22/01/2017

A Banheira de Pregos (Part.1)

Estou pensando em estender essa história até a parte 3, espero que gostem :)  

Alex morava numa cidade muito pequena e seu melhor amigo Caio sempre estava junto com ele, eles sempre saiam por aí para explorar.

Era um dia de sábado quando eles resolveram entrar na floresta e explorar a área restrita, ainda estava claro e eles poderiam explorar bastante.

Caminharam por uns 15 minutos sem encontrar nada além de muito mato, mas depois eles acabaram encontrando um galpão velho. Era bem grande, as paredes estavam bem sujas e a única coisa que tinha dentro era uma banheira cheia de pregos enormes.

Eles decidiram ir para casa e voltar no dia seguinte para olhar melhor o lugar.
Durante a noite uma inquietação tomou conta do sono de Alex, ele virava de um lado para o outro sem conseguir ao menos dar um cochilo.

No dia seguinte ele ligou para o Caio e disse que não tinha conseguido dormir, Caio disse a mesma coisa então eles concordaram em ir apenas no outro dia.

Caio sempre foi o mais curioso e ele decidiu ir sozinho até o galpão, mas chegando lá não encontrou a tal banheira, ele ficou lá pensando em quem teria interesse numa banheira velha.
Ele sentiu alguém o observar pela porta do galpão.

Caio.- Alex? É você cara?

Não surgiu nenhuma resposta então ele foi para o lado de fora e lá estava a banheira.

Caio.- Mas que porra! Como isso veio parar aqui? Acho melhor eu ir embora. 

Alex foi até a casa de Caio naquele dia, pois estranhou ele não ter ligado ou ter ido na casa dele.

Caio.- Oi Alex, eu não tô muito bem cara, por isso não liguei. 
Alex.- Mas o que houve?
Caio.- Eu fui naquele galpão, a curiosidade foi mais forte que eu. 
Alex.- Você não devia ter ido sem mim, já pensou se te acontecesse alguma coisa?
Caio.- Eu sei, me desculpa. Aconteceu uma coisa tão estranha, quando eu cheguei lá a banheira tinha sumido e depois estava do lado de fora. 
Alex.- Você ainda quer voltar lá? Podemos levar uma câmera e filmar tudo, se tiver algo estranho nós vamos descobrir, afinal somos parceiros exploradores haha. 
Caio.- É claro que eu quero, nós vamos descobrir tudo, somos ótimos nisso hehe. 


No dia seguinte eles foram até a floresta e encontraram a banheira dentro do galpão, exatamente no mesmo lugar, mas dessa vez ela estava cheia de água e não tinha como ser água da chuva já que o telhado ainda estava em bom estado.

Eles começaram a filmar e quando se deram conta já estava escurecendo, caminharam até a porta, mas estava trancada.

Caio pegou seu celular, mas estava sem sinal, Alex tentou arrombar a porta, mas as correntes eram fortes demais.


.- Um banho seria bom..
Caio.- Quem disse isso?!.. (Continua) 



O que está acontecendo?

Caro seja quem for que estiver lendo isso 
 Se encontrou esse diário, eu já devo estar morto 
Procurei por todos os lugares, mas não os encontro 
Decidi acabar com tudo hoje a noite 
Fale para a Jenny que a amo. 
- Michael 

20 de abril, 2012 
Acordei hoje e o meu colega de quarto, Kevin, não estava, pensei que ele tinha saído para comer fora, ou algo assim, não seria algo incomum. De qualquer forma, desci para preparar o cereal, e vi o carro do Kevin no estacionamento. Isso não era comum, ele tinha acabado de tirar habilitação e nunca largava o carro. Então decidi ligar para o celular dele. Caiu no correio de voz. Isso não era típico do Kevin. Mas varri isso da mente e voltei para o cereal. Estávamos sem torradas, e o Kevin surtaria se eu ousasse tocar nos petiscos dele. Então resolvi passar na mercearia. Mas, a caminho de lá, percebi algumas coisas estranhas. Primeiro, não havia tráfego, as ruas geralmente ficavam apinhadas a essa hora do dia. Então as coisas ficaram realmente estranhas; entrei na mercearia e ela estava vazia. O estacionamento também estava vazio. Andei pelo local procurando por algum funcionário. Ninguém. Foi quando percebi que estava sozinho. 

3 de maio, 2012 
Estive coletando suprimentos por todas as lojas próximas, com sorte ainda havia comida suficiente para minha sobrevivência. Eu costumava pensar que ser a única pessoa no mundo seria algo incrível. Nunca precisar escutar alguém, conseguir tudo que quisesse de graça, notebooks de graça, games de graça, cara, você até poderia assistir filmes de graça. Seria uma vida perfeita! Mas eu estava errado. Não é. É uma vida solitária. Acho que eu deveria ir mais longe para verificar se há mais alguém vivo. Por que diabos fui escolhido para ficar, enquanto poderia ter desaparecido como todos os outros que conheço e amo. 

14 de maio, 2012 
Estive nos maiores sites que pude pensar, postando perguntas, procurando por alguem que pudesse me responder. Nesse meio tempo, comecei a explorar lojas e outro lugares. Aprendi como usar uma caixa registradora e como destravar máquinas de lanches com um kit de arrombamento que encontrei em uma loja de penhores. Tenho que manter as esperanças que ainda exista alguem por aí. Por que me deixar vivo, por que me fazer sofrer assim, por que Deus não me matou como todos os outros. 

24 de maio, 2012 
Anexarei uma foto que tirei da estação de metrô, como evidência de que tudo realmente aconteceu caso algum sobrevivente encontre esse diário. 

2 de junho, 2012 
Acho que estou começando a enlouquecer, por todos os lugares que olho, vejo alguém, mas apenas por um breve segundo. Ouço pessoas. Vejo coisas. Ouço ele. Ele me fala sobre o que preciso fazer para sobreviver. 

