Postagens Semanais

Segunda-Feira
Francis Divina

Terça-Feira
Gabriel Azevedo

Quarta-Feira
Francis Divina

Quinta-Feira
Gabriel Azevedo

Sexta-Feira
Talisson Bruce

Sábado
==========

Domingo
==========

Mimetismo

29 comentários
No começo, quando herdei Claudette, achei que ela ficaria solitária e depressiva. Eu sabia que papagaios eram criaturas sociáveis, mas eu mal dava conta de um, quanto mais comprar outro para lhe fazer companhia. Tia June, quem "generosamente" deu o pássaro para mim depois de descobrir o quão barulhenta e energética podia ser, me assegurou que Claudette era bastante independente e ficaria bem sozinha. 

Claudette e eu tivemos um começo turbulento. Eu ficava intimidada perto de seu bico e garras afiadas e ela demorava a confiar em mais uma pessoa nova. Aparentemente, tivera diversos lares em seus vinte e cinco anos, todos haviam se livrado dela pelos mesmos motivos de Tia June. Foi por isso que a adotei; sentia pena e queria que finalmente tivesse um lar fixo, mesmo que isso fosse dar um pouco de trabalho. 

Tivemos o que pareceu um longo período de ajuste, onde aprendi que ser bicada, apesar de doloroso, podia ser muito pior e logo começou a me reconhecer como a mão que a alimentava. Quando descobri que ficava mais feliz em minha varanda telada, coloquei seu poleiro para lá e dei o espaço livre para ser seu território, o que melhorou nossa relação.

Levou muito tempo, paciência, petiscos, mas, eventualmente, chegou ao ponto de ela voar até mim sempre que eu saia de perto e se empoleirava no meu braço enquanto comia tudo que eu dava. 

Se estava preocupada com ela se sentir sozinha quando eu não estava em casa, essa preocupação se dissipou rapidamente quando percebi que estava se tornando muito amiga dos Tordos-Imitadores que tinham feito ninho em uma árvore atrás do meu apartamento, que ficava no primeiro andar. Eles trocavam pios e assobios uns para os outros durante o dia, algo que irritou alguns dos meus vizinhos, mas nada que alguns biscoitos caseiros e cartões de desculpa não resolvessem. 

Nunca tinha considerado ter um papagaio antes, mas Claudette provou ser uma mocinha muito doce e inteligente, depois que você passa da fase inicial de teimosia, e aprendi que tinha um vasto vocabulário e era excelente em imitação. Também descobri que, no decorrer de alguns meses nas horas que eu estava trabalhando, aparentemente ensinou algumas coisas para os tordos. 

Eu estava sentada na varanda em uma noite, fazendo carinho em Claudet
te antes de ir fazer minha janta, quando ouvi uma voz doce mas muito distinta vindo de algum lugar de cima. 

"Merda!" falou. 

Dei um pulo, por não ter visto ninguém perto ou se aproximando, olhei em volta, mas os arredores do meu apartamento estava quieto e vazio. No eu colo, Claudette começou a balançar a cabeça, as penas se eriçando levemente. 

"Merda!" A voz falou de novo. 

"Merda!" Claudette respondeu. 

Ela e a voz se responderam mais algumas vezes, gritando entusiasticamente uma de suas palavras favoritas, até eu colocá-la para dentro de vergonha para prevenir que seja lá quem fosse que estivesse a incentivando, parasse. Foi só quando vi um dos tordos voando pela frente da varanda algumas vezes, obviamente procurando pro Claudette, que entendi que a voz que vinha ouvindo não era alguém encorajando sua boca-suja; era um dos tordos imitando-a. 

Claudette tinha ensinado os pássaros selvagens a falar palavrão. 

Iria me custar muito mais do que alguns biscoitos caseiros para que meus vizinhos me perdoassem dessa. 

Ao invés de predê-la dentro de casa, tentei encorajá-la a falar palavras mais neutras e assim ensinar para os tordos. 

