31/10/2016

O DVD estava coberto de impressões digitais

É tão estranho abrir uma caixa na sua porta de entrada? Estava endereçado a mim. Isso significa que era meu. Claro que eu iria abrir. Eu nem notei que não havia endereço de remetente. Era apenas um pacote pequeno embalado em papel marrom. Meu nome estava escrito com uma caligrafia perfeita em marcador preto. Era para mim. Qualquer um teria feito exatamente a mesma coisa.
A caixa tinha duas coisas. O DVD e uma pequena escultura de madeira. Era um urso.
Sem esperar, eu coloquei o DVD no meu computador. Eu coloquei o pequeno urso na mesa ao meu lado. O DVD tinha um pequeno menu com quatro capítulos. Os nomes dos capítulos eram Origem, Elenco, Helen pede para sair da mesa e Abertura.
Eu cliquei no capitulo Origem.
“Origem” começa com a palavra “COMEÇO” piscando na tela. Durou alguns momentos antes de trocar para uma cena na floresta. A pessoa segurando a câmera anda devagar pelo bosque. Os únicos sons eram os da natureza. Às vezes, eu podia ouvir uma respiração, mas parecia muito quieto para ser da pessoa segurando a câmera. Depois de passar cinco minutos caminhando pelas arvores a pessoa chegou perto de uma casa. Era mais uma cabana em mau estado. A estrutura tinha uma cerca de arame sujo com um portão aberto. A pessoa circulou a casa quatro vezes. Tinha uma janela no lado oeste e uma no lado leste da casa. Você quase podia enxergar a mulher dentro da casa. Ela não estava se movendo.
A câmera era segurada cuidadosamente. Havia pouquíssimo tremor ou distorções.
Depois da última volta, a pessoa segurando a câmera volta pela trilha que eles vieram.
O som de folhas sendo esmagadas podia ser ouvido. Isso claramente assusta a pessoa segurando a câmera. Eles correm para trás da casa para se esconderem. O vídeo se move como se fosse mostrar o rosto da pessoa carregando a câmera, mas é abruptamente cortado, deixando os seguintes números em amarelo numa tela preta: “43.295094, - 89.627832. “
Então eu fui levada de volta ao menu principal. Eu tentei clicar no capitulo “Origem” de novo, mas ele estava riscado com um X amarelo.
Eu notei que o pequeno urso havia caído. Eu endireitei ele e cliquei no próximo capitulo.
“Elenco” começa com uma cena com sacos pretos de lixo. Eles têm a aparência de que foram usados. O vídeo muda para uma cozinha. Uma mulher em um vestido verde está de costas para a câmera. Ela está encarando algo em um forno. Bem baixinho, eu pude ouvir ela fungando. Alguém vem descendo as escadas pesadamente, fora da visão da câmera. Uma criança está chorando. A mulher não reage a nenhum destes sons.
A câmera é pega por outra pessoa de repente. Essa outra pessoa é bem menos cuidadosa com a câmera. Eles se afastam da mulher e focam em uma garotinha. Ela está de joelhos no chão da cozinha, com as mãos juntas como se estivesse orando. Ela está segurando um livro entre seus braços e peito. A cabeça dela foi raspada, exceto em um ponto que pende a frente de seu rosto, quase cobrindo completamente seu rosto.
Ninguém nessa cena é perturbado pela pequena garota. A câmera se move, para mostrar outra criança, um menino, que está aos pés da pessoa com a câmera. É ele quem está chorando. A pessoa segurando a câmera dá um chute no estômago dele. Então, no primeiro dialogo audível do DVD, a pessoa segurando a câmera diz, “Você esqueceu o rosto de seu pai. ” A voz é de um homem adulto.
O garoto rasteja desesperadamente até a garota. Ele se agarra a suas roupas. Ele não fala nada, mas parece estar tentando chamar a atenção da garota. Ela o ignora. O homem fala novamente, “Faça o que você disse, ou o que você disse será feito a você. ”
O garoto olha impotente para a câmera. Ele não encontra consolo lá. Lentamente, ele fica de joelhos e cruza as mãos como a menina. Essa ação parece levar a menina a agir. Ela pega o livro que vinha segurando e coloca delicadamente sobre a cabeça do garoto. Agora ele deve equilibrar o livro de modo que ele não caia. Eu tentei ler o título do livro, mas eu só consegui ver “A Torre _____ ___ Pistoleiro. ” O garoto começa a sussurrar. A garota o beija nos lábios e então volta as suas orações.
A câmera se volta a mulher, que tirou seu vestido e está em pé e pelada na cozinha. Suas costas estão cobertas de cicatrizes. Ela não tem três dedos na mão direita. O homem segurando a câmera se aproxima dela com uma mão coberta por uma luva preta, golpeando sua espinha ferida. A mulher continua encarando o que quer que esteja dentro do forno.
O homem pousa a câmera em um canto. Tudo que eu podia ver era a região do abdômen da mulher. Ele está vestindo um longo casaco e tem um facão em sua mão enluvada. Ele pressiona a lamina na pele da mulher. A cena é cortada antes que qualquer coisa possa acontecer.
Numa tela preta, aparecem essas letras em um amarelo brilhante, “r fr frh cnv aãb gvire ebfgb. ”
O menu aparece de repente. Eu não queria mais assistir, porém o próximo capitulo começou sem que eu clicasse nele. O urso havia caído novamente, mas eu não o arrumei dessa vez. Eu me senti presa no lugar.
“Helen pede para sair da mesa” tinha o título mais estranho de todos os capítulos, e provavelmente o vídeo mais perturbador.
Não havia uma abertura como havia no início dos outros dois capítulos. Em vez disso, começa numa mesa. A câmera é deixada em cima da mesa, encarando uma cadeira vazia. O cômodo está escuro, mas não completamente preto. A luz está tremeluzindo, como se viesse de velas. Não há nenhum som, exceto respirações difíceis vindo de pessoas fora do vídeo. A filmagem fica assim por mais ou menos 10 minutos. Eu não conseguia desviar o olhar.
