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A regra da cidade

Meu avô me contou uma história que seu pai tinha contado para ele. Quando menino morava em uma cidade litorânea. Não me falou onde ficava ou qual cidade era, mas imagino que fosse uma típica cidade pequena com casas pitorescas e ruas de paralelepípedo. 
Os moradores locais tinham uma regra que impunham em si mesmo, nos visitantes (apesar de que não se tratava de um vilarejo turístico; não havia muitas pessoas que ficavam lá até depois do pôr-do-sol) e novos moradores. Você não podia falar fora de casa depois do anoitecer. Para ser mais especifico, nenhum tipo de vocalização. Nenhum. Nem um sussurro se quer. A maioria nem se quer se atrevia a sair de casa depois do sol sumir do céu.
E toda noite as pessoas checavam diversas vezes suas portas e janelas para ter certeza de que estavam bem trancadas. Se tivesse uma vidraça quebrada, teria que cobri-la com tapumes de madeira; Se havia um buraco na parede, qualquer abertura entre o lado de fora e o de dentro, tinha que ser bloqueado. 
Meu bisavô não questionava isso quando menino. É. Acho que se você vive com uma regra desde seu nascimento, você não a questiona - mas toda criança passa por aquela idade onde começa a notar coisas. Entretanto, fico pensando - teria ele algum dia descoberto a verdade se o incidente com os visitantes não tivesse acontecido? Bem. Uma vez, quando meu bisavô tinha mais ou menos uns dez anos, alguns viajantes ficaram vagando por lá mais do que o de costume. 
Se as pessoas não iam embora antes do escurecer, eram expulsos. Às vezes, educadamente no começo, outras de formas mais violentas. Mas essas caras, cinco garotos, eram jovens e tempestuosos, e não gostavam de serem incomodados. 
O pôr-do-sol se aproximava e crianças locais começaram a jogar pedras neles; cegamente na defensiva da pratica de sua cidade natal. Eventualmente o xerife falou para eles que tinham que ir embora. 
Meu biso se lembra da gritaria. Talvez tivessem tomado alguns drinques antes, ou muito mais que "alguns", mas queriam saber especificamente o motivo para não serem bem vindos, se tinham algum problema com eles, quem esses caipiras pensavam que eram, e assim por diante. Eventualmente, a "polícia" local teve que arrastá-los até a divisa da cidade. 
E foi perto da casa do meu bisavô, no final da rua de paralelepípedos, de onde ele e sua irmãzinha assistiram pela janela.
Ele ouviu-os gritando algo, e em um momento de pura estupidez da sua parte, palavras dele e não minhas, tentou abrir uma fresta da janela para poder escutá-los melhor. Ele nunca havia ouvido tais tons, por conta de como a cidade racionava suas palavras. 
Por sorte, sua mãe o parou e tirou-os de perto da janela. 
Naquela noite, meu biso se levantou várias vezes para espirar através das cortinas. Sua irmã, mãe, pai e tio estavam dormindo pesadamente nesses momentos. Contou para meu avô que uma estranha animação, misturada com pavor, tomou conta dele naquela noite. Acho que deve ser como ficar conferindo seu celular enquanto espera uma mensagem específica, mas com muito mais medo envolvido. Então, no começo da manhã, mas antes do sol nascer, ele viu os cinco homens vagando pelas ruas. 
Estavam gritando uns com os outros, talvez ainda meio bêbados ou só agindo como os arruaceiros que eram. Meu bisavô observou e esperou. Espero que algum tipo de bicho-papão chegasse e arrastasse-os para longe.
Mal ele sabia que o que cada aldeão temia já havia de fato acontecido. Já haviam desaparecido. 
Eventualmente, desapontado, finalmente foi se deitar e dormir pelo resto do que sobrava da noite. Até que um som de batida alto o acordou no começo da manhã. 
Seu tio foi até a porta antes dele. Ali, nos degraus, estava um dos caras da noite anterior, o branco de seus olhos era vermelho, seu rosto em uma expressão de puro pavor enquanto suor pingava de sua testa. Seu tio escancarou a porta e os outros estavam visíveis, tremendo a alguns metros dali na rua. 
Meu bisavô não percebeu até mais tarde que talvez um deles estivesse morto. Lembrava-se da cabeça deste pendendo para o lado enquanto deitado no chão. Uma expressão vazia em seu rosto. Não havia sangue. Não havia machucados. Só palidez. Poderia se passar apenas por um bêbado desacordado. Lembrava-se de como os braços do homem estavam apertados contra o peito, como se estivesse com frio; mesmo que aquela noite tivesse sido bem amena. 
Esse foi o dia em que sua família arrumou suas coisas e foram embora da cidade - enquanto isso o xerife lidava com a figura imóvel no chão da rua, enquanto cercado pelos amigos trêmulos. Levaram poucas coisas; os cinco familiares simplesmente pegaram o essencial e foram o mais longe que podiam. Foi tão rápido que ele nem teve como protestar. Só se lembra de ficar perguntando "Por quê?" repetidamente. 
Só quando já haviam se instalado em sua nova cidade, a uma boa distância de lá, que os adultos finalmente explicaram tudo. 
Não podíamos ir embora sem que alguém tomasse nosso lugar, disseram. Podia perceber pela expressão no rosto dos pais que estes estavam enjoados pela culpa. Mas não podiam deixar escapar aquela chance de fugir. 
Apenas o tio manteve-se firme ao contar a história. Ele não amenizou ou fatos para ele e sua irmã, e os pais não podiam detê-lo dessa vez. Disse, novamente, que ninguém podia sair da cidade sem que outros ficassem em seu lugar. Sempre devia haver o mesmo número de moradores.
Cortou as perguntas da minha tia-bisavó e explicou que aqueles jovens teriam que viver lá agora. E era culpa deles, por não terem seguido os conselhos dos locais. Finalmente, meu bisavô atingiu seu limite de paciência e perguntou o motivo de que ninguém podia falar depois do anoitecer. 
Com uma expressão vazia e fria em seu rosto, o tio falou,
"Existem coisas que acordam durante a noite, que roubam a voz das pessoas. Fazem sem você notar, fazem isso sem serem vistos. Você nem percebe que aconteceu até mais tarde. Pode demorar uma hora. Um dia, ou até uma semana. Eles esperam para usá-la."
"O que acontece?"
"Eles usam sua voz para enganar aqueles que você ama. Podem fingir que são você. Podem usar para entrar em sua casa. Há um para cada pessoa da cidade, e se alguém sai sem um substituto, são seguidos para a outra cidade. Se espalham como pólen. Podem ser qualquer um. O que fizemos é contra as regras. Mas tínhamos que arriscar." 
"Eles mataram aquele homem?"
"Fizeram pior que matar."
Meu bisavô não contou para ninguém onde ficava essa cidade. Às vezes meu avô duvida que de fato existisse. Mas algo o preocupava. 
Havia cinco membros da família; pai, mãe, irmão, irmã e tio. 
Cinco homens ficaram na cidade. 
Mas um deles talvez estivesse morto. 
Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!