4 de julho, 2012 
Antes, eu pensava que ele fosse mal, mas eu estava errado! Ele é incrível! Ele me ajuda. Me fala o que fazer. Me guia. 

13 de outubro, 2012 
Não gosto mais dele, ele quer que eu mate, mas não quero matar. Ele me trancou em casa. Vou tentar fugir. 

16 de outubro, 2012 
Recolhi suprimentos pela casa, e vou tentar fugir desse espaço confinado. Planejo mata-lo, preciso mata-lo, é a única maneira para que eu possa viver. 

3 de novembro, 2012 
Finalmente saí, e estou fugindo. Não posso deixa-lo me pegar. NÃO POSSO DEIXA-LO ME PEGAR. Se ele me encontrar, terei que mata-lo. Terei que mata-lo ou ele me matará. 

31 de dezembro, 2012 
Ele sabe onde estou, é apenas uma questão de tempo até ele me matar, se alguém encontrar isso, por favor, salve-se. Salve-se dele. 

1 de janeiro, 2013 
 Ele está aqui. Tenho que mata-lo. Tenho que mata-lo. Tenho que mata-lo. Tenho que mata-lo ou ele me matará. 

4 de janeiro, 2013  
Não pude mata-lo, mas não o deixarei me matar. Vou me matar, tenho que fazer isso ou ele me matará. Hoje, exatamente as 23:59, vou mastigar uma cápsula de cianeto. Escrevi uma nota e deixarei ao lado desse diário antes das 23:58, meus pensamentos reunidos, essas coisas. Ele não pode me parar. Não dessa vez.


21/01/2017

O Agente de Modelos

Olá, antes de começar a Creepy gostaria de me apresentar :) 

(Me chamo Andrey e sou o novo membro do Creepypasta Brasil, serei autor e também vou revisar e postar as creepypastas que vocês mandam pra gente, espero que gostem do meu trabalho.)

Me chamo Ana e outro dia enquanto caminhava, fui abordada por um cara muito simpático, ele disse que era membro de uma agencia de modelos e que eu tinha muito potencial. Ele me passou o endereço da agencia e no dia seguinte fui até lá, mas acho que o endereço estava errado, só havia um prédio vazio e caindo aos pedaços naquele lugar. 

Fui embora um pouco desapontada, mas com esperanças de encontrar o agente de modelos e esclarecer algum erro de informação. 

Eu reencontrei ele duas semanas depois, no mesmo lugar onde sempre faço minhas caminhadas, perto da ponte. 

Ele estava um pouco abatido e me disse que as coisas não estavam indo muito bem, ele me disse que o endereço estava certo, e que o prédio era antigo e etc.

Eu disse que ia voltar lá, mas aquele lugar era tão estranho.. Demorei uma semana para voltar naquele lugar. 

Quando eu cheguei lá encontrei o agente em frente ao prédio, sorrindo e com a mão estendida para me cumprimentar. Assim que eu cheguei perto dele, ele me disse: Eu sabia que você iria vir, estou muito feliz Ana. 

Aquilo foi meio assustador e estranho, era como se ele estivesse me esperando a dias, mas eu já estava lá, então eu entrei com ele no prédio. 

O prédio não era tão feio por dentro, era bem arrumado inclusive, mas não tinha ninguém nos corredores, ele me disse que estavam todos em uma palestra num hospital. Sem dúvida aquilo era mais estranho do que tudo até agora, o que afinal os membros de uma agencia de modelos foram fazer num hospital?

Ele recebeu um telefonema antes que eu pudesse perguntar alguma cois e pediu licença para atender numa sala reservada. 

Eu comecei a andar pelos corredores e tentar encontrar alguma coisa, mas as portas estavam fechadas, com exceção de uma.

Antes de continuar, quero dizer que aquilo não saiu da minha cabeça até hoje. 

Tinha uma sala de cirurgia ali, tinha uma mesa cheia de instrumentos cirúrgicos e na outra mesa um manual de necropsia. 

Então me dei conta de que eu estava ali para ser um objeto de estudos para jovens médicos. 

Eu saí dali o mais rápido que pude, e nunca mais nem passei na frente daquele lugar. 

Chamei a polícia, mas eles nunca encontraram nada lá.

Até hoje me revira o estomago pensar no que eles teriam feito comigo se eu não tivesse encontrado aquela sala aberta. 



17/01/2017

Lambidas de um Urso



ATENÇÃO!!!
Esse conto não é recomendado para pessoas com depressão, ansiedade, TDAH e/ou sensíveis. LEIA COM RESPONSABILIDADE!!! 

1º de Agosto de 2015, 9:00

Faz exatamente um ano desde que Jen foi embora. Isso significa que faz um ano e um dia desde que eu fui demitido. Eu não trabalhei desde então. Eu costumava gostar da ideia de ter uma deficiência, dinheiro fácil e todo o tempo do mundo para passar com ela. Eu acho que ela não pensava assim. Ela sempre foi ambiciosa. Eu não deveria dizer “foi”. Todo dia eu vejo posts dela no facebook detalhando seu constante sucesso. O mais recente era do noivado dela. Eu nunca a vi tão feliz.

Eu acho que eu soube que as coisas entre nós estavam indo ladeira abaixo quando eu olho para as nossas brigas. Ela sempre dizia algo sobre como eu era tão inteligente – que eu era mais inteligente que ela, de fato – mas que eu não tinha ambição. Me sentia tão bem ao ouvir que alguém tão brilhante quanto Jen pensava que eu era inteligente, mesmo que ela gritasse isso para mim em frustação. Ela alegava entender minha depressão e minha ansiedade e como eles eram bloqueadores horríveis no caminho para minha felicidade. Eu achei que ela conseguiria sentir empatia e ainda querer estar comigo de qualquer forma. Aparentemente eu estava errado.