Finalmente um homem começa a cantar sem tom. É “Hey Jude”, dos Beatles. Ele canta quase que com raiva. Acusadoramente. O torso do homem começa a ser enquadrado pela câmera enquanto ele pega a câmera. Ele vira as lentes para o resto da cena. Há outras três pessoas sentadas na mesa. Eu assumi que fossem as pessoas do capítulo anterior. Cada um deles está usando um saco preto de lixo na cabeça. Os sacos foram cortados de maneira que um pouco de ar possa entrar e sair. Mesmo assim, as pessoas os vestindo parecem ter dificuldade para respirar. O plástico apertado em suas faces enquanto eles exalar o ar.
Na frente de cada pessoa tem um prato vazio. No centro da mesa tem um guaxinim morto. Parece que está morto a um bom tempo. Vermes comeram seus olhos. O homem caminha ao redor da mesa, arrancando os sacos das cabeças das pessoas com violência. O primeiro saco era o da garotinha. Ela arfa como uma vítima de afogamento. Ela tem um olho roxo agora. Seu pequeno chumaço de cabelo está em seu nariz e sua boca. Ela não o afasta. Talvez ela não possa?
O próximo saco a ser removido é o da mulher. Ele não tem nenhuma reação a não ser um rápido piscar de olhos. Seu pescoço esta dobrado num ângulo estranho. Há vestígios de sangue seco próximos de sua boca. Ela não olha para o homem ou para a garotinha.
O último saco é o do garoto. Seus olhos estão abertos, mas sua pele está pálida. Não está claro se ele está respirando ou não.
O homem circula a mesa e caminha em direção a ponta. Ele senta, deixando a câmera na sua frente. Ele parou de cantar. Ao invés disso, ele solta uma gargalhada alta e diz, “Uma família que come unida, permanece unida. Nós não somos uma família? “ Ninguém responde, o que o deixa furioso. “Bem, nós não somos? ”
A garotinha guincha, “Sim John. Quer dizer, Pai. Uma família. Uma família perfeita. “
A mulher e o garoto não respondem.
O homem parece satisfeito. “Vamos, deleitem-se. “
A mulher e a garotinha ficam em pé. Elas se jogam sobre o guaxinim. É então revelado que as duas estão com as mãos presas nas suas costas. Elas enfiam suas cabeças na carcaça, rasgando a carne e comendo com uma fome desesperadora. O garoto não se mexe. Ele não piscou nesse tempo todo. O homem murmura Hey Jude enquanto eles comem o guaxinim. Eles engolem os vermes junto com a carne podre. Esse banquete nojento dura uns bons 15 minutos.  O garoto não se mexe durante esse tempo. Em algum momento, um osso voa e acerta o garoto na têmpora. Ele não reage. O osso atinge sua face e cai em seu colo.
O homem eventualmente soca seus punhos na mesa. A mulher e a garotinha se afastam do que sobrou do guaxinim. Sangue e pus cobre suas faces. O homem fica em pé e caminha em direção a garota. Parece que ele está tentando limpá-la, mas em vez disso ele se demora doentiamente no seu peito. Suas mãos enluvadas cobrem sua face e seu corpo. Ele então se inclina e dá um beijo atrás de sua cabeça. Ela fecha os olhos com força.
A mulher vomita na mesa. Isso distrai o homem que corre em direção a ela e lhe dá um tapa na cara. “Você está arruinando nosso jantar em família! ”
Pela primeira vez ela o encara firmemente. “Deixe-a em paz. ”
“Ela é minha filha.” Ele diz cuidadosamente.
A mulher estava prestes a responde-lo quando ele a pega pelo cabelo e bate sua cabeça contra a mesa. Ele faz isso sete vezes. Sangue cobre a madeira da mesa. O homem então a joga no chão e pega a câmera. “Ingrata, ingrata, ingrata, ” ele repete. “O que acontece com os pecadores ingratos. O que acontece com mulher ingratas. O que acontece com mulheres. ”
Durante esse tempo ninguém percebe que a garotinha se encolheu pra longe da mesa.
O último corte do vídeo é do garoto, claramente morto a pelo menos alguns dias, deitado sobre um altar. Tem uma enorme estátua da Virgem Maria atrás do garoto. O rosto da estátua parece ser o mesmo visto da janela na estrutura do primeiro capítulo.
O capitulo termina com o menu principal piscando. A essa altura eu não podia me mover. Eu olhei para baixo e notei que minhas mãos estavam amarradas com as mesmas cordas que prendiam a mulher no vídeo. Eu gritei por ajuda mas havia algo em minha boca, eu tossi e cuspi o pequeno urso de madeira diante de mim. O próximo capitulo começou a rodar.
“Abertura” começa com uma tela listrada em preto e amarelo. O amarelo satura o preto até que toda a tela seja amarela. Então o vídeo corta para o homem que foi chamado de “John” pela garotinha. Ele está falando com a câmera em um ritmo acelerado. A maioria das coisas que ele diz não fazem sentido. O tema principal parece ser família, mas fora isso, não existe nenhuma conexão óbvia. Em um ponto, ele diz que não tem família e em seguida começa a falar da família que ele tem (ou criou). O tempo todo ele segura um livro em suas mãos. O livro está dobrado, então eu não consegui ler o título. Tem uma arma na capa. O homem usa o livro para fingir que atira em si mesmo. “Pai morto. Pai morto. Pai está morto. Quer estar morto. Minha família quer um pai, mas um pai morto. “
Depois de 10 minutos resmungando ele pega um pedaço de madeira e começa a dar mordidas nele. Com a madeira em sua boca, ele puxa uma mão que está fora da tela. Uma mão com apenas dois dedos.
A última gravação é similar à do primeiro capitulo, exceto que a pessoa está correndo. Eles correm pelos bosques com urgência. Uma vez que eles chegam na pequena casa do primeiro capitulo, a pessoa deixa cair a câmera. Isso distorce a imagem.
Meu laptop ficou completamente preto a essa altura. “O que diabos, ”eu me ouvi dizendo em voz alta. Eu olhei para baixo, para as minhas mãos, e notei que elas não estavam amarradas juntas. Provavelmente nunca estiveram. O pequeno urso está na mesma posição que eu o havia deixado originalmente. Eu consegui ejetar o DVD e fechar meu computador. Sem hesitar eu quebrei o DVD no meio.
Eu poderia ter sido capaz de passar por isso. Eu abri uma caixa com o meu nome nela, assisti um DVD destinado a mim, e tinha acabado agora. Eu poderia ter sido capaz de seguir em frente. Mas havia outra caixa na minha varanda esta manhã.
Essa estava embalada em um saco preto de lixo.

