01/11/2017

Experimento do Sono de Arkansas

Para aqueles que dormem

Isso aconteceu alguns anos atrás. Você pode ter ouvido alguns rumores se estuda na faculdade. Talvez pela internet. Ninguém sabia o que realmente havia acontecido. Porque eu sou o único que sabe e mantenho em sigilo. Por diversas razões. Nenhuma delas importa agora. Foi isso aqui que realmente aconteceu. 

Nós quatro fomos escolhidos a dedo para esse experimento do Prof. Richardson, porque todos já havíamos estudado com ele, trabalhado com ele, e tanto quanto é possível, éramos de sua confiança. 

Falou que esse seria diferente. Tínhamos que manter tudo em sigilo. Queria que mantivéssemos os detalhes só entre nós. Tudo que nos falou antes de começarmos foi que isso requiriria meses de nossas vidas e que, se fosse bem sucedido, dormir não seria mais uma necessidade. 

"Pensem só," falou, "de seis a oito horas adicionais todos os dias. Valeria muito a pena." 

Se estivesse certo, ganharia um prêmio Nobel com toda certeza. Mudaria o mundo. Demos nosso voto de confiança. Dormir seria um hobby. Imagine só. Nos sentimos sortudos de fazer parte daquilo. Fomos com as melhores das expectativas. Estávamos tão animados por um novo futuro para a humanidade e para nós mesmos. Eu fui o único a sair de lá. 

SEMANA 1

Prof. Richardson nos levou até o local em sua van, explicando no caminho o que estávamos prestes a fazer. Para o propósito do estudo, fomos pedidos que ficássemos dentro do 'composto', como ele chamava. Seriamos trancados, na verdade, e não teríamos aceso a janelas ou wi-fi. Além de sermos pacientes, não nos era exigido que fizéssemos muito. 

"Minha máquina faz todo o trabalho," explicou. "Ela usa uma mistura complexa de ondas sonoras para interromper os processos do sono, apêndices evolutivos de épocas antes da civilização como conhecemos. O primeiro efeito colateral que vocês notarão é que não terão mais sonhos."

Quaisquer outros efeitos era para ser catalogado. Nós éramos, como disse, "em um território desconhecido" então tínhamos que "mapear os perigos". 

A imensidade do projeto já era suficientemente inspiradora. Então vimos o composto. O Octágono, como é conhecido. Uma estrutura octogonal de concreto construindo no final de um labirinto de estradas de terra em algum lugar de Searcy, Arkansas. Nunca mais consegui encontrá-lo de novo. O professor disse que originalmente era designado como uma prisão para  terroristas, mas foi abandonado e nunca usado. É virtualmente impenetrável, invisível para satélites, mas tinha sido estocado com todo o conforto que precisávamos para o nosso mês de experimento. 

Na minha opinião, nenhum de nós achava que iria conseguir superar o sono. Achamos que, talvez, uma redução dessa necessidade poderia ser atingida. Boa parte dos dois primeiros dias ficamos especulando como a máquina funcionava com sua "mistura complexa de ondas sonoras" e se o sono realmente era um apendice evolucionário, como o Professor alegara. 

No terceiro dia, depois de ter tido apenas três ou quatro horas de sono, ao invés de nos sentir cansados e grogues, estávamos com mais energia do que nunca. Estávamos alerta e prontos para discutir essas ideias. Foi aí que realmente ficamos animados. 

"Ele realmente conseguiu," JT falou. JT era um cara enorme de barba ruiva, o tipo de cara que ainda tem uma grande coleção de cartas de Magic. 

"Não sabemos ainda," James falou, o cético. Na verdade, ele viera da Austrália só para estudar com Richarson. "A máquina pode estar estimulando as glândulas adrenais para dosar moderadamente doses de adrenalina durante o passar do dia".

"Mesmo que fosse, não mudaria o fato que ele venceu o sono," falei. 

Com nosso tempo de sobra, estávamos lendo por várias horas, jogando Call of Duty massivamente e ainda tínhamos tempo para ficar debatendo. 

