28/03/2018

Conheci um demônio no metrô de Tokyo

Essa história é sobre algo que aconteceu comigo quando eu tinha sete anos de idade. Enquanto os anos foram passando e eu crescendo, comecei a perceber que essa história não pode ser real, mas não consigo parar de ter a sensação de que de fato é.

Aconteceu em Tokyo, no metrô. Eu estava junto de meu pai quando vi um demônio, uma criatura monstruosamente alta e peluda com asas de couro e um focinho como de um tatu-bandeira. Eu devo ter ficado o encarando por mais de dez minutos quando finalmente falou, em um sussurro suave que ficou claro que não era para eu ouvir. 

"Esse humano tá me dando arrepios," disse. "Parece que tá olhando pra mim."

"Eu estou olhando pra você," falei. 

O demônio quase caiu para trás. "Você consegue me ver?" me perguntou.

"Sim. Os outros não conseguem?" 

"Não, a não ser que estejam na quinta dimensão."

"Eu estou na quinta dimensão?" perguntei. 

"Sua mente deve ter escorregado para cá sem querer. No que você estava pensando antes de me ver?" 

Pensei por um momento, então sorri.

"Trens."

"Ah, bem, trens são o que conectam uma dimensão na outra. Acho que sua mente deve ter vagado para cá. Isso, ou você está ficando louco."

"Tomara que eu não esteja ficando louco," falei. 

"Ser louco é uma coisa boa na quinta dimensão," ele me respondeu. 

Eu ri. 

"Vocês tem linhas de metrô na quinta dimensão?" perguntei. 

"Claro," falou. "Como eu iria trabalhar?" 

"Você tem asas!"

"Sim, mas quem gosta de voar? Pegar o metrô é bem mais rápido, e se você voar até o trabalho vai estar todo suado quando chegar."

"Então você usa as asas pra que?" perguntei. 

"Eu as coloco em cima da cabeça quando chove."

"Posso ver?"

"Claro," o demônio disse. Meu cabelo voou para trás quando ele bateu as enormes asas para cima da cabeça. 

Ri de novo. 

"Você é engraçado," falei. 

O demônio também riu, mas sua expressão mudou. 

"Você está bem?" perguntei. "Parece triste."

"Sim, sim." respondeu, sem olhar para mim, mas para algo atrás de mim. "Diga-me, gostaria de ver um truque de mágica?" 

"Tá bom."

O demônio levantou a mão e começou a puxar um lenço multicolorido de seu focinho. Puxou uns dois metros antes de parar. 

"Isso é hilário." Eu ri, mas parei quando percebi que não estava mais segurando a mão de meu pai. 

Olhei em volta e vi que a estação tinha sumido, substituída por campinas verdes cheias de trens velhos. 

"Não consigo mais ver a estação," falei. 

"Tá tudo bem," o demônio falou. "As vezes é melhor ver o que não está lá do que de fato está."

"Como assim?" 

"As vezes quando estou entediado ou triste, minha mente vai para a terceira dimensão, e eu vejo pessoas como você."

"Que engraçado," ri. "Você também consegue ir para as outras dimensões?"

Mas o demônio não respondeu, estava olhando para o céu. 

"Está começando a chover," falou, colocando as asas para cima da cabeça. 

Gotas quentes de chuva molharam meu rosto. 

"Posso ficar de baixo das suas asas também?" perguntei. 

"Agora não, sinto muito," respondeu. "Você tem que voltar para casa.

O mundo começou a brilhar e fluir como diferentes tons de tinta verde e dourada, girando em círculos. Comecei a me sentir um pouco enjoado e fechei os olhos. O mundo parou de girar, mas gotas de água quente ainda estavam caindo no meu rosto. 

Abri meus olhos e vi minha mãe chorando em cima de mim, mas não vi meu pai. 

"Cadê meu pai?" perguntei para ela. "Ele me trouxe para casa?"

"Sim, querido," falou, mas não parecia olhar para mim enquanto falava. "Ele te trouxe para casa e teve de ir embora de novo."

"Ah," respondi. "Quando ele volta?"

"Eu não sei," ela disse. 