E ai galera, eu tentei trazer mais conteúdo essa ultima semana como prometido. Essa é uma série pequena, são apenas 3 partes. Pretendo trazer os próximos 2 capítulos essa semana ainda. Como sempre, comentem o que acharam. E aproveitem a noite para assistir um filme de terror, vale aquele clássico (tipo Sexto Sentido, que eu assisti em VHS quando criança e fiquei apavorada por uma semana) ou então um mais recente. Ou leia um livro de terror. O que vale é aproveitar a data para fazer o que a gente já faz o ano todo haha. Happy Halloween!  
Edit: arrumei no texto a dica de tradução do leitor. Obrigada Antonio Campos!




28/10/2016

Abóboras Podres

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A fazenda perto da nossa casa tinha várias lanternas de abóbora no Halloween. Era muito legal de se ver; um campo inteiro cheio de abóboras cuidadosamente esculpidas com seus rostos grotescos e o brilho das velas por dentro. Haviam doces espalhados em pequenas sacolinhas, e crianças de todas as idades visitavam a fazenda antes ou depois do Halloween para pegar algumas guloseimas a mais.  

Nós nos mudamos para o outro lado da rua do campo há alguns anos atrás. A princípio, amamos a ideia das lanternas de abóboras. Parecia bem assombroso e realmente falava com o espirito do Halloween que eu e minha esposa temos. Mas quando o Halloween passava, o fazendeiro não retirava as abóboras do campo. Simplesmente deixaria lá para apodrecer.

Achei que fosse para fertilizar o solo para o que planejava plantar lá na primavera. Fazia sentido não desperdiçar todo aquele material orgânico. O problema é que elas atraiam animais. Animais e insetos. Com o novembro estranhamente quente que tivemos ano passado, o cheiro apodrecido trazia bichos de longe, e quando terminavam de comer, começavam a vagar pela vizinhança. 


Sendo uma cidade pequena, havia pouco que podíamos fazer para parar o fazendeiro, que se chamava Ruben, pois ele tinha o direito de fazer o que bem entendesse com sua propriedade. Nós todos tínhamos que lidar com os veados, gambás, coiotes, raposas, moscas, abelhas e morcegos comendo e cagando por todos os cantos da cidade até que não sobrasse mais abóboras.

Ano passado, me aproximei de Ruben enquanto ele organizava as lanternas de abóboras. Era um cara bastante amigável, sobre isso não havia dúvidas. Expliquei o problema e ele me ouviu, assentindo com a cabeça. Me falou que algumas outras pessoas já haviam lhe falado aquilo, mas que durante o verão havia arrumado as cercas, então isso não seria mais um problema. 

"Além do mais," me disse com um sorriso, "o ano passado foi só um teste. Neste Halloween tudo será perfeito."

No dia do Halloween, o campo cheio de lanternas de abóboras parecia ainda melhor do que do ano passado. Mesmo que o arranjo fosse o mesmo, Ruben havia contratado alguns artistas para criar designs monstruosos para as abóboras. Eram demais! Até dei uma caminhada pela frente, antes das velas serem acesas, para poder absorver tudo. Me senti como uma criança de novo. 

Enquanto a noite chegava ao fim e já tínhamos dado a maioria dos nossos doces para as crianças da vizinhança, estávamos prontos para desligar as luzes e trancar as portas quando ouvimos sirenes se aproximando. Olhei para a rua e vi uma procissão de carros de polícia, bombeiros e ambulâncias vindo em nossa direção. Fui para a varanda e observei-os passar por nossa casa e fazerem uma curva acentuada para a esquerda na entrada da fazenda de Ruben. 

Sentei nos degraus com minha esposa enquanto observada as luzes passarem para o campo parcialmente iluminado. "Ai meu Deus," Sussurrei. 

Com as luzes, pude ver corpos no chão junto das lanternas de abóbora. Corpos pequenos. Pequenos e fantasiados. Crianças. "Ai meu Deus," repeti, só que mais alto. 

