28/02/2017

Companhia

Creepy dos fãs de hoje foi enviada por: Jean Marcus :) 

Obrigado por colaborar com a gente. 

Seja como for a maneira que encare meu relato, não ouse duvidar das minhas palavras, e por mais que eu pareça uma jovem imprudente, não ouse formular conclusões ou pensamentos errôneos e precipitados sobra a minha pessoa, pois até ontem à tarde, eu não entedia por que a Praia Proibida era tão evitada.
                

Quem mora aqui na Costa Verde sabe que a ida à Praia Proibida é, como diz o próprio nome, bastante não recomendada. A questão que me fez criar certa curiosidade é que não existia nada lá e provavelmente isso mantem-se assim até os dias atuais, não era nenhum território militar ou reserva ambiental.
                
Provavelmente, depois que eu postar essa história ridícula em algum lugar, muitos vão questionar o motivo de uma jovem moradora da Costa Verde, a região com as mais belas praias do estado, nutrir um enorme fascínio pela misteriosa Praia Proibida, mas para ser sincera, naquela época nem eu mesmo entendia aquela vontade gritante de ir contra as superstições locais e marchar em rumo ao mistério.
                
Saí de casa às quatro da tarde de uma corriqueira quarta feira e consultei um mapa da região que ficava pendurado em um quiosque de informações no final da minha rua. Por mais que a prefeitura tivesse apagado a Praia Proibida de todos os mapas da minha pequena cidade litorânea, eu tinha uma vaga noção de onde a mesma localizava-se, tudo que eu precisava era saber exatamente qual ônibus pegar e aonde aproximadamente eu deveria desembarcar.
                 
Assim, caminhei até a rodoviária do bairro e peguei um ônibus que viajava pela rodovia 206 em direção ao oeste, beirando algumas das praias da região. Depois de alguns poucos minutos de viagem, desembarquei em um ponto deserto aonde antigamente existiam algumas lojas e quiosques.
                
Olhei em minha volta e, na ausência de transeuntes e observadores, virei-me em direção à mata litorânea que haviam deixado crescer e desci uma encosta minimamente íngreme em direção ao mar. Foi uma tarefa árdua atravessar matagal e descer por aquele terreno declivado, inclusive tropecei em uma raiz grossa e rolei pelo solo úmido e inclinado. Recompondo-me e tirando o excesso de terra do meu vestido florido, prossegui com a descida e depois de algum esforço, já conseguia ver a areia da praia e um pouco do mar.
                
Conforme a pequena mata tropical sobre o declive se dispersava com a descida, algumas estreitas filas de palmeiras arquejadas se posicionavam aonde a areia da praia começava. Imprudentemente, segui em frente e ignorei duas placas rudimentares pregadas em uma árvore com os seguintes dizeres:
                “Retorne” e “Evite este lugar”, eram o que os avisos toscos diziam.
                
Sem me preocupar, finalmente pus os pés descalços na areia e guardei as sandálias na pequena bolsa de palha que havia trago. Aquela areia era extremamente macia e limpa, totalmente agradável. 

Olhando de leste a oeste, calculei que a extensão da praia não passava de um quilômetro e meio, então fiquei perambulando por lá durante algum tempo, aproveitando a brisa, o silêncio paradisíaco e a beleza virgem daquele lugar, constantemente olhando para trás para ver minhas pegadas marcas sobre a areia lisa.
                
Por mais que aquela expedição já tivesse um caráter imprudente, não ousei nadar. O mar estava agitado e caso algo de grave me acontecesse ali, talvez jamais me encontrassem. Entretanto, nunca havia ouvido o som do quebrar das ondas soar tão belo e majestoso quanto naquele lugar isolado e esquecido.
                
Talvez, por mera influência das superstições locais, eu tenha vislumbrado as sombras das folhas das palmeiras dançarem fantasmagóricas sobre a areia como se fossem tentáculos bizarros ou braços de estrela-do-mar. Foi aquilo que me fez notar a ausência de vida naquele lugar – nada de aves, insetos, ermitões ou flores – e senti uma vibração bastante insólita.
               
