05/01/2018

Perseguição


Ainda faltavam mais de 200 km para que Roger chegasse ao seu destino. Enquanto dirigia pela rodovia não havia problemas, o cansaço e as dores nas costas começaram a incomodar de verdade quando foi obrigado a cortar por pequenas cidades do interior, a estrada era estreita e o fluxo de caminhões aumentou em muito após as 20h00, achou melhor encontrar algum motel, acordaria cedo e continuaria sua viagem, não aguentava mais, 17 horas no volante era tempo demais para quem não era acostumado a longas distâncias.

Em um ponto de menor movimento aproveitou para consultar em seu celular o motel ou hotel mais próximo na pequena cidade que contava com pouco menos de 9 mil habitantes, não dispunha de muitas opções, haviam dois hotéis. Optou pelo mais barato, queria dormir e aproveitar o ar condicionado enquanto o fazia.

A pequena estrada não possuía nenhuma iluminação que não fosse a natural da própria lua.

Ligou o carro e saía vagarosamente enquanto fixava o celular com o GPS no suporte com a mão direita, nesse momento de distração um caminhão passou tão rente ao seu veículo que arrancou o retrovisor do motorista arranhando a gasta lataria.

- SEU BARBEIRO DESGRAÇADO, PRESTA ATENÇÃO FILHO DA P… - Berrou com toda força que possuía.


Provavelmente o caminhoneiro não havia escutado devido a velocidade,mas as aves da região sim,  deixando com pressa as árvores em volta que praticamente encobriam o local.

Não viu modelo nem mesmo a cor do veículo, julgou que era novo pelo fato de não ter escutado a aproximação do mesmo.

- Mas que merda, o carro já é velho, desse jeito não sobra nada antes de eu chegar. - Conversava com o retrovisor interno.

Passou a seguir as instruções dadas pela voz eletrônica. Em determinados momentos o sinal desaparecia, haviam diversas bifurcações e estradas que passavam a ser de terra e asfalto novamente.

- Não chega nunca, quero uma cerveja de trigo, uma cama, ar condicionado e só, é pedir demais?

Alguns minutos se passaram.

- Não precisa ser de trigo, pode ser quente, um colchão no chão e um ventilador.

Outros minutos se passaram.

Uma voz mecânica, sem entonação ressoou:

- Você chegou ao seu destino.

- Sério? No meio do nada? - Respondeu sem esperança.

Era possível ouvir o coachar das rãs? Sapos? Quem saberia, tendo em vista que absolutamente nada era visível.

Não havia sinal da operadora, não havia a quem recorrer.

- Foda-se, vou dormir aqui no carro mesmo, lar doce lar, sem cerveja, calorão miserável, apenas eu e a mãe natureza, muito romântico, huh?

Fumou um cigarro, apagou no cinzeiro do automóvel, era o tipo de pessoa que não sujava os lugares do qual passava.

O calor era insano, não possuía ar condicionado no carro, os vidros ficavam abaixados, era castigado por mosquitos e pernilongos, mas ok, estava podre de cansado. Assim que seu olhos se fecharam o carro foi tomado por um clarão, que iluminava logo de frente. Deu um salto no próprio banco, postando-se sentado, o topo de sua cabeça martelou o teto do carro fazendo com que mordesse a própria língua.

O gosto de sangue tornou o susto maior do que deveria, afinal era apenas um clarão o que há de errado nisso?

"SSSVAAAMMM!!!" - Berrou uma enorme besta metálica a sua frente.

"VVVROOOMMM!!! - Algo realmente grande se deslocou e vinha em sua direção.

Ligou o carro, engatou a ré, direcionou o volante para esquerda, engatou a primeira, acelerou fazendo com que o pneu queimasse o barro vermelho jogando detritos e poeira no alto levantando uma cortina espessa de fumaça. A silhueta de um caminhão (???) crescia.

Os dentes rangiam, as pupilas estavam dilatadas a adrenalina corria solta ao completar perfeitos 180 graus com o carro. Nunca fora um às no volante, teve sucesso devido ao desespero.

- Oh Deus! Que porra é essa??? - Entre os dentes com as bochechas arqueadas ao limiar da anatomia humana, salivando por toda a extensão de sua robusta barba.

O desespero era crescente, assim como a aproximação do caminhão, uma poderosa buzina de ar ressoava, ecoava escandalosamente perturbando a fauna local.

… Não daria tempo, o carro seria engolido e destroçado pelo caminhão, sem chances.

O cascalho era espalhado pelas ótimas rodas de seu Opala 1977, mesmo com a avassaladora potência de seu motor 4.1, não seria páreo para a fúria do caminhão que o perseguia.