Paramédicos e policiais saíram dos carros e foram para o campo e começaram as tentativas de ressuscitação nos corpos imóveis. Um por um, foram desistindo. Os pais estavam chegando em bandos e o som de lamúria e histeria preenchia o ar. Minha mulher e eu ficamos agarrados um ao outro enquanto os corpinhos, um atrás do outro, iam sendo colocados nas ambulâncias.

Na manhã seguinte, estava por todos os jornais. “32 crianças mortas em provável envenenamento. ” Rubem foi preso e levado para interrogatório. Ele se recusava a falar com os investigadores e foi preso sem poder recorrer a fiança.

Funerais foram feitos e as abóboras começaram a apodrecer. Era mais um novembro estranhamente quente, e como esperado, insetos começaram a descobrir o campo. Nuvens de moscas passavam para lá e para cá, cobrindo o campo de cinza enquanto colocavam seus ovos nas abóboras amolecidas. 

Alguns dias depois, os testes toxicológicos dos corpos das crianças voltaram. O que havia envenenado-os ainda era desconhecido. Exibiam todos os sinais clássicos de envenenamento: cianose, paralisia, hemorragia, etc. – mas nenhuma toxina foi encontrada em seus corpos. Amostras de tecido foram coletadas para testes futuros, mas os cadáveres foram liberados para as famílias. 

Duas semanas depois, o ar estava repleto de moscas e abelhas. A neve ainda não havia caído e aquelas coisas rastejavam e voavam por entre os restos das ex-lanternas. Lá de casa, eu podia ver os terríveis rostos deformados; rostos que já não me traziam boas lembranças do feriado. Eram rostos que zombavam dos mortos.

O outono incrivelmente quente continuava. Vinte graus acima do normal, segundo o homem do tempo. Flores estavam florescendo e as cerejeiras floresceram um total de cinco meses antes do tempo. As abóboras ainda estavam lá, porém deformadas, por terem sucumbido ao apodrecimento e pelos vermes vorazes. Enquanto o novembro quente ia se transformando em dezembro, os mais sortudos de nós começaram a esquecer a tragédia que pousara sobre nossa cidade. Mas ainda recebíamos lembretes – especialmente no dia 2 de dezembro, quando Ruben decidiu quebrar o voto de silêncio. 

Meu primo, Ron, trabalha no departamento de polícia como mecânico. Ele não tem acesso a informações criminais ou oficiais, mas ele conversa bastante com os policiais. E os policiais gostam bastante de conversar. 

Ron veio falar comigo no dia 2 antes de qualquer notícia sobre os dizeres de Ruben. Era claro que ele não se sentia confortável. Lilian e eu nos sentamos enquanto Ron relatava tudo que seus amigos extraíram do investigador. 

O Ruben que eu conhecia não era nada parecido com o cara que meu primo descrevia. Ele estava coberto de cortes e cicatrizes de símbolos e palavras indecifráveis. Cada centímetro de seu corpo era esculpido ou mutilado de uma forma ou outra – algo que ele fizera utilizando as unhas no tempo em que ficou na cadeia. 

Os detetives perceberam que Ruben estava pronto para falar quando começou a gritar o nome de todas as crianças mortas. Logo após a meia noite do dia 2, ele começou a gritar cada primeiro nome, nome do meio e sobrenome de cada criança até que sua voz era uma rouquidão só. Detetives ficaram do outro lado da grade de sua cela e transcreveram suas palavras. Não entenderam a maior parte, mas era melhor do que nada. O mais importante era uma data e horário: 5 de dezembro, 23h00. 

Ninguém conseguia entender o que ele queria dizer com isso, então houveram muitas especulações. Tudo que a polícia podia fazer era estacionar uma viatura durante a noite no lado de fora da fazenda no caso dele ter algo planejado. No dia 5, Lilian, Ron e eu ficamos sentados na varanda observando o campo negro à nossa frente. Às 23h00 nada aconteceu. Esperamos alguns minutos. Observei o policial do lado de for a da viatura, fumando um cigarro. 

Quando já estávamos prontos para entrar em casa, vi algo se mexendo no campo. Uma pequena chama. “Olhem, ” Falei para os outros, apontando. Eles viram também. Mais movimentos começaram.

“ Ei! ” Gritei para o policial, e continuei apontando para o campo. O oficial apagou seu cigarro e deu a volta no celeiro para olhar melhor. Foi até o lado do campo, e então usou seu rádio para chamar reforços. 

Enquanto observamos, os brilhos foram se intensificando, como se novas velas estivessem sendo acesas e começaram a queimar decentemente, como quando parece que vai apagar mas intensifica seu fogo. Depois de alguns poucos minutos, mais policiais chegaram. Me levantei e atravessei a rua. Eu precisava ver o que estava acontecendo.  

“Não vá, ” Lilian falou, me segurando pela mão, mas eu puxei e continuei em direção da cerca. Ouvi Ron andando atrás de mim.

A polícia chegou e iluminou o campo com suas lanternas de busca. Podíamos ver as abóboras podres, todas com apenas uma vela enfiada nelas. Estavam tremendo. Uma por uma, as velas foram caindo e atingindo a palha seca do chão. A palha pegou fogo. A polícia pediu reforços para os bombeiros, mas não havia chances de que chegariam a tempo. O fogo começou a se espalhar vorazmente. 

Tomadas pelo fogo, as abóboras começaram a se abrir. Só depois de serem dissolvidas pelo fogo que conseguimos ver o que havia dentro. "Ai meu senhor do céu," Ron meio que falou, meio que rezou. 

