06/11/2017

Chocolate é combustível para pesadelos (parte 2/2)



Quando o relógio marcou 22h:00min, Faye dormiu imediatamente, mas eu nem senti sono. Fiquei acordado escrevendo, dessa vez no sofá, para não provocar nenhum sonho em Faye. Qualquer barulho feito enquanto ela dormia podia despertar um terror noturno. A chuva caindo contra a janela podia se tornar uma criatura batendo na janela. Um filme no meu computador podia manifestar pessoas no quarto. Tinha que me tornar um ninja sempre que ela ia pra cama.
Fiquei sentado no sofá, embrulhado por um cobertor, bebericando chá de mel e revisando o rascunho de uma estória. O pequeno abajur do meu lado iluminava apenas o suficiente para que sombras misteriosas se espalhassem pela casa. Por volta da meia-noite, ouvi barulho vindo do segundo andar. Pareciam passos abafados. Alguém estava andando pelo longo tapete do corredor. Subi silenciosamente até lá, na intenção de parar o sonambulismo de Faye. Mas, quando alcancei o topo das escadas, não havia ninguém. A porta do nosso quarto estava fechada. Arrepiado, abri uma fresta e espiei.
A cama estava vazia. "Faye?", chamei, acendendo a luz. Ela estava parada na porta do banheiro, segurando acima da cabeça um dos porta-retratos que ficam pendurados na parede. Outro deles estava no chão. “Tem janelas por trás deles”, ela disse, sua voz tremendo de medo. “Foi assim que ele entrou”. Me apressei, preocupado que a moldura caísse em sua cabeça e quebrasse. Gentilmente a afastei dela, então a levei para cama e a enfiei nos lençóis. “Não tem ninguém aqui, amor”, falei, acariciando suas costas numa tentativa falha de colocá-la para dormir. “Só eu”.
As luzes estavam apagadas no andar de baixo, inclusive o abajur. Só meu notebook brilhava em cima do sofá.
“Não está aqui”, respondeu, com metade do rosto afundado no travesseiro. “Ele desceu as escadas”. Assim que ela terminou sua sentença, ouvi uma pancada dentro da casa, como se alguém tivesse batido numa parede por conta do escuro. Olhei para a porta por cima do meu ombro — estava fechada. Pensei que deixara aberta quando entrei. Saí do quarto para o corredor, onde liguei a luz e fiquei no topo das escadas, ouvindo. Chuva castigava a casa, e nada mais fez barulho. Talvez um galho caíra sobre o telhado da casa?, pensei. Afinal, a tempestade estava piorando.
Dormi rápido, mas tive pesadelos. O mesmo, se repetindo. Havia um homem na nossa casa, parado no pé da escada,, embrulhado pelas sombras. Não parecia uma pessoa, e sim a casca de uma. Uma coisa imitando um ser humano. Ele era, sem dúvida, a consequência por ter dado ouvidos à conversa da Faye sonâmbula nos últimos dias, mas me assustou pra caralho e me manteve acordando durante a noite toda.
“Tem alguém aí?”, chamei, tentando manter minha voz calma. Houve apenas chuva como resposta. Caminhei por todo o primeiro andar, acendendo todas as luzes e olhando ao meu redor. Quando adentrei a cozinha, vi uma garrafa térmica vazia com marcas de chocolate. Era o shake de proteínas de Faye. “Pelo amor de deus”, resmunguei. Apaguei as luzes, peguei meu notebook e subi para a cama. Me senti um idiota por entrar nas fantasias dela.
“Sinto muito por tudo isso”, falou, beijando minha testa. “Não sei porquê sou assim. Você deveria arrumar uma namorada menos bizarra”, ela sorriu, seguida de mim.
Eu estava cansado pra porra na manhã seguinte. Liguei para o trabalho, avisando que estava doente, e mais uma vez fiquei na cama, continuamente vendo a figura nos meus sonhos. Faye veio me ver duas vezes antes de sair, e avisou que voltaria mais cedo pra me fazer sopa e queijo grelhado — meu “prato de hospital” preferido. Secretamente, queria que ela ficasse enrolada no trabalho. Eu só queria passar a noite, de alguma forma, longe dela. Naquela noite, Faye foi boa o suficiente e se ofereceu para dormir no sofá. Eu relutantemente aceitei, sabendo que estaria fodido se faltasse outro dia de trabalho. Nós levamos cobertores extras e a arrumamos no sofá, e então ela subiu para me dar boa noite. “Não é tão ruim”, respondi, apontando para o quadro com a capa do meu primeiro livro, “Você é uma ótima inspiração”.