Obter o beneficio para incapacitados não foi muito difícil. O dinheiro não era muito, mas paga o aluguel e me mantém alimentado. O único problema é que eu tenho que ir a terapia toda semana. E também preciso ir a consultas para pegar a receita para os remédios que combatem minha depressão, TDAH e ansiedade. É tudo tão burocrático e desapegado de qualquer coisa que se assemelhe a um cuidado real. Então, eu sou um perdedor solitário, desempregado que aparentemente tem essa "grande mente" que é totalmente inútil. Mas eu não vou ficar assim para sempre. Descobri algo novo. Bem, algo antigo, na verdade.

Hoje começa minha nova vida. A medicação nunca funcionou, a terapia nunca funcionou, as mudanças de comportamento nunca funcionaram. A medicina falhou comigo. Ou talvez eu tenha falhado com a medicina. De qualquer forma, estou tomando o controle de mim mesmo novamente. Eu não vou ser uma vitima das barreiras que meu corpo arma para mim. Chega de problemas de atenção. Chega de depressão. Chega de ansiedade. Pela primeira vez em talvez décadas, estou cheio de esperança.

1º de Agosto de 2015, 15:00

Todas as minhas ferramentas estão limpas e prontas. Dentro de uma hora eu vou começar. Eu preciso manter um diário bem abrangente do procedimento para ter certeza que eu não estou me prejudicando. Eu acho que um diário das minhas experiências vai me fornecer evidencias positivas (ou negativas) das mudanças no meu corpo, meu humor e nas minhas habilidades cognitivas.

1º de Agosto de 2015, 16:05

Depois de traçar um círculo do tamanho de uma moeda na parte superior direita da minha testa, usei uma faca Exacto para cortar a pele. Eu não estava preparado para quanto isso ia doer. Eu parei algumas vezes para limpar as lágrimas para que eu pudesse ver bem o suficiente para continuar. A pele levantou revelando o osso sem muitos problemas uma vez que eu tinha acabado o corte. Eu corri para o banheiro. Agora eu estou esperando o sangramento parar - já parece estar abrandando. É tão estranho ver meu crânio exposto dessa forma.

Eu vou escrever uma frase ou duas antes e depois de cada um dos próximos passos para que eu possa obter uma descrição tão boa quanto possível, para ver se tudo isso funciona tão bem quanto eu estou esperando.
Eu optei por usar uma pequena broca ao invés de uma grande. Um anel de buracos minúsculos vai levar muito tempo para ser feito, mas acho que existe a necessidade de precisão nesse caso. Estou prestes a fazer o primeiro buraco.

O primeiro buraco esta feito. Imagine a sensação de morder um pedaço de papel alumínio do tamanho de um punho o mais forte que você consegue enquanto sua cabeça soa como se estivesse cheia de zangões zumbindo. A vibração era tão excruciante que eu só agora estou sentindo a dor do local da broca em si. Eu vou fazer os próximos dez ou mais buracos antes que eu perca a coragem.

As vibrações tornaram-se menos intensas a cada furo. A dor óssea ficou muito pior, no entanto. Eu nunca tive enxaquecas, mas eu suponho que eles devem sentir algo assim.

Estou iluminando o anel de pequenos buracos e fazendo meu melhor para inspecionar o que está atrás deles no espelho. Não é muito útil. Os elementos estruturais restantes entre os furos são extremamente finos e quebradiços. Eu vou corta-los com o alicate para cortar fios.

Eu acabei de derrubar um círculo do meu crânio na pia. Agora estou olhando para a membrana brilhante e vermelha que esta cobrindo meu cérebro. Estou um pouco surpreso com quantos vasos sanguíneos tem lá. Vou colocar mais algumas toalhas. Cortar a membrana é a parte que mais me assusta.

Está feito, e o buraco está sangrando muito. Estou tomando cuidado extra para não colocar muita pressão sobre o orgão em si quando estou trabalhando para absorver o sangue. Eu estou me sentindo um pouco tonto, então enquanto eu seguro a toalha no buraco, eu como um pedaço de bife e bebo o suco de laranja que eu preparei para o caso de isso acontecer. A ferida esta começando a coagular enquanto eu espero aqui. Toda a área dói. É quase como se eu tivesse um segundo coração batendo lá.

O sangue parou de escorrer e eu estou limpando a área com agua e álcool. Agora eu posso ver meu cérebro. É cinzento. Não parece que ele me pertence. Não sei porque tudo parece tão surreal. É quase como se eu estivesse assistindo tudo isso acontecer com outra pessoa. No lado positivo, eu não estou mais tonto, mas estou exausto. Eu vou cobrir tudo com uma bandagem e ir para a cama. Eu limpo tudo amanha.

2 de Agosto de 2015, 6:30

Eu acordei essa manha com mais energia e animo do que eu jamais senti. Mesmo sentado aqui escrevendo isso me sinto alegre. Eu não estou lutando para encontrar palavras, eu não estou temendo que eu vá reler o que eu escrevi e achar que é estúpido e inútil - tudo apenas... funciona. Os relatos que eu tinha lido sobre pessoas que compartilhavam suas experiências com a trepanação faziam afirmações semelhantes, mas mesmo enquanto eu abria os buracos, eu nunca me permitia acreditar verdadeiramente que funcionaria para mim. Mesmo agora, estou preocupado que seja apenas um efeito placebo. A pulsação é real e mais forte do que nunca. Isso era outra coisa que meu colega de trepanação mencionou. Eles disseram que era porque o corpo está deixando o cérebro crescer novamente. Algo que o crânio havia evitado depois de endurecer após a infância. Não sei se acreditei na explicação, mas não posso negar o que esta acontecendo aqui.

