07/03/2018

As estranhas cartas para meu filho (PARTE 5)

PARTE 1
PARTE 2
PARTE 3
PARTE 4


Existe um certo terror em saber que sua vida está tomando um caminho totalmente diferente daquele que você queria, e que não tem nada que você possa fazer para parar isso. Quatro dias atrás eu podia até dizer que sabia como os próximos dois ou três anos, até cinco anos da minha vida seriam. Bem, não mais. Mesmo que todo dia seja um pesadelo real, é o não saber o dia de amanhã que me apavora tanto. 

Carrie e eu voltamos a nos falar em algum momento de ontem a tarde. Apenas conversas curtas aqui e ali, mas é um começo. Meu coração ainda está despedaçado, mas minha preocupação com seu bem estar está superando meus próprios sentimentos. Ela mal está comendo. E se é possível perder uma quantia significativa de peso em tão poucos dias, ela perdeu. E isso que já é bem magra. Quando olha para mim, quase consigo ler seus pensamentos através de seus olhos inchados: Eu queria poder mudar tudo. Mas não posso. 

Tem outra coisa que eu ando considerando: tem uma grande possibilidade de Carrie ter sido drogada. Me trair com um estranho no carro dele não é algo que a minha Carrie faria. Não está certo. Se a pessoa que deixou aquelas cartas/pegou Andrew é a mesma pessoa que levou Carrie até o rio, a ideia dela ter sido dopada é muito plausível. 

E não consigo parar de pensar que Carrie salvou a própria vida quando bloqueou o numero de "Ray" no seu telefone. Talvez não teria sobrevivido ao segundo encontro. 

Ainda assim, aquela voz idiota e debochada está sempre lá, sussurrando no fundo. Você é tão ingenuo, Dean. Ela te TRAIU. E se o que ela fala FOR verdade, PORQUE ela escondeu de você? Será mesmo vergonha? Ou só não queria que você descobrisse? É difícil ignorar aquela voz, mas estou tentando. 

Detetive Carr passou aqui em casa por volta das quatro da tarde de ontem para interrogar Carrie. Achou que talvez ela fosse mais aberta sobre os detalhes de sua experiência com Ray se eu não estivesse junto, então fiquei sentado na varanda enquanto conversavam, aquela vozinha invejosa gritando dentro da minha cabeça o tempo todo. Quando terminaram, Carrie saiu de casa para fazer uma coisa e Carr e eu conversamos na sala de estar. 

Obviamente, a delegacia tinha recebido dezenas de ligações depois do programa de rádio, que tinha deixado nossa cidadezinha bem louca. Acho que ter dado um nome e uma personalidade para esse psicopata - sendo verdade ou não - realmente tinha deixado todos nervosos. As pessoas estavam denunciando toda e qualquer mínima pessoa "suspeita" que viam, o que deu muito trabalho para Carr e sua equipe. Toda pessoa que usava um capuz, que agia estranhamente, ou que estava em um lugar que normalmente não ia era denunciado. O shopping cancelou as fotos com o coelhinho da páscoa, que aconteceria em breve. Eu havia também recebido uma mensagem de texto do treinador de basebol de Kyle dizendo que os treinos e campeonatos dessa temporada tinham sido cancelados. Temporariamente pelo menos. Ninguém queria ser responsável por outra criança sendo sequestrada. 

Pistas tem que ser investigadas, não importa o quão pequenas, Carr disse. Mas ele sabia que seria muita sorte se qualquer uma delas desse em algo relevante. 

Antes dele ir, perguntei o que estava acontecendo na casa 3. Tinham encontrado algo? Ele disse que a equipe de construção tinha terminado de quebrar o concreto no chão do porão e tiraram tudo para fora até o meio dia. Estava esperando os caras da forense - riu quando falou isso, eram na verdade apenas dois policiais com treinamento especial em coletar evidências - terminarem para começar a cavar. Mesmo que já tivesse se recusado a dividir comigo, coloquei uma pressão sobre a pista que tinha encontrado. Ficou pensando por um tempo, avaliando a possibilidade, então disse que podia me mostrar uma coisa. Pegou seu celular do bolso, procurou entre umas fotos, e depois virou a tela para mim. 

A foto na tela era uma fotografia polaroide em cima de um chão de madeira. A luz estava fraca, então era difícil de ver. Por um segundo, achei ser uma foto de Carrie. O cabelo loiro, amarrado em um rabo de cavalo como o de uma líder de torcida, quase idêntica. Então percebi quem era.

Suzanne Kerrington, Carr falou. Então, quando viu minha expressão, Sim, eu vejo como são parecidas. Quando perguntei se ele achava que isso tudo era por causa de Carrie, ele se encolheu. Não tenho certeza disso, ainda. Se não for, é uma coincidência muito estranha. Achei que ele concordaria em me mostrar o que mais tinha encontrado, mas recusou, olhando para seu relógio. Fiquei tempo demais aqui. Cada minuto é precioso quando se tem uma criança desaparecida. 