"Acho que terei que admitir que isso é foda pra caralho," James falou. 

Todos sentimos. Era quase eufórico aquela excitação que sentíamos pela possibilidade de sermos os primeiros humanos a viver sem dormir. Tecnicamente, ainda precisávamos de algumas horas cada noite, mas decidimos que aquilo era mais por hábito do que por necessidade. 

Então, no quarto dia, Don falou. "Tem algo errado". Don era o cara sério. Super sério. Costumava ser um Franciscano, ouvi dizer. Parecia mesmo. Ele não falava muito e, quando falava, pode ter certeza que era algo que valeria a pena ser ouvida. Nesse momento ele colocou em palavras algo que eu estava sentido, mas que estava enterrado por debaixo de toda a minha animação. 

"Com o experimento ou...?" JT perguntou. 

"Eu não sei," Continuou James, "Deve ser isso: esse lugar. Todos sentimos que era estranho desde o momento que vimos. Esse octágono de concreto. Mas viver nele - sinto que tem algo errado com esse lugar. Como se algo terrível tivesse acontecido aqui." 

"Pelo que entendi, nunca tinha sido usado," falei. 

"O governo sempre diz isso sobre prisões de tortura," James falou. 

"É mais que isso," JT comentou. "Eu também sinto. Achei que era por causa da falta de janelas, no começo. Mas não é isso. São os ângulos. Os ângulos desse prédio não conferem com o que devia ser." 

"E se todos lá fora estiverem mortos?" Don perguntou. 

James pulou de cadeira. "Para com essa merda, Don! Por que diabos você falaria um negócio desses?" 

"Bem, o que você está querendo dizer?" Perguntei. "Que isso aqui é um octágono assombrado?" 

"É, James," JT olhou para ele, "foi construído em cima de solo sagrado indígena?" 

"Tá bom, tá bom. Vocês querem brincar?" Ele falou. "Eu posso brincar. O espaço em nossa a volta se transforma conforme nossa percepção sobre ele. Por exemplo, uma igreja. As pessoas que vão em uma Igreja, acreditam que esta é sagrada. Então lá dentro eles se soltam de suas muletas e andam normalmente ou acendem as velas sem fogo ou tanto faz. Estas mudanças no espaço apenas aumentam a percepção da santidade e influenciam os futuros visitantes para ver o espaço da mesma forma e continuar a mudá-lo da mesma maneira. Acontece a mesma coisa com os lugares assombrados. Por uma razão ou outra, começam a ser percebidos como assombrados. Quanto mais afirmação em cima disso, mais sinistro ficam. Mesmo que você nunca tenha visto o local com seus próprios olhos, você sente coisas, se for sensitivo. De certa forma, é correto dizer que o local é assombrado. É correto dizer que as igrejas são sagradas. Nossa interação com o lugar faz com que sejam muito mais do que paredes de concreto, tábuas de madeira ou que seja.

Então, o que eu quero dizer é que talvez algo tenha acontecido aqui e estamos sentindo isso. Algo terrivelmente ruim. E por isso, sim, é um octágono assombrado." 

"Não, não, não", disse Dom, "os lugares são considerados 'santos' porque uma autoridade dita isso para quem dá ouvidos. Mesma coisa para os lugares 'amaldiçoados', pessoas acabam ganhando muito dinheiro com turistas idiotas."

"Seja o que for," falei, "todos concordamos que tem algo que não está certo sobre essa situação. Talvez seja algo na máquina. Digo para escrevermos como um efeito colateral." 

Nisso, pelo menos, todos concordamos. Não acalmou a sensação ruim, mas escrevemos de qualquer forma. Concordamos também com a frase que seria escrita. "Sensações agudas que entramos em algo onde não somos bem-vindos".

SEMANA 2

Tentamos ignorar essa sensação e continuar como antes. Os primeiros dias tinham sido os melhores dias da nossa vida adulta. Mas nunca mais voltamos para aqueles momentos felizes. 

Foi por aí que percebi como tinha sido estranho que Richardson não nos deixara nenhum meio de contato com o mundo externo. Quando fiz esse questionamento em voz alta...

