09/07/2017

Devolver ao Remetente

Meu vizinho é um daqueles YouTubers famosinhos irritantes. Ao longo dos anos, eu o vi se engasgar com canela, ficar deitado imóvel de barriga para baixo no capô do carro enquanto escorregava lentamente para o chão e jogar água sobre a própria cabeça enquanto gritava bordões irritantes que vocês devem conhecer bem. Acredite, pode ser bastante cansativo observá-lo fazendo todas aquelas loucuras na procura da fama viral. Então, quando bateu na minha há porta alguns dias dizendo que iria viajar por algumas semanas e pedindo que eu só recebesse suas encomendas do correio, honestamente, fiquei aliviado. Mal posso explicar a paz de espírito em que fiquei ao saber que ficaria afastado de toda aquela estupidez por um tempo. Sempre tive medo de que suas loucuras acabassem afetando minha vida. 

Tudo ficou bem normal nos primeiros dias. Ele recebeu algumas contas, um pouco de lixo-postal e o que eu presumi ser um cartão de aniversário. Então, em uma noite, cheguei em casa e encontrei uma caixa de papelão esperando na frente da porta dele. Em letras vermelhas grandes foi escrito "Devolver ao Remetente".

Não sou fraco, mas admito que tive dificuldade para levantar a caixa sozinho. Estava muito pesada. Arrastá-la pela rua até minha casa foi mais difícil ainda, e logo percebi que não havia nenhuma maneira de empurrá-la escada acima e de passá-la pela porta. Decidi que a deixaria na minha garagem. Eu nem sequer deixava meu carro lá. A porta da garagem era uma merda que recusava a se abrir sem alguns chutes e porradas. Era menos problemático deixar o carro na entrada de carros do que ter que lutar com aquela porta todo dia e toda noite. Em retrospectiva, eu deveria ter deixado o pacote no chão enquanto lutava para abrir a porta, mas você sabe como é quando está com pressa e só quer terminar com aquilo de uma vez. 

Eu estava chutando a porta pela terceira vez quando minha mão escorregou. A caixa caiu e eu ouvi um som baixo de algo quebrando. 

"Merda," xinguei. 

Esperava não ter quebrado nada importante, mas decidi que não falaria nada sobre aquela queda para ele e até comentaria que aquilo poderia ter acontecido durante o transporte. 

Com as mãos livres, finalmente consegui abrir aquela bosta, e cara, rangeu de um jeito que parecia um choro de protesto, maldita porta. Arrastei a caixa pelo resto do caminho, colocando-a em um canto até que meu vizinho voltasse para pegá-la. E então, deixei para lá. Até que uns dias se passaram. 

Eu não tenho certeza exatamente quanto tempo demorou para que o cheiro entrasse pela fresta da porta da garagem que dava para dentro da casa, mas foi bem lentamente. Era um cheiro doce e enjoativo parecido com o de um gambá, e alguns dias depois de sentir pela primeira vez, sabia exatamente do que se tratava: alguém tinha atropelado um bicho na rua e o cheiro invadira minha casa. Foi só quando percebi que o cheiro só ficava pior ao invés de diminuir que decidi investigar sua fonte. 

Foi aí que eu abri a porta da garagem, e quando o odor me atingiu, eu caí para trás, com as mãos tampando o nariz. 

A razão não era difícil de identificar. A única mudança na minha garagem tinha sido a caixa gigante no cantinho. Lembro de pensar que devia ser aquelas encomendas de empresas que vendem carne por assinatura. As peças de carne deviam ter ficado rançosas por ficarem sem refrigeração tanto tempo. Mas quantos quilos de carne deviam ter para aquele pacote ser tão pesado? Uma vaca inteira? 

Cobri meu nariz quando me aproximava da fonte do problema, com uma tesoura nas mãos. Na realidade, eu nem precisaria disso para abri-la, já que tinha ficado encharcada no fundo, tanto que dava para atravessar com o dedo, mas não estava afim de enfiar meu dedo em uma carne vencida e podre. A caixa estar com o fundo detonado foi a razão de eu ter que abri-la, em primeiro lugar. Se tentasse arrastá-la para fora da garagem, espalharia tudo pelo chão. Seria melhor eu tirar os pedaços de carne um por um e colocá-los em um saco de lixo, mas pode ter certeza que não era uma tarefa que estava ansioso para realizar. 

Minha tesoura cortou a fita da parte superior da enorme caixa de papelão. Achei que o cheiro não pudesse ficar pior, mas quando abri as abas, descobri uma nova gama de fedores. Era como abrir um forno em chamas, mas em vez de uma onda de calor, o que encontrei foi uma onda de fedor de mijo, merda, suor e putrefação. Era tão ruim que eu cambaleei para trás e fui obrigado a vomitar o que já estava na minha garganta. Se não tivesse, acho que não conseguiria ter lidado com o cheiro terrível e os horrores que encontraria naquela caixa. Não tenho vergonha de dizer que corri para rua para respirar ar puro, mas o pouco tempo que fiquei na garagem, o cheiro havia se impregnado na minha roupa como uma sombra que nunca nos deixa de lado. 

Tentei várias coisas, mas nada fazia o cheiro sair de minhas narinas. Purificadores de ar, máscaras faciais, nada. Nem três banhos e trocar de roupas. Cada segundo que aquela caixa continuava aberta na minha garagem era um segundo a mais em que o cheiro ficaria na minha casa. Eu precisava dar um jeito.