Meu pai nunca voltou, e só anos depois descobri a verdade: ele se matou naquele dia. Naquela manhã ele tinha escrito um bilhete para minha mãe explicando que pretendia se jogar na frente de um trem junto comigo. Minha mãe descobriu quando chegou em casa do trabalho e ligou para a polícia, mas era tarde demais para parar meu pai. Testemunhas disseram que segundos antes dele pular, eu soltei sua mão e corri, desmaiando logo em seguida. Mas outra testemunha, um menino da minha idade, disse que viu algo me pegar pela mão e me tirar de perto do trem. 

Disse que era uma criatura monstruosa e peluda, com asas de couro e um focinho de tatu-bandeira. 



36 comentários:

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    1. Não foi pra dar medo, mas sim para refletir

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  2. Gosto desse esquema de seres sobrenaturais terem um cotidiano

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  3. Ownt só eu achei essa creepy fofa? ksks E triste tbm, claro :/

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  4. Divina arrasando como sempre *-*

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  5. que creepy foda, entrou pras preferidas.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Se todo "demônio" fosse assim haha.

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  8. Acho que o focinho dele é de tamanduá...
    Creepy top! Show mesmo!

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  9. Thanks for the interesting information and let me keep up the track.






    Gclub

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  10. Quando li que o pai dele nunca mais pensou, pensei: ele deve ter ido comprar cigarros

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  11. Não existe tatu-bandeira. Existe, tatu-peba, tatu,galinha, tatu canastra...mas tatu-bandeira não. Agora, tamanduá-bandeira sim. Fira esse equívoco de tradução, gostei muito da creppy, a criança usou de toda uma construção ilusória, para bloquear em sua mente, a visão horrível do pai sendo atropelado por um trem, e o fato de não apenas ele próprio se jogou para a morte, como tentou levá-lo junto. Parabéns divina, uma tradução digna de você.

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  12. Não existe tatu-bandeira. Existe, tatu-peba, tatu,galinha, tatu canastra...mas tatu-bandeira não. Agora, tamanduá-bandeira sim. Fira esse equívoco de tradução, gostei muito da creppy, a criança usou de toda uma construção ilusória, para bloquear em sua mente, a visão horrível do pai sendo atropelado por um trem, e o fato de não apenas ele próprio se jogou para a morte, como tentou levá-lo junto. Parabéns divina, uma tradução digna de você.

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  13. Já passou o tempo que as creeps davam medo

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    1. Você não tem medo mais, ou as creepys que não dão medo mais? E que creepy te dava medo?

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    2. As únicas creepys que me deram medo foram godzilla NES, homem torto e Rake. To a espera de outra que me dê medo

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    3. Qual é essa creepy do homem torto ? Tem aq ?

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  14. Tá mais pra anjo esse "demônio", e realmente concordo com a Senhora do Destino: tudo isso não passou de uma ilusão da mente infante pra bloquear uma lembrança traumática.

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    1. mas a outra criança testemunha viu a mesma coisa. seria dificil eles imaginarem igual... e crianças podem ver coisas que não vemos

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  15. Que creepy mais fofa... E triste também, adorei

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  16. Se alguém gosta de conteúdo aleatório, que clique (ou copie) neste link: https://tugagamez.blogspot.pt/

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  17. Engraçado, lembrei de uma creepy antiga de um metrô no Japão, de um rapaz/moça ia parar numa estação que não conhecia e com o resto de bateria no celular descrevia o que estava acontecendo num fórum (tipo 4chan). Daí tinha os comentários do pessoal que tava tentando ajudar ele pelo fórum também, deu até saudade dessa creepy. Naqueles tempos eu tinha mais medo e me interessava mais...

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  18. Só eu pensei no Ryuki de Dath Note quando leu as descrições d0 demônio?

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  19. Cara, que fofinho, ele salvou o menino

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  20. Lucifelson amoroso <3 Selo Toperson Kawaii

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  21. Eu achei simplesmente lindo♡ um demônio salvando um menino. Quem sabe ele fosse um anjo só que com uma aparência que ngm espera.♡ amei

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    1. A idéia de demônio (youkai) na cultura japonesa é de um monstro com grande poder, não um anjo que se virou contra Deus. Por isso ele é "demoniacamente feio", mais é bom.

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  22. Achei tão lindo oq ele fez, q creepy maravilhosa sz

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  23. Meu Deus, que creepy senhor... 10/10, incrivel!!

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