"Era exatamente isso que eu estava pensando," JT disse. "Richardson não é um cara idiota. Entende? Ele deve ter feito isso de propósito." 

"Por que ele faria isso?" perguntei. 

"Pela ciência, é claro," respondeu. "É um desse meta-estudos, onde te dizem que é sobre uma coisa mas na verdade é sobre como você reage ao experimento. Como a experiência de Milgram."

"Ou não é escolha dele," James falou. "O governo está fazendo-o fazer isso. E o propósito da máquina é nos controlar. Ou algum tipo de culto. Cientólogos."

"Isso é um prédio construído pelo governo," JT falou, "até que faz sentido. Não a parte dos Cientólogos, claro." 

"Mas pensa só-" James começou, mas interrompi. 

"Tá bom, tá bom. Vamos colocar de volta os pés no chão. Na melhor das hipóteses, Richardson é só um babaca que não liga para o nosso bem-estar, correto?" 

"Dá um tempo," Don falou, a última pessoa que achei que me confrontaria. "Pare de tentar agir como o cara mais racional daqui. Você não sabe o que Richardson faz. Ele faz outras coisas, coisas que nunca fala em público." 

Olhei para os outros e vi que estavam tão confusos quanto eu. 

"O que você quer dizer?"

"Eu ouvi algo sobre isso, na verdade." James proferiu. "Ele tem algumas ideias... inconvencionais." 

"Vamos dizer que ele não é o acadêmico respeitado que faz parecer ser." Don falou. "Já dei uma lida em alguns conteúdos que ele não publicou. Ele acha, e acredita fielmente nisso, que existe algo a mais, algo além disso," ele deu um soco na mesa. "Algo além do plano material."

"Isso não é tão estranho assim," falei, dando os ombros. Eu esperava o pior. 

"Ele coloca assim," Don continuou, me ignorando. "Pense no começo da existência. Deviam existir condições onde a existência do universo fosse possível. Se o universo não fosse possível, então não poderia ter existido. Faz sentido?"

Assentimos. 

"Tá, essas condições não podem ser materiais ou da lei da matéria, sendo que isso começou quando o universo começou. Então, seja lá quais eram essas condições, tinham que ser algo além da substância básica do universo. Continua a fazer sentido?" 

"Acho que sim," falei. "Isso não vai virar em uma argumentação sobre deus, vai?"

Ele balançou a cabeça. "É uma argumentação de algo que continua a existir. Exceto que não podemos dizer isso. Porque a ideia como as de que 'algo' e 'existe' são desenvolvidas por, para e dentro da realidade física. Isso é algo pré-físico. Algo pré-existência. Seja lá o que for, isso permitiu que o universo espontaneamente existisse. O que isso esteve fazendo nos outros bilhões de anos?" 

"Fazer essa pergunta já é violar as estipulações-" comecei a falar, meu eu filósofo começando a aparecer. 

"Sim, sim," Do falou "Mas ele acredita. Ele acredita que é a fonte do livre arbitro. Nossos cérebros encostam nisso de certa forma. E acha que pode alcançá-lo, estudá-lo, usá-lo. Não consegui ler muito além disso." 

"E se esse experimento é sobre algo que ele não está colocando nos livros," James complementou, "deve ser sobre seus interesses mais... peculiares."

"Então, ao invés de eliminar o nosso sono, ele está tentando fazer com que vejamos Deus?" Perguntei sarcasticamente. 

"Não sei, irmão." Don falou. "Só estou dizendo que, se ele acha que nosso cérebro pode tocar outra realidade, esse pode ser um experimento que prove sua teoria." 

"Vocês acham que ele grampeou esse lugar?" JT perguntou. 

"Acho que ele está aqui em algum lugar." Falei, sem nem pensar no que realmente estava falando. 

Todos olharam para mim, esperando uma explicação com algo que parecia ser medo em seus olhares. Estranho estarmos com medo desse homem que admirávamos a menos de duas semanas atrás.