  Percebendo que o silêncio, a solidão e o vento ululante da Praia Proibida criavam uma conjuntura tenebrosa, rumei em direção ao declive e acabei por tropeçar em algo bastante rígido, caindo na areia como uma tonta desequilibrada. Era a porcaria de um osso. Um osso grande e largo que lembrava uma perna humana. Eu fiquei de acordo com a minha própria pessoa que aquilo já era demais e comecei a caminhar de volta para o declive para finalmente abandonar aquele local.
                
Alguma coisa indescritível me dizia, no meu interior, que era necessário abandonar aquele lugar o mais rápido possível. Entretanto, aquele misterioso paraíso ainda merecia uma última vislumbrada. Olhei para trás e o que vi gelou todas as artérias do meu coração e me fez disparar em direção à subida que me levaria de volta à estrada. Escalei aquele terreno íngreme com uma fugacidade desesperada, tropeçando a cada segundo e alcancei a estrada sem demora, aonde pedi carona ao primeiro veículo que aparecera.
                
Não menti para a simpática senhora que havia me concedido carona e constantemente olhava para meu vestido completamente imundo e rasgado. Disse que estive na Praia Proibida e ela respondeu depois de murmurar algo.
               
  “Considere-se sortuda por ter saído com vida daquele lugar fantasmagórico, minha jovem”, ela disse antes de narrar histórias de antigos colegas que haviam desaparecido ao ousarem desbravar aquela praia supostamente amaldiçoada.
               
  “O que mora lá, provavelmente não deve gostar de visitas”, a idosa comentou e eu concordei, mas quando a simplória mulher me perguntou sobre o que havia acontecido, estremeci até a ponta dos dedos do pé, que ainda continham grãos da areia daquela praia assombrosa. Ela parecia preocupada, então não tivesse escolha e contei.
               
  Pode parecer ridículo, mas colocando-se no meu lugar, qualquer um teria calafrios. A verdade é que andei pela Praia Proibida por um bom tempo e constantemente monitorei meus passos. O verdadeiro susto foi ver, só no final da minha breve estadia na praia, que além das minhas pegadas na areia, existiam mais outras a me seguir.

E posso afirmar que elas não eram nem um pouco humanas.


27/02/2017

Creepypasta dos fãs: A Garota do Casaco Azul

Bom... O título descreve o que ela era para a maioria das pessoas ao seu redor. Apenas uma garota estranha com um casaco azul. Não tinha um olhar amigável, brilhante ou alegre. Não era bonita, não tinha amigos. Tinha cabelos negros e longos. Uma aparência realmente ameaçadora.

Nunca parei de observá-la. Nem por um segundo. Seu nome? Ninguém sabia. Ninguém ligava. A garota era apenas um pequeno ponto de solidão em um ambiente agitado e turbulento. Por isso a amava tanto. Éramos ambos jovens, calados, frios e invisíveis. Tínhamos a mesma paixão: Observação. Gostávamos de ver as amizades, as brigas, as constrangedoras situações comuns aos adolescentes.

Então começamos. Filmávamos tudo ás escondidas com uma câmera de vídeo. Ah, as filmagens... Minha mente se conforta apenas de se lembrar delas. Filmamos brigas, amizades, términos de relações, inícios de relações, sexo ás escondidas... Tudo o que víamos. No fim do dia, nos sentávamos confortavelmente no sofá e assistíamos a tudo. Isso não era uma espécie de passatempo, projeto ou algo do tipo. Era o nosso modo de vida.

Um dia, decidimos participar. Estaríamos nos formando em breve, então queríamos uma última risada. Como participamos? Não, não chantageamos ninguém com as filmagens. Isso seria muito clichê. Reunimos todos em uma sala de audiovisual. Como? Pagamos 10 reais para cada um que assistisse ao filme. Mantivemos em segredo o real conteúdo do vídeo. Enfim, com todos reunidos, pedi para que se preparassem. Mas que se preparassem de verdade. Não como em um anúncio ou em um trailer. O que veriam ali realmente mudaria suas vidas como um todo.

