02/01/2018

Alguns cheiros não devem ser ignorados

Sabe quando as pessoas dizem "se algo parece ser bom demais para ser verdade, geralmente não é mesmo"? Isso é real. 

Recentemente me mudei com meu namorado. Ele tinha um belo apartamento em um prédio antigo. Cobertura e tudo mais. Não estávamos juntos fazia muito, mas eu sabia desde a primeira vez que o vira que era o certo. Estávamos juntos até que a morte nos separasse, pelo menos pela minha parte. 

No começo do relacionamento, eu não tinha certeza se ele se sentia da mesma forma. Sempre estava meio distante, se referindo a mim como "bebê", "mozão" ou outro apelido, nunca meu nome. De acordo com "Todas contra John", um filme cheio de bons conselhos para a vida, isso era um jeito muito claro de saber se ele tinha uma vida dupla. Tenho certeza que, no começo, ele estava saindo com várias garotas, mas tudo bem. Afinal de contas, estamos no século 21. Mas não é sobre isso que se trata essa história. 

Quando me convidou para morar com ele, fiquei emocionadíssima. Eu estava morando em um apartamento de merda com mais seis pessoas, e não era dona de nenhum móvel. Empacotar minhas coisas foi bem fácil, e o apartamento dele era um sonho. Antes disso, tinha estado lá só duas ou três vezes - por algum motivo, ele sempre parecia preferir ficar lá em casa. Talvez o fizesse se sentir mais jovem, vai saber. 

Cal trabalhava muito, então eu passava os dias sozinha do apartamento. Sou pintora. E Cal apoiava muito minha arte. Disse que eu podia usar o quarto vago como um ateliê, e até me convenceu de largar o meu emprego como garçonete para que pudesse me dedicar totalmente a arte. Eu o amava tanto. 

Nos primeiros dias no apartamento, enquanto estava montando o ateliê, ouvi barulhos vindo das paredes. "Ratos. Merda." Já tinha morado em diversos prédios horríveis, então estava bem acostumada com os sons nas paredes. 

Então as moscas apareceram. Estava fazendo uma pausa de uma pintura, sentada no chão do ateliê, comendo uma fatia de pizza, tentando pensar no que faltava na minha tela. Uma mosca gorda pousou na minha pizza. Eu a enxotei, raivosamente. Logo mais vi outra companheira igualmente gorda por perto. 

Olhei pelo quarto. Tinha pelo menos cinco moscas lá. 

Quando falei mais tarde para Cal, ele ficou bastante irritado. 

"O que diabos você tem feito aqui?"

Dei de ombros, encolhendo. Sua raiva me surpreendeu, me deixou desconfortável. 

"Você não come aqui dentro, né?" Perguntou, com ar enojado. 

"Eu... as vezes?" 

"Bem, talvez se você não fosse uma porca, isso não aconteceria! Deus, se vai fazer uma bagunça, pelo menos não venha reclamar para mim!" 

"Eu - me desculpa!" Eu exclamei, perturbada. O comportamento dele mudou tão drasticamente. "Não percebi que era minha culpa!"

"Aw, bebê, não. Me desculpe. É só que - estou sob muita pressão recentemente. Não queria descontar em você. Só ignore as moscas, tenho certeza que desaparecerão eventualmente." 

No dia seguinte tinha ainda mais moscas. Não falei nada para Cal, estava com medo de sua reação. O quarto também tinha um cheiro esquisito. Fiquei realmente preocupada de ter derrubado comida em algum canto, então limpei todo o comodo. Nada. Tinha deixado a janela escancarada desde que me mudara - gostava de pintar no frio - então decidi que o cheiro e as moscas deviam estar vindo de algum lugar lá fora. Fechei a janela. 

Quando voltei para o ateliê depois do almoço, o cheiro tinha piorado muito. Eu não notara isso enquanto pintava, mas depois de ficar algumas horas no ar fresco, o odor era impossível de ser ignorado. Um fedor de decomposição. Fechei a porta e abri a janela. Decidi que precisava falar com Cal mais tarde. Supus que algum rato tinha morrido dentro da parede, ou algo do tipo. 

"É, o cheiro tá meio estranho aqui. Ratos? Não, não temos ratos aqui. Não, tenho certeza que não. Não sei porquê você pensaria isso, tem cheirado muita tinta?" Seus olhos se escureceram com a raiva antes de conseguir se recompor. Nunca tinha percebido o quão temperamental era até me mudar para sua casa.  "Que saber, garanto que é do vizinho de baixo." A postura de Cal mudou, ele relaxou. "Você lembra o cara estranho que vimos no corredor no primeiro dia?" Dei de ombros. Eu lembrava. "Aposto que é. O apartamento dele é bem embaixo do nosso. Nem quero saber o que ele está fazendo lá embaixo... Só use um aromatizador de ambiente, tenho certeza que logo some."