"As vezes sinto como se alguém estivesse me vigiando enquanto durmo," explique, minha voz começando a oscilar. "Primeiro, pensei que fosse algum de vocês. Sinto isso especialmente quando não estou totalmente acordado, mas também não estou dormindo. Naqueles momentos que você acorda por alguns segundos só para ajeitar o travesseiro. Eu sentia, ouvia e via alguém de pé ao meu lado. Apenas respirando e observando. E eu estava inconsciente demais para fazer algo a respeito. Então só adormecia de novo." 

Podia ver o horror enchendo os olhos dos outros enquanto falava. 

"Tenho sentido a mesma coisa," Don disse, quase em um sussurro, como se estivesse com medo de ser ouvido. "Achei que estava enlouquecendo."

"Eu também," James disse.

"Tem mais alguém aqui..." Falei.  

Nos aproximamos, olhos nervosos vasculhando as paredes cinzas de concreto do comodo. Estávamos todos sentindo a mesma coisa, isso era certo. Sentido que estávamos presos. Presos dentro de um prédio horroroso com alguém ou outra coisa. 

"Espera, espera," JT disse, "o que essa pessoa estaria comendo? Não vemos nossa comida desaparecer. Não tem como sair, também. Não existe nenhum lugar para se esconder. Temos que ser realistas." 

Dei um suspiro e alívio. Ele estava certo.

"Tá bom, vamos pensar assim," falei. "Vamos dizer que esse é mais um efeito da máquina. Fase dois: Paranoia." 

"Fase dois: Paranoia," Don repetiu, assentindo com a cabeça. 

Escrevemos. 

No dia seguinte, quando nos reunimos para tomar café da manhã, JT perguntou, "Algum de vocês tem... sonhado?" 

Todos fizemos que não com a cabeça. 

"Richardson estaca certo sobre isso," falei. 

"Hmmm," ele falou, "vocês sabiam que crianças selvagens não sonham?" 

"Como podemos ter certeza disso?" James perguntou. 

"Eles falam. Os poucos que socializam. Dizem que os sonhos são algo que começam apenas depois de voltarem para o vínculo social. Só quando obtêm linguagem, permanência de objeto e todo o resto." 

"E cachorros?" Perguntei. "Eles, sei lá, perseguem gatos em seus sonhos?" 

"Respostas automáticas." 

"Talvez linguagem e permanência de objeto impacte apenas na habilidade de lembrar sonhos," James sugeriu. "Ambos são consistentes com dados superficiais. Você teria é que provar o contrário." 

JT fez um som de deboche. 

"Afinal, onde você quer chegar?" Don questionou. 

"O ponto é, não sonhar - vocês acham que isso é saudável? Eu sinceramente não acho que seja. Provavelmente a máquina não está de fato tirando nosso sono, apenas fazendo com que não fiquemos cansados. Tudo isso está acontecendo por não estarmos sonhando." 

"Não temos uma resposta para isso, temos?" James falou. "Naturalmente, os sonhos acompanham o sono REM. Mas não temos nenhum estudo que diferencie os efeitos de não sonhar e não dormir." 

"Ou talvez estejamos sonhando e os sonhos simplesmente vão para outro lugar," JT sugeriu. 

Não entendi o que ele quis dizer com isso. Ninguém entendeu. Mas paramos de falar sobre e deixamos para lá. Algo naquilo parecia muito real. 



SEMANA 3


Nossas reuniões sobre discussões teóricas se tornaram cada vez mais raras. Tendíamos a nos isolar e ficar olhando os outros com suspeita. Ainda sentia todos os dias aquela sensação ruim de não ser bem-vindo. 

E todas as noites a figura ficava de pé ao meu lado. Agora eu dormia cada vez menos. No máximo uma hora. Era tão pouco sono que às vezes eu o via indo embora correndo. 

Na última vez, eu estava acordado o suficiente para ver para onde ia. Era um canto em particular do meu quarto que sempre achei um tanto peculiar. Me pegava olhando para lá mesmo quando não queria. É um local onde os ângulos são estranhos. Meus olhos tinham dificuldade em se focar lá. A figura correu em direção daquele lugar e desapareceu lá. 