Finalmente, começou. Os jovens assistiram a um compilado das filmagens feitas por mim e minha amada. Mas apenas as partes ruins. Aqueles adolescentes tinham um ego inflado demais. Decidimos botar um fim nisso. Enquanto assistiam, um clima frio tomou conta do recinto. Os alunos ficaram pálidos como neve, com a respiração pesada e um olhar de puro desespero. Quando o filme acabou, o pânico e a anarquia tomaram conta daquelas frágeis almas. Os alunos estavam se matando com cadeiras, barras de ferro e, em alguns casos, apenas com seus próprios punhos.

Enquanto ás observava, a garota deixou uma lágrima correr por sua macia pele.

-Essa... É a coisa mais linda que já vi em toda a minha vida. Devemos filmar?      Disse a garota.
-Não... Não é necessário. Nos lembraremos deste momento pelo resto de nossas vidas.    Eu respondi.

Então deixamos a escola. Não como uma fuga, pois apenas criminosos e covardes fogem. Saímos pela porta da frente, como fazíamos todos os dias, porém com uma diferença: Estávamos rindo.

Rimos histericamente enquanto aqueles animais podres se espancavam até a morte. Mal sabiam eles que a porta da sala estava trancada de fora para dentro. Mereceram serem trancados, pois demoraram uns 10 minutos para perceber que estavam presos lá. Quando o faxineiro ouviu gritos vindos de lá, correu para ver o que estava acontecendo.

Destrancou a porta, mas era tarde demais. Havia apenas um garoto lá, que quando ouviu a porta se abrir, pediu perdão pelos seus pecados e cortou sua garganta com um canivete já ensanguentado.

Nos procuraram avidamente por toda a escola, mas já havíamos saído pouco antes da matança acabar.
Deixamos um bilhete na porta da frente, colado em um pedaço do casaco azul de minha amada. O bilhete dizia: ‘‘ Obrigado por assistirem ao filme!           Assinado: J e V. ’’

Alguns dizem que a escola ainda é assombrada por aqueles adolescentes. Alguns zeladores até reportaram terem ouvido gemidos estranhos na sala de audiovisual, além de estranhas aparições perto de lá. O diretor nunca se perdoou pela morte daqueles jovens. Quanto a mim e Violet, continuamos a viver e filmar tudo o que víamos.

Não estávamos mais restritos á pessoas próximas. Seguimos pessoas aleatórias e documentávamos seus pecados. Como fizemos com aquela... Bem, isso já é uma outra história. Por enquanto, lembrem-se: Mesmo que não consiga vê-lo, mesmo que não sinta sua presença ou o escute, sempre há um observador assistindo sua vida. Seus pecados, suas alegrias, você. Boa noite.

Autor: O Observador. 
Obrigado pela colaboração, você mandou super bem :) 




24/02/2017

Creepypasta dos Fãs: Babá Escarlate

[Quer ver sua creepypasta aqui? Nos envie-a para o e-mail creepypastabrasil@hotmail.com!]

Semana passada, mamãe e papai saíram para jantar fora e contrataram uma babá, e foi assim que tudo começou. Essa babá era completamente estranha: ela ficava nos observando o tempo todo. Os olhos dela eram negros como a noite, e os cabelos possuíam alguns fios brancos. Ela aparentava ter uns 28 anos, porém, era estranhamente assustadora. O meu irmão tinha 7 anos e estava com medo, e eu sou a irmã mais velha; tenho 13 anos. E então decidimos subir para o quarto, e a babá ficou sentada no sofá da sala, onde tudo parecia mais escuro.

Estávamos com medo, então trancamos a porta e ficamos jogando dominó. De repente, ouvi um som estranho na janela e, logo após, uma batida muito forte. Fui verificar a janela. Eu estava tremendo, e quando cheguei, ouvimos uma batida muito forte na porta e a energia acabou. Tudo ficou realmente escuro. Acendi a lanterna do celular e falei para o meu irmão ficar calmo, e fui chamar a babá para ver se estava a tudo bem. E para a minha surpresa, a babá não estava lá.