2 de Agosto de 2015, 14:00

Passei o dia limpando o apartamento. Durante o ultimo ano, deixei que as coisas se amontoassem e se tornassem cada vez mais sujas a medida que minha depressão crescia. Hoje, é como se um véu tivesse sido erguido e a luz estivesse se derramando sobre tudo que eu coloco meus olhos. O apartamento precisava ser limpo, então eu apenas me organizei para o trabalho e limpei. Parece melhor agora do que quando eu e Jen nos mudamos. Meu terapeuta recomendou que eu limpasse ele a um tempo atrás, sugerindo que uma área aberta e agradável realmente me ajudaria a ver minha casa com um lugar para o potencial, ao invés de estagnação. Agora eu sei o que ele quis dizer. É com isso que potencial se parece.

O buraco na minha cabeça ainda dói e parece terrível, mas eu esperava por isso. Se eu sair, eu posso usar um chapéu e ninguém vai notar nada de errado. Eu não estou pronto para fazer isso, no entanto. Estou ligeiramente preocupado com o quão terrivelmente o local coça enquanto cura. Estou sendo extremamente assíduo em limpar e cuidar da ferida enquanto cura, mas acho que faz parte desse processo essa maldita coceira. Estou fazendo o possível para não pensar nisso.

2 de Agosto de 2015, 23:30

O primeiro dia inteiro do meu experimento esta prestes a terminar. Estou prestes a dormir e sinto que consegui muitas coisas hoje. Minha casa está impecável, eu terminei um conto que eu estava trabalhando nos últimos meses, coloquei as contas em dia e até fiz algumas flexões. Eu tive que me lembrar de comer, no entanto. Por qualquer razão, eu não estava com fome até que eu percebi que era quase 21h e eu não tinha comido nada o dia todo. Acho que foi devido a minha excitação. Tem sido difícil de conter. Mas, agora eu já tomei banho e coloquei meu pijama e estou pronto para terminar meu dia. Eu mal posso esperar por amanha.

3 de Agosto de 2015, 5:45

Estava de pé antes do meu alarme para ver o sol nascer do telhado do apartamento. Ontem a noite eu dormi como uma rocha e não acordei uma vez sequer. Eu notei um pouco de sangue no meu travesseiro e embaixo das minhas unhas, acho que eu posso ter coçado um pouco por debaixo da atadura enquanto dormia. Eu corri para o banheiro para inspecionar o buraco e, felizmente, não parecia ter nenhum dano. Tudo parece estar curando bem.

3 de Agosto de 2015, 13:15

Eu não sei se são as endorfinas diminuindo ou apenas um artefato da minha depressão, mas a minha euforia diminuiu um pouco desde esta manha. Eu estou agora pensando que poderia ser ambos. Talvez eu precise de uma boa refeição. Deve ter algo na geladeira.

3 de Agosto de 2015, 21:00

O que eu senti esta tarde não parece ter sido um acaso. Enquanto meu humor melhorou um pouco depois do almoço, eu estava de volta ao ponto inicial o resto do dia e a noite. O pulsar do buraco diminuiu com o meu humor, curiosamente. Quando estou me sentindo feliz ou ambicioso, ele pulsa muito. Pode ter algo a ver com a minha pressão arterial, por isso vou ficar de olho nisso. Antes de dormir eu vou fazer alguns saltos e ver o pulso retorna. Estou bastante certo de uma correlação entre a maior taxa de pulsos com um raciocínio melhor.

Acabei de fazer o exercício. O pulsar é o mesmo. Minha frequência cardíaca aumentou, mas o meu humor continua ruim. Estou indo para a cama.

4 de Agosto de 2015, 11:00

Acabei de acordar e me sinto péssimo. Eu estava coçando o buraco novamente. O travesseiro esta encharcado com sangue e há crostas remanescentes sob minhas unhas. Esta noite vou usar luvas. Pondo isso de lado, meu humor está bem próximo de onde estava antes de eu começar esse processo. Estou preocupado que a área de superfície exposta do meu cérebro não seja suficiente para um efeito duradouro. Eu não confio em mim mesmo para ampliar o buraco que já esta lá, mas estou preparado para fazer outro, a uma polegada de distancia ou menos.

4 de Agosto de 2015, 12:30

Houve um problema com o segundo buraco. Eu fiz tudo como da ultima vez, mas no ultimo furo minúsculo formou uma rachadura no crânio entre o furo original e o novo. Eu tive que descascar a pele que eu tinha deixado para ter certeza, mas definitivamente estava lá. Fui forçado a decidir se devia ou não deixar o pedaço quebrado, e optei por tirar. Agora eu tenho um furo oval que tem cerca de 3 centímetros de comprimento e 1 polegada de largura. Remover a membrana dessa parte foi difícil e eu tive um problema com a lamina indo mais profundamente do que eu queria. Felizmente o cérebro não tem receptores de dor. Não poderia ter ido mais de meia polegada a dentro, mas nada estranho aconteceu com meu corpo. Então eu tive sorte e bateu na parte dos 90% que dizem que não usamos. Eu sei que as pessoas estão dizendo que isso é um mito, mas como o que acabou de acontecer comigo, deve haver alguma verdade nisso.

5 de Agosto de 2015, 8:00

Sem coçar durante a noite. O pulso ainda está lá, mas não é nem de longe tão forte como foi a primeira vez. Meu humor ainda está ruim. Eu tenho que ser honesto comigo mesmo aqui: eu me sinto como um fracassado. Todo esse experimento é outro exemplo da minha vontade de fazer algo com boas intenções e acabar com tudo explodindo na minha cara. Mas eu não vou ser derrotado por ele. No passado, eu teria parado, Jen teria começado uma briga comigo e eu apenas a adicionaria a cascata sem fim que são os erros que formam minha identidade. Não desta vez, no entanto. O aumento da minha ambição desde o inicio desse tratamento ainda deve estar forte, porque eu estou determinado a ir até o fim.