No lugar de cada abóbora podre, havia uma coisa pequena, de forma humanoide, sentados de cabeça baixa e com os joelhos próximo ao corpo. O calor se intensificava, crescendo cada vez mais, mas pude ver tudo. Uma por uma, as coisas se levantaram com suas pernas firmes e ficaram eretos. Eles estavam crescendo, e logo atingiram mais ou menos a altura das crianças que haviam falecido. 

Suas peles começaram a chamuscar e andaram para fora das chamas em direção dos vários policiais. Sem saber o que fazer, mas totalmente apavorados, alguns começaram a atirar. As balas não os pararam. Uma a uma, elas passavam pelas crianças geradas pelo fogo, saindo por suas costas, pernas e cabeças em um frenesi de gore e sangue, mas continuavam a andar para frente. 

Logo, os policiais que tinham disparado as balas, caíram no chão. Por um segundo não se mexeram, mas depois começaram a apodrecer. Assim como as abóboras. Os outros policiais recuaram. Eu recuei até minha casa, e assisti tudo lá da porta, junto de minha esposa e primo. Estávamos horrorizados. 

Uma procissão de crianças andou pela rua, seguidas pelas viaturas. Bombeiros trabalhavam para apagar as chamas, e depois de um tempo conseguiram. 

Ron ligou seu rádio da polícia e nos sentamos na sala de estar, ouvindo os horrores enquanto as notícias de novas mortes de policiais e outros oficiais eram dadas:

"As crianças chegaram na prisão."

"As crianças conseguiram queimar as grades da cela de Ruben Rendell."

"As crianças estão carregando Rendell de volta para o lugar de onde vieram."

"Ah, merda," Eu disse, e abri a porta da frente. Eles estavam andando pela rua - uma passeada de crianças pretas e esfumaçadas carregando um homem que queimava. Ruben. E ele gritava. 

"ESTÁ QUASE PRONTO! ESTÁ QUASE NO FIM!"

Ele gritava entre risadas histéricas enquanto queimava. As crianças levaram-no para o campo e o colocaram bem no centro. Depois se colocaram no mesmo lugar onde antes estavam as abóboras de onde nasceram. Alguns já tinham apagado, mas outros ainda brilhavam em um fogo seco e vermelho. 

Antes de queimar até a morte, Ruben gritou uma última coisa:

"POR FAVOR, ACEITE ESSA OFERENDA! É SUFICIENTE? É ISSO QUE PRECISAS? ME VEJA POR INTEIRO! ME! VEJA! POR! INTEIRO!"

Ele não proferiu nem mais um som depois da última palavra. Nada além do som crepitante das chamas se extinguindo. 

Os dias seguintes foram um turbilhão de investigações, visitas da mídia e especulações. Ninguém sabia o que havia acontecido. Ninguém sabia o que Ruben havia feito. E por um tempo, foi um mistério como as crianças haviam sido envenenadas. 

Um mistério, claro, até que Jasmine McCray, a mãe de uma criança que felizmente estava doente demais para sair no dia do Halloween, encontrou uma pequena carta dentro do baú de brinquedo de seu filho. Dizia:

"Para uma noite especial e divertida de Halloween, desenhe esse simbolozinho em um pedaço de papel e engula, depois venha até o campo de abóboras da fazenda de Ruben para buscar doces! Você nunca, nunca vai querer ir embora." 

O símbolo era uma estrela invertida. Um pentagrama. 

O filho de Jasmine contou que Ruben tinha dado aquela carta para as crianças durante um recreio, em um dia que havia ido até a escola para dar uma palestra sobre como era ser um fazendeiro. Ele falou pessoalmente com cada criança e os fez prometer que jogariam fora depois de ler e que não contariam para seus pais. 

Jasmine entregou a carta para a polícia e depois contou para a mídia. Enquanto os moradores mais supersticiosos aceitavam aquilo como uma resposta sobre o que acontecera, os céticos como eu não acreditavam. Mesmo depois do que presenciei, eu não podia acreditar que algo verdadeiramente sobrenatural acontecera. 

Mas então foram reveladas as fotografias. Fotografias aéreas feitas pelo helicóptero de uma emissora feitas um dia depois do holocausto no campo. Claramente marcada pelo carvão e cinzas do fogo, havia um pentagrama - a forma exata em que as abóboras tinham sido colocadas. Ninguém conseguia perceber isso vendo do chão. 

E no centro do pentagrama, onde Ruben havia gritado suas palavras finais, sua reza suplicante, seis palavras foram queimadas no solo. Era a resposta para as rezas do fazendeiro. 

"NÃO O SUFICIENTE. NUNCA O SUFICIENTE." 



Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você o ver em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

KEEP CREEPYING!

TRADUÇÃO POR: FRANCIS DIVINA


27/10/2016

Histórias de um entregador de pizza (PARTE 3)




Oi gente, é o T aqui de novo. Desculpa a demora para trazer uma nova história! Estou escrevendo isso aqui logo após sair do bar, então pegue leve com meus erros de digitação porque ainda estou meio bêbado. Estava lá conversando com alguns colegas de trabalho, mais especificamente com o que fez uma gambiarra com a lamparina no carro para jamais ficar no escuro.  Vamos chamar esse cavalheiro de K. K tem por volta dos 35 anos, é casado e tem dois filhos, um cara bem comum pra falar bema verdade. No verão passado, algo bem fodido aconteceu com ele enquanto fazia uma entrega de pizza no norte da cidade. Algo bem ruim mesmo. Seja lá o que tenha acontecido, a única pessoa que sabe é o nosso chefe. O que ele contou para o chefe o rendeu duas semanas de folgas remuneradas. Só recentemente, e por recentemente quero dizer há uma hora atrás, K se abriu para mim depois de algumas cervejas e deixou escapar o que aconteceu naquela noite que o deixou com medo de escuro. Me deu permissão de escrever aqui o que aconteceu porque, de certa forma, K quer que todos saibam o que está lá fora. Os próximos parágrafos são o que eu entendi da história que me contou, a história que o fez ficar aterrorizado de estradas longas e solitárias.