Voltei para a garagem e as abas da caixa ainda estavam abertas como se me convidassem para olhar. Eu estava preparado. Roupas em volta do rosto para tapar minhas narinas, um saco de lixo em uma mão, o alvejante mais forte que eu consegui encontrar na outra, e luvas de borracha para evitar que minha pele entrasse em contato com o que estava lá dentro. Mas, na verdade, não precisei de nada disso.

Eu não tive que tocar nem limpar o conteúdo dessa caixa, eu só teria mesmo que sofrer com terríveis pesadelos pelo resto da minha vida. Veja bem, realmente havia carne nessa caixa, mas não era de gado, porco ou frango. Não, era bem pior que isso. Era meu vizinho. Morto. Uma grande peça de carne, mas morto. 

Liguei para a polícia e, naturalmente, me levaram para um interrogatório. Afinal, é meio difícil não suspeitar do homem que acabou com um cadáver em sua garagem. Felizmente, logo perceberam que eu não tinha nada a ver com aquilo. O meu DNA estava por toda a caixa. O cheiro tinha deixado marcas na minha casa, mas havia uma peça de evidência irrefutável nas mãos do meu vizinho que provou minha inocência: uma câmera cheia de gravações para o seu vlog.

Me mostraram as gravações apenas uma vez. Não tenho certeza se tinham autorização para isso, ou se sentiram tão mal por mim que acharam que aquilo não faria mal. De qualquer forma, eu assisti.

Meu vizinho estava sentado dentro da caixa, do lado de fora de uma empresa de transportes, rindo, enquanto dizia ao mundo como iria enviar a si mesmo, dentro de uma caixa, para o outro lado do país. Ele trouxe garrafas para fazer xixi, comida, um travesseiro e algumas lanternas. Seu amigo - um cara que eu já tinha visto o ajudar com outros desafios - fechou a tampa e, presumivelmente, o levou para o envio. Ao longo das próximas horas, ou dias (sinceramente, não tenho certeza), meu vizinho gravou alguns pequenos clipes sobre seu progresso. "Acho que estou no caminhão agora, posso sentir ele se movimentando", "Devo estar agora em um depósito. É bem quente aqui. Ainda tenho bastante comida!", esse tipo de coisas. E então, na última gravação, a caixa caiu. Ele quebrou o pescoço, e foi isso. A câmera gravou até que o cartão de memória estivesse cheio ou até a bateria morrer.

Mas tem uma coisa que não falei para a polícia depois que vi as gravações. Uma coisa que eu ouvi na filmagem, que irá me assombrar até o dia em que eu morrer. Pouco depois da queda que quebrou seu pescoço, ouvi o som estridente da porta da minha garagem se abrindo.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 


34 comentários:

  1. já foi meio que entregando o desfecho ao longo da história, mas foi boa... :D

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    1. Tbm achei, se n fosse isso teria o final mais surpreendente

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  2. meio clichê, mas o final surpreendeu.

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  3. Obrigada pela Creepy ;) Muito boa ;)

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  4. não entendi, que que a porta da garagem tem demais?

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    1. Ele derrubou sem querer, o barulho de algo sendo quebrado era o pedcoço do cara

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    2. Na verdade, o que o barulho quis dizer é que o momento que o cara morreu foi quando ele derrubou. No começo da creepy, ele derruba a caixa quando tenta abrir o portão barulhento.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Caralho! Lógico que dava pra sacar o que tinha dentro da caixa, mas o final me surpreendeu kk

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  7. otima creepy , o final me surpreendeu muito

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  8. Nossa, primeira creepy em MESES que a ultima frase me deixa de queixo caído.
    Sensacional, 10/10. Divina sempre arrasa <3

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    1. Concordo 100% com seu comentário. Senti o msm, creepy foda.

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  9. não tinha entendido que o cara matou ele, aí quando entendi a creepy ficou mais legal ainda

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  10. Eu nao consegui prever o que tinha na caixa logo de inicio nao mas achei bem legal essa creepy 10/20

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  11. adorei, adoro a logica, e ótima obrigada Divina ;D

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  12. nossa, já tinha presumido q era o cara dentro da caixa, mas esse final??? apenas muito bom!

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  13. Eu já tava pensando "ah uma caixa e blá blá blá, com certeza é o cara morto lá dentro" mas realmente esse fim me surpreendeu muuuito

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  14. Nn entendi o finaal me expliquemmm

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  15. Nn entendi o finaal me expliquemmm

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    1. No começo da Creepy, quando ele deixa a caixa cair no chão, e até diz "merda", ele diz que ouve algo quebrando quando a caixa atinge o chão, oque quebrou foi o pescoço do cara, ele matou o vizinho mano. Logo depois dele deixar a caixa cair, ele abre a porta da garagem, oque coincide com o final do vídeo

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  16. Pior é que teve mesmo um cara que se enviou pelo correio dentro de uma caixa, ele é brasileiro e é youtuber. É incrível como as pessoas fazem coisas ridículas e perigosas só por um pouco de atenção, doentio. Adorei a creepy.

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  17. Ótima creepy, realmente o final foi uma surpresa pra mim .

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  18. Sério só fiz ler o começo e já sabia que o vizinho já tava morto poh a carne fedorenta o cheiro imsuportavelá
    👉👌 e de encher o saco isso

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