Quando acordei completamente, me questionei se tinha alucinado com aquilo tudo. Talvez essa fosse fase três: Alucinações. Andei até aquele canto e observei de perto. Tinha um cheiro estranho. Como aquele solvente, terebintina. E quando mais eu encarava, quanto mais forçava meus olhos a focar ali, eu tinha certeza, certeza que havia algo se mexendo lá dentro. E estava me observando. Então, ouvi um som horrível, cheio de ódio vindo bem fundo naquele canto. Não esperei entender o que ou quem tinha feito aquele som. Sai do quarto rapidinho. A partir daquele momento comecei a tirar meus rápidos cochilos na biblioteca. 

Enquanto estava na biblioteca, ouvi JT falando com alguém no corredor. Estava conversando sobre os ângulos de novo. Comentos que existem mais ângulos no prédio do que pode se ter em uma forma fechada padrão. 2,7488 graus a mais, adicionou. "O suficiente para deixar alguém louco, mas não o suficiente para ser óbvio". Seja lá com quem estivesse falando, essa pessoa disse algo que não consegui entender, algo como, "Esses são os ângulos arrebatadores." A voz estava de certa forma distorcida, então não tenho certeza. O que eu tinha certeza era que aquela voz não pertencia a nenhum de nós. Seja lá com quem JT estava conversando, não era um de nós. 

Pode parecer idiota, mas fiquei com medo. Fiquei lá, fingindo estar dormindo enquanto JT passou. E enquanto fazia isso, senti alguém ou algo entrar na sala e ficar de pé do meu lado. Depois foi embora. 

Depois de um minuto falando para mim mesmo que estava sendo bobo, fui seguir JT. Não o encontrei em nenhum lugar. Esbarrei com James e ele também falou que não encontrava JT. 

"Você viu ou ouviu alguém que não devia estar aqui?" Perguntei. 

James me olhou com um misto de surpresa e medo. "Como você sabe?" Questionou. "Eu não contei para ninguém!"

"Sobre o que?"

Acabou me contando que tinha ouvido sua mãe lhe chamando. Não um sussurro que poderia estar confundindo, mas a voz alta e clara dela, chamando por ele. Quase respondeu para a voz, disse. Quase. Então se reteve. "Ela está morta faz anos, cara. Seja lá o que estivesse me chamando, não era minha mãe." 

Percebi que tremia e suas mãos estavam fechadas em um punho. Disse para aguentar firme. Podiam ser alucinações auditivas. Eu estava ouvindo coisas também. Uma criança chorando. Primeiro baixinho, achei que era o encanamento. 

"Precisamos fazer uma reunião," ele disse. 

Pensei sobre JT e o que eu ouvira pouco tempo antes. "Acho melhor falarmos só com Don." 

"Como um efeito colateral da máquina, faz sentido." Don refletiu, depois que falamos para ele. "Os sons não são para ser audíveis. Mesmo assim, nossos cérebros devem estar capturando sons aleatórios e interpretando-os como certas coisas. O cérebro faz que a memória faça os padrões de som serem significativos." 

"Você realmente acredita nisso?" Indaguei. 

"Nem por um segundo," James replicou.

Mas não tínhamos mais explicações além daquela, então quase rezei para que estivesse certo. 

Alguns dias depois, encontrei James na academia, socando o saco de arei. Perguntei se estava bem. Ele me ignorou então voltei para a sala de leitura. Alguns minutos depois, estava atrás de mim.

"Aquela voz que teno ouvido não é da minha mãe," disse. 

"Claro que não," respondo. Afinal, já tínhamos concordado com isso antes.

"Não, quero dizer... não sei o que quero dizer. É só que, minha mãe era uma pessoa boa. Mesmo que essa voz esteja se passando por ela, não é nada parecida com ela. Não é boa. Não é humana." 

Abaixei meu livro e olhei para ele fixamente para ver se estava realmente falando sério. Estava. E muito. 

"Ela tem me falado sobre várias coisas. Me perguntou se você lembrava do galpão."

