não Perturbe" do lado de fora. Alguns instantes depois de bater na porta, ouviu uma voz dizendo que podia entrar. Quando tentou abrir, viu que ainda estava trancada. Bateu novamente, mas a voz só fez pedir que ele ascendesse as luzes. Depois de mais alguns minutos de mais batidas em vão, Prost finalmente gritou "Coloque o telefone no gancho!" e saiu, sacudindo a cabeça para quem achou ser um hóspede louco ou podre de bêbado.

Uma hora e meia depois, a operadora de telefones percebeu que ainda estava fora do gancho. Mandou outro carregador de malas, Harold Pike, para lidar com o problema. Pike encontrou o quarto 1046 ainda trancado. Ele usou uma chave mestra para destrancá-la - novamente provando que havia sido trancada pelo lado de fora. Na escuridão, conseguiu distinguir a silhueta nua de Owen deitado na cama. A mesinha do telefone estava caída, e o telefone no chão. O funcionário arrumou a mesa e o telefone. 

Como Propst, achou que o hospede estava apenas bêbado. Saiu do quarto sem se preocupar em dar mais uma olhada em Owen. 

Pouco antes das onze da manhã, outra operadora de telefones percebeu que novamente o dispositivo do 1046 estava fora do gancho. Mais uma vez, Propst foi mandado para o quarto. A placa de "Não Perturbe" ainda estava na porta. Depois que suas batidas não foram respondidas, usou a chave-mestra para abrir e entrou no quarto.  

O rapaz encontrou algo muito pior que mera embriaguez. Owen, ainda nu, estava agachado no chão, segurando sua cabeça sangrenta com as mãos. Quando Propst ligou as luzes, viu mais sangue nas paredes e no banheiro. Assustado, o funcionário informou o gerente do hotel, que acionou a policia. 

Os policias descobriram que seis ou sete horas antes, alguém tinha feito coisas terríveis com Roland Owen. Ele tinha sido amarrado e esfaqueado repetidamente. Seu crânio estava fraturado por causa de diversas pancadas. Seu pescoço estava com roxos, o que sugere estrangulação. Havia sangue por todos os cantos. Esse pequeno quarto de hotel havia se tornado em uma câmara de tortura. Quando questionado o que havia acontecido, Owen, semiconsciente, apenas balbuciou "caí na banheira". Uma busca no quarto só trouxe mais enigmas. Não havia nenhuma roupa no quarto. Os sabonetes, shampoos e toalhas que o hotel ofereciam também haviam sumido. Tudo que encontraram foi uma etiqueta de gravata, um cigarro não fumado, quatro digitais sangrentas no abajur, e um grampo de cabelo. Também não foram encontradas as cordas usadas para amarrar Owen  nem a arma do crime. Um empregado do hotel disse que, várias horas antes tinha visto um homem e uma mulher sair do hotel com pressa. Não havia dúvida que, na palavra de um dos detetives, "alguém mais está envolvido nisso."

Enquanto estava sendo levado para um hospital, Owen ficou em coma. Morreu mais tarde naquela noite.

Enquanto isso, os investigadores estavam rapidamente descobrindo que esse não era um caso comum de assassinato. A polícia não encontrou nenhum registro de alguém chamado Roland T. Owen, o que levou a acreditarem que era um pseudônimo. Uma mulher anônima ligou para a policia naquela noite falando que achava que o homem morto morava em Clinton, Missouri.

O corpo de "Owen" foi levado a uma funerária, onde seu corpo foi exposto publicamente na esperança de que alguém o reconhecesse. Entre os visitantes estava Robert Lane, que identificou-o como o homem estranho o qual havia dado carona no dia 3 de Janeiro. Vários bartenders deram descrições que batiam com "Owen", dizendo que haviam o visto na companhia de duas mulheres. A policia também descobriu que na noite anterior que "Owen" fez check-in no President, um homem com feições compatíveis com a dele havia se registrado brevemente no Muehleback, dando o nome de Eugene K. Scott" de Los Angeles. Igualmente, nenhum registro foi encontrado para aquele nome. Antes, Owen/Scott tinha ficado, na companhia de outro homem que não foi identificado, em outro hotel da cidade de Kansas, o St. Regis.

