10/06/2017

Meu pai trabalhava como oficial de segurança durante o desastre de Chernobyl

Não vou contar muito sobre o passado porque isso não importa. Basicamente, ele conseguiu o emprego com a ajuda de um ex-colega do colégio que trabalhava em um cargo político. Meu pai não estava com muita sorte na época e Egor o encontrou por um acaso em um boteco local. Eles conversaram, Egor mexeu alguns pauzinhos e conseguiu um emprego para meu pai. Não importava que não fosse qualificado. "Metade dos caras não são," falou.

De qualquer forma, meu pai começou a trabalhar lá em 1984 e fez um bom trabalho. Fazia o que era mandado; na maioria das vezes era checar leituras de discagem e ter certeza que canos estavam selados, entre outras coisas. No final de 1985 e começo de 1986, começou a notar que mais representantes de partidos estavam entrando e saindo da fábrica. Geralmente as visitas eram limitadas para diretores de conformidades quando materiais radioativos chegavam ou saiam. Mas esses não eram especialistas da fábrica. Pareciam ser Politburos. Ele me contou que reconheceu alguns de discursos que vira na televisão, mas não lembrava seus nomes. Só sabia que eram importantes. 

Na noite do desastre, meu pai estava fazendo suas checagens de válvulas e discagens como de costume, quando alguns membros do Politburos, acompanhados de soldados portando AK-47, e desceram pelo corredor para a área do reator. Os soldados vestiam roupas antirradiação. Os membros do partido não. Ele os seguiu com alguns metros de distância e depois subiu em uma passarela mais alta onde poderia observá-los. Estavam agrupados em volta das piscinas de resfriamento. Meu pai fez um esforço para fingir que estava lá em cima checando os redutores de pressão, notando que a pressão ia aumentando enquanto os observa. 

Foi mais ou menos nesse momento que as luzes foram cortadas. Aparentemente isso não era algo incomum na fábrica; o sistema elétrico estava sob manutenção e os eletricistas estavam ocupados com outras tarefas mais críticas. Mesmo com as luzes não funcionando, o efeito Cherenkov lançava sua iluminação azul característica no grupo, iluminando os políticos e os soldados. A água da piscina começou a se mover.

Bem, meu pai não era um engenheiro nuclear. Mas mesmo assim, sabia que, seja lá o que estivesse acontecendo na piscina, não era normal. Ele já tinha estado naquela área milhares de vezes e nunca havia notado movimentações como aquela na água. Estava totalmente turva e parecia estar começando a ferver. Deu uma olhada nos redutores e a temperatura e pressão estava muito acima do que normalmente ficava. Enquanto começava a caminhar rapidamente pela passarela em direção do alarme mais próximo, viu algo que o fez parar.

O que ele me falou não fez muito sentido no começo. Você acha que alguém que está correndo em direção de um alarme de emergência nuclear não pararia por nada nesse mundo. Mas ele parou. E observou. Algo estava flutuando na superfície da água fervente. Descreveu como algo de um vermelho acinzentado escuro, com uma forma quase humana, mais muito maior e terrivelmente deformada. Estava boiando de barriga para baixo. Os membros do partido não reagiram, mas os soldados apontaram suas armas para a coisa até que um dos políticos berrou para que abaixassem as armas. 

Um minuto ou dois depois, a coisa rastejou para fora da piscina e se levantou nas suas duas pernas grossas de frente para o aglomerado de pessoas. O que meu pai falou que mais lembrava da coisa era a cabeça. Ficava em cima de seus ombros tortos e não tinha nem olhos, nariz ou orelhas. Tudo que tinha era um buraco no meio da face. Não era nem uma boca, apenas um buraco. E de dentro, a mesma luz azul brilhante irradiava nos rostos das pessoas que o cercavam. 

Algum outro funcionário da fábrica deve ter notado as anormalidades de pressão e temperatura, pois o alarme começou a soar, assim os geradores de diesel foram forçados a fazer o resfriamento. Mas isso não importava mão o meu pai. Ele disse que a coisa se aproximou de cada um dos soldados e, sem eles nem reagirem, ele pressionou o buraco de seu rosto no topo da cabeça deles e eles começaram a se dissolver. Primeiro seus uniformes começaram a dissolver, depois bolhas começaram a formar na pele e fumaça a sair de seus corpos. A coisa enfiava-os no buraco até alcançar as pernas, essas depois caiam no chão com um som mole e nojento. 

