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A Melodia de Meus Sentimentos


Boa noite, segue um conto de minha autoria.
Todos créditos reservados a mim, a toda bebida consumida hoje bem como um maço e meio de cigarros e de alguns sinceros sentimentos que tentaram ganhar vida através dessa história.

A frase: “ O que você quer fazer para viver?” Já foi direcionada a sua pessoa?

A frase: “ O quanto você quer isso? Com certeza já foi imposta.

A frase: “ Cuidado com o que deseja” lhe soa familiar?

Aí é que está, eu nunca sonhei trabalhar, me formar ou me tornar algo em algo específico, nem ao mesmo fiquei em cima do muro, nada nunca pareceu me atrair, nada mesmo, não sei como dizer, como colocar para fora esse sentimento. Se já pensei em ser veterinária para ajudar animais com problemas, ser Juíza para trazer justiça aos necessitados, ser atriz e viver no glamour... Claro que já, todos nós já pensamos algo do tipo, isso é normal.

Mas e a gana?  A vontade ? A paixão? Realmente não consigo me fazer entender.

“Você ainda tem muito tempo para pensar no que quer...”

“Dúvidas nessa fase da vida são comuns, você não precisa decidir agora...”

“ Ah, você já pensou em fazer um teste de aptidão?”

Respondia as indagações, todas as inúmeras vezes, nunca com firmeza, nunca me expressando como eu realmente me sentia, pois as frases ainda que elaboradas não condiziam com meus sentimentos... Nunca soube me fazer entender.

O tempo passou, não escolhi nada que eu amasse ou me identificasse para seguir uma carreira, entendo que parte de não conseguir exteriorizar o que eu sinto é porque EU mesma não conseguia entender meus sentimentos. Fiz tratamento psiquiátrico para aprender mais sobre mim mesma, fiz cursos para me desinibir, usei remédios, usei “ervas religiosas e medicinais” Simplesmente, eu nunca consegui tirar de mim mesma minha própria essência, ainda que rastejasse por debaixo da minha pele.

Felizmente minha mãe é uma esteticista bem conceituada em minha cidade, faz um ótimo dinheiro, dessa maneira levamos nossas vidas com bastante tranquilidade, sem me obrigar a trabalhar e me sujeitar a situações desgastantes. Não que eu me aproveitasse dela, sou incapaz de me aproveitar de mim mesma, é frustrante... Com certeza você não entende o que eu quero dizer.

No meu aniversário de 23 anos ganhei uma viagem de uma semana em uma cidade exótica bem distante do meu berço. Minha mãe havia acatado a dica de uma amiga que estava condenada a um câncer terminal, diz ter conhecido uma senhora que a colocou no “caminho desejado” fez com que ela se encontrasse, encontrasse a paz dentro dela mesma. O nome da Senhora era Lisa, não era uma curandeira, mágica, médium nem nada parecido, era apenas uma senhora bem idosa, que passou da casa dos 100, utilizava única e exclusivamente de seu conhecimento e experiência enorme através dos muitos anos que possuía.

Tudo o que era exigido era que eu fosse completamente aberta e sincera. Esse era meu maior 
problema... Como ser sincera com alguém quando eu mesma não sabia as minhas verdades...

Me instalei na pousada, fui recebida por uma senhora quase ou tão velha quanto a que eu procurava. Era um local bem familiar e aconchegante, era a única hóspede do local, tendo em vista que a cidade não estava em temporada de turismo.

A senhora me convidou para tomar um chá , mesmo estando muito cansada e tonta das horas no avião, não queria ser indelicada com ela, que foi bem direta em sua pergunta : O que você está procurando nesse maravilhoso pedaço de terra?

Tentei dizer que procurava por Lisa, antes de completar a minha sentença fui interrompida: O que você realmente procura, o que quer?

- Quero me encontrar, quero me fazer entender, gostaria que a minha voz não fosse “silenciosa” como ela é. Queria externar meus sentimentos, todos os que já senti e sentirei, simples assim. Nunca consegui canalizar tudo isso, então é como se nunca tivesse de fato desabafado.

A senhora sorriu e disse: - Você está fazendo isso perfeitamente agora, tem certeza que isso é um problema? Ou quer dizer TODOS os seus sentimentos mesmo?

Assenti com a cabeça, era realmente o que eu queria e nada mais.

Ela tomou a minha mão direita, a que não segurava a xícara, acariciou levemente e com uma expressão que por um segundo pareceu ser maliciosa disse: Sentimentos são algo de que não podemos ter controle, você quer liberar algo que não pode conter de maneira alguma? Que diferente, geralmente as pessoas desejam controlar tudo aquilo que não podem.