Eu não tinha resposta sobre aquilo. Fiquei sem palavras. Nunca mais tinha falado sobre aquilo. Por um bom motivo. Demorei anos para superar o que acontecera. Tinha sido a muitos anos atrás. Eu estava brincando no bosque atrás da minha casa, como fazia com frequência. Gostava de construir casas na árvore, mas eram bem ruins. Um dia fui além do nosso terreno e cheguei nesse galpão. Nunca havia o visto antes. Mas parecia bem antigo. Me lembro de pensar isso. Ouvi uma criança chorando lá dentro. Pensando que agora teria um amigo para construir casas nas árvores comigo, espiei pela janela. A criança estava acorrentada na parede e havia uma tigela de cachorro no chão. Eu queria ajudar, mas sabia que estava invadindo propriedade. Foi aí que olhei em volta. Então vi o homem, a uns seis metros de distância entre as árvores. Estava vestido todo de preto, roupas antigas. Tipo do século dezenove. Provavelmente esteve me vigiando todo aquele tempo. Sem expressão em seu rosto. Corri para casa. 

Fiquei com tanto medo que não contei para meus pais até na hora de dormir, quando tive que explicar porque estava com medo de ir para cama. Meus pais chamaram a polícia na hora. Encontraram o galpão. Ouvi dizer que encontraram as correntes e a tigela. A criança havia sumido. Sempre me culpei por não contar imediatamente. 

"Você lembra?" James perguntou. 

"Sim..."

"Ah, bem, ela tem me contado como sair."

Encarei-o sem dizer uma palavra, porque soava como um louco. 

"Ela falou que tem uma saída secreta dentro de JT. Só temos que abri-lo com uma faca para pode sair."

"James," falei, sem saber coo complementar. 

"Ah, eu sei," falou, engolindo a seco. "Eu sei que não é verdade. Só tinha que contar para alguém."

"Não faço ideia o que está acontecendo aqui," ele continuou. "Estou com medo, cara."

Eu também estava. Tínhamos que sair do octágono.


SEMANA 4


James e eu começamos a procurar jeitos de sair de lá. Sendo que agora não dormíamos nada, tempo não faltava. Parecia que sempre que estávamos perto de uma solução, era um beco sem saída. Foi durante um desses momentos que encontramos Don parado sozinho em um corredor, de costas para nós.

"O que foi?" James perguntou. Algo sobre aquilo era muito estranho. 

"Don, você está bem?" Chamei por ele. 

Ele se virou para nós sorrindo, e acenou. "Tchau, gente." E com isso andou virando o corredor. 

Olhei para James para ver se estava pensando o mesmo que eu, que algo ruim estava prestes a acontecer, e ele já estava olhando para mim também. Começamos a correr atrás do outro. Don já estava no final do próximo corredor, entrando no elevador. "Don, não!", gritamos e corremos, mas as portas já tinham fechado quando chegamos. Ele subiu. 

O problema é o octágono é um prédio de um andar só. Não existe elevador. Nunca antes nem depois. Eu não sei para onde Don foi ou se aquilo que vi realmente aconteceu. Mas sei que nunca mais vimos ele. 

"Não entendo," James gemeu. "O que está acontecendo?" 

Antes que pudéssemos pensar sobre, um grupo de pessoas virou o corredor e começou a vir em nossa direção. 

"Vamos sair daqui," falei. 

"Quem são essas pessoas?" James perguntou, confuso. 

"James, vamos logo."

"Por que eles estão embaçados?"

"Não faço ideia, mas vamos said aqui!"

Agarrei seu braço e puxei, depois começamos a correr. Corri até chegar na cozinha e me escondi entre a parede e a geladeira. Tinha certeza que James estava logo atrás de mim. Podia ouvir seus passos o tempo todo. Mas quando olhei, tinha sumido. 

Fiquei lá até meu corpo não aguentar mais. Provavelmente algumas horas. Quando deslizei para fora do meu esconderijo, vi alguém me espiando da porta. Fiquei tão nervoso que voltei para onde estava. Era um menininho. 