No segundo em que olhei para baixo, meu coração falhou uma batida. Medo passou por todos os nervos do meu corpo. Ele estava ali, na beira da minha cama, segurando meus pés com força por cima do cobertor. Gritei em terror e trouxe minhas pernas junto ao meu corpo, me cobrindo numa bolinha de cobertor. “Quem é você?”, gritei. Me estendi para alcançar o interruptor atrás de mim. A luz inundou o quarto, revelando Faye, parada ali com o olhos fechados. Ela estava sonambulando.
“Tá bom, amor”. Ela deixou o quarto, fechando a porta atrás de si. A chuva batia ritmicamente contra a janela, me induzindo a dormir. Eu não havia descansado durante toda uma semana. Me levou apenas alguns minutos para apagar. O homem das sombras apareceu de novo em meus sonhos. Dessa vez, ele ficou parado no topo das escadas, olhando para a porta do nosso quarto. Ele chamou pelo meu nome. Acordei num sobressalto, abrindo meus olhos para encontrar o brilho fraca da lua. As gotas de chuva escorrendo pela janela lançavam suas silhuetas sobre a cama, lhe dando um padrão engraçado. Respirei fundo, tentando me acalmar. “Faye!” berrei. “Você me assustou pra car—“ Me silenciou com seu dedo, o colocando sobre o próprio lábio. Quando o fez, o inconfundível som de alguém se movendo no andar de baixo encontrou meus ouvidos. A porta do quarto estava aberta, e eu podia ouvir claramente: um longo som de atrito, como uma mão se guiando pela parede. Uma batida. Uma cadeira deslizando pelo chão de madeira.
O som de ossos batendo debaixo de pele ecoou pela sala de jantar. Veio do corredor que levava ao porão. A imagem de um homem rodando pela minha casa, estralando seus dedos e pescoço, apareceu em minha cabeça. Talvez ele fosse algum drogado procurando por drogas. Peguei a velha lanterna da cozinha, então me dirigi ao porão.
“Ele está aqui”, Faye sussurrou, desenhando um círculo na cama com as unhas repetidamente. Saí da cama e me aproximei dela, tentando ouvir mais. Uma porta foi escancarada. Outra batida. Devagar, passos incertos no carpete. “Quem é ele, Faye?” sussurrei. Ela não respondeu. “Faye... onde ele está?” Ela virou sua cabeça suavemente. Só a parte branca de seus olhos apareciam. Ela lentamente apontou para baixo. “Porão”. Deixei o quarto e desci as escadas na minha boxer, pronto para espancar qualquer um que estivesse dentro da minha casa. No meio da descida, algo chamou minha atenção. Alguém estava sentado na mesa. No escuro. Terror fez com que minhas mãos tremessem enquanto eu procurava acender a luz na base das escadas. O lustre se iluminou acima da mesa, revelando quatro cadeiras vazias — uma levemente fora do lugar. “Quem está aqui?”, gritei. A porta estava pouco aberta. Nós sempre a mantemos fechada para bloquear as rajadas de vento que podem vir de lá. Coloquei a cabeça para dentro e tomei coragem para descer as escadas.
Uma caixa caiu no chão. Apontei a lanterna para a fonte do som, e lá estava ele. Um homem, com o rosto virado para o lado, apressado e deslizando as mãos pela parede de concreto. Ele estava sentindo por onde andar. Quanto a luz passou por ele, o temor dos meus pesadelos se manifestou. Eu estava convencido de que aquilo não era uma pessoa. Sua pele era cinza e pálida, seus ossos apontavam como se estivessem tentando escapar. Ele parecia um esqueleto enrolado em presunto estragado. Grandes feridas inflamadas cobriam suas costas e braços. Ele estava nu.
