01/02/2017

Bocas Abertas

ATENÇÃO: ESSE CONTO ESTÁ CLASSIFICADO COMO +18. PODE CONTER CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE. NÃO RECOMENDADO PARA PESSOAS SENSÍVEIS. 

Seus rostos pálidos estavam voltados para o céu. Cada par de olhos parecia cintilar com esperança. Na luz da lua, suas peles pareciam luminosas; uma batalha de peles claras contra a escuridão nos arredores. Suas bocas estavam levemente abertas, como se esperassem comunicação divina. Estavam em círculo no chão musgoso, mãos com mãos. Suas gargantas abertas jorravam sangue em seus peitos jovens. 

Debaixo de meus pés desnudos, o musgo parecia reconfortante. Tão convidativo. Com as crianças de guarda, eu me deitei no chão em posição fetal e adormeci. 

Isso foi a 25 anos atrás. Era meu ritual noturno. Sonambulo, eu andava até a clareira na floresta perto de nossa casa e dormia junto das cinco crianças. Ninguém notava que eu só voltava para casa no amanhecer. Ninguém teria ligado, de qualquer forma. 

Depois que fiz 14 anos, tudo parou. Achei que aquilo eram apenas sonhos. Sim, eu andava dormindo quase toda noite. Sim, passei aquelas noites na floresta. Mas nenhuma criança nunca foi dada como desaparecida. Não haviam gargantas cortadas. Apenas árvores e musgo. Muito, mais muito musgo. 

Eu me mudei quando fiz 19 anos. Com o passar dos anos, as lembranças ficaram nebulosas, como costuma acontecer. Entretanto, algumas coisas faziam elas voltarem à tona. Umas mais fortes que outras. Ultimamente, tem sido bocas abertas. 

As bocas abertas das crianças sempre foi algo que me fascinava. Eu não me impressionava com suas gargantas cortadas. Eu não me perturbava com seus olhares quentes para o céu. Não, eram suas bocas que me despertava curiosidade. Eu andava em volta do círculo, o musgo passando por entre meus dedos dos pés, e olhava dentro de suas bocas. Pareciam quentes e macias; línguas rosadas, dentes pequeninos e gargantas estreitas. 

Quando eu tinha 8 anos, eu beijei uma das duas meninas. A ruiva. Seus lábios eram grossos e tinha gosto de pinho. Senti minha respiração entrar em sua boca e voltar para a minha. Ela não se moveu. Meu corpo sibilou. 

Senti o gosto de pinho por anos. Desde então, nenhum beijo foi tão arrebatador. As décadas passaram com um sentimento crescente de insatisfação. 

Quando meus pais faleceram no ano passado, tive que voltar para lá. Era basicamente igual. Agora eu continuo a fazer minhas tarefas do dia-a-dia, mas as crianças não saem da minha cabeça. A suavidade do musgo contra minha pele e a sensação de proteção que tinha enquanto dormia perto deles é impossível de se afastar. Minha nostalgia só cresceu desde que voltei para a casa que fica perto de onde tudo acontecia. 

Algumas noites, eu ando pela clareira musgosa. É tão lindo quanto sempre foi, especialmente quando a lua está cheia e eu me lembro do brilho tocando suas peles de porcelana, com seus olhos cintilantes e bocas úmidas. Eu me deito no musgo e choro até dormir. Sozinho. 

Eu encontrei algum consolo em cultivar aquele mesmo musgo. É o único remanescente tangível desse tempo reconfortante na minha vida.

Consegui trazer pedaços remendados do musgo para crescer no chão do meu porão, e é onde eu durmo agora. Lá, no musgo, no conforto da minha casa, posso sonhar de novo. Os sonhos são uma solução temporária, melhor do que nada. Será suficiente até que possa acontecer novamente. E eu sei que vai.


A primeira menina que peguei foi uma ruiva. A lâmpada do porão não parece com a luz da lua. O brilho amarelado faz com que ela fique com uma aparência pálida e doentia. Seus olhos estão esbranquiçados e difíceis de manter abertos. Mas a garganta aberta é a mesa. A garganta faz a memória ficar real.  E antes de me aconchegar ao lado de seus pés pregados e dormir, me certifico de beijar sua boca aberta. Fantasio com o sabor pinho enquanto o sabor do metal acaricia minha língua. 
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29 comentários:

  1. Meu Deus! Choquei!
    Amei, simplesmente incrivel
    Divina traz sempre creepys divinas kkk

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Eu não entendi nada...
    Então não tem como classificar de 0 a 10

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    1. O cara fez do porão dele, o lugar do sonho, ou seja ele vai começar a matar crianças pra levar pra lá, abrindo a garganta deles pra ficar igual no sonho. No final a primeira q ele pegou foi a ruivinha, e fica beijando ela igual fazia no sonho.
      Ficou confusa minha explicação,mas da pra entender mais ou menos kkk

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    2. Ah, muito obrigado... não curti muito a creepy ashusa, mas obrigado pela explicação

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Que creepy louca, só não entendi a parte do metal.

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    1. Eu acho que se refere ao gosto metálico do sangue. Ou isso, ou ele usava algo pra deixar a boca dela aberta.

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    2. Acho que é o sangue mesmo, não tinha pensado nisso bakdnakd. Obrigada!

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  6. Divina do céu, tá muito sanguinária miga. O que é isso? Não vou mentir, adoro

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    1. Não foi a creepy, foi o anúncio de para " +18 ".

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  8. Isso! Eh isso queeu gosto de ler, coisas queo cerebro demora a entender mas acha fascinante ao mesmo tempo.

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  9. Quem é Andrey nunca vai ser Divina, a diferença é gritante

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    1. Mas talvez a Divina para ser sempre Divina precisou Ser um "Andrey" antes.

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    2. Eu traduzo a 5 anos, o Andrey traduz a mais ou menos dois ou três meses. Essa comparação é muito injusta... Quando eu comecei, eu traduzia muito mal! Comparando ele a mim, ele da de dez a zero. Então não façam esse tipo de comentários feios, eu não gosto, ninguém da equipe gosta. O Andrey é um amorzinho e vou protegê-lo sim. 💚

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    3. Não sei porque vocês fazem esse tipo de comparação. Soa ridículo.

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    4. Não sei porque vocês fazem esse tipo de comparação. Soa ridículo.

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  10. Li mais uma vez, que tesão de história

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  11. Como sempre a Divina vem com creepys divinas 10/10. Muito obrigado pela tradução!!!

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