5 de Agosto de 2015, 20:00

Há mais quatro furos na minha cabeça. Eu não achei que fosse capaz de fazê-los. No final do ultimo, quase desmaiei. Estou feliz por ter tido a previsão de manter alguns pacotes de açúcar por perto para que eu pudesse recuperar as forças para terminar.

Apesar do problema da minha tontura, estes quatro foram melhores que os anteriores. Eu usei os lados esquerdo e direito da minha cabeça desta vez, bem acima das minhas orelhas. O crânio era muito mais fino do que na minha testa, então a vibração da broca não era tão excruciante. A perda de sangue foi significativamente maior, porem, o que explica o desejo de desmaiar. Eu estou com toalhas de mão enroladas em torno da minha cabeça, assim eu evito sujar o lugar todo de sangue. Sorte minha, meu sangue coagula bem rápido. Palavra engraçada. Coagulo.

6 de Agosto de 2015, 6:20

Eu dormi sentado e acordei com um enorme pulsar, não somente nos buracos novos, mas nos velhos também. O segundo buraco apresenta um pequeno problema, no entanto. Acho que pode estar ficando infeccionado. A coceira é insuportável e acho que pode estar começando a feder. Eu despejei álcool em todos os lados e pressionei toalhas limpas, portanto, esperançosamente acho que isso vai parar qualquer infecção ali.

Meu humor estava ótimo. Ainda não tão bom quanto no primeiro dia, mas muito melhor que os dias seguintes. Estive pensando muito em Jen. Tínhamos tantas coisas em comum. Nós amávamos falar sobre animais e usávamos esse assunto para nos desviar de nossas discussões, falávamos sobre todos os animais exóticos que teríamos quando nós fôssemos ricos. Seus favoritos eram os rinocerontes. Os meus eram hipopótamos. Eu costumava dizer a ela sobre o lago que teríamos em nosso quintal onde meu hipopótamo pigmeu iria brincar com seu bebe rinoceronte. Depois que ficassem cansados, nós os convidaríamos para o pátio onde eles se enroscariam um ao lado do outro enquanto olhávamos para eles e um para o outro. Gostaria de saber como ela se sentiria sabendo que eu tenho feito todo esse trabalho para melhorar a mim mesmo. Ela provavelmente me mandaria fazer mais.

7 de Agosto de 2015, 12:35

Eu fiz mais. Todo o dia de ontem, eu perfurei. Eu perfurei e cortei e puxei e descasquei. Eu sinto que posso enfrentar o mundo. É quase como na vez que eu usei cocaína na faculdade, mas o efeito durou muito mais tempo. Eu vou atualizar novamente hoje se eu tiver que faze-lo, mas por enquanto, vou trabalhar em algumas das minhas historias.

9 de Agosto e 2015. 9:00

Onde eu estive? Escrevendo. Desde o outro dia eu escrevi 100 páginas de uma história que eu nem sabia que tinha em mim. Lê-la é como se eu estivesse olhando para o trabalho de outra pessoa. Alguém muito, muito melhor. Um estranho eu acho.

Em uma nota ligeiramente menos agradável, definitivamente há uma infecção em alguns buracos. Um deles esta escorrendo um liquido cinzento que tem um cheiro terrível e todos eles coçam. Quando eu os esfrego com uma toalha para tentar coça-los eles se abrem e começam a sangrar ou vazar um liquido claro. Eu acho que é como um resfriado que tem que correr seu curso, mas eu vou ser condenado se isso se tornar um problema remotamente parecido com o que a depressão era.

10 de Agosto de 2015, 7:40

Eu cocei enquanto dormia. Não sei o que dizer além de: foi péssimo. É difícil dizer pelo que eu vejo pelo espelho, mas eu posso ter danificado alguma parte do meu cérebro pelos buracos da testa e do lado esquerdo. Um pequeno pedaço esta pendurado em uma linha que se parece com um pequeno vaso sanguíneo. Eu tentei enfia-lo de volta sob a borda do crânio, mas eu tive que pressionar muito para faze-lo e estou preocupado de que eu tornei tudo ainda pior
Ao menos eu vi um urso hoje.

15 de Agosto de 2015, 16:15

Mais buracos para mim. Raspei minha cabeça. Não há mais cabelo, muito mais buracos. Lembra daquelas bolas de beisebol de quando éramos crianças? Um dia eu vou dizer a Jen como eu pensei que minha cabeça se parecia com uma bola de beisebol. Ela sempre gostou de beisebol e de brincar com meu cabelo. Minha infecção na cabeça estava ficando pior antes do urso chegar. Agora ele lambe minha cabeça enquanto eu durmo e mantém longe as coisa nojentas. Jen ama ursos. Ursos e rinocerontes.

Todas as manhas eu tenho que limpar minhas unhas, muito. Acariciar o uso faz elas ficarem realmente sujas. É legal que o urso tenha raspado o pelo quando eu raspei a cabeça, assim eu não me sinto estranho. Esses pulsos na minha cabeça são bons e fortes o tempo todo. Isso é bom. O urso me lambe muito enquanto eu durmo.

15 de Agst de 2015, 5000

Coçar o urso em suas orelhas faz ele lamber, lamber muito. Muitas lambidas significam menos coceira. Jen coçava minhas costas quando estava com coceira. Uma vez ela me viu tentando coçar entre meus ombros usando a moldura da porta. Ela me chamou de urso, porque é isso que ursos fazem quando coça lá atrás. 60 buracos, vou cortar os pedaços entre eles. Farei meu urso orgulhoso já que não pude deixar Jen orgulhosa.


E ai gente? Perdão pelo sumiço, mas a vida é complicada. Enfim, o que acharam do texto? Se  quiserem indicar alguma história só mandar aqui!