Depois fez a mesma coisa com os membros do Politburos. Todos menos um. Ela estava de pé no meio das pernas e quadris fumegantes e olhava para aquela atrocidade. Então ela gritou com a coisa. Algo que meu pai repete para si mesmo até hoje. “залить соль на почве.” Salgue a terra. Assim que as palavras saíram de sua boca, o contador Geiger que era obrigado a carregar consigo explodiu no mesmo momento que a mulher começou a pegar fogo. Ele pode jurar que ela sorria enquanto queimava. 

Isso foi o suficiente para fazer meu pai sair correndo de lá. Ele sabia que já tinha sido exposto demais a radiação, mas se consolou levemente no fato que os termômetros estavam baixando enquanto saia da área das piscinas. Antes de sair completamente do local, deu uma última olhada por cima do ombro. A coisa começara a se derreter. Assim que seu corpo começou a derramar sob grade metálica, a água abaixo entrou em erupção em uma massa de vapor superaquecido. Meu pai evitou ser escaldado até a morte por cerca de meio segundo quando virou a esquina e bateu a porta atrás dele.

O resto do desastre foi mais ou menos como relatado pela mídia. Papai conseguiu sair antes da explosão principal. Ele viveu com a profunda culpa de correr por seus colegas que ainda não sabiam que algo realmente catastrófico estava prestes a acontecer sem avisá-los. Ele acredita que seu câncer de tireoide foi um retorno do universo por não ter avisado os amigos. 

A foto icônica do "pé de elefante" radioativo no porão da usina está emoldurada e de pé na sua cômoda, e ficará por lá pelo resto de sua vida. Enquanto me contava essa história, confessou manteve o retrato ali para lembrá-lo das implicações das palavras do político antes que ela fosse devorada por chamas. "Essa coisa tornará a área em torno dela inabitável por mais de cem anos", suspirou. "E está se derretendo pelo chão até hoje. Se ele atingir as águas subterrâneas, vai explodir como uma bomba e fazer o desastre de 86 parecer um estalinho. Rússia, Europa, África do Norte. Todos contaminados com a radiação".


Ele morreu alguns dias depois de compartilhar sua história comigo. Eu simplesmente não sei o que fazer com toda essa informação. Obviamente, ele pode ter inventado tudo isso. Mas acho que ele não tinha motivos para isso. Não tem nada a ganhar agora que está morto. Talvez alguns dos outros sobreviventes ou seus filhos possam contribuir com partes sobre o que me contou, talvez não. De qualquer forma, se é verdade, existe muito mais por trás desse desastre do que nós sabemos. Mesmo agora, como aquela massa radioativa derretendo no chão, a história do meu pai quase faz parecer que o desastre foi apenas um precursor de algo muito pior. Algo premeditado. Por favor, se alguém souber de algo, fale. Não quero que o que ele me disse seja verdade, mas "залить соль на почве" me aterroriza mais do que posso suportar.



12 comentários:

  1. "Assim que as palavras saíram de sua boca, o contador Geiger que era obrigado a carregar consigo explodiu no mesmo momento que a mulher começou a pegar fogo. Ele pode jurar que ela sorria enquanto queimava. "

    Eoq ;-;

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    1. Eu acho que ele queria dizer que nesse momento ai ele estava ficando meio desnorteado depois de ver tudo isso

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  2. Gostei da concordância verbal, kkkk. Po, se esforçar ai...

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  3. Tá ótimo
    Galera parece professor de português e roteirista profissional... Sejam mais legais people

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    1. A parte que o Brother citou acima, não dá pra saber o que diabos aconteceu, claro, é implicância sim...

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    2. O português não está tão avançado, pontua demais

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  4. eu ficaria muito grato se pudessem manter o tamanho da letra padrão, toda hr que venho ler tenho que dar uns ctrl+ ou ctrl- para ajustar

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  5. Cara, perfeito!!!!!!!!! Você tem rede social? preciso te conhecer pra trocar umas ideias!

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