04/01/2017

Registros finais de uma exploração

Feliz 2017, Creepers! 

09 de Setembro de 2016
Essa cidade não está em nenhum mapa. E se um dia já esteve, essas pessoas estão mortas a muito tempo. Assim como seus filhos. E seus netos. E bisnetos. E tataranetos. E assim por diante. 

No entanto, a cidade está aqui. Minha fonte estava certa. Meu dinheiro foi bem gasto. Essas estruturas antigas são tumbas negras. Nós montamos nosso acampamento nos arredores. Lá na cidade faz muito frio. 

10 de Setembro de 2016
Charles ficou de vigia enquanto eu dormia. Relatou não ter visto sinais de vida, mas um som o mantinha em constante estado de alerta. Um som suave. Suave, molhado, imponente. Sons que iam e vinham nos limites do audível, como se fossem sussurros, porem ardentes e úmidos - resquícios de um último respirar e palavras finais. 

Eu não ouvi nada. Meu sono foi negro como as estruturas à nossa frente. Nenhum som penetrou as minhas muralhas sem sonhos. Por um breve momento ao acordar, acreditei ter falecido. 

Hoje passearemos pela cidade. 

11 de Setembro de 2016
Antes do frio esgotar nossas energias, nós conseguimos explorar as primeiras centenas de metros da cidade. Nos focamos na parte de fora, catalogando as fachadas de pedras nuas da estrutura. Apesar de sua idade milenar, a estrutura não estava abalada. Não encontramos indicações do que poderia ter feito os sons que Charles ouviu. 

Durante a noite, enquanto Charles dormia, eu ouvi. Eram como ele havia descrito. Entretanto, reconheci uma estrutura na neblina esporádica do som. Se não era uma língua, era um fenômeno natural nunca antes descoberto. Minha mente vagava enquanto observava o peito de Charles subir e descer.  

Os sussurros inundaram meu córtex auditivo e uma onda sinestésica de alucinação varreu meu ser. O som cintilava em minha visão e dançava em minha língua. Tinha gosto metálico. Como o de sangue. Mas não senti nojo, senti uma sensação perversa de contentamento. 

12 de Setembro de 2016
Eu pisquei e Charles havia sumido. Como eu havia adormecido era um mistério, pois eu estava de pé. Mas quando abri minhas pálpebras, era dia. E meu parceiro sumira. Em seu lugar haviam pegadas que se direcionavam para a cidade.

Os sons estão altos agora. Estou quilômetros adentro das entranhas da cidade obscura e fria. Torres estruturadas pairam sobre mim e bloqueiam o sol; minha respiração congela na frente de meu rosto, e estamos no final do verão. A temperatura só contribui para a sensação de algo estar completamente errado. 

Quando o vento sopra, eu acho que ouço Charles chamando por meu nome. De novo e de novo e de novo e de novo, varrido por lufadas de ar e pressões mutáveis e permeando os sons molhados que ecoam em cada cabana e residência, ele me chama. Eu não dormirei esta noite. 

13 de Setembro de 2016
O primeiro sinal de vida se apresentou a mim no começo da manhã. Era um pedaço de pele ou cartilagem brilhando sobre a luz do sol. Estava acoplada ao lado de uma pequena estrutura. Quando cheguei perto para investigar, descobri que estava crescendo de dentro da rachadura da pedra. Pressionei minha faca contra aquilo. Sangrou e depois se retraiu para dentro da pedra. Se não fossem pelos barulhos do vento e pelo que sei que eram os gemidos de Charles, eu juro que poderia ter ouvido aqui fazer algum som. Um som baixo e molhado. 

14 de Setembro de 2016
É difícil de manter a fogueira acesa durante a noite. A expansão desta cidade é totalmente diferente do que esperávamos. Não sei onde estou; tenho o fútil desejo de ajudar Charles e voltar para casa.

Quanto mais adentro, pior fica o estado das estruturas. Todas as rachaduras e pedaços faltando de pedra estão preenchidos com aquele mesmo tecido vivo. Sua densidade só cresce enquanto sigo o som. Sei que devia estar correndo na direção oposta. A carne dentro dos edifícios ondula no peristaltismo direcional. Estou seguindo-as. Ainda não vi nenhuma entrada para qualquer uma das estruturas.

15 de Setembro de 2016
A cidade agora é mais de carne do que de pedra. Os sussurros úmidos invadem meus ouvidos e trabalham para se infiltrar em todos meus sentidos. Eu os sinto amaldiçoando meu corpo. Ainda assim, eu continuo a marchar. A temperatura está mais quente. Não consigo pensar em mais nada do que seguir em frente.

16 de Setembro de 2016
O frio foi substituído por calor e umidade. As pedras foram consumidas pela carne; estruturas titânicas de músculos e veias chegam até o céu cinzento. Tudo é molhado. Tudo se move. 

17 de Setembro de 2016
Nessa manhã, encontrei Charles. Um Charles. Se era o meu parceiro ou outra coisa, não sei. Ele estava preso dentro de uma das estruturas de carne. Parecia que seu corpo havia se incorporado entre as outras carnes; veias grossas alimentavam suas pernas e pescoço. 

Perto, outros Charles estavam crescendo em diferentes estruturas. Todos estavam em diferentes etapas de desenvolvimento. Todos se remexendo e se movendo junto das outras carnes. 

Já reconheceram minha presença. Começaram com um simples olhar, mas agora estão tentando encostar em mim. As mãos de meu parceiro - o homem que eu amava - está se esticando em direção de minhas mãos; mãos que segurei incontáveis vezes no que parece ser um passado distante. 

Os sussurros úmidos são sedutores e intoxicantes. Eu olho para trás e vejo o mar de carne e pedra que tive que atravessar para chegar aqui. A lembrança do frio no começo da cidade é horrível. Deixar este útero aquecido onde sou querida e aceita parece absurdo. E agora, enquanto as veias se estendem das mãos dos Charles, pacientemente esperando minha aceitação, tenho de fazer uma escolha. Eu vou embora, com frio e na solidão? Ou adentro essa união em carne?

Já estive em solidão e com frio por tanto tempo. Tenho que acreditar que meu ser está pronto para algo novo. Algo que podemos experimentar juntos. Rezem por mim. Rezem por nós.



11 comentários:

  1. Tava nascendo jeba nas pedras vei ahahahahahahahaha... Me julguem... Eu sou doente

    ResponderExcluir
  2. Uau. Eu tive várias interpretações ao longo da leitura kkkk
    Sensacional XD ❤

    ResponderExcluir
  3. Hm, lovecraft feelings, vlw pela creepy

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Achei que só eu tinha percebido. Legal ver que tem gente fan do velho mestre.

      Excluir
  4. Ótima Creepy!! Divina sendo sempre Divina como sempre! Ja estava com Sdds... E feliz 2017 :3

    ResponderExcluir
  5. Que viagem man!!!

    Não sou muito fã de creepys diário, mais essa viagem foi muito top! Tipo, acho que não é sobrenatural, e sim a personagem perdendo completamente a sanidade. Sinistro!!

    ResponderExcluir
  6. Achei que era um homem até ler "querida e aceita"...
    Enfim, Feliz 2017 ^^

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Engraçado, li quase toda creepy acreditando ser um casal de homens, não que isso mudasse o contexto. Creepy interessante, Silent Hill 3 feelings. Lembrei de uma parte do game em que vc adentra um prédio com as paredes feitas e carne viva e pulsante.

      Excluir
  7. esse hp Lovecraft tem nome. kkkkkkk zuas ae boa creeppy.

    ResponderExcluir