21/06/2017

Eu herdei a conta do Facebook da minha irmã.

Quando minha irmã morreu, eu tomei conta da página do Facebook dela.

Isso soa meio estranho, agora que escrevi. Para falar a verdade, não acho que sou a pessoa mais adequada para acessar a conta dela. Logicamente, a honra devia ter sido de seu marido, Ted, se é que alguém devia ter acesso a ela. 
O problema é que ninguém sabe que eu consegui acessá-la. 

Ela me deu sua senha há... Jesus Cristo, mais de seis anos atrás. Tinha pedido para eu logar e ver uma coisa pelo meu PC. Não me lembro o que era, agora. São uma daquelas lembranças que pareciam tão indiferentes antigamente, mas agora são as coisas que eu mais sinto falta. Milhões de mini interações, palavras e sorrisos entre nós, e eu não lembrarei da maioria dessas coisas. 

Estou divagando. 

De qualquer forma, a senha. Cerca de uma semana depois de morrer, tentei a senha por bobagem. Achei que ela tinha trocado em algum momento desses seis anos, mas para minha surpresa consegui entrar. Sério mesmo, Annalise? Ela nunca foi muito boa com segurança digital. 
Sei que eu não devia ter entrado na conta dela. Entendo isso, juro. Mesmo que estivesse morta, é uma invasão de privacidade. Não só com ela, mas com todos os outros. Porém, eu acabara de perder uma das pessoas mais importantes da minha vida e estava de luto. Parecia certo na época. Parecia justificável. Além do mais, não é como se alguém tivesse que ficar sabendo - deixei o status do messenger como "offline", assim ninguém saberia que eu havia entrado. 

Passei muitas noites sem dormir olhando seu Facebook. Os grupos que ela participava, páginas que havia curtido, fotos que postara. Rapidamente se tornou um vício nada saudável. Não que eu ligasse para isso. Meu desespero era reencontrar uma conexão com ela - qualquer coisa. E havia tanta coisa de sua vida catalogada naquela rede social. Era o veneno perfeito. 

Para minha total vergonha, eventualmente comecei a olhar as mensagens. 

Se isso melhora um pouco as coisas (sei que não melhora), não havia nada absurdo ou terrível nas mensagens. Annalise preferia conversar pessoalmente do que online. A maioria eram coisas bem simplórias. Compartilhar fotos do seu cachorrinho com nosso primo, Sam. Compartilhar detalhes de alguma festa em um grupo de amigos. Planejando uma viagem de última hora para ver sua melhor amiga, Freida. 

Essa última me doeu um pouco. Estavam planejando se ver alguns dias depois da morte de Annalise. As mensagens que trocaram eram curtas e tentas, como se tivessem tido uma briga. Freida parecia bastante perturbada no funeral, chorando e falando que Annalise jamais a perdoaria. Deve ter sido muito difícil para ela, sua melhor amiga morrer e não conseguir se acertar por causa de uma discussão idiota. Imagina ficar com essa culpa para sempre. 

É engraçado como sempre achamos que temos tempo. No dia do acidente, eu estava na farmácia comprando sulfato ferroso para minha irmã. Sua anemia tinha voltado com tudo e seus braços estavam ficando com hematomas por qualquer coisa. Estava também meio triste naquela época, então fui nas prateleiras de doce, pensando em levar algum chocolatinho para animá-la - chocolate era sua coisa preferida, e eu sempre dava uma cesta cheia de vários tipos na páscoa - mas foi aí que recebi a ligação. 

Minha irmã. Minha bobona, desajeitada, amada irmã. Não era a primeira vez que ela caía das escadas - acontecia com frequência quando era criança. Mas dessa vez foi a última, não teve sorte. 

Dessa vez, quebrou o pescoço durante a queda. Morreu na hora. 

A memória daquele momento terrível - estar de pé na farmácia, minha boca aberta em um grito que havia morrido em algum lugar dentro do meu peito - essas lembranças passavam vividamente na minha mente enquanto eu estava ali senta, lendo a mensagem de Freida de novo e de novo e de novo.

Não era justo. Não era justo!

Eu ainda estava chorando, de frente para o computador em posição fetal quando Annalise recebeu uma nova mensagem. 

Não era algo incomum Annalise receber novas mensagens no Facebook. A maioria eram de pessoas de luto - desejando que ela não tivesse ido; desejando que tivessem tido mais tempo com ela. Não li nenhuma dessas mensagens. Para falar a verdade, parecia ser invasão demais. Além do mais, só me lembrava que ela não voltaria para casa em breve. 

Mas havia algo diferente nessa. 

Era de Ted. Antes de fechar a janela, meus olhos bateram na primeira frase. 

"Por que as coisas tinham que ser assim?"

As imagens de Ted no funeral passaram pela minha mente. Estava totalmente pálido, tremulo. Como se estivesse morrendo pelo luto. Como se não tivesse ninguém para compartilhar sua dor, mesmo que tentássemos nos aproximar. 

Ignorando a voz da minha consciência, continuei lendo. 

"Por que as coisas tinham que ser assim? 

Não tinha que acontecer dessa forma. Você não pode culpar ninguém além de você mesma, e estou com tanta, tanta raiva de você! Nós podíamos ter resolvido tudo. Podíamos ter feito funcionar. Eu te amo. Mesmo nos nossos piores momentos, você sabia disso - como não poderia? Fiz tudo por ti, DEI TUDO para você. Você foi tão ingrata.