O velocímetro marcava 180 km/h, a direção era instável, justamente quando a primeira pancada foi absorvida pelo seu para-choque traseiro. Direcionou bem mantendo o carro "nos trilhos" mas não da segunda vez. A pancada foi recebida, desestabilizando completamente o Opala 77 que girou, girou e arrancou lascas de uma árvore.

Roger bateu com a cabeça no volante, abrindo o supercílio esquerdo, escorria um filete ininterrupto de sangue, não chegou a perder a consciência, perdeu apenas um pouco da noção.

Ao tirar a parte do cabelo castanho que estava emplastrada de sangue da sua visão, ergueu o rosto e foi incapaz de localizar seu malfeitor.

- Cadê a porra do caminhão? Cadê esse filho da puta? Eu vou matar esse desgraçado!!!

Colocou um cigarro na boca, acendeu, seu velho mas fiel companheiro ainda funcionava 100%.

Desligou os faróis e seguiu em frente, mesmo sem saber pra onde ia, roncos ameaçadores tomavam conta do ambiente, não era possível identificar a direção deles. O maldito celular continuava sem sinal, nada era familiar em sua volta.

Por vezes o barulho parecia vir a centímetros de sua localização, fazendo com que seu coração acelerasse.

Sentiu o solo tremer, através do chão de seu carro, algo vinha de encontro, mas de qual direção???

- Onde você está? Onde? - Questionava.

Suas mãos tremiam no volante. O homem convicto de nome Roger, com seus 37 anos vividos, não possuía uma única certeza em seu coração.

Era puro medo e falta de contato com a realidade, insegurança e desorientação faziam parte do seu ser.

Foi quando a lateral do carona fora atingido de maneira brutal, o carro estava suspenso, sustentado pela roda traseira e dianteira do lado esquerdo.

O caminhão manteve o veículo desequilibrado daquela maneira, o som era ensurdecedor dentro do carro, os faróis eram tão fortes que faziam sua pele branca parecer albina e revelava todas as veias que possuía.

Seu rosto era misto de surpresa e ódio, tentava encarar dentro da cabine e não foi capaz de visualizar uma simples silhueta, Roger estava em seu limite.

Decidiu escalar pela janela do carona e alcançar o maldito caminhão, suas intenções eram de estrangular o motorista até que de fato morresse, não queria saber os motivos do mesmo, apenas queria sentir a vida daquele miserável se esvair em suas próprias mãos.

- Foi porque eu te ofendi lá trás? Mexi tanto assim com seus brios? ME DEIXE EM PAZ PORRA! ME DEIXE EM PAZ! - Suplicou de maneira sincera.

Ao se esgueirar para fora de olhos cerrados devido a força que aplicava para se projetar entre o metal retorcido, inexplicavelmente o atrito exercido na lateral de seu veículo deixou de existir, fazendo com que retornasse a posição original, deixando o inocente condutor ainda mais confuso.

Olhou em volta e nada pode ver, caminhão, marcas no solo nem nada parecido, então se entregou:

- POOOOORRAAAA!!!! - Sua fúria se propagou pelo inabitado caminho.

Não havia nada em volta, se não fosse pelas marcas em seu veículo e o seu corpo propriamente dito, acreditaria que tudo não se passava de uma fantasia, mas o terror era real e crescente.

O carro infelizmente já não funcionava mais, teria de seguir o caminho com seus próprios pés, usando o celular como lanterna.

Sua respiração estava pesada, caminhava de vagar, usava o flash as vezes para iluminar sua passagem, não queria entregar sua posição. O cansaço fora minimizado devido sua vontade de viver, faria o que fosse preciso para tal.

O barulho de galhos secos se partindo logo atrás dele fez com que sua espinha gelasse, sua última refeição dava voltas em seu estômago.

Ao olhar para trás não viu nada mas assim que se virou para frente ouviu um forte "click", sua sombra foi projetada de maneira alongada nas árvores a poucos metros.

Um enorme caminhão, logo em seu encalço, o barulho e o calor do motor tomou conta de seu redor. A tremedeira era apenas na cabeça, não teve coragem de olhar sob os ombros. Inspirou , colocou todas as forças em suas pernas e disparou.

" FFFRAAAAAAMMM "

A máquina era feroz e implacável, não parecia querer apenas assustar Roger, a fumaça que saía do caminhão, não exalava apenas fuligem e odor característico, havia algo a mais nela, haviam intenções (?) nela, algo que remetia a desespero e confusão.

O solo tremia, Roger se esgueirou no meio de duas árvores com toda velocidade que tinha, um galho sem folhas o rasgou logo acima da cintura até o início do sovaco.