Ouvi um barulho de vidro se quebrando, vindo do quarto do meu irmão. Corri para cima, para ver o que havia ocorrido, e quando cheguei no quarto, a babá estava com o rosto totalmente deformado e coberto de sangue, seus olhos estavam negros por inteiro, com o corpo magro, dentes afiados e assustadores, e com um só braço, ela estava segurando meu irmão, desmaiado. Num piscar de olhos, ela sumiu e, uma semana depois, exatamente no dia de hoje, eu encontrei meu irmão.

Ele está aqui agora, me olhando, com o mesmo olhar da babá, e enquanto eu escrevo esse ocorrido, ele está bem atrás de mim, parado. Eu ouço sua respiração. Ele está frio, assustador; pronto para atacar, a qualquer movimento que eu faça.

Autor: Fernando Henrique
Revisão: Gabriela Prado


Creepypasta dos Fãs: Miopia

[Quer ver sua creepypasta aqui? Nos envie-a para o e-mail creepypastabrasil@hotmail.com!]

Miopia. 

Algo o acordou. 

Enquanto retirava lentamente as teias do sono que envolviam confortavelmente sua mente, ele ainda ouvia o barulho ressoando em seus ouvidos. “Deve ser um viajante querendo adentrar em meus portais, nada mais”, pensou, sorrindo no escuro. 

Não se lembrava de quem era a autoria dessa frase, mas do mesmo modo que o pensamento vira subitamente, junto a ele veio uma pontada de medo.  

O que teria sido o barulho? 

Algo definitivamente o acordou, porém, distante de seus óculos, nada via, apenas podia ouvir. Um misto de sons de ventos, farfalhar de folhas e… Passos. 

Era claro demais para sua mente inventar alguma desculpa racional. Algo entrara em sua casa de madrugada e, instintivamente, Andrey sentia que aquilo o queria fazer mal. Continuou deitado, a respiração não passando de um sopro nervoso, o coração uma marreta, quase conseguia ver a elevação dos lençóis, ritmados com a pulsação frenética de seu peito. 

Os passos cessaram. 

A porta se abrira. 

Andrey não conseguiu distinguir a figura lovecraftiana que olhava, contudo, ouvia sua respiração fétida, sentia sua presença. 

Mesmo com o avanço da medicina e a possibilidade de uma cirurgia corretiva em sua visão, mesmo com as lentes para dormir, Andrey continuava usando seu antigo óculos, quase se desfazendo, pois sabia que se olhasse para a criatura e a enxergasse, seria a última coisa que veria. 

Autor: Cardoso
Revisão: Gabriela Prado


23/02/2017

O Gato Preto

Conto de: Edgar Allan Poe.
Enviado por: Breno Henrique. 

Obrigado por enviar Breno :) 

Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram. No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.


Desde a infância, tornaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava,

especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por

um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.

Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.

Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade.

Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.

Pluto — assim se chamava o gato — era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.

Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento — enrubesço ao confessá-lo — sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas

não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim — que outro mal pode se comparar ao álcool? — e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.

Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim.

Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser. Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.

Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão — dissipados já os vapores de minha orgia noturna — , experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.

Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer

qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade.

Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano - uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele.

Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado — um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.

Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.

Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo — coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, as palavras "estranho!", "singular!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.


Logo que vi tal aparição — pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa —, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando-o, através de uma janela aberta, para dentro do meu

quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.

Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo. Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme — tão grande quanto Pluto — e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pêlo branco em todo o corpo — e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.

Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua

aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes.

Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse — detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo.

Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando-se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.

De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que - não sei como nem por quê — seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos - muito gradativamente — , passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.

Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.

No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor

compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pemas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo — apresso-me a confessá-lo —, pelo pavor extremo que o animal me despertava.

Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar — sim, mesmo nesta cela de criminoso —, quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível — que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa —, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer... E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!

Na verdade, naquele momento eu era um miserável — um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído... uma besta-fera que se engendrara em mim,

homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso — encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim — pousado eternamente sobre o meu coração!

Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros — os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade — e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher - pobre dela! - não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.

Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar. O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.

Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos.

Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em

pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.

Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.

E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: "Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão".

O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse

podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite — e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.

Transcorreram o segundo e o terceiro dia — e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.