06/01/2017

Rostos novos

Olá, meu nome é Seth. Estou escrevendo essa carta, a engarrafando, e a jogando pelo córrego próximo da minha casa. Escrever me ajuda a manter a sanidade. Com sorte, alguém que continuar lendo isso, virá me salvar.

Tudo começou ha um mês. Eu estava em meu escritório, no porão, assistindo Mystery Science Theater 3000 no computador. O telefone tocou ao meu lado, mas eu não dei atenção.

Nunca era para mim; e nas raras vezes, era o meu irmão, e enquanto conversávamos, o meu sobrinho sempre pegava o telefone para tentar falar comigo também. A minha mãe gritou lá de cima que o telefonema era para mim. Sim, eu ainda vivo com meus pais. Pode rir. De qualquer forma, eu atendi.

“Alô?” falei, prestando mais atenção para as palhaçadas que o robô fazia na tela do computador.

“Começou.” A voz soava como um choramingo, um apelo. Eu não reconhecia a voz.

“O que?” Perguntei, imaginando quem poderia estar ligando.

“Eles vieram. Não tenho muito tempo, Jeff; você me pediu que ligasse se o que fizemos desse errado.”

Agora, um pouco preocupado, falei, “Acho que você ligou para o número errado. Aqui é o Seth, não Jeff.”

“NÃO SAIA DE CASA!” A pessoa gritou. Completamente apavorado, bati o telefone. Deveria ser algum trote, mas não foi engraçado. Aturdido, resolvi deixar para lá.

Mais tarde, acabei de assistir e desliguei as luzes para subir as escadas. Estava muito escuro, mas eu já sabia o caminho. Porém, dessa vez a escuridão parecia um pouco mais opressiva. Tentei ignorar a sensação e subi as escadas. Enquanto passava pela sala de estar, arrisquei uma olhada pela janela. Havia pessoas lá fora, andando ou algo assim. Olhei meu relógio e ele marcava 3:00 AM. “Que estranho,” murmurei. Cambaleei para o meu quarto e me preparei para dormir.

Eu fui um tolo naquela noite. Se eu tivesse percebido o que tinha visto, teria me poupado do terror e saído de casa.

Na manha seguinte, a TV estava ligada no noticiário. O que era estranho, pois o meu pai sempre deixava nos esportes antes de sairmos para o trabalho. Mas eu nem dei muita atenção, enquanto puxava uma gravata e seguia para o banheiro. Uma estranha sensação rastejava em minhas entranhas enquanto eu cumpria minha rotina matinal. Eu sempre tinha que lutar pelo banheiro, mas hoje não havia nenhum som pela casa. Dei uma olhada na sala e percebi que a porta da frente estava aberta, mas a porta de vidro que levava para a rua ainda estava fechada. Tudo estava silencioso. Olhei para fora e vi as mesmas pessoas que tinha visto na noite passada.

Abri a porta.

Imediatamente, seus rostos se viraram em minha direção. Recuei e voltei para dentro o mais rápido que pude, sentindo algo agarrar meu tornozelo. Seus rostos mostravam olhares inexpressivos e suas bocas estavam levemente boquiabertas e pingando sangue. Olhei para baixo e vi um deles na varanda, retraindo os braços. Ele tinha tentado me agarrar. Com uma estonteante sensação de horror, reconheci o meu irmãozinho.

Batendo a porta, tranquei e corri de volta para a sala. A televisão anunciava uma doença que estava se espalhando pelo sul do Canadá, atravessando para os EUA. Desliguei a TV e chamei por alguém que ainda estivesse em casa.

Sem respostas...

E assim começou a minha solitária existência. As notícias continuaram por alguns dias antes de cessarem. Os jornalistas mantiveram o mesmo erro estúpido: voltavam para casa todas as noites. A eletricidade ainda estava sendo distribuída; acho que alguém continuava trabalhando na usina. Ou talvez apenas a Nova Inglaterra havia sido tomada; Eu não sei. A internet também tinha caído, o que era irritante.

Enquanto as noticias ainda eram transmitidas, eles os chamavam de zumbis. Eu achava que realmente eram zumbis, pois eles não faziam muitas coisas e estavam definitivamente mortos; eles andavam até suas pernas apodrecerem, então se arrastavam ate literalmente caírem aos pedaços. Porém, enquanto tinham pernas eles eram rápidos. Foi como tinham pego a minha família, eu suponho. E o carro de policia que tinha vindo à procura de sobrevivente... não era algo legal de se ver todas as manhãs.

Eles tinham virado o meu carro, então eu estava preso. Mais um policial veio. Eles não precisavam de comida, então nem acabaram de comer o pobre policial. Mas o desmembraram; por isso ele não pôde se levantar para se juntar a eles. Porém, eu podia vê-lo rangendo os dentes, infrutiferamente.

Por quase uma semana, o cara no rádio falava que estavam caindo aos pedaços, então tudo o que precisaríamos fazer seria esperar que se desintegrassem por completo. Então ele ficou impaciente e saiu. Ninguém passou noticias pelo rádio por duas semanas.

Porém, estou encrencado. Não há mais comida em casa. Não posso esperar que todos caiam mortos outra vez. Fiz algumas expedições para o armazém. Sorte que eu tinha uma coleção de espadas.

Eles eram muito lentos para me pegarem enquanto eu corria, mas estavam em grande número, o que me assustava as vezes. Da última vez, eles quase me pegaram. Enquanto voltava, quebrei a porta que dava para a rua; agora o frio se infiltra na casa todas as noites e nesse mesmo momento posso ver um deles de pé na varanda, a menos de dois metros de onde estou escrevendo essa carta.