Como eu poderia esquecer o vizinho do andar debaixo? Tinha apenas o visto uma vez, no dia que me mudei, e tinha deixado uma impressão e tanto. 

Estávamos pegando o elevador para descer e pegar o resto das minhas coisas, e parou no andar debaixo do nosso. Percebi que Cal ficou desconfortável, provavelmente antecipando que seria o tal vizinho. As portas se abriram, e senti meu nariz entortar de rejeição. O homem que esperava do lado de fora era alto, magro, vestido todo de preto e fedia mais do que qualquer coisa que eu já presenciara. Ele grudou os olhos nos meus, depois olhou em direção de Cal, depois de novo para mim. Me encolhi involutivamente. Ele franziu o cenho, me encarando por alguns segundos. Depois entrou sem dizer uma palavra. Descemos em silêncio. 

Toda vez que eu pegava o elevador, ficava com medo de que esbarraria com ele. Tentei não ficar imaginando o que ele estava fazendo em seu apartamento para que o fedor subisse até nós. 

No dia seguinte tinha ainda mais moscas, e o cheiro estava mais forte. Liguei para o trabalho e Cal. 

"Você está exagerando, não pode ser tão ruim assim. Só compre um aromatizador e supere, querida. E não me atrapalhe no trabalho a não ser que seja algo realmente importante. Se realmente for um rato, o cheiro vai desaparecer logo. Não banque a princesinha." 

Eu não queria ficar batendo na mesma tecla, ele parecia realmente estar estressado. Eu apenas mantinha a porta fechada e a janela aberta, e gastei uma lata inteira de aromatizador lá, como ele tinha dito. Passei o dia fazendo alguns rascunhos fora do ateliê, por não conseguir aguentar o cheiro. 

Não melhorou. Só piorava. Eu queria pintar, mas não conseguia ficar um minuto naquele quarto. Talvez eu estivesse mesmo sendo uma princesinha, mas não era Cal que precisava trabalhar naquele cheiro. Fiquei pensando no barulho que tinha ouvido no primeiro dia. Para mim, parecia com vários ratos grandes pra caramba. Um desses morrendo na minha parede com certeza fariam o quarto todo feder. Mas talvez Cal estivesse certo, provavelmente era o vizinho. Decidi que eu tinha que falar com o esquisitão. Pelo menos tentar. 

Depois de me preparar mentalmente, fui na parta dele e toquei a campainha. Enquanto a porta abria, o cheiro de suor azedo e mijo de gato quase me derrubou. Quase cambaleei para trás. 

Ele abriu a porta só o quanto a corrente permitiu. 

"Hm, com licença, senhor. Eu moro aqui em cima, acabei de me mudar com meu -" parei de falar quando percebi que ele estava fechando a porta. "Desculpa, vou ser rápida! É meio constrangedor, mas o nosso apartamento está com um cheiro estranho." 

Seus olhos se arregalaram, mas não falou nada. Só ficou ali parado, me encarando. A porta parou de se mexer. 

"Eu - uh - meu namorado sugeriu que talvez você..." minha voz vacilou. Seu olhar não foi tirado de mim nem por um segundo. 

Fiquei parada lá por dez segundos, considerando se devia sair correndo. No final, minha condição social de não conseguir ser mal educada venceu. Tentei de novo. 

"Tem um cheiro meio estranho no nosso apartamento, e meu namorado sugeriu que talvez você soubesse algo sobre."

Seu rosto se contorceu em uma careta. Ainda não tinha dito nada. 

"Quero dizer, não sei. Eu - você - " Travei. "Uh, você sabe se tem ratos no prédio?" Terminei, derrotada. 

Ele sorriu.

"Nã-ãão. Ratos não." Depois riu. "Gatos!" 

"Ah, ok, tchau então!" Me virei, andando rapidamente pelo corredor. A porta fechou com um estrondo atrás de mim. 

Ouvi ser aberta de novo.

"Moça! Talvez você não devia estar aqui, moça!" Ele chamou por mim. Eu me virei, apenas para ver sua porta sendo fechada uma segunda vez. Continuei andando, bem preocupada. A porta abriu de novo. Não me virei, só continuei a andar rapidamente. "Talvez não é seguro, moça! Com ratos!" 

Me encolhi, apertando freneticamente o botão do elevador. Ouvi a porta sendo fechada atrás de mim. Suspirei aliviada. Jurei que nunca mais falaria com aquele homem. Seja lá diabos o que ele estava fazendo para deixar o prédio com aquele cheiro de morte, eu não queria nem mais saber.