Um pouco depois que saiu, recebi uma mensagem de texto. Era de Ryan, um amigo meu. Seu filho jogava basebol junto com Kyle. Eu estava mantendo-o atualizado sobre o que estava acontecendo. Achei que você ia gostar de ver isso, dizia a mensagem. 

Em baixo da mensagem, havia um print screen de uma mensagem que Ryan havia recebido do pai de Andre. Dizia: O que diabos isso aqui quer dizer? E junto tinha uma foto de um bilhete. 


Vou falar curto e grosso,

pra saber que não sou só mais um assassino em série.

Isso pode te fazer arrepiar,

mas se quer saber porque escolhi Andrew matar,

Pergunte para Dean e Carrie. 


Achei que ia vomitar. Quem esse filho da puta achava que era? Não era suficiente tornar nossa vida um inferno - agora ele queria que toda a cidade ficasse contra nós. 

Eu não tinha ideia nenhuma porque ele pegara Andrew! A única coisa que eu sabia - ou ACHAVA que sabia, especialmente depois de ver a foto de Susanne, que era quase idêntica a Carrie - é que isso nunca tinha sido sobre Kyle. Ou Andrew. Parece que o alvo tinha sido Carrie desde o início.

Na verdade, de uma coisa eu estava certo: ele queria destruir nossa reputação na comunidade. Foi por isso que deixou aquele recado para o pai de Andrew. Eu sabia que aquela foto seria muito bem compartilhada, e o meu e o nome de Carrie seriam enfiados na lama. Sem dúvidas. Mas então, aquela voz voltava. Ingênuo. Idiota. O que mais além disso? 

Quando Carrie voltou, mostrei a imagem. 

Eu: Faz ideia do que isso significa? Tem algo que não está me contando? 

Carrie: (olhos arregalados) Não, Dean, juro por Deus. Eu não faço ideia do que isso signifique. (Ela agarrou meu celular e leu de novo) Ele é um doente. É isso. Um doente que está tentando nos destruir. 

Eu: Bem, ele estava falando a verdade na última carta. Porque mentiria nessa?

Carrie: (Ela agarrou meu braço. Foi a primeira vez que me tocou desde a briga.) Eu sei que tenho muito pelo o que pagar. Já entendi isso. Mas por favor, se você m dia confiou em mim - se você tem ainda um pouco de amor por mim, nem que seja um resquício - acredite em mim. Eu não faço ideia do que isso significa. 

Ela ficou me encarando, e naquele momento, acreditei nela. A voz ficou calada. 

Soltei o celular em frustração. 

Eu: O que vamos fazer?

Carrie: Não sei, Dean. Eu só espero que Andrew esteja bem. Você acha que vão encontrá-lo? 

Eu: (Isso me lembrou de algo). Ah, amanhã na igreja, você perguntará para Glenda no escritório se pode ver os registros dos membros da igreja? Suponho que o detetive Carr estará lá, agora que ele falou com você, mas talvez possamos dar um adianto. Quero ver se há um Ray listado lá.

Carrie: Tá. Você vai comigo?

Eu: Acho que não. Não me sinto muito próximo de Deus no momento. 

Ela pareceu se ofender com aquelas palavras, mas ao mesmo tempo que compreendia. 

Hoje de manhã Carrie foi para a Union Street e se encontrou com Glenda antes da catequese. A igreja não tinha registros eletrônicos dos membros, mas Glenda encontrou uma caixa com todos os boletins de associação dos últimos dez anos. Daquele tipo que tem o nome e a foto de cada pessoa. Quando me ligou, as palavras de Carrie estavam pingando em desapontamento. Não conseguia encontrar ninguém chamado Ray ou Raymond. Pediu para Glenda fazer uma cópia de todos para o detetive e que voltaria mais tarde para buscá-los. 

Enquanto Carrie estava na igreja, recebi uma ligação de Ryan. Aparentemente, muitos pais estavam chateados que toda a temporada de basebol tinha sido cancelada. Eu conheço alguns desses caras, e você também deve conhecer o estilo. Eles dirigem grandes caminhonetes e portam armas, acham que podem proteger seus filhos muito bem para que o campeonato continue. Eu meio que concordo, no fundo, mas também entendo que é melhor ter cautela. Afinal de contar, Andrew tinha sido sequestrado bem debaixo do nariz de seu pai. 

Ryan não é tão ruim quanto algum deles, mas também concorda que o psicopata não faria nada em um lugar cheio de gente. 