Você estará seguro dentro de casa. Não me pergunte os motivos que os fazem evitar de tentar entrar. Seja qual for o motivo, é o que me mantém vivo. Infelizmente, eles parecem saber que há alguém vivendo dentro da casa. Não me pergunte como; esse carinha na varanda nem tem mais os olhos. Talvez possam ouvir batimentos cardíacos, ou sentir o cheiro de suor... ou sangue.

Passei alguns dias pondo nomes neles. Alguns rostos eu já reconhecia. Era sempre o mesmo grupo rondando por aqui pelas ultimas semanas, e a quantidade vai diminuindo conforme vão se deteriorando. Porém, eles nunca vão embora. Lá fora, havia 79 deles que um dia já foram homens e 63 que já foram mulheres.

Uma vez, apenas para ver o que aconteceria, atirei na cabeça de um deles, com uma calibre 12. Apenas para ver se aquela coisa de “atire sempre na cabeça dos zumbis” era realmente verdade. Então, agora tem 79 deles que um dia já foram homens, 62 que já foram mulheres, e 1 que já foi uma mulher e decidiu continuar de pé mesmo perdendo 80% da cabeça. E eu estou com uma bala a menos.

Então eles esperam… e eu estou enlouquecendo. Falo constantemente comigo mesmo e comi um animal empalhado na noite passada. O algodão não desceu tão fácil, mas me sinto bem por ter algo no estômago. Não há arvores frutíferas por perto e, de qualquer forma, estamos em Novembro. A água está ficando escassa. A distribuição foi interrompida há oito dias; com sorte, enchi uma banheira e cada garrafa que pude encontrar antes da interrupção.

Ah, que ótimo. Agora as lâmpadas piscam e fazem uns zumbidos. Me pergunto se a energia também será interrompida.

...

Bom, isso não foi legal. Totalmente sem energia por quatro dias. Já tentou dormir no escuro sabendo que há criaturas lá fora que o mataria e o tornaria um deles na primeira chance que tivessem? Provavelmente, já que essas coisas parecem estar por todos os lugares.

Nota: já mencionei sobre Herschel, o cara em minha varanda?

Uma de suas pernas caiu, e agora ele fica sentado cheirando ela. Graças a Deus por eles terem perdido quase todas as funções cerebrais. Estou bastante certo de que as almas não estejam sendo mantidas em cativeiro dentro dessas coisas, e que continuam funcionando apenas com a função de tentar espalhar essa doença (ou o que seja) o máximo que puderem.

 Não sei se você já percebeu, mas os animais parecem não ser afetados. Isso já é um pequeno conforto. É claro que eles morrem se comerem algum infectado, mas não se levantam depois de mortos.

Estranho, né? Estou ficando com fome e desesperado. Talvez… talvez eu pudesse carregar a .22 e atirar em algum esquilo lá fora. Mas como eu poderia ir pega-lo?

Por um lado, estou otimista por saber que você ainda está por aí, seja lá quem for. A energia não poderia ter voltado se não houvesse pessoas trabalhando para restaura a ordem. Estou me sentindo sortudo; hora de pegar uma espada e ir jogar essa mensagem no córrego. Talvez toda essa coisa já esteja acabando.

Talvez…

Mas por outro lado, se essa coisa já está chegando ao fim...

Por que hoje há rostos novos lá fora?


05/01/2017

Caviar


Fui a diversos locais do mundo para encontrar as melhores comidas. Seis continentes, milhares de regiões, incontáveis pratos; tudo para encontrar a refeição perfeita. Por um tempo, achei que nunca conseguiria. Sempre havia algo meio estranho; o sal, o frescor, a temperatura - pequenos defeitos que, para qualquer outra pessoa, não significaria nada. Entretanto, para mim, havia uma diferença distinta entre perfeição e o comum. Minha missão continuava. 

Durante minhas viagens, eu descobri sobre um "clube de jantar underground" em Moscou, que se encontravam uma vez por ano. Enquanto "clube de jantar underground" parecia ser misterioso e ilícito, é apenas um lugar que funciona causalmente, ou seja: sem um alvará da vigilância sanitária. Chefes de cozinha por todo o mundo fazem isso sempre para seus amigos. Eu mesmo já fui em vários. 

Mas esse tinha o intuito de ser diferente. Eles tinham o melhor caviar. 

Caviar é um item de luxo, mas até na Rússia-obcecada-por-luxo, começou a ser bem menos usado por questões de sustentabilidade. Ainda está disponível abertamente, mas os que são realmente bons estão cada vez mais difícil de se encontrar. É muito complicado colocar as mãos na "coisa realmente boa". Está trancado pelos Oligarcas e chefes de estado; se você não é um deles ou não está em sua companhia, está sem sorte. Então quando ouvi que o clube de jantar estaria servindo o melhor do melhor, eu sabia que teria de ir até lá. 

Mas não foi fácil. 

Levou quatro anos para conseguir me engrenar com gourmets influentes de Moscou. Gastei milhares e mais milhares de dólares em seus restaurantes, construindo uma boa reputação, escrevendo em meus blogs sobre suas comidas e cultivando relacionamentos. Vasily Protchenko, um dono de restaurante e subcelebridade de Moscou, foi quem me notou. Depois de um certo tempo, nos tornamos amigos. Eu não sabia se ele era membro do clube de jantar, mas se realmente existia, ele tinha de ser. Mas não falei nada. Eu aguardei. 

Em uma tarde, Vasily e eu estávamos conversando sobre caviar, especialmente sobre as melhores fontes. Ele mencionou os mares do Japão, o que achei estranho, sendo que o desastre de Fukushima havia afastado as pessoas de comprar frutos do mar daquela área. Ele concordou que o que acontecera lá era moderadamente desconcertante, mas insistiu que o caviar daquelas águas era sublime. Foi aí que aconteceu. 

"Sabe," me falou, "tem um ainda melhor. Algo que quase ninguém sabe a respeito. Você consegue guardar um segredo?"