Me desvencilhei e recolhi a mão pra junto de mim e ela de imediato com satisfação disse: Seu sentimento é de medo, você se comunica bem, eu não tenho problemas em entender isso.

A situação era bem desconfortável, decidi acabar com aquilo para que pudesse me acomodar e descansar de vez, então perguntei:

- Onde posso encontrar a Senhora Lisa? Quero consultá-la logo pela manhã.

- Rua Mamosa, número 23861. Um casebre, bem pequeno, a única casa da área, ela só é encontrada no local após as 3 horas da manhã, a porta sempre estará fechada, só bata se o lampião estiver aceso, do caso contrário, volte de onde veio.

- O que?- Perguntei.

- Sim, querida, você simplesmente veio da puta que te pariu para encontrar a porra de uma velha mística, não acha que no mínimo as coisas deveriam ser estranhas? – De repente agressiva.

- Eu, só queria vê-la. Err... Desculpe. Vou subir.

Conheci um pouco da cidade, andei de trem, fui até a cachoeira, vi a cultura, tomei as bebidas locais. Minha vontade de ir até a Senhora Lisa me perturbava bastante. Eu iria até uma estrada vazia, com apenas uma casa as três horas da manhã sem conhecer nada do local? Isso era ridículo...

Peguei um Uber até o endereço, ofereci ao motorista o triplo do valor da viagem para que me esperasse dentro do carro pela próxima hora e não fosse embora.

A porta estava aberta ao contrário do que foi me dito, porém não havia luz na cabana.

O motorista disse :  A luz está apagada, você não deve ir até lá.

- Eu vou mesmo assim!

- Não, não vai.

- Então me obrigue a não ir...

Assim que desci ele arrancou com o carro quebrando o nosso acordo. Eu não queria voltar atrás, estava sentindo algo... Algo borbulhar em mim... Algo que nunca havia sentido antes, cada célula do meu corpo queria conhecer melhor aquele sentimento, então eu não parei.

Realmente só havia aquela casa, em volta existia um campo de girassóis a perder de vista, quilômetros e mais quilômetros.

- Dona Lisa? Licença...

- Alguém aí? Estou entrando.

Nenhuma resposta. Decidi continuar ainda assim.

A porta se fechou gentilmente atrás de mim.

Iluminei o local com o flash do meu smartphone, parecia que ninguém morava ali havia décadas, cheiro de mofo, móveis se desfazendo, camadas e mais camadas de poeira. Foi quando me senti uma idiota, ou estava no local errado ou fui enganada, não era tarde para solicitar a Uber novamente e ser levada pelo mesmo motorista. Dei meia volta e abri a porta de entrada que para minha confusão deu para um corredor largo, muito largo. Apontei o celular na altura de meus olhos para ver o final e não consegui...

Comecei a acelerar o passo, portas e mais portas surgiam, direita, esquerda, direita, esquerda ,diversas, dezenas, centenas, milhares, todas trancadas...  Corri, gritei e chorei. O casebre era minúsculo, não poderia haver tantos quartos dentro dele.

Andei até que toda a bateria do meu celular se esgotasse... Cansada, no escuro e sozinha me sentei no corredor infinito e apoiei minhas costas na parede. Fiz uma profunda reflexão do que havia vivido e construído até então, tudo o que deixei de falar, de demonstrar, de compartilhar e de maneira clara passei a me entender, passei a compreender tudo aquilo que não conseguia. Uma completa transformação, inútil e tardia mas morreria ali em paz. Quando fechei meus olhos me entregando ao cansaço o atrito em minhas costas desapareceu, dei com a cabeça no chão e simplesmente estava dentro de um dos quartos.

Havia uma cadeira de madeira comum, em cima dela um violino novo, perfeito e impecável, apesar do tom escuro amadeirado fui capaz de contemplar meu reflexo por completo nele e não reconheci a expressão nele. Meu rosto estava mesmo com aquele semblante?

O tomei em minhas mãos, sentei-me na cadeira e sem nunca ter tido a menor afinidade por instrumentos musicais comecei a tocá-lo, tudo o que havia sentido até então ganhou vida através das cordas do instrumento.

Um lampião se acendeu.

Uma porta se abriu.

Era a saída.

Através dela pude ver, milhares de girassóis mortos, como se tivessem entrado em combustão.

Um vasto campo sem vida.

Fui andando e tocando até a cidade, caminhando na vegetação morta.

Sentei-me em uma praça e pouco a pouco as pessoas iam se aglomerando, elas demonstravam na pele o que eu sentia em meu âmago, toda a minha tristeza. Choravam e choravam, berravam sem parar, a plateia era infindável. O comportamento dos ouvintes mudavam conforme eu mudava as notas do violino, exatamente como me sentia.