Pelo que entendi da história, foi em Junho do ano passado e K estava levando uma entrega no limite de nossa área de entrega. Parece que as coisas mais fodidas sempre acontecem quando distanciadas do centro da cidade. De qualquer forma, era uma entrega de rotina no meio do nada. Só que não teve nada de rotina nesse dia. Pelo que K me disse e pelos boatos também, foi isso que aconteceu.

Em um dos trecho mais retos da rodovia. K conseguiu capotar sete vezes com seu carro até chegar a vala do outro lado da estrada. Conhecendo-o faz um certo tempo, sei que esse cara é um ótimo motorista. Sempre no limite da velocidade, e nunca fuma unzinho enquanto dirige, coisa que maioria dos entregadores fazem (sou culpado nessa aí). K era um empregado bem decente. Quando K capotou com seu carro, as pessoas dizem que foi apenas como se tivesse ele houvesse esquecido como se dirigia. Aparentemente, ele só tirou as mãos do volante e apenas foi direto para vala. De qualquer forma, chega de boatos. Vamos falar sobre o que K me contou pessoalmente.

"Enquanto eu dirigia, parecia que as luzes tinha sido simplesmente apagadas; até a lua. Eu nem conseguia enxergar minhas mãos no volante ou os números em meu painél. Era 100% escuridão, tipo, você não tem noção, T. Imagine o lugar mais escuro que você já esteve, depois multiplique por 100. Era como se eu tivesse parado de enxergar instantaneamente. Mas eu sabia que ainda podia ver, porque quando eu colocava a mão quase encostada no rosto, eu podia ver a breve silhueta dos meus dedos."

Depois disso, ele disse que bateu no valão. O que ele me contou depois disso me deixou muito assustado.

"Depois de capotar com o carro, eu estava bem ferrado mas ainda precisava ligar para pedir ajuda. Me sentei direito com muita dificuldade, e procurei pelo carro no breu total. Foi aí que percebi que estava todo fodido, T. Quando estava tateando pelo meu carro, eu senti algo no banco do passageiro. Tinha forma humana, mas estava coberto em uma especie de gosma. Obviamente, eu estava totalmente fodido emocionalmente, e puxei minha mão. Mesmo obviamente tendo alguém ao meu lado, eu não ouvia nenhuma respiração a não ser a minha. A pior coisa disso tudo, T? Ele me tocou de volta, cara. Eu senti ele me agarrar."

Nesse ponto, K começou a chorar. Eu não queria pressioná-lo mais, mas estava morto de curiosidade para saber do resto. Depois de mais uns drinks e alguns abraços calorosos, ele falou.

"O que aconteceu depois que a coisa te tocou, K?" perguntei o mais despreocupadamente o possível.

"Na verdade, cara, não faço ideia. Depois que a coisa me agarrou, eu desmaiei. Quando acordei, eu estava dentro da ambulância e podia enxergar normalmente. A única razão que me faz acreditar que não foi uma falha no meu cérebro, é que eu ainda tenho a marca onde ele me agarrou. ”

Depois de falar isso, ele levantou sua camisa e me mostrou sua marca. Seja lá o que aquele troço era, deixou em K uma marca permanente totalmente preta, na forma de uma mão humana, só que os dedos são duas vezes mais longos. Não consigo enfatizar o suficiente a parte de ser totalmente preta. Olhar para a marca parecia que alguém havia editado no photoshop o torso dele, a cor não é natural. Nada natural ou normal poderia ter feito uma marca tão negra. Não era somente preta, era totalmente desprovida de cor. Ver aquela marca me deixou com um ataque de pânico. Essa merda está solta pela estrada, e se eu ver isso algum dia, certo que vou surtar.

Eu acho que o motivo do meu chefe ter dado duas semanas de folga para ele, foi para mantê-lo de boca fechada. Depois de ouvir mais alguns rumores, este não foi o primeiro caso de algo inexplicável e estranho que acontece com nós motoristas. Eu acho que nosso chefe sabe do que se trata e não quer nos assustar. 

Depois de ouvir o que K tinha para me contar, e da prova em sua pele, estou com sérias dúvidas se quero voltar a entregar coisas lá nos limites da cidade. Entre as merdas que aconteceram com K e minhas próprias experiências, tenho certeza que algo bizarro está acontecendo aqui no Norte do Canadá. Se está ou não acontecendo em outros lugares do mundo, eu preciso saber. Se sim, me contem, preciso saber que não estou sozinho. 

-- T


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você o ver em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

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TRADUÇÃO POR: FRANCIS DIVINA


25/10/2016

O Preço do Açúcar

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Quando eu era uma garotinha, se me perguntassem o que eu queria ser quando crescer, é certo que "artista passando fome" não estaria na lista. Provavelmente eu diria que queria ser "um dinossauro" ou "uma astronauta" - e mais tarde, quando descobri que crianças não podiam se transformar em dinossauros e que meninas de pele escura da Nova Zelândia não viram astronautas, eu falaria "professora" ou "enfermeira."