De volta ao apartamento, a fetidez tinha começado a se espalhar para a sala de estar. Percebi que estava com medo de que Cal ficaria bravo. Eu sabia que ele achava que eu tinha ferrado com algo no ateliê. A ideia de que eu estava com medo de sua reação me deixou nervosa. Ele era o amor da minha vida, afinal de contas. Decidi que estava nervosa porque queria que ele estivesse feliz, não queria deixá-lo estressado com nada mais. Decidi que não estava com medo dele. Eu o amava, certo?

Enquanto eu repassava nosso relacionamento na minha cabeça, em um estalo percebi que o cheiro que tinha ali era completamente diferente do cheiro do andar debaixo. Lá, fedia a suor e mijo velho de gato. Aqui era o cheiro da morte. "Sem ratos é o caralho," murmurei. Eu sabia que um rato gordo na parede era a única explicação. 

Percebi que esse era o momento de chamar um especialista. Brevemente considerei ligar para Cal e perguntar se ele se importaria, mas tinha ficado muito bravo da última vez que eu ligara para seu trabalho. Achou que eu estava agindo como uma princesa. Decidi fazer aquilo sozinha, com o pouco dinheiro que ainda me restava. Não conseguia pintar daquele jeito. E eu era uma mulher adulta, podia lidar com meus próprios problemas.

Liguei para o exterminador de pragas. Ele me referenciou para um especialista em tirar ratos mortos de paredes. 

Aparentemente isso é algo que acontece com frequência. 

Para minha sorte, tinha acontecido um cancelamento e poderia ir lá naquele momento. Que sorte a minha...

"Ah, sim, você tem um rato morto. Provavelmente vários. Sabe, isso geralmente acontece quando as pessoas usam veneno de rato. O ninho fica provavelmente na sua parede, e se enfiaram lá para morrer. Não se preocupe, vou cuidar disso. Vou ter que abrir um buraco na parede, tudo bem para você?" 

Franzi o cenho, já imaginando que Cal iria ficar bravo. Mas ele nunca entra no ateliê. Pensei que poderia colocar um quadro na frente do buraco e ele nem perceberia. 

"Mas não se preocupe, querida, com esses tijolos expostos é bem fácil de arrumar. Você só tem que fazer um pouco de cimento e colocar os tijolos de volta. Qualquer um consegue, nem vai dar para perceber depois!" 

Então falei para ele ir em frente.

*
Eu estava sentada na cozinha quando a polícia chegou. 

Eu estava sentada na sala de interrogação quando me falaram sobre o corpo morto que foi encontrado emparedado. 

Eu estava sentada no escritório da advogada quando me disseram que eram os restos mortais da ex namorada de Cal. 

Eu estava sentada no tribunal como testemunha quando falaram que ela tinha sido deixada lá viva, para ter uma morte lenta e tenebrosa. 

Eu estava sentada nos bancos quando ele foi sentenciado prisão perpétua sem chance de redução por assassinato premeditado. 

Mas eu estava sentada em uma cama velha de um hotel barato quando percebi que ela ainda estava viva quando me mudei para lá. 

Aquele prédio realmente não tinha ratos. 



17 comentários:

  1. Só eu q já tinha deduzido o final no nome da creppypasta? Kkk

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  2. Me senti numa lenda urbana japonesa

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  3. Apesar de ser previsível, teve uma boa narrativa e conclusão. Gostei da resolução da consciência da protagonista.

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  4. Nossa, não venho nesse site faz séculos... Legal ver que ainda ta bem ativo.

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  5. Peguei o costume de , sempre que vou ler uma creppy desço até ver o nome do autor/ tradutor , e quando vejo que é a divina , tenho certeza que vou gostar , obrigado divina vc é DIVINA

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  6. me lembra bastante o conto O gato preto, de Edgar Allan Poe

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  7. foi 100% previsível, mas foi legalzinha 6/10

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  8. Já sabia o final mas foi legal...

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  9. Pode não ter sido o final mais surpreendente do mundo, mas a história é bem escrita e teve um desenvolvimento coerente, portanto, muito boa!

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  10. se o meu namorado me chama pelo meu nome... certeza que tá bravo kkksjjkk
    apesar de ser previsível, a história foi bem escrita e me tirou do tédio ^^ gostei

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  11. "Ai q n sei o q cliche q sei q la previsível"
    Eu n entro no site desde Agosto e agr consegui colocar a leitura em dia. Ok, algumas creepys ruins dentre várias ótimas. E essa é uma mt boa, cliche n significa ruim, é bem escrita, bem desenvolvida e c final coerente. O site ainda faz um ótimo trabalho, varias series ótimas e vcs so sabem reclamar. Taquipariu. Deem um tempo!

    Ps: Pelo cel a caixa de comentários ta dando erro mtas vezes, pode ser por isso q os coments estão diminuindo

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