"Olá?", falei com a voz trêmula. 

Então ouvi gritos. O menino sumiu. Mais gritos. 

Eu não podia deixar mais alguém sofrendo. Não de novo. Corri em direção aos berros, morrendo de medo com o que poderia ter acontecido com James. Ouvi outros gritos, mas esse estava abafado. Vinha do quarto de JT. 

Queria poder voltar no tempo e não ter aberto aquela porta. James estava lá. Ele tinha aberto toda extensão do tórax até o púbis de JT e estava remexendo pelos órgãos dele com as mãos. A expressão agonizada e em choque de JT estava gravada em seu rosto imóvel. 

"O que você fez?!" Gritei. 

"Eu tenho que sair, cara!" James grunhiu enquanto passava as mãos pelos intestinos de JT. 

Sai do quarto. Não sabia mais o que fazer. Eu só precisava achar um lugar para me esconder até que Richardson viesse nos tirar daqui.

Assim que sai do quarto, ouvi James dizendo "Mãe?" e depois, "Ah, não. Ah, não!" e mais gritos. Entrei correndo de novo. James havia sumido. A única porta do quarto não tinha saído do meu campo de visão nem por um segundo. Mas não estava mais lá. Uma fumaça preta e aparentemente tóxica estava saindo do que sobrara do abdômen de JT.  Fedia como pneus queimados. 

Voltei para a cozinha. Encontrei algumas velas. Eu as derreti um pouco de cera em guardanapos, depois coloquei nos meus ouvidos.Então, me agachei em um canto, com os olhos fechados, e esperei o sono vir. Esperei por muito, muito tempo, mas eventualmente consegui dormir. 

Quando acordei, Professor Richardson estava me chacoalhando. Ele já havia tinha tirado os guardanapos das minhas orelhas. Achei que ele tinha voltado mais cedo. Só mais tarde descobri que eu tinha estado dormindo por vários dias. 

Ele perguntou para onde os outros tinham ido. Contei tudo. Tudo que eu conseguira meio que entender. Tentei levá-lo até o corpo de JT. Mas não estava mais lá. Nenhum resquício de sangue. Richardson me levou para um hospital para ter certeza que eu estava bem. 

"Eu cuidarei das despesas do hospital," falou. "Não precisa mais se preocupar também com suas dívidas na faculdade." 

"É assim que vai ser?" Questionei. 

"Eu te coloquei em perigo, então, sim. É o mínimo que você merece. Se manter tudo em sigilo." 

Falei que não podia não falar sobre aquilo, por causa do que acontecera com os outros.

"Você realmente não acha que aquelas coisas aconteceram de verdade, acha? As leis da física do universo se anulariam só por causa de vocês quatro? Não. Estavam apenas sonhando acordados. Vocês não deviam ter sonhado com nada. Pensei ter compensado isso. A máquina precisa de ajustes. Isso é o que a ciência é. Os outros estão bem. Estarão se recuperando por um tempo, até eu publicar os resultados. Faça o mesmo. "

Eu queria acreditar nele. Sempre me considerei uma pessoa racional. Mas simplesmente não conseguia acreditar em suas palavras. Sim, tudo poderia ter sido um sonho. Essa seria a explicação mais simples. Mas não era um sonho. Tentei encontrar os outros. Nunca consegui. Não acho que eles estejam bem. Tentei contar e explicar tudo isso para a polícia, mas queriam provas. Eu nem se quer conseguia encontrar o octágono novamente.

James, JT e Don: Se vocês estiverem por aí e lerem isso, me avisem se estão bem. E todos os outros, vou dizer o que realmente acho. Acredito que o Prof. Richardson tinha razão sobre uma coisa. O sono realmente é algo que conseguimos pela evolução para nossa própria proteção. Exceto que não é das criaturas que percorrem as florestas durante à noite. Isso nos protege de algo muito pior, algo ao nosso redor. Com certeza não é obsoleto. Seja grato por aquilo que te faz dormir e sonhar.