Instantaneamente, virei um sucesso, minhas melodias se espalharam por todo o globo. Finalmente conseguia me expressar, através da arte, da música, as pessoas sentiam de maneira potencializada o que eu sentia em meu coração, houve um programa de televisão que reuniu um grupo de surdos, era dito que captavam a minha essência através da vibração de minhas cordas e se emocionavam mesmo sendo incapazes de ouvir as notas.

Não me deixei levar por nada, pela atenção que passei a receber após meu sucesso, neguei caminhões de dinheiro, neguei tudo o que pude, menos o que sentia. Só queria transmitir meu eu verdadeiro.

Recebi convites para performances em que cada ingresso custaria mais do que um trabalhador comum ganharia em um ano inteiro de trabalho, produções de hollywood queriam temas compostos por mim, países queriam seus próprios hinos reinventados pelas minhas notas, magnatas queriam que eu tocasse em seus casamentos, funerais ou uma simples apresentação particular.

Neguei tudo, neguei.

Não por soberba, não por achar que eu fosse superior e sim porque acreditava que não se pode por preço em um sentimento, que apenas devem ser sentidos.
A única ajuda de que aceitei foi de uma companhia que me proveu privacidade, pois multidões se juntavam na porta de minha casa, tornando impossível que eu saísse para observar meu próprio jardim e sentir a brisa do verão.

Meu desejo maior fora alcançado, ainda que não cantasse, ainda que não falasse, minha “voz” foi ouvida por todos, até mesmo por aqueles que não possuíam audição.

Todos viam através de minha existência, não havia mais nada que eu pudesse esconder pois oferecia tudo de mim, chegara então o momento da minha última peça, um último trabalho, uma melodia de encerramento, o ponto final.

Era o que eu acreditava, esse foi o único erro do qual cometi.

Palcos foram erguidos em todo o globo, estádios, arenas, teatros, cinemas foram ocupados para minha última apresentação, todos canais de televisão, todas ondas de rádio, toda internet, em todas as cidades, todas as ruas. Pessoas desconhecidas se juntaram em praças, bares, casas de parentes,
prisões, hospitais até mesmo para pacientes em coma.

Minha música era tão boa assim? Claro que não! Minha melhor composição não chegava aos pés da Moonlight Sonata, que era minha favorita.

Ainda assim, meus sentimentos alcançaram a todos os seres humanos.

Fiquei de frente com a plateia, não conseguia ver onde terminava.

Era para ser minha última, foi com o sentimento de “fim” que empenhei todo meu coração nas cordas. As pessoas não esboçaram uma única reação até o último segundo de música. Por três minutos e trinta segundos achei que havia perdido o meu dom de tocar as pessoas.

Quando terminei, aos 3:33. Vi a multidão, a maioria pareceu morder a própria língua, algumas pessoas pareciam ter parado de respirar simplesmente. Crianças, adultos, idosos. Coletivamente colocaram um fim em suas vidas. As pessoas se agrediam, se mordiam, arrancavam pedaços umas das outras, de maneira respeitosa, de maneira brutal, de maneira unida com suas famílias, todos...

Todos acabaram com suas próprias vidas.

 A Melodia de Encerramento foi conhecida como a Melodia da Morte.

Eram poucos os que não ouviram.

 Dizimei praticamente toda a população do planeta, não sinto prazer algum em fazer parte disso tudo.

Por algum motivo, ainda que com bilhares de corpos espalhados pelo planeta, esse evento histórico não foi registrado em livros, anotações, matérias de jornal...

 Parece um devaneio de minha própria pessoa, ou parecia ter sido apenas um sentimento, o máximo que aconteceu foi ter se tornado uma lenda urbana, uma crença ridícula.

Realmente desejei algo do qual não podia controlar...Infelizmente.

Encontro-me aqui, ainda viva, após 77 anos de todos esses acontecimentos. Os jovens dizem, acreditam que aqueles que cometem suicídio, apenas possuem a coragem para o fazer devido a uma melodia que somente eles podem escutar ou sentir.

Compus uma única música após tudo isso, com toda a minha solidão e a toco diariamente, isolada onde me encontro.

Você se sente sem ninguém? Ainda que rodeado de pessoas? Em uma multidão, entre parentes, entre amigos... Desculpe-me, de alguma maneira você foi tocado pela minha última composição e eu sempre estarei junto de você, ainda que se sinta SOZINHO(A), essa é a grande ironia.

Mas veja só...

Meus sentimentos transcenderam as barreiras, muitos de nós compartilhamos a mesma sensação, juntos, ainda que a sós.

A Melodia da Solidão, é na verdade a Melodia do Silêncio.


Escute bem...