"Olá!" Falei diversas vezes. 

"Olá!" Claudette falou. 

"Merda!" Os tordos responderam.

Realmente, merda. 

Eu nem sabia que tordos conseguiam "falar", muito menos que podiam aprender palavras novas, então vaguei pela internet e perguntei por aí, tentando conseguir uma solução. 

Eles apenas repetem o que ouvem com frequência, um entusiasta de pássaros falou para mim em u fórum. Vão aprender uma palavra nova logo! Um tordo sempre ficava chamando pelo nome do meu cachorro, até que aprendeu uma canção nova. Boa sorte!

Tudo bem, falei para mim mesma, eu podia esperar por isso. 

No meio tempo, comecei a trabalhar para que Claudette "limpasse" o seu próprio vocabulário e ficava com ela algumas horas por noite repetindo palavras para ela e dando petiscos como prêmio toda vez que acertava. Levou mais algumas semanas e meses, mas os palavrões entraram em declínio e não ouvi mais os tordos imitando-a, então considerei vitória para mim. 

Em uma manhã, quando fui alimentá-la antes de sair para o trabalho, ela balançava a cabeça e dava pulinhos para lá e para cá em seu poleiro, algo normal quando estava entusiasmada, quando percebi que fazia um som estranho, arranhado, como se não conseguisse respirar direito. 

Peguei-a em meu braço e acarinhei sua cabeça e costas. "Você está bem?" Perguntei. 

"Olá!" Falou, e a respiração estranha parou. 

Esperei um pouco, quase o suficiente para me atrasar, mas ela parecia estar bem, então corri para o trabalho. 

Entretanto, na manhã seguinte, aquele som rouco e ríspido estava de volta. Novamente ela veio até mim, abriu as asas e balançou a cabeça, tudo isso enquanto fazia o som de respiração ofegante. 

Lá fora, os tordos respondiam com um estrando som de clique. Não dei muita bola para isso, estava preocupada demais com minha pobre ave. 

Sem conseguir sair sabendo que a deixaria em um constante estado de estresse, liguei para minha chefe avisando que tivera uma emergência familiar e corri com Claudette para o veterinário. Falei quase chorando que estava certa que ela estava com alguma terrível doença e comentei que Claudette estava tendo problemas para respirar e me disseram para esperar na recepção que logo o veterinário iria nos atender. 

Quando entramos, novamente expliquei sobre os sons e ele examinou Claudette. Ela estava em sua gaiola de viagem, quieta, parecendo totalmente de boa que sua vida estava por um fio. 

"Eu juro, ela soava péssima ontem e hoje de manhã." Insisti. 

"As vezes essas coisas vão e vem," Dr. Graham disse gentilmente. "Pode me fazer um favor? Imite o som que ela fazia."

Rapidamente fiz o que e pediu, esperando que fosse parecido o suficiente para que ele entendesse a seriedade da situação, e imediatamente Claudette começou a me imitar. 

Dr. Graham escondeu um sorriso por de trás da mão antes de eu olhá-lo e ficar sério de novo. 

"Ela está bem, Stacey. Parece que, talvez, ela... uh... ouviu você fazendo esse barulho durante suas atividades noturnas. Só estava imitando."

"Que?"

"Acho que ela ouviu você e seu parceiro. Sabe... durante momentos íntimos."

Claudette enfatizou a afirmação dele dando um gemidinho. 

Com minha cara ardendo de vergonha, coloquei a papagaia na gaiola, pedi desculpas em um sussurro e agradeci, basicamente correndo para fora do consultório. 

"Você anda ouvindo os vizinhos," acusei Claudette enquanto ela assobiava disfarçadamente até em casa. "Ou alguém estava ouvindo TV alto demais? Como você aprendeu a fazer esses sons?" 