No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram-me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também

para tomar duplamente evidente a minha inocência.

— Senhores — disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada — , é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída... (Quase não sabia o que dizia, em meu desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes — os senhores já se vão? — , estas paredes são de grande solidez.

Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.

Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.

Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror.

Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.

Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja.

Voz reveladora me entregava ao carrasco.

Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!


22/02/2017

Encontrei algo... impossível no meu jardim.

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Nós temos um lago de Carpas no meu jardim. É tipo um projeto sem fim, meu e da minha esposa, algo que, nesses três anos que moramos nessa casa, nos custou muito tempo, esforço e dinheiro. Algumas semanas atrás, decidimos que queríamos aumentá-lo, e semana passada finalmente começamos a fazer o que tínhamos que fazer. Comecei a cavar. Depois de umas três horas, tinha cavado uma quantidade boa, e tinha atingido mais ou menos 1 metro e 20 centímetros de profundidade quando bati com a pá em algo. Seja lá o que fosse, era de metal.

Continuei a cavar, pois seja lá o que fosse, eu estava procurando por uma borda, até que achei. Segui a borda, cavando em volta, e por fim era um quadrado com uma maçaneta em cima, e duas dobradiças em um dos lados. Puxei a maçaneta, mas não consegui abrir. Achei que poderia ser um baú ou caixa de algum tipo, então continuei a cavar dos lados, mas não importava o quanto cavasse, não tinha fim. Por fim, cheguei a conclusão de que era uma escotilha, ou até um abrigo anti-bombas. Quando compramos a casa, não houve menção de um abrigo anti-bombas, nem havia nada mencionado no histórico da casa.

Cavei uma área em torno da escotilha para que pudesse chegar mais facilmente ao topo. Depois de várias horas, uma noite de sono, e no dia seguinte  mais algumas horas trabalhando com maçaricos, brocas, e martelos, finalmente consegui abrir a escotilha.


Assim que abri a porta, fui atingido por uma onda de um cheiro terrível. O fedor era rançoso e pútrido, uma mistura de ovos podres, leite estragado e um grupo de gambás mortos. Depois de recuperar o folego, consegui segurar a respiração para dar uma olhada lá dentro. Havia uma escada que descia mais ou menos uns seis metros, e mal consegui enxergar o chão com a iluminação que o sol provia. Fui até minha garagem e peguei uma máscara contra-poeira, esperando que a máscara fosse diminuir o fedor, e peguei minha lanterna.

Comecei a descer a escada enquanto minha esposa ficava no topo, me observando curiosamente. Quanto mais fundo eu ia, pior o cheiro ficava, e a máscara não estava ajudando nada para encobri-lo. Parei diversas vezes enquanto descia, tomado pela vontade de vomitar. Finalmente, acho que consegui me acostumar o suficiente para não ficar com ânsia a cada inspiração. Fui até o final, e um corredor dobrava para a esquerda, e depois se abria em um cômodo grande.

Assim como já suspeitava, se tratava de um abrigo. Haviam duas enormes prateleiras que um dia abrigaram alimentos não perecíveis, os quais quase todos já não estavam mais lá. Encontrei um interruptor de luz perto de mim e liguei. Para minha surpresa, três fileiras de luzes fluorescentes se ascenderam, permitindo que eu observasse toda a área. Era grande, tipo mais ou menos dois terços do meu porão e logo abaixo dele. Havia apenas uma cama de solteiro com um criado-mudo ao lado, na qual havia um radio portátil (mas não consigo acreditar que funcionasse tão fundo abaixo da terra). Havia um tapete no chão e em cima do mesmo uma mesa. Na mesinha haviam diversos livros, muitos cadernos e outros objetos. Em um dos cantos do cômodo havia um balde obviamente usado para a pessoa se aliviar, cheguei a essa conclusão pela crosta de bosta nas bordas e manchas amareladas de mijo. É um mistério para mim como ou onde balde era esvaziado.