Também não estavam com sorte em achar o tal "Don", com quem "Owen" tinha conversado durante sua estadia no President. Seria ele o homem que estava lá com as prostitutas? Seria dele a voz desconhecida que falou a camareira que não precisavam de mais toalhas limpas? Seria "Don" o homem que "Owen" comentou com Lane que queria matar? Seria ele o homem que estava com "Owen" no St. Regis? Ótimas perguntas que nunca tiveram respostas.

Nove dias depois da morte de "Owen", um promotor de lutas chamado Tony Bernardi, identificou o morto como alguém que tinha o vistado várias semanas antes se inscrevendo para lutar. Bernardi disse que o homem se inscreveu com o nome de "Cecil Werner."

Enquanto isso ajudou a estabelecer que "Roland Owen" era um homem bastante peculiar, nada levava a descoberta da verdadeira identidade dele, muito menos a do assassino. O grampo de cabelo feminino combinado com as vozes raivosas femininas e masculinas que Jean Owen tinha ouvido, deixou os investigadores especulando que o assassinato foi o resultado de um triangulo amoroso, mas claro, isso ficou meramente na especulação. A polícia começou a ficar sem rumo e a se inclinar a dar o caso como um mistério não resolvido e, no começo de Março, as preparações para o enterrar o desconhecido em uma cova sem inscrição começou a ser feita.

Entretanto, antes de "Owen" ser levado para o cemitério de indigentes da cidade, o responsável pela casa funerária onde o corpo estava, recebeu uma ligação anônima. O homem pediu que o enterro fosse adiado até que tivesse dinheiro para pagar as despesas de um enterro decente. O homem dizia que "Roland T. Owen" era o nome verdadeiro do homem, e que Owen era noivo da irmã dele. O diretor da funerária disse que o misterioso benfeitor havia dito que Owen tinha apenas "se metido em um aperto." Também comentou que a polícia estava indo "na direção errada"em suas investigações.

Pouco depois, o dinheiro chegou pelo correio por uma encomenda especial anônima, e Owen foi finalmente enterrado no Cemitério Memorial Park. Ninguém foi ao enterro, a não ser diversos detetives. Mais dinheiro foi enviado misteriosamente para o florista local, pagando um buquê de rosas para o túmulo. Um cartão acompanhava as flores. Dizia: "Te amo para sempre - Louise."

O caso de Owen ficou frio até que, no final de 1936, uma mulher chamada Eleanor Ogletree ficou sabendo do caso por uma revista "American Weekly". Achou que a descrição dada para "Owen" combinava com a de seu irmão Artemus que estava desaparecido. Os Ogletrees não o viam desde que ele saiu de casa que ficava em Birmingham, Alabama, em 1934. O intuito dele era "conhecer o país". A última vez que sua mãe, Ruby, tinha tido noticia dele foi através de três breves cartas datilografadas. A primeira dessas pequenas notas chegaram na primavera de 1935 - diversos meses antes de "Owen" morrer. Sra. Ogletrre disse que suspeitou das cartas desde o começo, pois sabia que seu filho não sabia datilografar. A última carta dizia que ele estava "indo de navio para a Europa." Vários meses depois, recebeu uma ligação de um homem chamado Jordan. Ele falou que Artemus tinha salvo sua vida no Egito e que seu filho havia casado com uma mulher rica no Cairo. Quando foi mostrada uma foto de "Owen" morto, Sra. Ogletree reconheceu-o de imediato como seu filho desaparecido. Tinha apenas 17 anos quando morreu. 

Finalmente o homem morto havia sido identificado. Mas a justiça pelo assassinato brutal continuou sendo um mistério. Esse é um daqueles casos irritantes de assassinatos não resolvidos que são nada mais que um monte de perguntas misturadas e sem resposta. Qual era o motivo para Artemus Ogletree estar usando diversos nomes falsos? O que ele estava fazendo na cidade de Kansas? Quem o matou e por quê? Quem era "Louise"? Quem era "Jordan"? Quem mandou o dinheiro para pagar o funeral dele? Quem datilografou as cartas mandadas para Ruby Ogletree? O que diabos aconteceu no quarto 1046? 