Certamente não tinha sido de mim, isso eu sabia. Seja lá o que fosse, estava acontecendo fazia tempo para chegar ao estado dela começar a imitar. Eu não podia ir de apartamento em apartamento perguntando para meus vizinhos se estavam fazendo safadezas com a janela aberta, então por enquanto, tinha que só ficar de olho a que tipos de som ela estava exposta. 

Quando a soltei na varanda, ela gritou alguns 'olás' para os tordos, que cantaram em resposta, e depois se ajeitou no poleiro para dar uma cochilada no sol. 

Fiquei sentada com ela na varanda por boa parte do dia, mas não ouvi nada particularmente acusável, e desisti quando o calor começou a ficar demais para mim. Ainda enfiava minha cabeça para fora de vez em quando, mas a única coisa fora do comum que ouvi foi o novo som de clique que os tordos tinham aprendido. Mesmo parecendo familiar, não conseguia lembrar onde tinha ouvido aquilo antes. 

O som de respirar ofegante de Claudette começou a se tornar algo frequente nas nossas manhãs, junto com um gemido ocasional, e as vezes cochichava para si mesma.
"Linda, linda, linda."

Pelo menos era melhor que 'merda'. 

Ela e os tordos continuavam a se comunicar e acabei me acostumando com o clique assim como me acostumara com os xingamentos. Era mais intenso principalmente pela manhã quando Claudette estava fazendo o que comecei a chamar de 'exercícios de respiração'.

-Respiração ofegante-

Click click

-Gemido-

Click click

E assim era até o meio-dia.

Eu só tinha que esperar até que eles ficassem obcecados com outro som e tentar não enlouquecer. 

Mas quanto mais eu ouvia, mais percebia que havia algo sobre os cliques, que ficava cada dia mais refinado e distinto, algo que me incomodava. Eu conhecia o som e, com um pouco mais de tempo, conseguiria definir de onde estavam imitando. 

"Como está Claudette?" Minha irmã perguntou enquanto tomávamos vinho e tínhamos nossa conversa semanal de quinta via telefone. 

Estava sentada na sala de estar de pijamas, que na verdade era mais para uma regatinha e um shorts que era curto demais para ser usado em público, com meu celular em uma mão e a taça de vinho na outra. Tinha deixado a porta de correr da varanda aberta, caso Claudette quisesse vir até a sala me fazer companhia. 

"Ela está bem, ainda fazendo o respirar bizarro."

"Você descobriu quem ensinou isso pra ela?"

"Acho que são os Johnsons; sempre achei que eram mesmo do tipo exibicionistas." 

"Mas eles não são um casal de velhinhos?" Raina perguntou enquanto ria. 

"Sim, mas também gostam de um amorzinho, não é mesmo?!"

Enquanto ríamos, ouvi uma série de cliques vindo da porta aberta. 

"Ei, ei!" Falei. "Os tordos estão fazendo o barulho que te falei. Talvez você consiga ouvir e me dizer que porra é essa!" 

Corri pela sala até a varanda, mas quando cheguei lá, os cliques pararam imediatamente. 

Ao meu lado, Claudette se balançava em sua gaiola, resmungando. 

"Linda, linda, linda." 

A folhagem do outro lado da tela se mexeu suavemente. 

A luz de dentro do apartamento refletia na tela de proteção, tornando difícil minha visão da rua, fiquei parada no mesmo lugar. 

"Não consigo ouvir nada." Raina falou no meu ouvido. "Stacey?"

Ouvi o barulho de folhas novamente.

Claudette começou a fazer o gemido abafado de novo. 

Das árvores, os tordos começaram a fazer os cliques.

Naquele momento eu reconheci o som, enquanto um arrepio descia pela minha espinha. 

"Raina", falei o mais calmamente que consegui. "Acho que tem alguém nos arbustos aqui do lado."

Assim que essas palavras saíram da minha boca, uma silhueta ficou de pé no escuro e começou a dar uma corrida frenética contornando o meu prédio. Aconteceu tão rápido que não vi nada direito, nenhum traço físico, nada significativo, apenas roupas escuras e talvez um chapéu, mas sumiu de vista. 