Havia uma haste de suspensão improvisava em uma das paredes, no qual havia pendurado um terno muito, muito velho, e junto um capacete militar. Peguei alguns objetos do abrigo (livros, cadernos, radio, capacete, etc) e coloquei em uma caixa que encontrei em uma das prateleiras. Uma coisa estranha que percebi é que não havia embalagens espalhadas das comidas que haviam sido consumidas, pois, obviamente, esse abrigo já havia sido usado, sendo que a cama estava desfeita e o "banheiro" tinha sido usado. Mas não havia um lugar onde o lixo podia ser colocado. Não liguei muito na hora. 

Eu ainda não tinha dado uma olhada nos cadernos, mas quando o fiz, fiquei totalmente perturbado. Tudo que dizia, em centenas de páginas, eram as palavras "POR FAVOR DEIXE-ME SAIR". Nada mais, apenas essas palavras escritas em diferentes tamanhos em incontáveis páginas. Depois, dei uma pesquisada no capacete. Era um capacete que parecia ter sido utilizado na segunda guerra mundial, pertencendo ao exercito do EUA. Não consigo entender o que um soldado americano estaria fazendo em um abrigo no centro oeste dos Estados Unidos durante a segunda guerra. Outras coisa estranha que descobri que, apesar da maioria dos livros serem da mesma época do capacete, havia algumas cópias do começo dos anos 2000 e o radio havia sido fabricado em 1999. 

Totalmente confuso, voltei até o abrigo. Novamente desci pela escada. Decidi fazer uma inspeção minuciosa no local, com esperança que conseguisse descobrir qualquer coisa sobre quem pudesse ter estado lá. Olhei as comidas restantes nas prateleiras e todas eram da época da guerra. Procurei portas secretas, mas não encontrei nada; as paredes eram perfeitamente sólidas, sem nem uma rachadura sequer. Sentei na cadeira da escrivaninha e abri as gavetas; não havia nada. Examinei a mesa por cima e baixo, mas estava perfeita. Foi só quando eu arrastei a cadeira para trás e dei um passo no tapete que percebi que o chão era oco. Gritei para minha esposa dizendo que havia encontrado algo. 

Movi a cadeira para o lado, e tirei a escrivaninha de cima do tapete. Então, deslizei o tapete para o lado oposto da escrivaninha, o que fez revelar um alçapão que estava trancado com um cadeado enorme que ficava deitado em um afundamento no chão para que o tapete ficasse reto e a porta imperceptível. Com um martelo e um cinzel e um pouco de tempo consegui abrir o abrigo-dentro-de-um-abrigo e cai para trás quando tive um vislumbre de seu conteúdo. 

Era de dentro do alçapão que vinha o fedor. Um corpo em decomposição. Um que parecia estar ali a não mais do que uma ou duas semanas. O espaço era grande o suficiente só para caber um homem, que havia sido depositado de uma forma totalmente inatural para um ser humano. O único jeito que posso descrever é que parecia estar "dobrado", como uma roupa. Imediatamente gritei par amanha esposa sair da escotilha e ligar para a polícia.

O homem estava usando roupas da época da segunda guerra mundial. Em seu bolso havia uma identidade militar, mostrando que ele havia nascido em 1921. Em outro bolso havia um celular Motorola de 2007. Em seu coldre havia uma pistola fabricada em 1979. Algum tempo descobri que o nome registrado da identidade militar não estava nos arquivos de nenhuma força militar, e seu número de identidade pessoal não estava atribuído ao EUA. Ninguém com seu nome tinha sido registrado como desaparecido em toda a história do país.

Foi determinado pela perícia que o solo acima do alçapão não havia sido tocado a muitas décadas, e foi confirmado que a única porta de entrada e saída era a primeira que eu abri. As perguntas são óbvias: quem era esse homem? Como ele tinha tecnologia do futuro? Por quanto tempo ele ficou no abrigo? Quando morreu? Para onde os dejetos dele foram? Como podia parecer estar morto faziam apenas duas semanas no máximo?

Mas a pergunta que não me deixa dormir a noite é quem foi que o colocou em um alçapão, com cadeado, e ainda com um tapete e uma escrivaninha em cima? 
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FONTE

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você o ver em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

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TRADUÇÃO POR: FRANCIS DIVINA