É quase certo que nunca vamos saber as respostas para essas perguntas. As investigações no caso de Ogletree foi brevemente aberto em 1937, depois que os detetives notaram semelhanças na morte dele e de um outro jovem em Nova York, mas essas pistas também não levaram a investigação há lugar algum. O caso continuou totalmente frio até agora, exceto por um estranho incidente a mais de dez ano atrás. Esse pós-escrito da história foi contado por John Horner em 2012, um bibliotecário da Biblioteca Pública da Cidade do Kansas, que fez uma extensiva pesquisa no caso de Ogletree. Em um dia de 2003 ou 2004, alguém de fora do estado ligou para a biblioteca perguntando sobre o caso. A pessoa que ligou - que não informou seu nome - disse que recentemente tinha recolhido alguns pertences de um conhecido que havia morrido. Entre esses pertences estava uma caixa contendo recortes de jornal sobre o assassinato. A pessoa que ligou disse que o jornal citava uma certa "coisa" na notícia e que esta "coisa" estaria dentro da caixa. Mas claro, não falou o que era.

Parece até adequado que um caso tão misterioso como esse tenha uma última pista tão desconcertante e inatingível como as outras. 

FONTE
(Essa tradução é exclusiva do CPBr, caso for usar em outro local, por favor, coloque a nosso site como fonte)


16/02/2016

Os 1% Parte 14: #1470

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As mulheres encaram o chão da sala de operação. Estão acostumadas com o chão. Cada azulejo branco é um quadrado perfeito. Talvez aquilo fosse calmante para alguém que possa sentir calma.

Theresa está cansada. Tinha passado o dia inteiro de pé no quarto, como sempre. Alena estava no Ensino Fundamental e voltou para casa um pouco mais cedo, então teve de fazer não só a janta como também um lanche. E, como todas as quartas-feiras, ela acompanhou seu marido até o trabalho para ser sua enfermeira.

#1302 a lembra que ela que é a enfermeira dele, Theresa é apenas sua esposa. #1302 não gosta muito de auxiliar nos projetos do doutor. Mas pelo menos consegue se distrair da dor constante que percorria pelo seu corpo.

Brittney odeia aqui. Não consegue nem falar consigo mesma. Aqui ela fica presa.

O doutor está lá em  baixo, decidindo em qual número performará uma cirurgia no dia de hoje. Ele demora. Theresa espera que seja uma mulher. Há algo a respeito de ver outra mulher sofrer que faz com que fique calma. Semana passada ele terminou de costurar uma peruca na cabeça de uma mulher que trabalhará na recepção do consultório. Ficou segurando a cabeça enquanto o doutor enfiava a agulha de costura repetidamente na cabeça dela. A mulher não tentou fugir. Ninguém tenta fugir depois que atingem esse nível. 

Do mesmo jeito, #1302 não tenta mais escapar quando está sendo operada pelo doutor. O último procedimento foi a retirada de um grande pedaço de pele da coxa. Ele disse que precisava para o rosto de alguém. O descascamento da pele era tão doloroso que Brittney quase desmaiou. #1302, sempre obediente, não deixou que a outra sucumbisse.

As mulheres conseguem ouvir o barulho de #995 e o doutor trazendo um corpo pra cima. A pessoa parece estar surpreendentemente alerta e ter bastante força. Talvez seja um novo projeto. Normalmente, o único som que pode ser ouvido é da maca rolando e de homens levantando corpos pesados. Mas desta vez podem ouvir alguém resmungando por trás da mordaça. 

As mulheres dão um passo para trás enquanto a maca é puxada para a sala cirúrgica. #995 está grunhindo alto. Eles levantam a maca pela porta do alçapão da gruta. A pessoa na maca está coberta por uma lona azul. De baixo, a figura se debate, tentando se soltar.

#1302 olha para o doutor cheia de expectativas. Ela é paciente e esperará pelos comandos dele.

Theresa olha inexpressivamente para o marido. Tem nojo do cheiro da gruta, o qual o paciente de baixo da lona está exalando fortemente.

Brittney tenta fingir que está em outro lugar.

O doutor não sorri, mas está se movendo com entusiasmo. As mulheres não estão acostumadas com isso. "#1302, tenho uma surpresa especial para você."

#1302 vira a cabeça para o lado. "Sim, doutor?"

#995 sai da sala furtivamente sem ser notado. Não quer ser testemunha do que está prestes a acontecer naquele recinto.

O doutor empurra #1302 para que ela fique no pé da maca. Ele move o braço e a cabeça dela para que ela fique em um posição na qual veja perfeitamente a lona que cobre o corpo. A pessoa havia parado de se debater, agora estava somente respirando fundo, como se procurasse por ar. O coração dela parece pulsar de um jeito esquisito.

O canto do lábio do doutor parece tremer. Ele levanta a lona do mesmo jeito que um mágico puxa o pano para revelar sua mágica e joga para o lado, revelando um homem.