Raina gritava comigo em pânico se precisava ligar para a polícia enquanto eu estava atordoada demais para responder.

Eu precisei de meses para ensinar Claudette novas palavras, meses para ela decorar novos sons, meses para que ela imitasse perfeitamente. Sem dúvida tinha demorado a mesma quantidade de tempo para que decorasse a respiração pesada e ofegante de alguém para que copiasse os sons tão perfeitamente. 

Meu estomago ficou embrulhado, achei que ima vomitar.  

Ela não tinha aprendido aqueles sons de algum vizinho ou um programa de TV. Tinha aprendido por causa de alguém que se escondia fora do meu apartamento, gemendo como um cachorro enquanto me observava. 

Cambaleei de volta para dentro de casa. 

Por cima do ombro, um dos tordos gritou para a noite.

Click click

A imitação perfeita de uma câmera tirando fotos. 


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião! 

29 comentários :

  1. Então tinha um cara tarado tirando fotos dela e se masturbando no arbusto, sinistro.

    ResponderExcluir
  2. Desculpe, mas achei ela bem lerda. O som de click é muito característico. Não daria pra confundir com rangido. Bastaria um pouco de imaginação para unir os pontos e perceber um cenário bem bizarro.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ela não ouvia o click da câmera, mas sim o dos pássaros. Eles levaram tempo pra aprender e aperfeiçoar o som; não seria reconhecível logo de cara.

      Excluir
  3. Amei ,muito envolvente e sai dos clichês.

    ResponderExcluir
  4. Imaginei que a situação dos clicks fosse algo como isso, só que, como eu tava na espectativa do papagaio ser do capiroto sla, o final acabou me surpreendendo sim dkskdjksns' interessante. Recomendo pra moça além de ter um papagaio seria bom ter um cachorro bem grande, só por precaução qq

    ResponderExcluir
  5. Bem fora do padrão do site, por isso gostei bastante!

    ResponderExcluir
  6. eu pensei q o papagaio ia matar ela, q ele fosse tipo um capetinha, sei lá
    mas esse final pqp me pegou de surpresa
    adorei a creepy <3

    ResponderExcluir
  7. Final me surpreendeu, tinha certeza que o clique era a janela dela sendo aberta

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu tbm pensei isso... que sei lá um cara ia entrar e matar ela!!

      Excluir
  8. Estava esperando pelo evil papagalli from hell hahahaha mas gostei, prova que não precisa ser necessariamente do paranormal aqui pra ser uma boa história

    ResponderExcluir
  9. creepy genial, eu já tava esperando algo sinistro mas não no nível stalker/maníaco sexual, inclusive demorei pra entender que os clicks eram de uma câmera. gostei dms

    ResponderExcluir
  10. É show quando fogem do absurdo, da fantasia e trazem pra nos um medo mais real, mais cru..uma coisa que pode muito bem rolar com qualquer pessoa xD

    ResponderExcluir
  11. A creepy fica bem mais assustadora quando pode ser real

    ResponderExcluir
  12. Nada sobrenatural ou verdadeiramente assustador. História até criativa.

    3/10

    ResponderExcluir
  13. Creepy bem trabalhada, historia envolvente, desfecho realmente surpreendente.10/10.

    ResponderExcluir
  14. Eu tô bem perplecto.
    Uma das melhores até hoje.

    ResponderExcluir
  15. Que creepy maravilhosa .eu amo esse tipo de creepy ♡

    ResponderExcluir
  16. QUE. CALALHO. LOUCO. Meuzeus, eu achei que os tordos fossem virar demôneos ou qualquer coisa assim, mas não pensei que tivesse um tarado pervertido voyeur tirando foto da menina. SIMPLESMENTE TOPERSON!

    ResponderExcluir
  17. Achei a história engraçada, mas o fim nem tanto...

    ResponderExcluir