FONTE


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 


59 comentários:

  1. VOLTEIIII GALERINHA!!!!!!! Saudades?!
    Tava sentindo alta do Creepypasta Brasil.

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  2. 1000/10
    Puta que pariu, nunca comentei em nenhuma creépoca, mas nessa é impossível...
    Que creepy foda!

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Você só sabe comentar isso amiguinha? Na outra creepy vi a mesma coisa. Se não gosta então vc ta no site errado amg.

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    2. Não posso dar minha opinião agora??? Se eu achasse a creepy ruim eu não poderia falar? Teria que ficar em silêncio? Quantas crianças lmao

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    3. Realmente esse estilo é uma bosta e vai tomar no cú "No Life"

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    4. Tu falou isso pra mim No Life ? ;-;

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    5. Sim, por que você é infantil

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    6. A unica coisa que é pior que essa Creepy é um Coala. Mas ninguém liga pra Coalas.

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    7. Este comentário foi removido pelo autor.

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    8. Voce pode dar o que quiser Maria. ( ͡° ͜ʖ ͡°)

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    9. Cara, olha oq voces tao fazendo da vida. Discutindo nos comentários de um blog/site.

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    10. Suas definições de “No fundo do poço” foram atualizadas.

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    11. Você tbm vai participar agora, filho da puta 🌚

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    12. geez, ela estava apenas dando a avaliação dela (mesmo q tenha sido vaga e inútil). Isso não muda o fato de que ninguém tem o direito de se dar ao luxo de comentar "ninguém liga" numa tentativa desesperada de ser o badass da internet e chamar atenção. Já tá na hora de parar com essa infantilidade, né? Sejam pelo menos maduros em uma discussão, usem um argumento decente.

      Perdoem-me pelo espírito SJW (ewww) e pelo depoimento de Orkut, mas eu precisava fazer algo a respeito.

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    13. sinto muito pelo seu mau gosto

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    14. Ótimo argumento, porém Ninguém Liga tbm

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    15. Doentona, I love You. Quero. Casar e ter filhos com você mulher

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    16. Ok, NL, n posso te impedir de argumentar. Liberdade de expressão eh um direito, afinal.

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  4. Me surpreende. Quando desviei o olhar para o título, pensei que fosse ser mera cópia do Experimento do Sono Russo. Mas o enredo me intriga e me cativa ao mesmo tempo, o suspense e a tensão da narrativa são divinos. 10.

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    1. Confesso que com o início... pensei seriamente num plágio do experimento russo, devido ao isolamento, espaço fechado e sono impossibilitado; ai ocorrem essas reviravoltas e esse final vago e eu NO máximo posso teorizar que foi uma adaptação do experimento com final vago. Gostei mas não é 10/10 não, acho que 7/10.

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  5. Não dando o devido respeito com a estória, apenas uma pergunta paralela: Por que no sábado, na aba das postagens semanais, está escrito "Livre Arbítrio"?

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  6. hmmm e ai? sera q foi real ou nao?? gostei

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  7. Como a moça falou ali, eu também pensei no experimento russo kkk mas essa creepy me surpreendeu. Senti a agonia de cada um deles e.e bizarro pra crlh... Vlw Divina 💜

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  8. Mt boa a creepy deu td um clima de conspiraçao

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  9. poha... viajei lendo essa @.@
    100/10 adorei

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  10. De 0 a 10 essa creepy é Eleven... ba dum tiss!!

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  11. Voltem a olhar as creepys dos fãs no email

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  12. Creepy legal vou dar minha nota:10/10
    👍

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  13. Cade a continuação do guarda florestal????,

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  14. Nao sei se vcs sabem mas Tem uma página no Facebook chamada GT's 10/10 que cópia algumas creepypastas do site e não coloca os créditos

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    1. Na real, é um grupo, onde qualquer pessoa pode fazer os GT’s. Eu mesmo já adaptei uma creepypasta postada aqui e postei lá no grupo, mas eu deixei os créditos (no caso, a história contada foi a Creepypasta dos Fãs Jane)

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  15. Creepy foda. Continuaçao cairia bem meeesmo.

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