Você sabe que eu não fiz de propósito. Só estava com tanta raiva. Faz aquilo comigo, você sabe - me deixa com raiva. E me magoou também, fazer aquilo. Você não tem ideia de como me senti péssimo nos dias seguintes. Além do mais, aquela briga quase quebrou minha mão. Você não é a única que se machucou. 

Queria que você tivesse me ouvido. Queria que não tivesse corrido. Você achou que eu não descobriria dos seus planos com Freida? Achou que estaria segura com ela? Que piada. Você SABIA que ficaria mais segura comigo. Eu só perco a cabeça as vezes - quem não perde? Você devia me amar e isso significa amar TUDO sobre mim. Ou aqueles votos de casamento eram mentira? 

É sua culpa. Sua culpa de ter deixado o celular desbloqueado para que eu lesse aquelas mensagens. Sua culpa por me magoar quando sabia que eu já estava sofrendo. Sua culpa por me deixar com tanta raiva que fiz algo para te machucar de novo. 

Você não entende? É sua culpa. E você foi punida por isso."
Enquanto eu lia as mensagens, comecei a me sentir muito mal. Vagarosamente, as coisas foram se encaixando na minha cabeça, uma imagem que fez meu queixo cair de novo. 

Não. NÃO. 

Antes que eu tivesse tempo de reagir de novo, outra mensagem entrou. 

"Que porra é essa... quem está lendo?!"

Merda. Tinha esquecido que havia clicado na mensagem, e assim ele receber uma mensagem de "lido". Em pânico, desliguei meu notebook e o afastei como se fosse tóxico. 

Demorou algumas horas para conseguir processar aquilo que li. Entender. Mas quando consegui - quando percebi o que Ted tinha feito com minha irmã - soube exatamente o que tinha que fazer. 

Tirei um print da conversa e fui até a delegacia. Era por volta das três da manhã e ficaram surpresos em me ver, claro - mas ficaram muito interessados em ver o que eu tinha em mãos. 

Começaram a procura por Ted imediatamente. Obviamente, não estava em casa. Já tinha se sumido, junto com sua carteira e documentação. Foram falar com Freida também, que contou toda a história - como estavam planejando para fugir daquele homem abusivo, escondê-la até que conseguisse finalizar o divórcio. Freida queria conversar comigo, mas me recusei. Não tinha nada para falar com ela por não ter revelado isso antes. 

A polícia acha que as chances de o encontrar são grandes - é quase certo que acabe usando seus cartões de crédito no caminho, algo que facilitará encontrá-lo. 

Mas eu, eu prefiro que não o encontrem. 

Porque, se encontrarem, ele estará sob proteção da lei. E eu decidi que a lei não é justa o suficiente, ainda mais nesses casos. Se Ted for declarado culpado - e esse é um grade SE FOR - pode no máximo receber perpétua. E uma vida toda na prisão é boa demais para aquele verme. 

A polícia começou sua procura. Eu comecei a minha. E não vou parar até encontrá-lo e fazer justiça por Annalise, pela minha família. 

Não vou parar até vê-lo sufocando em seu próprio sangue.

FONTE: Sleepyhollow_101

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 


17 comentários:

  1. Belo mindfuck, mas foi uma história meio superficial, daquele tipo que você acaba de ler e fala "Tá, era só isso?".

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    1. É bem assim mesmo, mas o jeito que é escrito prende a atenção

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  2. Daria uma boa série esse conto. Poderia o autor detalhar sobre as lembranças da narradora e a morte da irmã nesse primeiro capítulo para, nos seguintes, começar a contar da busca da narradora pelo cara até chegar no desfecho.

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    1. Exatamente, ficou um conteúdo meio raso, sem se aprofundar muito

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  3. Curti essa creepy.
    O cara leva um certo tempo arrumando todo o cenário, os sentimentos do protagonista ao acessar a conta da irmã e etc. O final é meio abrupto, mesmo, mas é legal de se ler.

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  4. Gostei. Você se prende mesmo sendo uma creepy com narrativas reais, sem nada exagerado.
    Simplesmente alguém de luto fazendo de tudo pra se sentir melhor. :) 10/10

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  5. Sempre arrasando <3 Galera quem acompanha a creepy da coisa embaixo da paulista gostaria de dizer que amanhã as 10:00 vai sair a part 4 :)

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  6. 👌👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏

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  7. 👌👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏

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  8. Diminuiram a letra de novo AAAAAAAAAAAAAAAA pq Deus e Tio Lú pq??

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  9. Poderia ser uma serie original Netflix

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. Eu adorei a creepy, mas bem que eles poderiam ter dado um final mais impactante, mesmo que fosse clichê. Pensei que fosse terminar tipo "eu o encontrei. Fiz minha própria justiça, e neste exato momento estou satisfeito ao vê-lo se afogar em sua própria poça de sangue.

    *barulho de uma câmera fotográfica com flash*"

    Ou algo assim. Mas a Creepy tá 9/10

    Ps:-essa última parte eu teria achado foda, mas seria apenas um extra pra dar aquele climax de filme de terror. Hehe

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