Lá, na base, havia um rosto, olhando para mim. Estava tão murcho na escuridão que parecia não ter um corpo. Não conseguia ver nenhuma de suas características, apenas o contorno — mas parecia estar olhando para mim. Eu tremi tão violentamente que as pilhas da lanterna batendo uma contra a outra foram audíveis. Sem tirar meus olhos daquele rosto, me inclinei e tentei ligar a luz, mas ela não estava funcionando. O ar do porão ficou ainda mais frio. O rosto se misturou ao escuro, e de novo, ouvi o som de ossos estralando ao meu redor. Liguei a lanterna e a direcionei ao fim dos degraus de madeira. Sua luz patética mal alcançava o chão, provavelmente estava com as mesmas pilhas há décadas. O fino círculo de luz iluminou apenas algumas caixas e um aspirador quebrado. Lentamente desci as escadas. Ela rangia debaixo dos meus pés, fazendo parte da sinfonia de barulhos perturbantes do escuro. Alcancei o cimento frio e rondei pelos cantos, seguindo a parede com minha lanterna. “Quem...” as palavaras escorregaram pela minha garganta e gotejaram pelos meus lábios, “quem é você? O que você quer?” O homem virou sua orelha para mim, ouvindo minha voz. “Estou perdido”, ele choramingou. Sua voz era extremamente áspera. Não havia uma gota de saliva em sua boca. “Me ajude”. Ele girou sua cabeça careca em minha direção. A pele de seu rosto era esticada e seca, delineando um par de pontudas maçãs faciais. Onde deveriam estar seus olhos, haviam buracos negros.
“O que?”, perguntou com uma voz sonolenta.
Um grito frenético passou pela minha boca. Cambaleei para trás, caindo numa pilha de caixas, e derrubei a lanterna. Ela rolou para longe. O lugar virou um breu. “Estou no escuro”, ele disse, rastejando em minha direção. Eu podia ouví-lo trombando com as coisas. “Estou perdido!”, ele chorou, o ódio aumentando em sua voz. “Devolva!” “Nos deixe em paz!” gritei de volta. Tentei desesperadamente me levantar das caixas, mas o homem caiu em cima de mim e agarrou minha garganta com mãos mais geladas que as de um morto. Seu rosto foi pressionado contra o meu, e seus lábios rachados roçaram na minha orelha. “Devolva”, ele sussurrou. Num ataque de pânico induzido, eu o joguei para longe de mim e engatinhei pelas escadas. Quando alcancei o topo, tentei o interruptor novamente, e luz cegante se espalhou pelo porão. Esperei ali, ouvindo, mas não houve sons de movimentos. Contra todos meus instintos, desci alguns degraus e olhei pelo local. O homem sumira. Corri para fora do porão e fechei a porta. O horror me compelia no meu caminho para o quarto; todas as sombras da casa pareciam estar vivas. O homem poderia estar em qualquer uma delas, esperando para sair e me empurrar. A luz estava apagada no quarto, e quando abri a porta, fiquei chocado ao encontrar Faye dormindo. A tempestade havia acabado, deixando a casa silenciosa. Sua respiração era leve e devagar. “Faye”, falei, sentando na cama e a chacoalhando. “Hm”, murmurou. “Faye”, repeti, “quem é o homem?” “O homem na nossa casa”.
“Os olhos.”
“Mm”, respondeu, o olhos ainda fechados. “Ele assiste... você dormir. Fica bem ali... toda noite.” Apontou um ponto próxima a cama preguiçosamente. “Então eu peguei. Não gosto quando... ele assiste.” “Pegou o que, Faye? O que você pegou?” Ela bocejou e rolou na cama.





Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!
nene


16 comentários:

  1. Eu li de noite
    Alguém me ajuda
    O quarto tá escuro

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    1. comecei a ler de madrugada também até pegar no sono. dá um terror bem top

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  2. Ela sabe q vai morrer se n devolver mas continua com eles. Qual a lógica?

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    1. ela n irá morrer, só irá ser mt perturbada

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. creio que ela tenha pego os olhos da criatura, pois o marido nunca via ou ouvia nada, derepente, ele ouve "como se alguem estivesse tentando se guiar na escuridão", batendo as mão contra a parede, derrubando coisas e a esposa conssegue dormir tranquila, enquanto tudo acontecia, pois oque a incomodava era o fato da vriatura ficar osbservano ela e o esposo, como ela pegou os olhos dele, ele não a incomodava mais, eu acho

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