O homem está amarrado e amordaçado, seus olhos vermelhos. É um homem bem magro. Suas costelas aparecem em diversos ângulos sob a pele. Está nu. Seu pênis está enrolado em um tipo de artefato feito de arame farpado. Mas o rosto... O rosto e perfeito. Simetria completa. E seu cabelo continua lindo mesmo impregnado de suor.

Brittney deixa um gemido baixo escapar. "Greg..."

Finalmente o doutor da um sorriso largo. "Não mais. Agora ele se chama #1470."

#1302 continua com suas mãos ao lado do corpo. Involuntariamente fecha os seus punhos e tem que usar todo seu auto controle para esticar os dedos novamente.

"Como posso ajudá-lo, doutor?"

Brittney sente um arrepio interno. Foi aquele bastardo que colocou-as ali. O homem que estragou a vida delas.

Theresa sentia um ódio curioso.

O doutor vai em direção de seus instrumentos cirúrgicos e pega um bisturi grande. Brinca com ele nas mãos. Ele balança o instrumento de corte por cima do corpo de #1470, que está tentando gritar, mas não consegue pois sua mordaça está apertada demais. "Sabe, 1302, estou muito satisfeito com seu trabalho recentemente. Sua assistência nas operações são de grande ajuda."

#1302 não responde. As mulheres estão observando o bisturi se mover logo acima do rosto de Greg, desejando que caia.

O doutor parece estar satisfeito. "Fiz a decisão de deixá-la fazer o primeiro corte."

De repente, Brittney fica em silêncio. Pela primeira vez em muitos anos, se sente animada. As duas outras mulheres lutam para ter controle, mas é Brittney que levanta a mão, pronta para pegar o bisturi. O doutor entrega-o com delicadeza. 

"A única coisa que lhe peço é que não o mate, mesmo que queira muito."

Brittney anda com propósito em direção da cabeça de Greg. Ele tenta implorar com os olhos. Ela percebe que ele não a reconhece. Faz sentido: sua aparência física está incrivelmente diferente desde que ele a vendera para o doutor. Mas seus olhos são os mesmos. Ela olha fixamente nos olhos dele. O rosto dela muda de animação para desprezo. Greg percebe isso e começa a tremer.

Um sorriso largo corre pelo rosto de Brittney.

Com um movimento rápido, Brittney fatia um pedaço da bochecha esquerda dele. Greg grita por de baixo de sua mordaça, mas não consegue fazer nada mais que isso. O doutor se aproxima, tentando pegar o bisturi da mão dela, mas com outro golpe, ela arranca um pedaço da bochecha direita do homem.

"#1302, mê devolva o bisturi." O doutor fala em um tom firme e irritado.

Brittney nem se quer o ouve. Ao invés disso, faz três cortes rápidos nos lábios de Greg. Sangue escorre abundantemente das feridas. Ele chora e se debate com suas amarras. Brittney não consegue parar de sorrir.

O doutor dá um passo para trás. Percebe que isso faz parte da transformação de #1302. Fica observando com atenção.

Brittney se aproxima da face de Greg. Toca o sangue de bochecha dele com uma das mãos e com a outra começa cortar o nariz. Sangue começa a entrar na garganta dele e com isso fica com dificuldade para respirar. Demora menos de um minuto para que Brittney remover completamente o nariz dele. Pega o pedaço de carne morta e joga no chão como se fosse lixo.

Ela observa seu trabalho. O rosto de Greg está irreconhecível. Ele está em choque, quase perdendo a consciência e a habilidade de respirar. Uma onda de calma toma conta dela. Pela primeira vez na sua vida ela se sente em paz.

#1302 toma controle de volta e deixa cair o bisturi no peito de Greg. Ela se vira para o doutor, horrorizada com sua própria desobediência. "Eu sinto muito, Doutor."

O doutor pega o bisturi e se vira para #1302. "Chega. Temos que liberar as vias respiratórias dele, se não irá morrer." Ele faz uma pausa, estudando-a. "E se ele morrer, não poderemos trabalhar nele novamente."

Theresa nunca se sentiu tão próxima do marido como naquele momento. #1302 nunca se sentiu tão insegura consigo mesma. Há um espaço vazio entre elas. As mulheres percebem que Brittney não está mais lá. 


(EM BREVE: CAPÍTULO BÔNUS DE OS 1%) 


Por: EZmisery