18/12/2017

As mentiras que contamos

O cachorro fugiu hoje.

É uma mentira fácil, simples. Acreditável. Ninguém questiona. Todo mundo sabe como cachorros são. Tem um trabalho para mantê-la, claro. Andar pelo bairro gritando, assobiando. Pregar anúncios. Atender os telefonemas de pessoas que acham ter visto o cachorro. Lógico que não viram, mas preciso encenar para as crianças. É triste ver a esperança aparecer e sumir de seus rostos, mas que outra alternativa eu tenho? A verdade não os farias mais felizes.
O cachorro fugiu.

Estou limpando as ferramentas no galpão.

Nem é realmente uma mentira. Omissão, talvez. A pá precisava ser limpa, e martelada no canto onde foi atingida por uma pedra. E obviamente o machado precisava ser amolado. Então porque não usar as outras ferramentas enquanto estou por aqui? É só uma fachada, mas é importante. Inventar um cenário apropriado impede as pessoas de fazerem perguntas, o que evita muitos problemas. Quanto menos disser, menos terá que lembrar.

O cachorro estúpido fugiu.

Eu estava lá fora limpando as ferramentas no galpão.

Eu e sua mãe não estamos brigando.

Como crianças podem entender relacionamentos entre adultos? Tensão não significa que duas pessoas não se amam. Se significa alguma coisa, é que se amam muito intensamente. É fácil dar de ombros e se afastar de alguém que você não se importa. Muito mais difícil é ver alguém que você ama indo pelo caminho errado. Não estou distante, não importa as acusações dela. Estou profundamente investido nessa família. Me sacrifico para protegê-la. Minha honra, minha vida: darei tudo.

Nós conversaremos sobre arrumar outro cachorro.

O cadeado no galpão é para mantê-los à salvo de ferramentas perigosas.

Eu e sua mãe não estamos brigando, mas ela vai ficar com a vó de vocês por enquanto.

Por que as coisas se complicam tanto? Aqui, pelo menos, estou tentando diminuir as perguntas. Todo mundo sabe o que “ficar com a mãe dela” significa. Mas não as crianças, claro, pois eles ainda acham que o cachorro fugiu. Todo o resto me olha como um cara corajoso. Acho que me respeitam por criar as crianças sem ela.

Eu não queria isso. Tudo que fiz foi para proteger esta família. Não sei porque ela não percebeu isso. Nunca quis estar nesta posição. Pelo menos é inverno, e o galpão vai demorar mais para feder.
Ela tinha levado as crianças.

Condensando. Todas as outras mentiras acabaram nessa. Não havia ninguém para perguntar sobre o cachorro, ninguém para perguntar sobre as ferramentas. Ninguém pergunta sobre detalhes nisso. É invariavelmente uma questão e uma desculpinha. Enquanto isso, posso respirar aliviado pela primeira vez desde que o cachorro fugiu. Engraçado como essa frase me vem agora. Mesmo quando não preciso dizê-la, chega até minha cabeça.

O tempo é meu novamente. Tempo de assistir TV, tempo de arrumar o jardim, tempo de cavar buracos sem que me perguntem porquê ou pra que ou por que você não nos dá atenção? Eu dou tanta atenção! Tudo é sobre vocês. Até mesmo isso. Até mesmo agora.
A família não é sobre felicidade e companheirismo? Estamos felizes agora, e sempre estaremos juntos. Ela realmente ia embora, você sabe. Desmembrar nossa família. Não aguentaria isso. Nos mantive juntos.

Ela pegou a custódia total.

Essa é a cova do cachorro.

Omissão novamente. É a cova do cachorro. Se você cavar, encontrará o cachorro. Não sei que tipo de pessoa doente cavaria pela cova do cachorro, mas todo cuidado é pouco atualmente. As pessoas fazem um monte de perguntas, enfiam o nariz nas coisas dos outros. Então, se você cavar, encontrará o cachorro, e ficará com vergonha de si mesmo, e cobrirá a cova.

O que significa que não vai cavar mais alguns metros abaixo para ver o que há.
Não estou envergonhado. Só estou sendo esperto. O mundo gira em ficções educadas. São as mentiras que contamos.




Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


13 comentários:

  1. Respostas
    1. Ao que tudo indica ele matou a mulher

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    2. A esposa ia embora, então ele matou ela e colocou o corpo dela por debaixo do corpo do cachorro, que ele provavelmente matou tbm

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    3. acho que ele matou as crianças também, uma vez que ele diz no final algo como "tenho novamente um tempo para jardinar e cavar" e "pra que ou por quê você não nos dá atenção?", acho que quem pedia atenção o tempo todo (e convenientemente descobriu a "morte do cachorro") foram as crianças, tanto que se tornaram inconvenientes, e ele teve que as matar também.

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    4. o genial de tudo é que, no final, para quem perguntasse, ele poderia dizer que a mulher sumiu com os filhos depois de pegar a guarda, é que só ficou ele e o cachorro, ele ficou tão sentimental que fez um enterro pro cachorro... não tem erros mano, NÃO TEM. é praticamente o crime perfeito ❤️❤️❤️

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  2. mata quem você quiser mano, só não mata a pörra do cachorro kkkkl

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  3. CARALHO que foda! 9/10, pois foi um pouco previsível um pouco antes da metade, eu previ que toda a enrolação poética daria numa família enterrada sob a p**ra de um cachorro. Mas sério, show de bola.

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  4. Já tinha visto algo assim no tumblr, como esconder um corpo corretamente. Mata-se um cachorro ou qualquer outro animal de médio porte e enterra-se por cima dos cadáveres humanos. Se a polícia utilizar um cão farejador dará atenção apenas ao corpo do animal, ignorando os humanos.

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  5. Okay, ele matou a família toda e o cachorro... Blz, tô triste :/

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  6. Acho que ele primeiramente matou
    o cachorro e então a mãe e depois as crianças e enterrou todos de baixo da cova do cachorro @-@

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