09/01/2018

Daniel, o garoto de 7 anos de idade que matou seu pai

Quando eu era jovem, eu queria me tornar um psiquiatra. Meus anos de faculdade, no entanto, provaram que eu tinha uma maior aptidão para fumar maconha e jogar videogame do que ler livros sobre medicina, e quando tentei entrar pra faculdade de medicina não consegui passar.

Fiquei na faculdade mais alguns anos, acumulando dívidas e adicionando mais um diploma para o meu currículo para que eu não tivesse que fazer pós-graduação. Eventualmente, acabei sendo um assistente social. Trabalhei com isso por sete anos antes de me tornar professor, e eu tenho algumas histórias daquela época da minha vida, algumas estranhas e outras tristes. Esta é ambas.


Eu reconstruí abaixo uma entrevista com Daniel **********, um garoto de sete anos que atirou em seu pai após o pai ter assassinado sua mãe. O caso ficou preso comigo por muitos anos, e eu gostaria de compartilhar com vocês agora.


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a gravação começa


EU: É bom te ver de novo, Daniel.


Neste ponto da entrevista, Daniel está olhando para o chão.


EU: Você sabe o motivo de eu estar aqui?


DANIEL: ...


EU: Eu quero falar sobre o que aconteceu com seu pai. Você se recorda da história que contou aos detetives?


DANIEL: Sim, senhor.


Pude ouvir um farfalhar no áudio da gravação enquanto mexia nos bolsos para pegar uma bala, entrego para Daniel.


DANIEL: Obrigado, senhor.


EU: De nada, Daniel. Você é um jovem muito educado.


Daniel olha pra cima por um momento antes de olhar para o chão novamente.


DANIEL: Você acha que eu sou bom, senhor?


EU: Sim, Daniel. Eu acho que você é bom.


DANIEL: Eu não acho que eu seja bom.


EU: Por que acha isso? DANIEL: Se eu fosse bom, papai não teria me batido. EU: Eu não acho que ele tinha te batido porque você é ruim, Daniel. DANIEL: Talvez você esteja certo. Ele batia na minha mãe também, e ela não era ruim. EU: Pode me dizer o que aconteceu naquela noite, Daniel? DANIEL: Meu pai veio pra casa depois do bar. Ele estava gritando. EU: Como você sabe que ele estava no bar? DANIEL: Por causa do cheiro dele. Pude ouvir eu rabiscando notas em meu bloco. EU: E então o que aconteceu? DANIEL: Ele... EU: Está tudo bem, Daniel. Apenas respire fundo. Esta será a última vez que terá que falar sobre isso. Seus ombros caíram, e ele enfiou os pés debaixo do carpete. DANIEL: Ele começou a bater na minha mãe. EU: E então? DANIEL: Então ele parou. Minha mãe estava chorando, então eu dei a ela o Jocel. EU: Quem é Jocel? DANIEL: Ele é meu ursinho. Ele sempre faz eu me sentir melhor quando estou chorando. Pensei que ele faria minha mãe se sentir melhor também. EU: Ele a fez se sentir melhor? Daniel balançou um pouco a cabeça.

DANIEL: Eu acho que sim. Ela sorriu, mas... era o tipo triste de sorriso. Ouvi minha caneta rabiscando o bloco de notas novamente. Fazia careta enquanto ouvia. Essa era a parte que eu não gostava de ouvir. EU: O que aconteceu depois, Daniel? Houve uma longa pausa enquanto Daniel encarava o chão. Ele não queria dizer, e eu não o culpo. Eu ouço minha voz novamente, calma, convincente, e eu sinto um sentimento de culpa por fazê-lo reviver aqueles momentos. EU: Está tudo bem, Daniel. É a última vez, eu prometo. A voz de Daniel soava fraca e hesitante conforme ele falava. DANIEL: Ele pegou a arma. EU: E então? DANIEL: Ele... ele atirou na minha mãe. EU: E após aquilo, você correu para seu quarto? DANIEL: Não. EU: Não? DANIEL: Quer dizer, sim. Mas primeiro eu tinha que pegar o Jocel. EU: Você teve que pegar seu ursinho? DANIEL: Sim. Eu não queria deixá-lo sozinho com meu pai. Ele ficaria assustado. Limpei minha garganta. EU: Entendo... E depois? DANIEL: Corri para meu quarto e tranquei a porta. Meu pai tentou entrar. Ele batia na porta muito forte. O barulho era muito alto, e Jocel estava muito assustado. EU: Como ele entrou? DANIEL: Ele quebrou a porta. Foi muito barulhento. EU: E depois? DANIEL: Ele apontou a arma para mim. EU: E? DANIEL: Eu o pedi para não atirar em Jocel, mas eu acho que ele não me ouviu. EU: Por quê?