Eu dei o meu melhor para não parecer super animado. Tinha que ser o que eu estava aguardando todo esse tempo. 

"Claro," falei, e me inclinei em sua direção para ouvir melhor. 

Vasily me contou sobre o clube de jantar. Haviam 20 chefes e poucos dos seus melhores amigos de todo o mundo. Eles se encontravam em um restaurante no final da mesma rua do de Vasily, e se eu estivesse disposto a pagar a barganha de 5 mil dólares e manter minha boca calada, eu poderia ir junto. Uma hora e uma visita até o banco depois, eu tinha os 5 mil. Tudo que eu tinha que fazer era esperar. 

Na noite do jantar, eu me encontrei com Vasily em seu restaurante e tomamos uns drinks. Então andamos até o lugar do encontro, no qual havia uma placa dizendo que estaria fechado no final de semana. Demos a volta e entramos pela porta da cozinha. A cozinha estava cheia de chefes. Alguns eu reconheci de minhas viagens, alguns eram desconhecidos para mim. Todos estavam preparando pratos para a noite. 

Sentamos no salão principal e admirei a decoração. O quarto estava suavemente iluminado com velas e as janelas estavam tapadas com papéis pretos. Estava óbvio que aquele era um jantar particular e que olhos curiosos não eram bem-vindos.

"Como funciona aqui?" Perguntei a Vasily. 

"Eles só começam a trazer os pratos. São pequenos, obviamente, para você poder provar todos. O caviar fica para o final, acho. É o prato mais raro e mais especial de todos." 

Como ele havia dito, a comida começou a chegar. Fomos agraciados com pratos magnificamente preparados por chefes meticulosos e com as mentes mais geniais possíveis. Eu comi e bebi até minha mente girar. 

Vasily pediu licença e foi para a cozinha. Conversei com alguns dos outros convidados e descobri que vários eram como eu - gourmets ricos procurando por a melhor das experiências gastronômicas.

Depois de mais alguns pratos, alguém perto da cozinha bateu palmas para conseguir a atenção de todos. Para minha surpresa, era Vasily. 

"Quero agradecer por todos que vieram nesta noite," anunciou. "A noite, como sempre, foi de um incrível sucesso. Demos uma amostra da culinária dos melhores chefes do mundo, e como de costume, gostaríamos de terminar a noite com algo muito especial. Vocês todos sabem como sou apaixonado pelo meu caviar. Vocês já provaram os melhores de todos os lugares; Rússia, Japão, canada, etc, etc. Hoje à noite, tenho mais um presente. É algo extremamente raro e demora um tempo muito longo para ser produzido em quantidades que se encaixem em nosso consumo." 

Um desfile de garçons carregando travessas prateadas emergiu da cozinha. Se espalharam pelo salão, colocando um prato de comida na frente de cada um dos convidados. Vasily continuou. 

"Esse é o ponto culminante de anos de trabalho. Tive que mexer vários pauzinhos e puxar diversos sacos para conseguir trazer isso para vocês hoje a noite, mas pela primeira vez, eu gostaria de dividir com vocês este caviar. É sem dúvida nenhuma o mais raro do planeta, e acredito também ser o mais peculiar. Por favor, aproveitem." 

Todos aplaudiram e Vasily voltou a sentar do meu lado. 

"Eu não fazia ideia que era você que estava por trás do caviar!" Exclamei. 

Vasily sorriu. "Queria que você ficasse surpreso," admitiu. "Agora, por favor, coma. Quero saber o que você acha." 

Olhei para meu prato. Havia uma torrada, amorenada com perfeição, coberta com uma pasta marrom-avermelhada. Acima da pasta estava um bocado de crème fraîche salpicado com pequenos pedaços verdes de endro. Minha boca salivou. 

Levei até a boca e mordi. Minhas pálpebras se fecharam e mastiguei, saboreando o gosto. Era espesso e salgado, com notas ricas e distintas de fígado. Era totalmente diferente de qualquer caviar que eu experimentara no passado, mas sem dúvida alguma, era espetacular. Comi mais um pedaço. A complexidade do sabor era de tirar o folego. Sem perceber, eu estava sorrindo feito um idiota o tempo todo. 

"Então, o que achou?" Vasily perguntou. 

Engoli e disse, "É a coisa mais incrível que eu já provei. É tão suave e amanteigado; não tem nada do salgado habitual dos caviares normais e, inicialmente eu não percebi, mas então as notas fígado vieram e abraçaram minha língua. De onde é?"

"Coreia do Norte," me respondeu. 

"Meu Deus," respondi, "como você teve acesso aquelas águas sem ser baleado?"

"Bem," começou a falar, "eu conheço um cara. Ele é médico lá." 

Peguei o último pedaço e comi enquanto Vasily falava. 

"Eu sabia que nunca poderia pescar nas águas da Korea do Norte. Mas na primeira vez que eu e o médico conversamos, percebi que ele tinha acesso a esse caviar sem nem perceber. Durante diversos anos, eu paguei uma boa quantia de dinheiro para que ele o coletasse para mim."

Eu estava intrigado. 

"Então o médico te traz o peixe?" Perguntei. 

Vasily riu. "Não, não, não. O médico não é um pescador! Ele é um especialista - ele não tem tempo para pescar."

"Especialista em que?" Quis saber, totalmente confuso. 

"Ginecologia," disse. "Lá eles realizam muitas esterilizações forçadas. É péssimo para elas, mas ótimo para nós. Sem isso, não teríamos esse caviar!"

O salão pareceu escurecer e senti minha boca ficando muito úmida e muito seca ao mesmo tempo. Eu mal consegui formar a pergunta. 

"Vasily, que tipo de caviar é esse?"

O chefe sorriu. 

"Caviar humano!" 
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