Na escola, progressivamente fui ficando pior em qualquer matéria que não fosse Inglês ou Artes, mas quando me tornei adolescente, minha tia conseguiu para mim um emprego de meio período de faxineira no hospital local. Na época eu não achava o salário tão ruim, e eu era boa no que fazia. Eu gostava de limpar; mesmo que as vezes eu estivesse limpando diarreia do chão ou vomito ensanguentado de paredes.

Depois de um tempo você se acostuma com a maioria dos odores. Bem, exceto o cheiro de Clostridium difficile - também conhecido como "C. Diff". Mas ainda bem que raramente tive de limpar um quarto com um paciente infectado por essa bactéria. 

Eventualmente, meu salário mínimo me permitiu desistir da escola e alugar um apartamento pequeno, de um quarto imundo em um bloco de concreto. Quando eu não estava dormindo ou trabalhando, estava produzindo minhas artes, para vendê-las na feira na manhã de sábado. 

E foi assim que me tornei uma artista pobre de meio período. 

*** 
Existem certos tipos de alimentos básicos que pessoas pobres precisam ter em suas dispensas. Os meus eram arroz e batata; ambos são bem baratos e podem ser transformados em diversos pratos. Ter sido criada por pais que também eram pobres e em um ambiente que reforçava os esteriótipos de gênero, minha me ensinou desde pequena como cozinhar coisas que renderiam para várias refeições. 

"Arroz é sensacional," Ela dizia, "Você pode comê-lo doce no café da manhã e puro no almoço ou  no jantar."

E repolho. Tudo parecia conter repolho.

Mas ainda tenho meus pequenos luxos no meu apartamento minúsculo; um pote de manteiga de amendoim, favos de mel selvagens de Makuna que meu tio que mora no Norte me enviara e outro pote grande de açúcar mascavo para minhas xícaras de chá. 

Você vai entender, então, por que eu estava chateada quando formigas começaram a entrar aqui.

São coisinhas minusculas, as menores formigas que já vi na vida. Quando acordava de manhã, elas estavam ao redor de pequeninos farelos de comida, dividindo-os e carregando de volta para seu ninho em uma mini peregrinação com seus corpinhos marrom-escuro. 

Não fiquei ressentida no começo - eu sabia como era estar com fome. E ao contrário de outra pessoas, eu achava bom que elas estivesse limpando parte de minha bagunça, fazendo-me um favor. 

Mas quando elas fizeram um buraco no meu saco extra de açúcar mascavo, decidi que já era demais.

***
Descobri que bórax e açúcar são ótimos mata-formiga caseiro quando estão juntos.

No trabalho tínhamos muitos produtos de limpeza com bórax, para limpar ralos e dissolver sujeiras pesadas. Então fiz uma mistura com a solução, do jeito que aprendi na internet, e depois deixei em um pires em cima da bancada da cozinha.

Não demorou muito para minha pequenas visitantes indesejadas acharem; uma hora depois, um par de formigas marchou pela bancada branca e limpa em direção do pires.

De acordo com minha pesquisa, elas comeriam, e então levariam de volta para o ninho, onde outras entrariam na corrente, até que o veneno tomasse conta de seu lar. Tudo estava indo bem, todas estariam mortas dentro de uma semana, e eu não teria mais um problema com insetos. 

Então quando uma se alimentou do veneno e depois ficou parara da borda do pires junto de sua companhia, achei que tinha preparado a mistura forte demais e ela havia morrido instantaneamente.

Mas continuando minha observação, vi que ainda estava viva, mexendo as antenas e patinhas, pacientemente aguardando com a supervisão de seu amigo.

Usando essa oportunidade  rara de ver uma formiga em repouso, peguei meu caderno de desenho e comecei a rascunhá-las, enquanto me empoleirava na minha cadeira de plástico. 

Quando eu já estava bocejando e desejando minha cama, as duas formigas ainda estava pacientemente sentadas na borda do pires.

De manhã, quando me levantei para tomar banho e depois uma xícara de chá, o pires se mantinha intocado na bancada - apenas o corpo da envenenada continuava lá, com suas perninhas dobradas contra o corpo em uma pose de morte fatal. 

Minha tentativa de envenenar o ninho havia falhado.

***
Na semana seguinte, elas fizeram um novo furo no saco do açúcar (que eu já havia colocado dentro de outro saco plástico) e esvaziaram metade do conteúdo.

Enfurecida, pendurei a sacola em um gancho no teto da lavanderia.

Na manhã seguinte, a sacola vazia estava caída no chão, sem nenhum grão de açúcar dentro.

Frustrada, fui ao mercado e comprei veneno de verdade para formigas - junto de outro saco de açúcar. Quando cheguei em casa, coloquei a armadilha no chão da dispensa e o saco de açúcar dentro de uma tigela, a qual coloque dentro de uma tigela maior cheia d´água.

A família de ladrões de açúcar estava prestes a receber sua punição.

Tive um sono agitado, a porta do quarto aberta, irracionalmente tentando ouvir os sons dos pequenos intrusos. Uma parte de mim estava convencida de que elas estavam conspirando contra mim; Eu tinha sonhos fragmentados de formigas enormes rastejando pelos meus armários, mastigando e fazendo furos através do vidro e do plástico, comendo todos os alimentos que podiam encontrar.

Eventualmente tive que levantar, e cambaleei até a cozinha para pegar um copo d'água.