Então, aparentemente teriam um "treino" hoje às 13h. Só para reunir as crianças e fazê-las acreditar que estavam realmente competindo. Toda aquela coisa, uniforme completo, placar, juiz, etc. O problema era que, nenhum dos pais estava conseguindo entrar em contato com o juiz. Vários tentaram mandar mensagem e ligar, mas não obtiveram respostas. Foi por isso que Ryan ligou. Para reclamar do juiz. 

A ligação cortou, mas jurei que Ryan tinha dito que Ray sempre estava lá quando precisavam dele. Ele adorava os jogos. Ele sempre está lá. 

Eu: Pera aí. Fale de novo. 

Ryan: Falei que Jay sempre está lá. Mas não está respondendo o telefone. 

Eu: Caralho, você quase fez eu ter um ataque cardíaco. Jay quem? Eu conheço ele?

Ryan: Jayson Fisher. Ele é o juiz faz um tempinho. 

Eu: Pai de quem?

Ryan: Ele não tem filhos. Só gosta de basebol, acho. 

Quando ele falou isso, algo apitou na minha mente. Um alarme. 

Eu: Quantos anos esse Jay tem? 

Ryan: Hm, sei lá, tipo a gente. Uns quarenta. 

Meu coração começou a disparar. 

Eu: E você não consegue falar com ele faz alguns dias? Sabe o motivo?

Ryan: Não, como eu disse, geralmente ele responde. É ele que manda outros juizes quando não pode vir. Acho que vou ter que conseguir o telefone de outro cara. 

Eu: Continue tentando falar com ele, Ryan. E ouça bem: se falar com ele, me avisa? 

Ryan: Claro, porque? 

Eu: Sei lá, talvez eu leve Kyle no jogo. 

Ryan: Mesmo? Achei que tinha dito que... 

Eu: Só me avise, pode ser?

Ryan: Farei.

Eu: Tenho que ir. Falo com você mais tarde. 

Minhas mãos suavam enquanto eu digitava uma mensagem para Carrie. Emergência. Me liga o mais rápido possível. 

Dois minutos depois, Carrie ligou, hiperventilando. 

Carrie: O que houve? O que aconteceu?!

Eu: Nada. Tudo está bem. Desculpa se te assustei. (Ela suspirou aliviada) Preciso que você faça algo pra mim. Agora. Você pode voltar no escritório da igreja? Quero que procure outro nome. Ficarei na linha. ish

Carrie: Outro nome? Tá, pera aí. (Pude ouvir ela andando apressadamente pela igreja até o escritório). Tá, tô aqui. As cópias que Glenda tirou estão em cima da escrivaninha. 

Eu: Carrie, procure por Jayson Fisher. Comece com os mais antigos. 2007?

Carrie: Sim, 2007. Jayson Fisher? Tá, deixa eu ver. 

Esperei. Ela respirava pesadamente e podia ouví-la mexendo nos papeis. 

Então ela arfou. Quando falou de novo, sua voz estava diferente. Parecia um animal assustado. 

Carrie: Meu Deus, Dean. Meu Deus do céu. 

Eu: O que?

Carrie: É ele, Dean. É ele! É Ray! Ray é Jay! 

Eu: Tem certeza?

Carrie: Sim, tenho certeza. Não me lembro muito, mas nunca esquecerei esses olhos. 

Eu: Ele é o juiz do basebol de Kyle, Carrie. Ele que pegou Andrew! Tenho certeza. 

Carrie: Não! Meu Deus! Eu perdi o primeiro jogo de Kyle, mas estava lá no segundo. Como não reconheci? 

Eu: Não sei. Mas eu realmente falei com ele! Durante o primeiro jogo de Kyle, ele bateu no chão para a curta parada e o árbitro o chamou no início, quando ele estava claramente seguro. Foi um erro. Todos falaram. E eu falei. Deus. Foi por isso que ele disse que eu era "bobão"! 

Carrie: Não é sua culpa, Dean...

Eu: Preciso ligar para Carr. Tchau. 

Desliguei antes que ela pudesse responder, então liguei para Carr. Enquanto chamava, pensei: Aguente firme, Andrew. Só mais um pouco. 


DIA 14/03/2018: As estranhas cartas para o meu filho (FINAL)



FONTE

17 comentários:

  1. Uau , tá sendo a melhor série que eu li até agr

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  2. Ti ficando puto com a carrie namoral zzz

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  3. Haaaaaaa eu vou ficar louco de tanto esperar...

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  4. Chega logo 14/03...tô ansiosa. Essa creppy tá boa demais.

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  5. Caralho, será que o Kyle é filho do Jay?(tipo ele pode ter estuprado a Carrie já que ela estava bêbada e possivelmente drogada) E ele resolveu fazer esse jogo todo por ser psicopata e ter ficado puto pq o Dean tretou com ele por causa do erro dele no jogo? Caralho que ansiedade/curiosidade!!

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  6. posta a serie toda logooooooooooooooooooooo

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Amo essas séries sobre psicopatas e pessoas insanas

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