-Aaaah, aaah, puta merda, aaaah, nossa… - A camisa estava completamente rasgada, a ferida era grande e o sangue abundante. Tocou com os dois dedos da mão esquerda e seu abdômen retraiu no mesmo instante, doía muito. Estava em uma tremenda desvantagem.

O caminhão ficou de frente com as duas árvores, o caule era firme de grande circunferência. Não poderia ser derrubado pela força da máquina, era no que acreditava. Precisava acreditar.

- Vem, eu quero ver, vem agora! - Não tinha nenhum plano, esperaria que o condutor arrebentasse com o veículo nas árvores que teoricamente o protegiam ou que descesse e viesse em busca dele, com a ferocidade que tinha no olhar, ganharia numa luta corporal contra quem quer que fosse seu oponente.

Ouviu a tração das rodas, giravam sem sair do lugar, cada vez mais rápido. Viu perfeitamente a imagem de um caminhão preto, com vidro fumê, era modificado, modelo algum tinha aquelas características. Parecia realmente uma besta de metal, a mais imponente e territorialista delas.

O trajeto era curto, e em três segundos o caminhão o completou. Roger não desviou o olhar, não cerrou os olhos ou se acovardou, fincou as unhas na árvore, vertia sangue de praticamente todas elas e respondeu:

- VENHAAAAA! - Arranhando violentamente sua garganta.

A árvore, os arbustos e o próprio homem foram " atravessados" o caminhão simplesmente sumira, não sem deixar vestígios.

Roger sentiu seu uma presença pesada e avassaladora invadir seu próprio ser. Não durou pouco mais de 5 segundos, mas a sensação era de que passara 15 anos trancado em uma sala, imóvel, remoendo sentimentos perturbadores, medo, desespero, impotência e profunda tristeza, quando deu por si estava de joelhos, olhos e rosto inchados de tanto chorar.

Seu corpo tremia tanto que parecia que iria convulsionar. Um dos dentes superiores do fundo de sua boca esfarelou devido a pressão que seu maxilar exercia.

Olhou a sua volta, tentando entender qualquer coisa que sua fragmentada mente pudesse assimilar.

- Ss… Socorro… alguém por favor, me ajude. Eu… eu…

Quando focou nas árvores que o protegeu, viu que estava completamente morta, seca e oca. Diferente do estado que se encontrava a poucos momentos atrás.

Não entendeu absolutamente nada, cria que houvesse ficado louco, ou que havia morrido.

- Eu dormi no volante… eu bati o carro e morri… eu estou no inferno… é… é isso….

Faltavam três unhas na mão direita, que tremia e tremia sem dar sinais de que pararia.
Apalpou o bolso, sacou um cigarro e acendeu. O único momento de prazer que teve nas últimas horas de perseguição. Concluiu então que ainda infelizmente estava vivo e de que todo aquele pesadelo era real, tanto quanto a parte úmida de sua calça jeans que absorvia o sangue que escorria de seu corpo.

Com o a luz do isqueiro identificou o galho que o retalhara, o sangue manchava a árvore, parecia algo de anos passados.

- Vamos lá. - Disse suspirando.
Estava muito cansado e fraco. Mantinha a imagem de sua família na mente, do qual encontraria no final de sua viagem se nada houvesse acontecido.

Caminhava com dificuldade, Deus sabe se lá para onde. Abaixou-se para amarrar o cadarço e foi tomado por uma taquicardia. O ar ficou pesado, era difícil de respirar e se orientar.

A tremedeira o atingiu ainda mais forte.

Ergueu o rosto e se deparou com um espectro, por volta de 1,80 M. Tudo em si era puro negro.
Podia ver apenas os contornos, trajava calças, jaqueta e um boné. Não teria como saber se remetia ao sexo masculino ou feminino. Se é que aquilo era ele ou ela.

Nos contornos do espectro era tudo embaçado, como se alterasse a própria realidade em torno de sua existência, a realidade ali não possuía nenhuma definição.

Encarou bem o seu malfeitor.

Engoliu a seco.

Apagou a bita.

- O que você quer de mim? O que você precisa? Me diga! A curiosidade está me empurrando para a morte muito mais do que todos os meus ferimentos e cansaço.

-…

A presença permanecia imóvel.

Roger com dificuldade ficou de pé, encarando aquele ser de escuridão.

Iria argumentar algo quando seus ouvidos foram tomados por um som equivalente ao chiado de uma antiga televisão que se encontrava fora do ar, sem sintonia.

-….Li… Berdade. - Foi a palavra captada.
- Descanso.

Roger levou ambas as mãos em suas respectivas orelhas e tampou inutilmente seus ouvidos, argumentou:

- Mas como eu posso te ajudar? Sua face se retorcia em desconforto.