Quando as luzes se acenderam, vi movimento.

O saco de açúcar tinha sido retirado de dentro da tigela e estava deitado de lado na bancada. Formigas sapateavam loucamente pelo balcão, correndo para se esconder em qualquer rachadura ou buraquinho que encontrassem - com certeza suas bocas estavam cheias do meu açúcar.

Pensando rápido, peguei um copo de vidro da pia e coloquei em cima de uma das formigas, que havia acabado de emergir do saco quase vazio de açúcar. 

Eu havia pego uma das ladras. 

***

Definitivamente ela estava me observando.

Seja lá aonde eu fosse, se posicionava dentro do vidro de um jeito que pudesse me olhar. Se eu me aproximava, se a olhava, a formiga se apoiava nas patas traseiras e batia com a antena boa contra o vidro - a outra tinha sido esmagada pelo copo quando a prendi.

"Não vou te soltar," Falei, "Não até vocês pararem de roubar meu açúcar."

Mais algumas batidinhas.

Percebi que ela era muito maior do que as formigas que haviam aparecido primeiro. Essa era brilhosa e escura, como se tivesse sido polida por um engraxate. Sendo maior, seu rosto ficava quase que antropomórfico, o que fazia ser desconfortável mantê-la dentro de sua prisão de vidro.

"Eu poderia te matar, sabe," Continuei, "mas não vou. Vamos fazer um trato; De noite vou colocar um pote de açúcar branco na frente da porta de casa, lá fora. Vocês podem comer e levar o quanto quiserem. Só deixem minhas coisas fora disso."

A formiga me olhava através do vidro. 

"Tá bom?"

Mais algumas batidinhas.

Suspirando, levantei o copo. A antena boa da formiga se remexeu furiosamente por um segundo, depois ela correu e desapareceu em uma fenda entre o fogão e a bancada. 

 ***
Se ela havia me entendido ou não, não sei, mas o pote de açúcar do lado de fora estava funcionando.

Durante a noite elas iam até lá, comiam, pegavam e levavam o conteúdo para seu ninho. Como se o acordo tivesse realmente sido feito, elas não apareceram mais na minha cozinha.

Achei isso tudo muito engraçado; era como uma máfia ilegal, só que pequena e de insetos. Contanto que eu desse à elas uma quantia regular de açúcar, me deixariam em paz.

Mesmo estando contente com esse acordo, tinha alguém que não estava.

Meu vizinho, Charles. 

Um senhor de idade de descendência européia, Charles não tinha muito tempo para gastar com pessoas como eu. Se o meu rádio estivesse muito alto, ele batia na minha porta com sua bengala até que eu abaixasse. Eu mal podia assistir televisão em um volume decente, então eu só assistia filmes piratas pelo meu celular, usando fones de ouvido, claro. 

O rebuliço lá fora vinha acompanhado da voz estridente e petulante de Charles, gritando algumas coisas.

Abri minha porta e o encontrei ali parado, o pode de açúcar esmagado e chutado no fim do corredor, junto de um caminho de formigas gordas esmagadas ao redor do meu tapete da frente.

"Sua pretinha estúpida," ele vociferou contra mim, "Sua selvagem ignorante!"

"Boa noite, Charles."

"Porque diabos você está alimentando as formigas, sua mulherzinha estúpida?"

"Para mantê-las fora da minha casa," tentei começar a explicar, mas ele cortou minha fala.

"Vou contar para o senhorio sobre isso. Ele vai arrancar suas tripas - você será despejada até o final da semana, pode ter certeza."

"Até mais, Charles," Falei, sorrindo e fechando a porta na cara dele.

Ele ficou balbuciando lá fora por um tempo, mas depois voltou para seu apartamento.

De manhã, todos os corpos das formigas haviam sumido, e um pote novo de açúcar estava em cima do meu tapete. 

***
 Não ouvi uma palavra se quer do senhorio, muito menos de Charles. Mas não ousei alimentar as formigas de novo, por medo de causar mais problemas.

Quase três semanas depois deste incidente, uma formiga solitária e gorda atravessou minha bancada e parou ao lado da minha xícara de chá.

Com sua antena boa, bateu em minha xícara.

Mais algumas batidinhas.

Em seguida, caminho despreocupadamente para longe, desaparecendo na fenda de onde surgira.

Naquela noite deixei um pote com açúcar do lado de fora, e de manhã havia uma surpresa para mim.

Dentro do pote vazio estava um lindo pingente branco-creme.

Eu já havia tentado fazer esculturas com osso, mas apesar dos meus talentos artísticos, eu nunca havia pego o jeito. Seja lá quem fizera aquela peça, era um artista muito talentoso; era um espiral duplo perfeito coberto de padrões de desenhos complexos, muito parecido com aqueles que meus ancestrais usavam. 

E todas manhãs depois daquele dia, um novo pingente de osso aparecia, tão lindo quanto o anterior.

***
Os pingentes saem como água, na feira.

Saem tanto que poderei alimentar minhas amiguinhas por um bom tempo.

A polícia nunca descobriu o que aconteceu com Charles. Falaram que a equipe forense não encontrou nada - nenhum sinal de arrombamento, nenhum sinal de luta. Foi como se o velhinho tivesse simplesmente desaparecido.

A nova inquilina apareceu aqui no sábado, uma senhora de cenho franzido e amargurado. Na primeira noite ela socou nas paredes e gritou profanidades quando liguei minha televisão.

Mal posso esperar para levá-la para a feira. 

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FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você o ver em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

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TRADUÇÃO POR: FRANCIS DIVINA