DANIEL: Porque mesmo assim ele puxou o gatilho. EU: Mas ele não atirou em você. DANIEL: Não. A arma não funcionou. Ele a jogou no chão. EU: E então? DANIEL: Ele tentou me pegar. Mas caiu. Ele esmagou o nariz. Ouvi o farfalhar novamente enquanto continuava. EU: O que aconteceu com a arma, Daniel? DANIEL: Começou a flutuar. EU: Voocê tem certeza? DANIEL: Sim. EU: E o que aconteceu depois? DANIEL: Ouvi minha mãe sussurar em meu ouvido. Ela me disse para fechar os olhos. EU: E você fechou? DANIEL: Sim. EU: E? DANIEL: A arma disparou. EU: Você viu o que aconteceu com seu pai? DANIEL: Não. Fiquei com os olhos fechados. EU: Mais alguma coisa aconteceu? DANIEL: Não. A polícia veio e colocou um cobertor em meus ombros e me levou para algum lugar. Eu não me lembro muito bem dessa parte. EU: Você tem certeza de que foi isso que aconteceu? DANIEL: Sim. EU: Obrigado pelo seu tempo, Daniel. Prometo que essa é a última vez que terá que contar essa história. DANIEL: Obrigado. Eu não gosto muito dessa história. EU: Preciso ir fazer meu relatório agora; Vou deixá-lo aqui com seus tios, está bem? DANIEL: Ok. Houve o som de uma cadeira sendo empurrada para trás enquanto me levantava para ir. DANIEL: Sr. Robbins? EU: Sim, Daniel? DANIEL: Eu penso muito nisso. Antes de dormir. EU: Bem, podemos providenciar um conselheiro para conversar-- DANIEL: Está tudo bem. Quando eu não consigo dormir minha mãe sussurra em meu ouvido para eu fechar os olhos. Eu sempre caio no sono logo depois. EU: Isso é bom, Daniel. Diga a ela que eu disse oi. DANIEL: Eu direi.


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A gravação termina ali. Nós providenciamos um conselheiro para Daniel, é claro. Até onde eu sei, ele nunca mudou seu testemunho.

Nunca houve uma pergunta real sobre quem atirou no pai de Daniel. As declarações dos vizinhos que ouviram o conflito indicavam claramente uma série de tiros seguidos pelo silêncio da mãe, uma série de estrondos quando o pai derrubou a porta, e finalmente, mais três tiros, o qual correspondia à morte do pai. Ninguém mais estava na casa, e a balística mostrou que os tiros formam disparados a dois metros de distância. Daniel era a única escolha, e oficialmente, foi ele quem atirou em seu pai.

No entanto, fiquei acordado por muito tempo naquela noite, me perguntando se Daniel tinha razão. Na verdade eu não acreditava que sua mãe tinha voltado como um fantasma para salvá-lo. Mas na versão de Daniel da realidade, sua mãe não era apenas uma mulher maltratada que teve uma morte sem sentido e violenta, ela era uma heroína que desafiou a morte para salvar seu filho. Na versão de Daniel, ele não estava assustado, ele estava protegendo seu ursinho, Jocel. Eu acho que ele merecia lembrar da história desse jeito.

Naquela noite, quando eu já tinha pensado o suficiente, decidi ir dormir, o sono não vinha. Estava prestes a desistir de acordar cedo e começaria o dia seguinte, quando ouvi um sussurro suave em meu ouvido, me dizendo para fechar os olhos.

Eu dormi bem naquela noite.










Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!


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