O chiado recomeçou:

- Deixe-me… Deixe-me ir!

O homem assentiu afirmativamente com a cabeça.
Na última"balançada" foi arremessado por uma força de impulsão completamente invisível.

Rolou pelo chão de terra, seu cotovelo esquerdo se rompeu com um " Claque" desumano. Trazendo lágrimas instantâneas a seus olhos cor de mel.

A presença se arrastou flutuante até onde ele se encontrava.

De súbito sentiu uma pressão contra seu crânio, esmagando-o no chão.

Foi aí que se lembrou de toda a sua vida, de tudo o que já havia sentindo, principalmente os maus momentos. A visão se tornou turva. Ia perdendo o controle de seus membros.

- Você chegou ao seu destino.- Disse o seu celular, caído a poucos centímetros de sua mão direita.

O alcançou e por sorte o flash da câmera estava ligado.

Direcionou a luz para a fonte de seu tormento.

O maldito chiado aumentou e tornou-se ensurdecedor e agoniante.

A criatura emitia uma vibração estrondosa, as duas obturações de Roger pipocavam tanto que estouraram os dentes que serviam de auxílio. Os danos no viajante já se tornaram incontáveis.

Mesmo com a luz do flash dilacerando o corpo de sombra do caminhoneiro aquilo teve êxito em colocar ambas as mãos no corpo do homem e berrou como um chiado de abelhas ferozes, como a comoção deturpada de uma Colméia possuída:

- LI-BER-DAAAA-DEEEEE!!!! - A voz levantou uma onda de energia que terminou de rasgar a camisa de manga longa de Roger, seus cabelos foram jogados para trás, o supercílio voltou a sangrar.

- RRRRWAAAAAAAH!!!! - Liberou um grito com toda a sua essência, com toda a energia que restava naquele corpo humano.

Caiu então finalmente inconsciente no chão, após tanta resistência, tanta luta e persistência.

*
- Johnny, você precisa encontrar seu irmão.

- Eu sei mãe, eu vou!

*

- Sim senhora delegada, era para o meu irmão ter chego aqui tem no mínimo uns 4 dias, eu não consegui contato algum, sei mais ou menos onde ele estava, ele vinha mesmo, já que vocês não vão, eu vou!

*
Roger (???) Se levantou, já era dia, mas a sua volta era pura escuridão, o isqueiro não emitiu luz alguma ao acender o cigarro que pendia em seus lábios.

Sentia-se sufocado, preso em suas próprias amarras. Conseguiu fazer o trajeto de volta ao seu Opala, que além de perfeitamente inteiro estava totalmente preto opaco. Entrou nele e virou a chave, o motor funcionava, tudo estava ok, ainda melhor inclusive, todos os barulhos e ruídos de um carro de 1977 simplesmente desapareceram.

*
Johnny havia percorrido pouco mais de 200 km, o relógio apontava alguns minutos após as 20h00, seu celular já não possuía mais sinal, estava perdido em tantas bifurcações. Decidiu parar já que a estrada estava tranquila para desdobrar o enorme mapa que levava no banco de trás.

Ao sacar um sanduíche de atum da caixa térmica fora surpreendido por um par de faróis, algo como um carro baixo, talvez um Opala?

Sem explicação um enorme medo tomou conta de seu ser.

- Roger?…



22 comentários:

  1. Respostas
    1. É bem óbvio. O motorista do caminhão é um espírito amaldiçoado, que para obter liberdade precisa matar outro em trânsito, repassando a maldição. Foi o que ele fez com Roger, que provavelmente fará agora com seu irmão

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  2. meodeos
    amo creepys assim
    mt boa essa

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  3. Christine e aquele episódio do caminhão assombrado em Supernatural, huh?
    Deixa ver se entendi, Roger foi amaldiçoado a ficar ali no lugar do espectro, tendo assim que matar outro pra ele mesmo se libertar?
    Curti!

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  4. Pqp q merda, pra q postar uma creepy tão ruim e sem sentido assim? Perca de tempo.

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    1. Ninguém tem culpa se você não entendeu

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    2. Cara...agradece o pessoal se dar ao trabalho de postar algo pra gente. Alguns vão dormir de madrugada, só pra não deixar o pessoal na mão.

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    3. Bom mano, se tu n entendeu problema seu cara a creppyasta é boa pra caramba

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  5. Pra quem não entendeu, pelo que parece Roger virou o fantasmae assumiu o lugar do caminhoneiro

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  6. Uma maldição com um looping infinito... Interessante

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  7. Kkkkk meu nome em uma creepy de novo :p

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